sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 178 - Por Luiz Domingues


Daí em diante, tivemos mais um longo hiato onde as velhas tensões nos consumiram novamente.

Sempre que ficávamos sem perspectivas, tal tensão crescia e o clima azedava no interno da banda, principalmente da parte do Xando que dizia ter apaziguado sua ansiedade pessoal, mas na verdade, as pessoas não mudam assim tão radicalmente da noite para o dia.

Cobrando-nos resultados, não mensurava que nenhum de nós era "empresário", tampouco relações públicas, com exceção do Rodrigo que entre os quatro era o que mais tinha potencial para fazer tal papel, pois seu talento para o comércio é um dado extra que poucos fãs dele como artista conhecem, mas eu sabia disso desde que o conheci adolescente e certamente era uma herança genética de sua família paterna, de origem libanesa e com larga tradição no comércio, tendo sido seu avô; pai e tios, donos de lojas na tradicional rua 25 de março, o maior ponto de comércio popular do Brasil.
                                     Foto : Grace Lagôa

Rodrigo se esforçava para arrumar coisas para a banda, mas entre ser bom de conversa e bom negociante no mercado livre a empresário de uma banda autoral outsider e off-mainstream, havia um abismo.

De minha parte, sou péssimo em relações públicas. Portanto, minha ajuda nesse campo poderia se resumir a passar contatos que estava conhecendo por estar atuando em outras bandas com muito maior giro para tocar ao vivo, no entanto, eram contatos em sua maioria num circuito onde o Pedra não se encaixava, e sempre que eu sugeria alguma coisa, era de pronto rechaçado, sob a argumentação de não ter estrutura adequada para a nossa banda. Tinham razão em observar isso, mas infelizmente era o que eu tinha a oferecer naquele momento.  
                                   Foto : Bruna Farfan

Minha ajuda mais significativa estava ocorrendo na internet, onde já mais familiarizado com esse universo e atuando naquela ocasião em mais de 30 redes sociais, fazia muita divulgação de nossa banda, angariando simpatias, agregando mais admiradores e fãs e eventualmente cavando entrevistas, caso da entrevista que arrumei na Rádio CBN, graças à esse tipo de contato, mais entrevistas em Blogs etc.

Mas eu entendia a insatisfação do Xando, embora não concordasse com a pecha de desinteressados que ele nos dava quando se irritava. Entendia sua insatisfação no sentido de que por nenhum dos demais ter conhecimento mínimo de operação do equipamento para prover a gravação e mixagem, isso o deixava sozinho nesse trabalho, que é por natureza, monstruosamente maçante, subtraindo-lhe horas e horas de sua vida.
                                   Foto : Grace Lagôa

Nessa lógica, enquanto ele se desgastava tremendamente dentro do estúdio, perdendo semanas, meses até, e portanto abaixando significativamente a sua qualidade de vida, na sua imaginação, não havia contrapartida alguma dos demais, e isso se potencializara pelo fato de todos estarem envolvidos em trabalhos paralelos.

Não entrarei no mérito dos demais, pois aqui eu retrato a minha autobio, e o ponto de vista é meu, portanto, falando do meu caso apenas, era claro para mim que quando resolveram acabar com a banda em 2011, como eu ficaria doravante, não foi levado em consideração e eu tive que aceitar a decisão e tocar a vida para frente. Agora, a banda voltara, mas eu tinha sim outros trabalhos e não abriria mão deles, coisa que deixei claro desde o início da conversação sobre uma "volta", portanto, não podia aceitar isso como um ato deliberado de minha parte para prejudicar o Pedra, mas era uma contingência da vida, exatamente como não pensaram como eu ficaria sem o Pedra em 2011...
                                    Foto : Grace Lagôa

Resumindo, não era aceitável que o Xando imputasse culpa aos demais pelas dificuldades que a banda atravessava, mas eu entendia, valorizava e era solidário à ele, pelo fato de que estava mesmo trabalhando alucinadamente nessa produção.

Nunca deixei de reconhecer isso e pelo contrário, achava que essa sobrecarga era injusta, opressiva e no caso dele que tinha uma personalidade ansiosa, estava lhe fazendo um mal terrível. Por outro lado, sendo eu e os demais, Hid & Scartezini, completamente leigos nessa seara da gravação profissional e digital de áudio, nada podíamos fazer para auxiliá-lo.

                                      Foto : Grace Lagôa

Com a falta de apoio que tínhamos do Renato Carneiro, que tão bem trabalhou nos discos anteriores e agora impedido de nos ajudar por conta de estar o tempo todo na estrada operando o som de uma dupla sertaneja mainstream ( Bruno & Marrone), tal contingência precipitou essa carga inteiramente nos ombros de Zupo.

Uma solução humana para tirar-lhe desse inferno, teria sido contratar um técnico, mas com um caixa sempre baixo, devido à dificuldade em agendar shows com regularidade sustentável, essa hipótese era quase inviável e havia um componente a mais. Exigente, e isso era compreensível, não seria qualquer profissional que ele aceitaria, portanto, não seria uma coisa tão fácil, mesmo se houvesse recurso e não havia.

Uma tentativa de se fazer isso se deu quando eu e Rodrigo sugerimos a participação de Kôlla Galdez, um técnico amigo nosso, e que operara a gravação do CD ".Compacto" da Patrulha do Espaço, em 2001. De fato, ele foi contatado e ajudou o Xando um pouquinho, fazendo trabalhos de automação de mix, mas isso não aliviou muito a carga pesada que a que Xando estava sendo submetido.

Portanto, deixo claro que entendo que na ótica dele havia uma situação que o impelia a nutrir muita insatisfação em relação aos demais, mas a equação dessa lógica que ele formulara, estava baseada em elementos errôneos, e a visão simplista de apontar culpados não era correta e pior, não ajudava a solucionar os problemas estruturais da banda.

Enfim, o clima pesou e a gravação e finalização desse processo foi arrastando-se, pois o Xando estava sobrecarregado, muito cansado e sua ansiedade natural estava minando seu psicológico, nutrindo assim, bronca dos demais, mas não levando em consideração os problemas estruturais da nossa banda e sua histórica inadequação para atuar num circuito off-mainstream; entrar num circuito mediano ao estilo Sesc; ou arregimentar um empresário minimamente preparado para nos dar perspectivas melhores. 

Além disso, não levava em consideração que nossos pequenos esforços de colaboração, principalmente de parte do Rodrigo e da minha parte, eram o melhor que poderíamos oferecer naquele instante.
                                     Foto : Grace Lagôa

Quisera eu ter arrumado para o Pedra uma entrevista no Programa do Jô Soares, ou no Altas Horas do Serginho Groisman, em plena Rede Globo. Isso foi tentado quando consegui o apoio de Cida Ayres, minha velha amiga dos tempos do Língua de Trapo, em ação empreendida em 2010, mas não redundou em sucesso, infelizmente, e nem assim fiquei com bronca da Cida que eu sei que se esforçou para ajudar e se não logramos êxito, não era o caso de apontar "culpados". 
                                   Foto : Grace Lagôa

Portanto, se nos últimos tempos eu só arrumara uma entrevista na CBN e entrevistas em Blogs de pouca fama midiática, era o meu máximo ali, não por preguiça, mas pelo fato de esbarrar em barreiras intransponíveis naquela altura dos acontecimentos. 

Era o caso do Pedra adaptar-se à uma nova realidade e encarar o mundo off do off, mas a banda abriria mão de a cada show levar um backline exagerado, como se fosse se apresentar no Rock in Rio ? Abriria mão de não contratar roadies, com os próprios músicos carregando e montando seus equipamentos ?  Aceitaria tocar em bares com palquinhos minúsculos e sem luz e som adequados ? Poderia encarar shows onde estivesse sem técnicos de alto padrão como Carneiro; Sprada & Molina ? Abriria mão de contratar equipes de filmagem para todo show ? Em suma, haviam inúmeros aspectos que amarravam o Pedra, e a bronca dirigida para nós três, Domingues; Hid & Scartezini, não era justa em essência.
                               Foto : Leandro Almeida

Diante desse quadro pesado de insatisfação, sem perspectivas de shows em vista e com a gravação emperrada e avançando sobre os ombros de um componente apenas, o clima ao final de 2013 era muito semelhante ao do período de 2010 que culminou com o fim da banda em 2011, e confirmava a minha suspeita de que a perspectiva de uma volta sob visão mais "light", era mera conversa, pois ao chegar no gargalo, a velha tensão voltaria.  
                                Foto : Leandro Almeida

A diferença, era que agora eu não via mais como a banda poderia sobreviver artisticamente, visto que essa tensão estava sobrepujando a criação, ao contrário de 2010, onde eu achava que a obra superaria as insatisfações pessoais.

E perdendo a minha tenacidade, que sem dúvida alguma era o combustível vital da minha carreira, desde 1976, e do qual me orgulhava muito, um sinal amarelo acendeu-se, lastimavelmente.  
                                  Foto : Grace Lagôa

Assim encerrou-se o ano de 2013, com tensão no ar, e isso só não estava minando-me mais intensamente, pois minha vida estava dividida naquele instante e nos outros trabalhos que eu mantinha em paralelo, o clima era amistoso, e com alegrias até, portanto, a tensão no Pedra não tinha carga total sobre mim.

Infelizmente, aquilo estava massacrando o Xando, que só tinha o Pedra na sua vida naquele instante, e eu lamento muito isso pelo aspecto humano, e também considerando que a despeito de ninguém merecer isso, acrescento que muito menos o Xando, pela grande pessoa que ele é. Nesse aspecto, eu me solidarizava com ele, embora não concordasse com a visão que ele tinha da situação.
                                   Foto : Grace Lagôa
Continua....

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