sábado, 25 de junho de 2016

Aprendendo com o Aluno - Por Marcelino Rodriguez



Um aluno meu surpreendeu-me outro dia perguntando como testo as pessoas. Olhei para ele surpreso, como se tivesse vendo uma nova possibilidade de interagir com os outros daqui por diante, posto que nunca testei, propriamente, ninguém. Num primeiro momento, confio em todo mundo. Claro que a experiência e o conhecimento nos tornam mais céticos. 

Pessoas inteligentes e cultas sabem que os egos humanos em geral só pensam em seus próprios interesses mesquinhos e são poucos que se desenvolvem mentalmente e sentimentalmente o suficiente para enxergar os outros; por isso, os iniciados se preservam e são extremamente seletivos. 
Bruxos não se misturam com trouxas facilmente, já disse a autora de Harry Potter. 

Todavia, a experiência mostra que devemos confiar nas pessoas completamente apenas após a primeira noite, o primeiro negócio, a primeira briga. Os sedutores de todo tipo quando chegam em nossas vidas se mostram atenciosos, parceiros, encantadores, eróticos, generosos, honestos, gentis e amáveis.  Isso é sempre o mesmo modus operandi: lobos com peles de cordeiros.
Eu sempre dei um voto de confiança aos outros, sem testar nada nem ninguém, sempre joguei na vida de peito aberto, mas seria interessante talvez pensar em esperar sempre o dia seguinte ao baile para confiar de verdade nas pessoas, e rezar para a providência nos proteger de todos os tipos de predadores, sobretudo os sentimentais, que são os piores, porque simulam gostar da gente e depois que nos conquistam pedem para que os esperemos enquanto eles vão ali dar mais uma voltinha e seduzir outros inocentes. 

E ai de você se exigir lealdade, responsabilidade, cuidado. 
Eles tiram o seu melhor sempre, mas entregam o que possuem de pior e assim: onde você pensou haver um caráter, não havia nada. 




Marcelino Rodriguez é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos traz uma crônica falando sobre a questão da confiança, nas relações humanas em geral.

domingo, 19 de junho de 2016

Caminhos - Por Tereza Abranches


Quero ir sem precisar voltar, pois que há tempos germina em mim o cheiro bom da terra molhada, o gosto na boca do verde sem fim, onde a alma em floresta se alimenta de musgo. 


Quero ir, seguir, leve como pássaro que deixa o ninho, como grito que se liberta, ecoa longe e me chama, e eu ouço o seu chamar a cada sol que nasce e, à noite, quando chega a lua.

Quero ir sem olhar pra trás, apenas indo, indo, absorvendo marés, o orvalho dos prados, neblinas onde eu possa me perder, oculta do mundo, mergulhando profundamente dentro de mim.


Quero me perder na relva doce e calma e brotar do chão, criatura recém criada, inundada de céu, onde o silêncio ensurdecedor reine e, na esperança de redenção, mergulhar nos confins do meu ser.

Quero ir depositando com carinho, no chão mágico da minha estrada, as lágrimas que eu nunca tive coragem de chorar, palavras que ficaram presas e eu nunca disse. 


Quero olhar frente a frente a Vida, sem medo do obscuro que vive em mim e, transmutando minhas imperfeições numa luta serena e tranquila, quero expurgar minha escuridão, partir minhas correntes e cadeias e sorrir em paz diante da minha pequenez perante o Infinito.

Quero chegar ao fundo de mim, me confrontar e, de alma nua, olhar dentro dos meus próprios olhos e lutar, de mansinho, até não restar lugar pro orgulho, pro mesquinho e pra tudo o que é negativo e que dessa batalha resulte amor, paz, fraternidade, beleza, abraço quente que consola, e que a música que preenche o Universo, preencha também a fluidez da minha alma.


Que nessa caminhada, o que há de mais sublime possa me tocar e ficar comigo, penetrar meus poros e veias, me ensinar a bondade e a tolerância, o amor que nada pede em troca e apenas se doa, simples e límpido.

Eu quero um caminho sem volta. 


Seguir em frente, deixar pra trás incompreensões, tristezas, mágoas e seguir, de peito aberto, em direção ao perdão mais impossível, à compreensão mais incompreensível, fazendo brotar amor do solo árido, áspero e completamente inatingível.


Quero me perder dentro desse caminho e ir... sem precisar voltar.





Tereza Abranches é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Escritora e artesã, desenvolve também estudos sobre literatura e espiritualidade.


Nesta crônica, nos fala sobre os caminhos que todo ser humano deve percorrer no mergulho interior de sua trajetória, buscando não só as respostas, mas sobretudo os acertos em sua trajetória.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Sabores e Odores que Vinham da Cozinha - Por Luiz Domingues



Houve época em que a livre associação de ideias tratou de dar significado e significância aos sinais captados pelos sentidos do paladar e do olfato, em questões relacionadas a tudo o que se fizesse na cozinha.

Nada mais natural que isso ocorresse assim que a fase inicial circunscrita ao berço (e nessa prerrogativa incluía-se a alimentação fechada no leite materno), mudara-se numa questão de poucas semanas.
Com tal mudança, que é bastante radical quando se tem pouquíssimos meses de vida, além da amplitude que seria exercida de uma forma absurda para o novo “serzinho” que mal começou a buscar a compreensão de si mesmo, tinha a mudança de cenário, com a vida sendo doravante vivida também num ambiente de serviços dentro de uma residência.

Logo percebi que o frenesi dos adultos ali era intenso, mas além disso, o ambiente novo proporcionou outras sensações, e que foram intensas. 
Primeira observação : ali haviam vapores, que eram visíveis em formas gasosas, e mais que isso, tais sinais de fumaça tinham odores.

Muitos deles eram agradáveis de imediato, outros nem tanto e houve os que incomodaram. Sim, a percepção primária de gostar ou não de alguma coisa já é muito ativa mesmo nessa fase de inconsciência racional.
Segundo ponto, os odores sinalizavam sabores. A tendência
era a da impressão gerada pelo olfato confirmar-se quando da degustação e uso, portanto, do elemento “paladar”.  Mas haviam exceções, quebrando uma suposta lógica e na base da surpresa agradável ou não, fui notando tal disparidade vez por outra.

Terceiro aspecto, outros sentidos foram estimulados, naturalmente. Ruídos típicos se tornaram rotineiros...o tilintar dos talheres; panelas que se chocavam; eletrodomésticos que faziam um estardalhaço e tanto, eram captados na mesma intensidade com a qual o radinho ligado de forma intermitente, emitia música e ao murmúrio dos adultos da casa, falando entre si. 
O impulso para tocar nos objetos da mesa, e nos próprios alimentos de forma inadequada, era parcialmente evitado pelo uso estratégico do chamado “cadeirão”, um móvel concebido especialmente para um ser minúsculo e sem nenhuma noção de etiqueta à mesa, não se machucar, mas sobretudo não enojar os adultos em demasia, com sua falta de noção total.

Sob o aspecto visual, podia parecer secundário, mas as cores tinham algo a ver com os odores e sabores, as mais proeminentes percepções que ali se experimentavam.
Mas os que predominavam mesmo eram os odores e sabores. Essas eram as sensações mais fortes ali naquele ambiente do lar.

Não demorou nada e a associação perpetuou-se no imaginário : cozinha era lugar de sabor e odor na minha casa; nas casas dos outros, e em lugares que não são de ninguém (enquanto percepção de um lar, pois claro que tem proprietários), mas de todos, os ditos “restaurantes”, coisa que só bem depois eu viria a saber. 
E mais uma associação básica : não só é o cômodo da casa que tratava de “restaurar” a todos, mas era um ambiente onde se cultuava valores, no sentido de que culinária é forte traço cultural; prazer, em se considerando a gama de sensações prazerosas que proporcionava; trabalho, porque preparar refeições era dispendioso para quem se encarregava dessa tarefa; e sobretudo por expressar valores familiares, pois era ali onde se forjavam os relacionamentos mais enraizados entre as pessoas que compartilhavam da mesma carne, sangue e tradições.

Descobrindo a cozinha, lugar de múltiplas sensações, onde odores e sabores predominavam...

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Criatividade - Por Telma Jábali Barretto


Se cada um de nós é único e inigualável, certo também que tudo, por nós feito, carrega aí nossa inigualável marca. E... num entre querer parecer àqueles que admiramos e querer ser único transitamos vida afora !


Num amplo sentido, quando pensamos que não temos criatividade, vale um repensar, até porque nem tudo que fazemos tem, assim, alguma expressividade, que, de pronto, mereça reconhecimento ?!...
Vale também lembrar que não é a toda e qualquer hora que esbarramos num Beethoven ou Einstein circulando por aí ?!... Neles ou outros, conhecidos por seu feito criativo, inovador, influenciaram e revolucionaram uma forma de pensar, um conjunto de ideias, determinando uma quebra de paradigmas e trazendo um outro e diferente olhar que muito mudaram ao mundo e pessoas.


Mas...porém, todavia, contudo...?!... seria criatividade somente isso aí descrito, de fato? Pensamos que não ! Melhor, aí, talvez seja seu apogeu !!!
Quantas e pequenas saídas são exercidas em nosso cotidiano que não poderiam/deveriam ser esquecidas e minimizadas. Talvez, não afetem a muitos, mas, seguro que, no seu âmbito de atuação, tem lá seu reflexo e interferência. Pensamos que é a partir delas devêssemos começar o exercitar...Primeiro atentando para seu poder de minimizar dificuldades e favorecer fluxo no funcionar, seja isso num sentido prático ou estético. 

Afinal, não é para isso mesmo que está aí a criatividade...?!... Dai que, também, entendemos, para seu florescimento deva vir acompanhada de paciente humildade, andando junto com respeito ao outro, assim como, temos certo que não é para aparecer para os outros (tão em moda hoje, nessa avalanche de selfies e auto glamorização...?!...) trazendo alguma forma de ostentar possíveis e imagináveis ‘dons’, privilégios, arrogâncias e, mais que isso, domínio sobre os demais... Poder, ainda é algo nos dias atuais, que parece deva ser usado sobre os outros e não sobre si mesmo ?!...?!...Quanto ainda é discurso e não vivencia o fato que somos UM, portanto, em processo de conscientização que herdeiros também, em marcha, para toda e qualquer posse de magia e beleza únicos e por manifestar ! 
Esse exercício criativo, pensamos, deva começar do pequeno, do dia a dia, daquele perseverar e constância em que o observador e a valorização são adestrados internamente, em meio a erros e acertos (erros sim, pois demoramos até acertar... e, não havendo paciência e humildade, não chegaremos lá !), que vão construindo a confiança em si, tão necessários para o exercício da inovação.




Testamos, então, nas ‘habilidades diárias’, do corriqueiro onde devemos acertar, por responsabilidade no mínimo do bem cumprir por consciência, onde vamos acessando no passo a passo, atravessando barreiras entre o dever de acertar e a vontade de inovar por outros caminhos, arrebanhando coragens criteriosas no se alavancar para  incomuns patamares... Num esforço com projeto de ir além de si, transpondo medo e acreditando-se capaz, num verdadeiro parto de si e por si !
Mas... caso isso não venha carregado desse ir além de si, e a perspectiva seja em primeiro a admiração do outro, quem quer que seja esse outro, traímos a criatividade e nos tornamos escravos da aceitação também desse outro para quem criamos, inovamos e... aí, uma sequência de submissão nos aguarda ! Perdemos a tão importante liberdade, necessária para fazer a diferença com a naturalidade que a cada um de nós pertence ! 

Podemos ter aí aquele chamado sucesso que alimenta não a si...a mercê do que os outros querem de nós, para nutrir  as suas expectativas. 
Somente fiéis aos impulsos internos que nos movem para sermos nós mesmos, aprendendo a dar luz nessa dimensão de onde funcionaremos, sendo, assim, únicos, vamos encontrando, abarcando e abraçando novas seguranças em ser quem somos, expressando como vemos e fazemos, assumindo o protagonismo da própria história (Dharma) e, quem sabe...?!... então, ai sim, por uma autêntica e natural vivência, conquistando a identidade, uma nova forma de espontaneidade titubeante, onde iniciamos a escrever a assinatura no processo cósmico, estimulando a partir dessa autossatisfação, outros também para alcançarem a sua intransferível contribuição.
 
Um lugar na infinita orquestra universal passamos a integrar, conscientemente, com nossa nota, cor, vibração, verdade, encanto...e, que cada um, assim seja e é, mesmo e antes de acessá-la !!! 

Nosso lugar na arquibancada da Vida ! Jaya !!!




Telma Jábali Barretto é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Engenheira civil, é também uma experiente astróloga; consultora para harmonização de ambientes e instrutora de Suddha Raja Yoga.

Nesta crônica, nos fala sobre a potencialidade da criatividade que cada um de nós tem dentro de si, e como tal identidade pode exercer um poder único, ainda que estejamos todos interligados.

sábado, 4 de junho de 2016

Costuras - Por Julio Revoredo


Pesadelo numa manhã de verão

Substâncias e timbres

Correia de transmissão 

Folhas de contato de radiografias em Super 8

Cascas de concreto

Sequoias 

Artefato

Nesse eco. Vale a pena permanecer seco  

Como a saudade de uma Era anterior

Num tempo mais lento

Num tempo sem dor. Rente corrosão

Faz os dias de hoje

Ruinofilia 

Distopia

Extinção. Perdido no rio perdido

Os trasgos são siameses

Reconfigurações

Instalações 

Ruínas industriais 

Veias e agulhas, arrematam o verde funeral

Como elementos

Acessórios

Num insano capítulo do meio

Nevral

Pesadelo numa manhã de verão

Como saudade de uma Era anterior

Tempo sem volta

Mundo de dor

Costuras sem ponto

Costuras

Recosturas

Num sevo mundo

Entre assombros e agruras 




Julio Revoredo é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Poeta e letrista de diversas músicas compostas com minha parceria em três bandas por onde atuei : A Chave do Sol; Sidharta e Patrulha do Espaço.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Os Kurandeiros - 3/6/2016 - Sexta-Feira / 21 H. - Santa Sede Rock Bar - Santana - São Paulo / SP

Os Kurandeiros

3 de junho de 2016

Sexta-Feira  -  21:00 Horas

Santa Sede Rock Bar

Avenida Luiz Dumont Villares, 2104

Santana 

100 metros da Estação Parada Inglesa do Metrô


São Paulo - SP

Os Kurandeiros :

Kim Kehl : Guitarra e Voz
Carlinhos Machado : Bateria e Voz
Luiz Domingues : Baixo