sábado, 30 de dezembro de 2017

Autobiografia na Música / Atualizações - Kim Kehl & Os Kurandeiros - Capítulo 79 - Por Luiz Domingues

Uma boa nova logo no início de dezembro de 2017 : já estava encomendada na fábrica a segunda edição do EP "Seja Feliz", lançado no ano anterior e que esgotara-se. Em tempos onde o conceito do "disco", sob em que plataforma física fosse, restringiu-se meramente a pequenas tiragens destinadas a um pequenino nicho formado por colecionadores, era para comemorar-se bastante ter um edição esgotada e a motivar uma segunda, tão rapidamente.


E por falar em sucesso, a temporada que realizamos no Santa Sede Rock Bar no mês anterior, a ocupar cinco quintas, foi tão boa que motivou o convite para um show extra. Ótimo, também acostumamo-nos com a dinâmica e esticar mais uma edição foi um prazer para nós. E lá estávamos nós na simpática casa hippie / Rocker da zona norte de São Paulo, na noite de 7 de dezembro de 2017.
"No Santa Sede Rock Bar, a inspiração vem das paredes"... essa foi a legenda que usei para espalhar essa foto acima, nas redes sociais. Uma clara alusão ao fato de haver muitas capas de discos importantes na história do Rock, coladas pelas paredes do estabelecimento, como decoração. Os Kurandeiros no Santa Sede Rock Bar, de São Paulo, em 7 de dezembro de 2017. Click : Luiz Domingues
 
Essa prorrogação da mini temporada de novembro, agraciada com uma apresentação extra no início de dezembro, foi a confirmação de que fora mesmo um sucesso. Em se considerando os tempos difíceis em que vivíamos nessa segunda década de novo século, é óbvio que era algo a ser comemorado, visto que tal dinâmica de um evento ter aumento de público, de forma progressiva, era um tipo de dispositivo perdido no tempo, certamente, e em plena era de ultra tecnologia imediatista digital, e ao mesmo tempo sob total dispersão das pessoas, foi algo que chamou-me a atenção, positivamente. Sobre a apresentação, foi ótima, com longa duração, onde tocamos muitos temas autorais e clássicos igualmente, e melhor ainda, empolgando as pessoas, com momentos de euforia, incluso.
"Rock'n Roll" (Led Zeppelin), no Santa Sede Rock Bar de São Paulo, em 7 de dezembro de 2017. 

Eis o Link para assistir no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=p6cMl0JAdIc

Dado o sucesso de mais uma apresentação nessa simpática casa, outra data foi marcada para o mês de dezembro, mas outro convite também surgiu-nos e foi aceito, configurando mais um show de choque a ser realizado ao ar livre, numa praça pública. Em mais uma realização do Centro Cultural da Pompeia, outra vez fomos convidados a participar de um evento, desta feita num quadrante inteiramente inédito daquele bairro, onde jamais havia sido feita uma feira dessa natureza.
Pois então, lá fomos nós participar do 1º Festival de Artes do Beco da Vila Pompeia, localizado na Rua Pedro Lopes, uma travessa da Avenida Pompeia, na altura de seu último declive, no sentido da Estação Vila Madalena do metrô. Para quem não conhece São Paulo, é bom esclarecer que tal avenida tem a característica de parecer um autêntico tobogã, com vários patamares em sua parte mais alta. Pois nessa tímida travessa onde tantas vezes passei desde a tenra infância, eu não sabia, mas ali culmina-se numa praça e ali realizou-se a feira. Com uma boa quantidade de barracas a oferecer produtos de artesanato, fora comidas & bebidas, mostrou-se em minha avaliação um pouco maior do que a Feira da Lapa, da qual participamos pouco tempo antes e igualmente produzida pelo mesmo pessoal.
Os Kurandeiros em ação no 1º Festival de Artes do Beco da Vila Pompeia, em São Paulo, no dia 17 de dezembro de 2017. Click, acervo e cortesia de Anderson Affonso    

Muitas bandas apresentaram-se desde as 10 horas da manhã e nós estávamos escalados para atuar às 19 horas. Quando chegamos, o "Fórmula Rock" estava iniciando a sua apresentação, e o sol era abrasador na tarde quente de um quase verão, em pleno 17 de dezembro. Ficamos numa providencial sombra a apreciar a boa performance dessa banda formada por amigos e vendo o quanto estavam sofrendo com o sol e a sensação de calor ainda maior no palco fechado por lonas. Enfim, sua simpática vocalista, Simone Bressan, por várias vezes foi hidratar-se ali atrás e en passant comentou conosco que estava absolutamente infernal atuar ali pela alta temperatura. Destaco a extrema entrega da banda em sua performance, pois imprimiu um ritmo forte de mise-en-scené, como se o calor não a incomodasse, mas muito pelo contrário, estava a castigar violentamente seus componentes. Assim que encerrou seu set, os integrantes desceram do palco inteiramente ensopados, literalmente e muito marcados nos respectivos rostos e braços, principalmente pela intensa queimadura promovida pelo Sol. Simone Bressan, contou-me que havia prevenido-se com o uso de filtro solar de alta intensidade, mas nem assim evitara uma queimadura. E o guitarrista, Marcelo Frisoni, parecia ter saído de uma piscina com roupa e tudo, fora a impressionante coloração avermelhada que ostentava. Percebemos que também sofreríamos naquele palco, mas não a esse ponto, visto que em nosso horário previsto para atuar, haveria de estar ocorrendo o por do sol. Veio o "Pompeia 72", a seguir, e a temperatura estava um pouco melhor, mas ainda sufocante para fazer-se um show de Rock. Ao contrário da banda anterior que tocou muitos covers do Rock internacional setentista, mas apresentou ao menos duas composições próprias (e boas, por sinal), a turma de Gegê Guimarães & Cia., foi só com covers, a apresentar Hard-Rock britânico e setentista em predominância. Chamou-me a atenção a atuação espetacular do baterista, Henrique Iafelice, que sabidamente tem uma técnica fenomenal e muito lembra-me o estilo do Zé Luiz Dinola, mesmo porque, quando eu atuava na Chave do Sol nos anos oitenta na companhia de Dinola, Henrique atuava numa banda contemporânea e muito significativa na mesma ocasião, o "Zângoba", que coincidentemente também era influenciada pelo Jazz-Rock dos anos setenta, como nós da Chave do Sol. Não obstante ser um grande baterista, Henrique é de uma humildade impressionante, o que torna-o um Ser humano especial, sem dúvida alguma. Pois tive o prazer de ver grande parte da performance do "Pompeia 72", vendo a atuação do Henrique bem de perto e apreciei muito admirar a sua técnica refinada.
Kim Kehl no destaque, com Carlinhos Machado ao fundo. Os Kurandeiros no 1º Festival de Artes do Beco da Vila Pompeia, em São Paulo, no dia 17 de dezembro de 2017. Click, acervo e cortesia de Marcos Kishi    

Já havia caído o sol quando entramos, mas ainda estava claro, naquele lusco fusco de fim de tarde / início de noite. Tocamos um set autoral inteiramente, a não ser pela inclusão de uma música do Raul Seixas ("Rock das Aranhas") e outra do Made in Brazil ("A Minha Vida é o Rock'n Roll"), mas no caso da canção do Made, pode-se dizer que tem relação com nossa árvore genealógica, visto que essa música é do tempo em que o Kim fez parte daquela banda, portanto, tem um elo emocional com Os Kurandeiros.
Kim Kehl em ação ! Os Kurandeiros no 1º Festival de Artes do Beco da Vila Pompeia, em São Paulo, no dia 17 de dezembro de 2017. Click, acervo e cortesia de Marcos Kishi    

E a resposta do público foi excelente, com muita gente a dançar muito durante o nosso set, cantando e aplaudindo, fora a responder prontamente as brincadeiras sempre espirituosas do Kim, em sua performance. Já estava escuro e como não estava prevista a apresentação noturna, não havia equipamento de luz. Os técnicos terceirizados do PA, improvisaram alguns spots de luz de serviço para não ficarmos apenas com o fraco apoio da iluminação pública e assim, encerramos com pedido de bis, mas devido às circunstâncias, não dava mesmo para prolongar além do que propusemo-nos a fazer enquanto apresentação sob duração um pouco além do padrão do clássico "show de choque". Missão cumprida no "beco" da Pompeia, em 17 de dezembro, perante cerca de 300 pessoas, aproximadamente.
Confraternização final após o nosso ótimo show no Beco da Vila Pompeia. Da esquerda para a direita : Luiz Domingues; Kim Kehl; Carlinhos Machado e os organizadores do evento, Gegê Guimarães (guitarrista do Pompeia 72) e Marcelo Frisoni (guitarrista do Fórmula Rock). Os Kurandeiros no 1º Festival de Artes do Beco da Vila Pompeia, em São Paulo, no dia 17 de dezembro de 2017. Click, acervo e cortesia de Marcos Kishi 

Acima, um compacto da apresentação dos Kurandeiros no 1º Festival de Artes do Beco da Vila Pompeia em São Paulo, no dia 17 de dezembro de 2017.

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=ObLon4L6_ow   

Acima, um trecho de solo de Kim Kehl, capturado ao vivo no 1º Festival de Artes do Beco da Pompeia em São Paulo. 17 de dezembro de 2017

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=Nvi8V27FgeI   

O ano de 2017, estava a encerrar-se, mas Os Kurandeiros ainda teriam compromissos a cumprir...

Continua... 

Os Kurandeiros - 30/12/2017 - Sábado / 21 Hs. - Tchê Café - Vila Santa Catarina - São Paulo / SP



Os Kurandeiros

Último show do ano ! Feliz 2018 !

30 de dezembro de 2017 – Sábado – 21 Horas

Tchê Café
Avenida Washington Luiz, 5628
Vila Santa Catarina
500 metros do Aeroporto de Congonhas
São Paulo – SP



Os Kurandeiros :
Kim Kehl : Guitarra e Voz
Carlinhos Machado : Bateria e Voz
Luiz Domingues : Baixo

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Por Trás da Canção - Por Marcelino Rodriguez

Quem conhece o Leblon, sabe que quando o mar está agitado, as ondas batem com força, fazendo um barulho que parece dividir o tempo do agora com o tempo mitológico. Como se Deuses e sereias nos estivessem chamando da areia.


Cheguei ao Rio tem poucas horas. Após resolver algumas questões, estou indo conhecer pessoalmente meu parceiro Roberto Lempé, para tratarmos da divulgação da nossa música “Paixão”, que parece que já nasceu um Hit. O Parceiro foi um dos integrantes dos Secos e Molhados, um dos conjuntos mais originais da música popular brasileira nos anos setenta, oitenta.

Roberto me disse que meu poema o emocionou, daí resolveu fazer a canção. Fico encabulado pensando que ele vai me perguntar a história de como é isso de “dividirei contigo o ar, senhora”. E mais ainda, me perguntar sobre a senhora.
“ Sabe, parceiro, a senhora disse que estava deprimida. Então, eu quis cuidar dela. Infelizmente, acho que ela prefere morrer queimada a me visitar, e não sente nenhuma vontade de conversar com o poeta que lhe escreveu uns trinta poemas – poeta esse , além do mais, que poderia levá-la à ilha dos anjos. Infelizmente, a senhora da canção não liga pra mim, simplesmente não se importa. Quem sabe não é assim parte da vida e da arte, feita de amores insatisfeitos e senhoras frias" ? 



As ondas do Leblon batem mais forte. O ar frio corta o início da noite. As ondas também, como a canção, parecem dizer “eu não te deixaria só, jamais”. Só que dizem para mim, que atravesso sozinho a rua, com o coração puro e magoado, como a lua minguante que parece com preguiça de brilhar de vez. E as ondas continuam batendo, batendo, eu não te deixaria só: jamais. Eu e o mar somos um.

Marcelino Rodriguez é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Escritor com vasta e consagrada obra, aqui nos traz uma crônica do cotidiano, mas versando pela questão da emoção que a poesia e a música, trabalhando em parceria, podem gerar.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Os Kurandeiros - 21/12/2017 - Domingo / 20:30 Hs. - Santa Sede Rock Bar - Tucuruvi - São Paulo / SP



Os Kurandeiros

21 de dezembro de 2017 - Quinta-Feira - 20 Horas

Festival do Chopp Artesanal / Entrada Gratuita

Santa Sede Rock Bar    
Av. Luiz Dumont Villares, 2104 - 200 metros da Estação Parada Inglesa do Metrô - Tucuruvi - São Paulo / SP

Os Kurandeiros :        
Kim Kehl : Guitarra e Voz
Carlinhos Machado : Bateria e Voz
Luiz Domingues : Baixo

domingo, 17 de dezembro de 2017

O Torpor Inicial - Por Luiz Domingues


Os primeiros tempos são difíceis para todos, não há outra possibilidade dentro dos limites humanos. Numa primeira análise, o fato de que o pequeno Ser humano é completamente frágil e dependente dos adultos que cercam-no, para absolutamente todo tipo de suporte mínimo a suprir suas necessidades mais prementes, parece ser o mais incômodo dos problemas que o novo "serzinho" tem nos seus primeiros dias, contudo, pode não ser apenas isso.

O torpor mental que segue as primeiras semanas é algo bastante perturbador e mesmo sendo uma fase da vida onde raramente um ser humano na vida adulta consiga lembrar-se claramente, ainda sim, tal sensação de absoluta estada numa espécie de limbo mental, onde nada faz sentido, é o que mais aproxima-nos da condição animal de não-raciocínio. Para nossa sorte, isso passa e o poder de estabelecer associações mediante a lógica, vai clareando a nossa percepção da vida e tudo que nela insere-se, mas é bastante assustador esse período inicial onde não temos raciocínio, mas apenas sensações e instintos, motivados por necessidades fisiológicas das quais não conseguimos ter a mínima compreensão.



Dizem os psicólogos infantis que nessa fase inicial, o estímulo cognitivo provocado pelos adultos responsáveis pelos nossos cuidados básicos, é mais que uma forma de aculturação preliminar, mas na verdade, faz-se fundamental para que o bebê inicie o seu aprendizado básico do básico para chegar ao ponto crucial onde consiga sentir-se como um ser vivo em meio a seres inteligentes e que teoricamente esmeram-se para que alcancemos o mesmo grau de sofisticação educacional. É o começo de uma longa jornada, se analisada depois que crescemos e tendemos a avaliar friamente a situação, quando passamos a agir exatamente como os adultos agiram quando nós passamos por essa fase, em relação aos novos bebês que chegam, ou seja, contribuímos para a perpetuação do padrão cultural e mais que isso, enxergamos a experiência pelo viés da razão, e nada há de assustador no processo de um recém nascido que em pouco meses já começa a entender a tudo e a todos, interagir e estabelecer suas associações baseadas na lógica cartesiana. 

Todavia, para o bebê, essa fase inicial oferece uma noção de tempo interminável e sob esse torpor sem capacidade de raciocínio minimamente desenvolvido, é incômodo, parecendo um sonho confuso, onde nada consegue fazer sentido. É como mergulhar num abismo, mas sem ao menos ter a noção do que possa representar o desconhecido, contudo, simplesmente um vagar a esmo. Do nada para o nada, ou seja, creio que é uma sensação semelhante à da morte (não estou afirmando, apenas conjecturando), propriamente dita, onde o “nada” prevalece, mas sem consciência alguma, "não ser nada" não é assustador, mas apenas confuso. Bem, lembrando-me dessa estranha fase da vida, mas agora racionando como ser humano adulto, ainda bem que passou até que relativamente rápido, pois é deveras angustiante a experiência...