sábado, 6 de fevereiro de 2016

Autobiografia na Música - Kim Kehl & Os Kurandeiros - Capítulo 39 - Por Luiz Domingues


O ano de 2015 abriu com um compromisso que parecia alvissareiro para os Kurandeiros : um show no interior de São Paulo, participando de um Festival de verão de Blues & Jazz, ao ar livre.

Tratava-se do famoso festival anual promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de Cunha, uma bela e bucólica cidade do interior paulista, localizada no vale do Paraíba, no meio do caminho entre Guaratinguetá e Paraty, esta última, já no estado do Rio de Janeiro.  

Tal convite para participarmos tinha vindo da parte do cantor/gaitista e guitarrista, Big Chico, que conhecêramos por ocasião de sua participação no Projeto Quarta Blues da Magnólia Blues Band e também pelo fato dos Kurandeiros terem sido sua banda de apoio em seu show no Festival "Hoje tem Blues", do qual participamos em outubro de 2014, numa unidade do CEU (Centro Escolar Unificado), no caso, o Ceu Jaguaré.  

Big Chico já havia participado de edições anteriores do Festival de Cunha, e desta feita assumira a curadoria, indicando artistas para participar e daí, seu gentil oferecimento.

A logística não era lá muito confortável, pois a verba oferecida para custear nosso transporte, mal cobria o gasto com gasolina e pedágios para dois carros, visto que não daria para alugar uma van e mesmo não precisando levar bateria própria e backline, a carga mínima de volumes para nos apresentarmos, não comportava o uso de um automóvel, apenas.

Dessa maneira, mesmo com verba bem apertada, decidimos ir com dois carros, e no caso, o meu que é mais espaçoso do que o do Carlinhos; e o do Kim.

Combinamos de sair cedo, bem no início da tarde, mesmo sabendo que o show seria às 21 horas. Não queríamos correr riscos desnecessários e mesmo sendo um período difícil para viajar, pois estrada no verão é um sacrifício escaldante em via de regra, pensamos que compensaria chegarmos bem cedo à Cunha, por volta das 17 horas em nossos cálculos, para curtirmos  a cidade que fica numa região serrana e tem muita natureza, atraindo turistas.

Preparei meu carro, certamente, um dia antes, fazendo troca de óleo; calibragem de pneus e abastecimento de combustível e água e estava tudo certo para encarar a estrada.

Nos encontramos na residência do Kim e de lá partimos em comboio rumo à via Dutra, estrada que liga São Paulo ao Rio de Janeiro, com o objetivo de seguir em frente até a cidade de Guaratinguetá, onde há o acesso à rodovia Cunha-Paraty, sinuosa e serrana; muito bonita com seu visual da natureza, mas ao mesmo tempo, perigosa, certamente.  

Para quem não conhece São Paulo, capital e estado, digo que qualquer estrada que sai da cidade de São Paulo em qualquer direção, seja rumo ao interior ou ao litoral do estado, enfrenta tráfego pesado, quando não trânsito engarrafado num raio de pelo menos 100 KM. E a Via Dutra, por ligar as duas maiores capitais do Brasil, tem um trânsito que a faz parecer uma avenida, e não uma estrada propriamente dita.

Portanto, seguimos mais ou menos juntos, meu carro e do Kim, mas perto do pedágio de Jacareí, nos perdemos de vista, contudo, não havia nada de errado em perdermos o contato visual num dado instante, pois se algo ocorresse, bastava o Carlinhos ligar para a Lara Pap, nossa produtora e esposa do Kim, que seguia viagem no outro carro.  

Pouco antes de nos aproximarmos de São José dos Campos, vi que o ponteiro da marcação de temperatura do radiador do meu carro, estava subindo além da conta, e atribui ao calor que fazia na tórrida tarde de verão que enfrentávamos, mas até aí, achando que a ventuinha seria acionada a qualquer instante, resfriando-o.

Não me dei conta que isso não estava ocorrendo, pois também com o carro em movimento e a conversa agradável tratando de reminiscências do Carlinhos e minhas sobre o anos setenta, e é incrível a quantidade de shows de Rock e outros eventos freaks em que estivemos juntos naquela década, mas sem nos conhecermos ainda, portanto, é o tipo de conversa que sempre voa longe para nós dois.

Mas quando o trânsito perto de São José dos Campos nos obrigou a parar, foi que me dei conta que a situação era preocupante, visto que sinais de fumaça vinham do capô do meu carro, e o ponteiro subia vertiginosamente.

Em suma...o radiador estava fervendo, e eu precisava parar para verificar, e tomar uma providência.

Por azar absoluto, não havia nenhum posto de gasolina a vista e na iminência do radiador ferver e travar tudo, parei no acostamento e fomos olhar. De fato, o reservatório de água estava fervendo e aquilo era incompreensível, visto que no dia anterior, eu havia renovado o aditivo, portanto estava tudo OK com o radiador e o tanque de reservatório d'água.
Na mangueira de água, não havia nenhum indício de vazamento. Portanto, a solução foi esperar esfriar e naquele calor da tarde era uma missão vagarosa, e achar um posto de gasolina para reabastecer o reservatório e fazer uma verificação mais apurada.

Muito azar, não havia posto avistável e assim, na primeira entrada disponível, fomos para dentro de um bairro de periferia de São José dos Campos, onde finalmente achamos um posto. Mais um tempo esperando esfriar e novo abastecimento...e lá foi a água ferver de novo, mesmo com o carro parado numa boa sombra...  

Os frentistas tentaram de tudo, mas ninguém conseguia entender o que acontecia. Já batia na casa das 17 horas, e nesse instante, nossos amigos já deviam estar em Cunha e muito preocupados conosco. Por celular, simplesmente não conseguíamos falar com eles e até contato via telefone fixo do posto tentamos, mas nem sinal de área conseguíamos.

Nessa altura, fomos informados que os mecânicos das redondezas já estavam todos fechados e numa sexta feira, infelizmente, a perspectiva seria a de abrirem na próxima segunda feira pela manhã...  

Outra solução seria pegar um táxi e ir ao centro de São José dos Campos e caçar uma oficina, mas sem conhecer a cidade e ela é enorme, já quase batendo na casa de 1 milhão de habitantes, seria uma busca inglória.

Foi quando começou o festival de improvisos e bacana, aquela solidariedade que pensamos que não existe mais neste planeta, mas nessas horas, verificamos que sim, ela existe...  

Um dos frentistas ofereceu a sua caixa de reservatório de seu carro que ele não usaria naquele final de semana. Relutamos, mas na hora do sufoco e com os  ponteiros do relógio voando, literalmente, já estávamos contanto em chegar em cima da hora no festival, eliminando completamente a possibilidade de um soundcheck decente no palco do evento.

Portanto, aceitamos a gentil oferta. O carro do rapaz era similar ao meu e a peça haveria de ser padrão...mas não era !! E nessa altura, já havíamos descoberto que o problema era uma coisa tão estúpida que chegava a dar raiva...a borracha interna da tampa do reservatório de água do radiador, havia perdido sua elasticidade e devido a isso, a tampa não fechava com a devida pressão e assim, não dava para acionar a ventuinha, provendo a refrigeração natural do radiador.

Uma simples borracha circular que não devia custar mais do que R$ 1,00, mas específica para aquela medida, não tinha substituição com outro material. E tentamos fita de vedação de encanamentos; silicone e outras borrachas, mas nada adiantava.

Eu e Carlinhos estávamos muito angustiados, pela eminente perda do show e também por imaginarmos que nossos amigos estavam morrendo de preocupação. Pensei em ligar para a minha casa, deixando meus familiares a par da situação, talvez como uma estratégia para o caso da Lara e o Kim pensassem no mesmo expediente, mas não, eles também evitaram tal expediente, justamente para não alarmar ninguém em minha casa...

Quando já batia na casa das 19 horas, e já estávamos desolados, um motoqueiro que parara para abastecer, nos viu conversando com os frentistas. Aproximou-se, ouviu a conversa e interveio.  

Parecendo aquelas coisas que Rockers gostam de atribuir a sinais mágicos e típicos de quem professa o Rock de verdade, o rapaz disse que se prontificava a buscar uma tampa nova para nós, num posto onde sabia existir uma loja de autopeças 24 horas, mas que ficava na estrada, a caminho de Caçapava, a cidade vizinha.

Oferta irrecusável e o rapaz não quis aceitar nem ajuda para a gasolina que gastou. Em menos de uma hora, já estávamos de novo na estrada, com o radiador funcionando absolutamente normal e tudo fora por causa de uma borracha de valor ínfimo...  

Muito atrasados, mas felizes, viajamos contando os minutos e comemorando a cada placa que víamos, a aproximação da cidade de Cunha.

Nossa sorte, foi que a estrada Cunha - Paraty, apesar de muito perigosa, estava absolutamente vazia naquele momento e assim, mesmo evitando os excessos, imprimimos uma velocidade máxima ali permitida e em constância, sem mais nenhum empecilho a nos atrasar.

Quando avistamos a cidade, respiramos aliviados, e apesar de sermos dois senhores cinquentões, nossa alegria era juvenil, como se estivéssemos na adolescência, vencendo uma gincana escolar...

Era ponto de honra chegar a Cunha a tempo de pelo menos tocarmos metade do show previsto, portanto, tratamos como uma vitória, a nossa entrada na cidade.

Estacionamos na praça central da cidade e de longe ouvíamos o Kim tocando e cantando, acompanhado de Edu Dias que o acompanhou tocando gaita e cantando, também. 

Fiquei arrepiado de vê-los ali enfrentando a praça lotada, sem o nosso suporte, desfalcados portanto do peso de uma banda. Não dava para tocar a imensa maioria das músicas programadas no set list, mas apenas baladas amenas e um ou outro Blues de raiz. Não caracterizava o som que esperavam de nós, mas fiquei muito orgulhoso de ver a coragem e a hombridade artística que o Kim teve de subir e encarar sozinho, e sei que o faria mesmo que se não tivesse o apoio do Edu Dias, que era nosso convidado naquela noite.  

Quando nos viu correndo com o meu baixo e peças de bateria, praça adentro, Lara veio nos auxiliar, e na base do "depois te contamos tudo", ela entendeu perfeitamente a nossa pressa.

Com o Kim tocando e cantando, fomos montando as coisas ali na frente do público, uma prática que abomino fortemente, mas diante das circunstâncias dramáticas com as quais essa chegada à Cunha se revestiram, não havia outro meio mais discreto de nos prepararmos.  
                              Foto : Jani Santana Morales

Assim que fiquei pronto, e claro que no meu caso as coisas são mais simples para se ajeitar, já fui encorpando o show, tocando.

Carlinhos ainda ficou ajustando as suas peças à carcaça de bateria que havia ali disponibilizada, e somente duas músicas depois, entrou conosco.  
                                 Foto : Ryu Uehara Dias

Quando o som encorpou de vez e a banda soou como se deve, o Kim foi fazendo suas escolhas de repertório a dar mais vazão para que a euforia se pronunciasse, e o público que parecia apático, levantou-se.

Não quero dizer com isso que éramos imprescindíveis ao ponto de suplantar o brilho pessoal do Kim e do próprio Edu Dias, mas com a banda tocando junto com muita garra e o repertório favorecendo, o público inflamou-se.
                                        Foto : Lara Pap

Outro fator, o Kim nos confessou que subira ao palco para cumprir sua parte e não deixar a peteca cair, num ato que extrapolou o profissionalismo, mas revelou-se heroico, até. Não é qualquer artista que se dispõe a fazer isso e numa circunstância excepcional dessa monta, a tendência é mandar cancelar o evento.

Além do mais, ele confessou-nos que estava uma pilha de nervos, e que a situação o fizera pensar no pior e que fora um martírio angustiante para ele subir para entreter o público, imaginando que talvez eu e Carlinhos estivéssemos mortos, vítimas de um acidente na estrada. Sua fala cortou-me o coração, pois pude imaginar sua angústia, pensando nas bobagens que sempre pensamos quando ficamos sem notícias de familiares e /ou amigos.

O show deveria ter acabado por volta das dez e meia da noite, mas com nossa chegada quase 40 minutos depois, e pelo fato do público estar curtindo muito, o representante do secretário de cultura falou para tocarmos o quanto quiséssemos.

Era quase meia-noite, quando encerramos e uma reversão completa do astral havia sido feita. Do baixo astral de um quase não comparecimento, nós conseguimos fazer o show e esticá-lo de uma forma absurda, com o público completamente a nosso favor, curtindo muito.

E por se tratar de um público híbrido, víamos todo o tipo de gente ali presente; De rockers locais a idosos, passando por muitas famílias, crianças e adolescentes etc etc.  
Fim do show, com o Kim exibindo a escultura feita em homenagem aos Kurandeiros, ofertada pelo artista plástico da cidade de Cunha, Denis Akino. Foto Lara Pap  
Levantando a escultura que ganhamos do artista Denis Akino, em Cunha !!

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=_HcI4y2bUSQ

Um escultor local, chamado Denis Akino, nos ofertou uma peça de madeira por ele feita em nossa homenagem, e que o Kim guardou com carinho na sua coleção de memorabilia. Um gesto muito bonito e de certa forma, tipicamente interiorano, no sentido da hospitalidade sempre em grande profusão.  
"Can't Be Satisfied" no Festival de Jazz & Blues de Cunha / SP, em 9 de janeiro de 2015

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=RA7UeC4LsTM 
"Meu Mundo Caiu" no Festival de Jazz & Blues de Cunha / SP, em 9 de janeiro de 2015

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=8sHEJVvQ8_8 

Quando o show acabou, fomos muito assediados pelas pessoas e ficamos muito felizes, duplamente : pelo sucesso do show, mas também pela nossa tenacidade em fazer de tudo para não deixar de cumprir o compromisso.  
"Honky Tonk Woman" no Festival de Blues de Cunha / SP, em 9 de janeiro de 2015

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=KWs-NKa2am4


"Black Cat Moan" no Festival de Jazz & Blues em Cunha /SP, em 9 de janeiro de 2015

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=yQO23KL6wJA 

Me senti muito feliz por ter conseguido chegar e tocar, complementando a nossa banda no compromisso firmado. E mais que isso, pelo fato da apresentação ter sido um enorme sucesso de público.

Estava tão eufórico com esse desfecho feliz, que nem me liguei que precisava abastecer o carro, pois no longo trecho entre Guaratinguetá e Cunha, não tinha visto nenhum posto de gasolina.  

Falamos com um rapaz da produção do show, e ele franziu a testa quando lhe indagamos sobre um posto de gasolina aberto na cidade naquela hora. Não havia pensado que numa cidade muito pequena, esse tipo de problema ocorre, de tão acostumado a viver em São Paulo, onde tal preocupação não existe.

Solícito, nos conduziu até a um posto, que já estava fechado, mas a seu pedido, o frentista que jogava cartas com amigos, abriu a bomba e nos abasteceu. Mais um toque mágico que só Rockers sabem como funciona...  

Voltamos para São Paulo extenuados, mas absolutamente tranquilos e felizes pelo sentimento de missão cumprida.

Fora um sufoco, gerando muita angústia da parte de todos, mas o resultado final fora tão reconfortante e compensador, que toda a agonia vivida esvaíra-se.  

Aconteceu no dia 9 de janeiro de 2015, em Cunha, uma belíssima cidade interiorana, que pelo pouco que vimos, tem muitos atrativos naturais, fora a hospitalidade interiorana, típica e sempre prazerosa. 

Nos meus cálculos livres, acho que haviam cerca de 300 pessoas na praça nos vendo, mas tratando-se de um pequeno, porém charmoso  boulevard, estava bem cheio. 

Ainda em janeiro, voltaríamos à nossa rotina de apresentações em casas noturnas, mas não necessariamente em São Paulo.
Continua...

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