sábado, 16 de janeiro de 2016

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 143 - Por Luiz Domingues

Um equívoco do jornalista que redigiu essa nota no Guia do "Estadão", o show estava marcado para o teatro e não para o espaço de vidro, um salão anexo da galeria...por que não prestam atenção nos releases que recebem ??

O famoso Luiz Carlos Calanca, dono da loja / gravadora, Baratos Afins, era curador de um espaço na Galeria Olido, no centro da cidade, ao lado das Grandes Galerias onde funciona a Galeria do Rock.

Ali, costumava promover shows triplos, uma vez por mês num espaço anexo chamado Galeria de Vidro, um espaço no andar térreo do complexo, todo envidraçado e que tem comunicação com a rua, no caso a esquina da Avenida São João, com a Rua Dom José de Barros.

Mas a notícia que o Luiz nos deu era melhor ainda, pois havia conseguido a liberação do espaço maior, que consistia no teatro super bem aprumado, e que outrora fora o cinema Olido, clássico do centro de São Paulo em décadas remotas e passadas.

Ficamos animados logicamente, porque o teatro possibilitava fazer uma produção muito mais caprichada, com som e luz de qualidade e sem a famigerada aura de "balada" das casas noturnas, tocar em teatros era o nosso ideal, nossa meta.

Contudo, nada era perfeito e o Luiz foi logo nos avisando que a Secretaria Municipal de Cultura oferecia tudo, menos cachet...seria portanto um típico "show de investimento de carreira"...

Ai ai ai, eu ali perto de completar 49 anos de idade e tendo que ouvir essa balela, nessa idade...era rir para não chorar, mas por outro lado, vindo do Luiz Calanca, que não tinha culpa alguma nessa dinâmica e se tratava de um amigo de longa data, compreendi numa boa.

Além do mais, baseado em experiência próxima pregressa, tocar de graça, mas com uma estrutura toda favorável, era muito mais vantajoso para o Pedra do que ir até Palmas, voar em quatro aeronaves num bate-e-volta maluco de quase 4 mil Km's para fazer um show de choque de meia hora...

No Teatro da Galeria Olido, aproveitaríamos para fotografar, filmar e quiçá gravar o áudio em condições superiores de qualidade. Fora o conforto de estarmos na nossa cidade, portanto, se tudo desse errado, era só entrar no carro e estar em casa em meia hora, chamando uma pizza pelo telefone...

Outro aspecto era o de atrair público e mídia, portanto, fora a contumaz mania de se achar que artista não precisa ganhar dinheiro, mas que deve agradecer por oportunidades de tocar (experimente falar para um técnico de som, que ele deve trabalhar operando o áudio de um show, mas não vai ter cachet, e sua recompensa será que as pessoas "reconheçam" o seu valor profissional e "um dia", vão te contratar, pagando...).

Bem, o fato é que aceitamos fazer, e fomos informados que duas bandas tocariam também compartilhando o espaço. Seriam Carro Bomba e Cavalo a Vapor.

Conhecíamos as duas, o "Cavalo a Vapor" era veterana banda de Hard Rock egressa dos anos oitenta e que estava voltando às atividades; sobre o Carro Bomba, tinha uma história de proximidade conosco por conta da nossa ligação com Marcello Schevano, e também pelo fato de termos interagido bastante em 2006, compartilhando shows, conforme já relatei.

Tudo certo, fomos para o show e seria parte das festividades do "Dia Mundial do Rock". Particularmente acho isso mais uma bobagem inventada pelo comércio para alavancar vendas, tipo "Dias das Mães", "Dia da Criança", "Natal" etc etc, mas sem reclamações, se esse era o mote, fomos em frente.


Chegamos ao teatro no horário combinado e além dos nossos roadies, só teríamos apoio do nosso iluminador, Wagner Molina, pois nossos técnicos de som, os dois Renatos, Carneiro e Sprada não poderiam nos auxiliar nesse dia. O jeito seria confiar no técnico da casa, e mesmo ele sendo bom e solícito, por não conhecer o trabalho da banda, claro que não era a mesma coisa de poder contar com nossos técnicos que conheciam bem o trabalho.

Na porta do teatro, havia uma equipe de reportagem da Rede TV. Estavam gravando matéria na Galeria do Rock ao lado, com o mote do "Dia do Rock" e o próprio Calanca os avisara que haveria um show de Rock no Teatro Olido. Mas os funcionários do teatro não haviam nem chegado para abri-lo e quando perceberam que o processo para montar o palco e poder ter condições de filmar uma banda tocando, demoraria pelo menos duas horas, desistiram. Infelizmente o repórter em questão fez um comentário bastante deselegante e desnecessário ao se dirigir à sua equipe de cinegrafista e iluminador, falando : -"Vamos embora, não vale a pena esperar tanto para filmar essas bandinhas"...

Ora, de fato, as três bandas que se apresentariam ali eram artistas do underground, longe da badalação do mainstream e se ao menos uma fosse minimamente conhecida nesse mundo maior, ele teria tido outra postura. Tudo bem...não aparecíamos no "Faustão", mas também não ficamos chateados em não aparecer de forma anônima num programa jornalístico de uma estação quase traço de audiência, e provavelmente com uma abordagem desdenhosa e jocosa, nos tratando como retardados rockeiros fazendo "malocchio" e caretas idiotas e constrangedoras para qualquer ser humano que ultrapassou a faixa etária dos dez anos de idade...  
Um lounge na ala dos camarins do Teatro Olido. Da esquerda para a direita : Ivan Scartezini; Marcião Gonçalves; Luiz Domingues e Diogo Oliveira. Foto de Grace Lagôa

Os camarins do teatro eram amplos, mas bastante bagunçados, pois ali nos dias úteis, costumava ser usado para ensaios de diversas orquestras, entre as quais a Jazz Sinfônica e a Orquestra Municipal de São Paulo, além de diversos grupos de Ballet patrocinados pela Secretaria.

Portanto, apesar de serem amplos e muitos, estavam abarrotados de instrumentos e peças de figurino desses artistas que ali ensaiavam costumeiramente.

O Luiz Calanca chegou e nos deu a notícia de que o show não poderia passar  das 20 horas, de forma alguma. Ora, como se começaria às 18 h., e seria dividido entre três bandas, além do tempo perdido entre as três fazendo as trocas de set up ?

Era inviável, mas combinamos de enxugar os respectivos set list das três bandas, mas mesmo assim, uma catástrofe estrutural trataria de arruinar toda essa boa vontade...

O clima no camarim era ultra amistoso entre Pedra e Bomba, fora os amigos em comum das duas bandas, que ali estavam conosco, casos de Diogo Oliveira e Marcião Gonçalves. Conhecíamos o guitarrista do cavalo vapor, Luiz Sacoman, muito gente boa, mas os demais componentes da banda eram da sua nova formação, e não os conhecíamos.

Jon Lord, o mítico tecladista do Deep Purple, na Virada Cultural de São Paulo, em 2009

Feito o soundcheck, achamos o som disperso pelo fato de haver pouca estrutura de monitoração e o palco ser enorme. De fato, ali ensaiavam e se apresentavam orquestras sinfônicas. Nos contaram que Jon Lord e Rick Wakeman usaram o palco desse teatro para ensaiar suas respectivas apresentações em edições da Virada Cultural de São Paulo. O Jon Lord, questão de poucas semanas antes.
                     Acervo de Fabiano Cruz

Sobre a luz, apesar do Molina a pilotá-la, não dava para esperar sua costumeira criatividade, pois não recebeu a cooperação do técnico do teatro e seus assistentes para afinar os spots. Pelo contrário, o rapaz se colocou numa posição infantil e amadora de ficar melindrado pela presença do Molina, o que era bastante surpreendente, pois muitos artistas chegam para se apresentar em teatros ou quaisquer outros espaços e levam suas respectivas equipes técnicas. É praxe entre técnicos de som e luz, cooperar com colegas que trabalham de forma fixa com artistas, mesmo porque, ninguém sabe operar melhor o som e a luz de um artista do que os técnicos que trabalham exclusivamente com eles.

Enfim, mesmo sendo tal tipo de atitude bastante amadorística da parte do rapaz, acostumado a lidar com isso, Molina deu de ombros e fez o que podia para nos dar uma luz legal, mesmo sendo longe do que ele normalmente produzia
                     Acervo de Fabiano Cruz

Mas antecipei-me, pois antes dos shows acontecerem, havíamos combinado uma ordem de apresentação de comum acordo com todos, incluso o curador do evento, Luiz Calanca. Todavia, um fato novo ocorreu, e o pessoal do Cavalo Vapor pediu para tocar antes, mudando a ordem.

Tudo bem, não mudaria nada, desde que não houvessem atrasos, pois o tempo estava milimétrico, e qualquer vacilo de uma banda, atrapalharia as demais.

Então, ficou acertado que essa banda abriria, mas faltando poucos minutos o Luiz Sacoman nos disse que o baixista da sua banda estava com um problema de atraso e demoraria uns minutos para chegar. Naquele impasse, chegamos a cogitar mudar a ordem e isso deveria ter sido feito efetivamente, mas ele insistiu que o rapaz estava chegando e não haveria prejuízo às demais. O Luiz era/é um cara sério, de ótima índole e jamais pensaríamos que estaria prejudicando o andamento do cronograma para tirar vantagem para a sua banda, de forma alguma. Contudo, na prática, já estava conturbando todo o planejamento.

Chegou num ponto insuportável, com quase vinte minutos além das 18 horas, e o rapaz da banda que faltava ainda não havia chegado. Já era inviável trocar o set up para outra banda entrar e assim, sugerimos ao Luiz que sua banda começasse imediatamente sem baixo mesmo. Coisa horrível de se fazer para qualquer artista, entrar sem sua formação completa, mas não havia outra alternativa diante da perda de tempo.

O Cavalo a Vapor entrou e estavam chateados com a pressão que o Luiz Calanca fez e admito, nós também exercemos, mas não era nada pessoal, tampouco para atrapalhar a apresentação da banda. Infelizmente o tempo urgia e se havia um culpado nessa história, se bem que isso é muito relativo também, seria o baixista do Cavalo a Vapor, por atrasar num compromisso de sua banda e falando claramente, todos estavam ali na hora combinada do soundcheck, ou seja, horas antes do espetáculo ter que começar. Nós por exemplo, nos mobilizamos para estarmos ali por volta das 12 horas.

Contrariados, começaram a tocar sem seu baixista. Este chegou lá pela terceira ou quarta música em que estavam tocando, vindo correndo pela plateia, e com o seu baixo no bag às costas.

Com a banda tocando, arrumou-se, e assim que foi possível, passou a tocar junto. Fica o benefício da dúvida para o rapaz, pois pode ter tido problemas de locomoção, ou estava vindo de um compromisso, curso ou outra coisa qualquer, mas...que culpa tínhamos dessa desorganização interna dessa banda em específico ?

E mais um dado, se nós ou o Carro Bomba tivéssemos tocado antes, nada disso teria ocorrido, era simples...

Para piorar, e aí sim acho que a banda agiu mal, eles não fizeram menção de cortar músicas de seu list, só piorando as coisas.

Quando encerraram seu show, nos entregaram o palco com tempo muito comprometido. Fizemos o possível para fazer a troca de set up a toque de caixa, e cortamos algumas músicas do nosso set list.

O som estava disperso como já comentei, mas vendo nos vídeos, a mixagem do P.A. estava razoável para o público, e devia ter uma boa pressão.
                     Acervo de Fabiano Cruz

Tocamos um mix dos nossos dois discos e algumas músicas novas que já estávamos incorporando aos shows.

Em dado instante, vimos o pessoal do Carro Bomba na coxia, e o Luiz Calanca sinalizando para encerrarmos imediatamente. O Xando viu e anunciou que faríamos a última música, cortando ainda mais, mas nesse ínterim, vi o vocalista do Carro Bomba, Rogério Fernandes me chamando perto do amplificador. Fui até ali, e ele me disse para fazermos o nosso som até o fim, que eles já haviam desistido de tocar...
                     Acervo de Fabiano Cruz

Até trocarmos o set up, eles seriam forçados a fazer um show de 10 minutos, abaixo do padrão de um show de choque.
"O Dito Popular", com menção a "Papa Was A Rolling Stone", no Teatro Olido em 11 de julho de 2009

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=VJ8kxB45BWA

Lastimável a situação, fiquei muito envergonhado ali naquele momento, embora a culpa não fosse minha ou da minha banda, diretamente.
"Rock'n Não" no Teatro Olido em 11 de julho de 2009

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=oWai3hydrEs

Falei para o Xando tocar o show para frente e numa atitude de simpática, ele chamou Rogério e Marcello Schevano no palco para tocarmos juntos num improviso, e ali explicou-se ao público que o tempo havia estourado e o show do Carro Bomba estava cancelado.

Alguns fãs específicos do Carro Bomba, que estavam na plateia, se aborreceram, "chiaram" e tinham razão em se contrariar. Então, o Luiz Calanca surgiu no palco e pedindo desculpas pelo ocorrido, prometeu que numa nova edição desse show mensal, o Carro Bomba tocaria sozinho, sem compartilhar o palco com outras bandas, recuperando seu prejuízo dessa noite. De fato, soube que isso ocorreu mesmo, tempos depois e não me surpreendi, pois conheço o caráter do Calanca, um cara do bem, e ele estava muito chateado pelo ocorrido, sendo o curador do evento.

Em suma, três bandas num tempo exíguo não dava...e dali em diante o Calanca passou a marcar só duas, um pouco melhor. Se eu fosse o curador desse teatro, marcaria uma só, para reduzir a zero a possibilidade de constranger o artista no palco com pedidos para reduzir o show, atormentando-o da coxia...ha ha ha...

Leia uma resenha desse show escrita pelo jornalista Fabiano Cruz, para o Blog Alquimia Rock Club :

http://www.alquimiarockclub.com.br/resenhas/570/

Apesar dos pesares, pensando no Pedra, acho que foi um bom show e se levar em consideração o famigerado argumento falacioso do "investimento de carreira", claro que nada mudou na nossa vida doravante, a não ser alguns vídeos postados no You Tube, onde um palco imponente nos retrata com uma dignidade artística...
                     Foto : Grace Lagôa

Aconteceu no dia 11 de julho de 2009, um sábado, no Teatro da Galeria Olido, na avenida São João, centro de São Paulo.

A se lamentar a baixa frequência de público. Num sábado a tarde, com ingresso gratuito, por que apenas 100 pessoas se dignaram a ir ao Teatro Olido para ver três shows, em plena Avenida São João, com duas estações de metrô muito próximas, ônibus para todos os lados e tempo bom ?

Depois ficam de "mimimi" nas Redes Sociais, reclamando que as bandas acabam...e por acaso esses que reclamam, as prestigiam ?
                     Foto : Grace Lagôa

Continua...

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