sábado, 30 de janeiro de 2016

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 183 - Por Luiz Domingues

                                Foto : Leandro Almeida

O Pedra foi uma das mais importantes etapas da minha trajetória na música, sob vários aspectos.

Começou de forma totalmente despretensiosa no sentido de que não era algo que eu planejara ardentemente como meta de vida, caso de bandas anteriores que tive, como o Boca do Céu que representou o sonho primordial infantojuvenil mas ainda sem noção alguma de nada; ou no caso do Sidharta, que tinha a meta de resgatar a energia juvenil que eu tinha em 1976, mas agora em condições de formar uma banda poderosa e mais que isso, levantando a bandeira retrô/vintage em múltiplos aspectos, extrapolando até a música em si.  
                  Ensaio no início de 2005. Foto : Grace Lagôa

Em certo sentido, o início do Pedra para mim, lembrava-me o começo do Língua de Trapo ou mesmo do Pitbulls on Crack que foram projetos que foram idealizados por outros músicos e nos quais eu me inseri, trazendo minha contribuição ao trabalho, mas não sendo 100 % algo que fizesse parte dos meus ideais na música.

Além disso, o convite primordial para iniciar esse trabalho do Pedra, chegou-me num momento onde eu estava muito esgotado física e psicologicamente, após quase seis anos de Patrulha do Espaço, a banda onde exerci o meu sonho Rocker mais decisivamente, atendendo muitas das expectativas geradas pelos meus devaneios no Boca do Céu e no Sidharta, mas que tinha também um outro lado obscuro da Lua...  
Início de 2005 ainda em formação de quinteto. Foto : Grace Lagôa

Dessa maneira, quando recebi o telefonema de Xando Zupo para conhecer o novo trabalho que estava articulando, nessa época eu cogitava até abandonar a música de tão esgotado que estava, mas quando fui ao seu estúdio para ouvir sua proposta, gostei do projeto e aceitei fazer parte, no fim de 2004.  
Gravando a guia do primeiro CD, em 2005. Foto : Grace Lagôa

A proposta era aberta, não fechando no Rock tão somente, mas abrindo possibilidades com a MPB e a Black Music. Não que eu estivesse farto do Rock, jamais...sou um Rocker assumido e ainda que seja eclético e goste de coisas nada a ver com o universo Rocker, também, minha postura e lealdade ao Rock é eterna, pois assumo ser um Rocker e morrerei assim.

Mas, a possibilidade de estar aberto aos estilos que mencionei, agradou-me muito, e na primeira audição do material que Xando Zupo já tinha composto e vinha ensaiando com alguns músicos, gostei bastante das composições e isso foi a injeção de ânimo que me tirou do desânimo pós saída da Patrulha do Espaço e deu-me sobrevida como músico naquele instante.  
                                    Foto : Grace Lagôa

O primeiro momento do Pedra mostrava-se leve ao extremo e eu estava curtindo aquela serenidade que contrastava com o interno da Patrulha, que era costumeiramente tenso.

Mudanças rápidas na formação da banda e no ano de 2005, o primeiro disco estava sendo preparado com o time fechado com Rodrigo Hid fazendo voz; teclados e guitarra; Xando na guitarra e voz; Alex Soares na bateria e voz; e eu no baixo e voz.

A primeira manifestação de euforia veio quando o grande diretor de clips, Eduardo Xocante entrou na nossa vida e comprou a briga, vestindo a nossa camisa.  
Gravando o primeiro vídeo Clip em 2005. Foto : Grace Lagôa

Um vídeo-clip simples enquanto roteiro, mas lindo pela produção em película de cinema e com a assinatura de um profissional que havia feito dezenas de clips de sucesso mainstream ao longo das décadas de oitenta e noventa, foi uma oportunidade maravilhosa para um impulso inicial.

Mas serviu também para cairmos a real de que a difusão mainstream estava "toda dominada", e um lindo clip assinado por um diretor renomado já não abria as portas mais como antigamente.


Finalmente o disco ficou pronto, e é bom se destacar que a banda tinha uma extrema paciência para lidar com seus passos em câmera lenta nessa fase inicial...

Uma ruptura inevitável por força do choque de mentalidades e às vésperas do lançamento, nos convencemos de que não dava mais para termos o baterista Alex Soares na nossa formação. Foi um horror tomar essa atitude pelo aspecto humano e sei que o Alex se chateou comigo na época, pois eu fui o "agraciado" para ser o porta voz da banda para essa comunicação. 

Peço desculpas pelo ocorrido, ainda que ache que foi inevitável na época esse rompimento e melhor para ambas as partes.

Reitero, só fomos convidar o Ivan Scartezini depois dessa decisão e não ao contrário como ele suspeitou.  

                                  Foto : Grace Lagôa

O disco lançado e a melhor fase da banda, com uma incrível sequência de boas novas, durou até o início de janeiro de 2007.

Depois entramos numa fase de dificuldades que eram quebradas por pequenas conquistas, mas o propósito estava de pé, inabalável.

O segundo disco ainda mais forte musicalmente, e embalado por uma obra de arte gráfica sensacional, deu-nos alento.

Mas os tempos eram muito difíceis e não bastava ser bom, tampouco aberto para alcançar ouvidos mais abertos a sonoridades de outros nichos.
                                    Foto : Grace Lagôa

Com o tempo, fomos verificando que a banda colocara-se num cadafalso estrutural. Nossa música era sofisticada demais para ser executada num circuito de casas noturnas onde a ambientação era para baladas inconsequentes, mas oportunidades para exercermos nossa arte em espaços adequados era raras.

A máxima da bolacha a nos atormentar : vende mais porque é mais fresquinho ou por vender mais está sempre fresco ? No nosso caso era : vale a pena tocar em casas noturnas para embalar bebedeiras nas baladas de quem não está nem aí para nós, ou esperar oportunidades raríssimas de tocar em espaços
com ótima infra estrutura ?
                                    Foto : Fabiano Cruz

Em 2009, flertamos com novas oportunidades ao chamarmos a atenção de um jornalista top a serviço de um órgão mainstream de primeira grandeza. Logo no início do anos, a euforia esbarrou na frustração, mas ao final, uma outra chance nos abençoou...alguém lá em cima, no mainstream, gostava de nós, afinal... 

Mesmo assim, não conseguimos romper o bloqueio histórico para artistas do nosso patamar e o desânimo foi minando nossas forças.

Não achava que a banda deveria acabar em 2011, mas bastava tirarmos férias prolongadas...

Mas não foi o que aconteceu e eu fui cuidar  da minha vida e aceitei convites para atuar em outros trabalhos.

Achava que um pedido de reunião em 2012 seria só para cumprir um show pendente, mas, os demais haviam resolvido que a banda deveria voltar.

Não tenho espírito de tripudiador, não falei nada, mas era claro que meu voto vencido em 2011 tinha uma forte razão.

Retomada do trabalho, mas agora eu estava dividido, pois não havia cabimento deixar trabalhos novos que abraçara e curtia fazer parte, só porque o Pedra voltara.  
                                   Foto : Grace Lagôa
Um momento de pequena euforia entre o fim de de 2012 e o início de 2013, mas os bons ventos que sopraram eram meramente sazonais e não indicavam uma sequência sustentável.

Lá vieram as manifestações populares de 2013, e o Pedra se pautou pela ideia de que o mundo viraria de cabeça para baixo a cada coquetel molotov jogado por um Black Block, e o Fuzuê era a bola da vez. Todos, menos eu que a cada dia me convencia que envelhecer e acumular experiência é um grande barato nessa vida...
                                     Foto : Grace Lagôa

Um boa nova aqui e ali e muita tensão...a banda se deteriorando e gerando insatisfações, infelizmente.

Veio 2014, e o panorama só deteriorando. Nessa altura, eu que não queria ter parado em 2011, mas não me empolguei com a volta de 2012, estava distanciando-me, como um astronauta que sai vagando no espaço após perder contato com a nave mãe...

Fiquei muito doente, vi a morte de perto, e isso protelou a minha decisão de deixar o trabalho, mas as contingências fizeram com que no meio de 2015, isso fosse anunciado enfim.

The end; finito; muito obrigado...

Tais expressões descritas acima, como profeticamente o Xando deixou na última postagem do Blog da banda no início de 2016, cabe aqui para o meu caso, também.  
                              Foto : Leandro Almeida

Sobre o trabalho, tenho muito orgulho dele, pois o considero artisticamente, impecável. Discordo de algumas letras e ideias expressas, principalmente da parte do Xando, porém só em termos estéticos e culturais enquanto mentalidade que não bate com meus princípios, mas mesmo nas partes que discordo, enxergo que há qualidade na força poética, e no ato da expressividade dele.

No todo, acho a obra do Pedra espetacular, e me orgulho de ter feito parte dela, trazendo minha pequena contribuição com poucas parcerias nas composições; igualmente nas ideias para arranjos; uma única letra que acabou descartada, e claro, aí sim integralmente, na concepção das linhas de baixo das canções que gravei nos três discos da banda.  
Pedra (2006) - Na íntegra

Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=_3oM8BaRwu8
Pedra II (2008) - Na íntegra

Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=cAhUKnto7bc
Fuzuê (2015) - Na  íntegra

Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=1DrNgZ-1cJg

Tenho muito orgulho também pelo áudio dos discos, que considero os melhores, tecnicamente falando, de todos os 15 discos oficiais que gravei na minha vida (além de participação em dois discos de outros artistas, e nessa conta não incluo as participações em coletâneas e fitas demo), na somatória de todas as bandas onde atuei, de 1976, até este presente, de janeiro de 2016, quando escrevi este trecho.  
                                   Foto : Grace Lagôa

Espero permanecer vivo e trabalhando por muito anos ainda, e torço para que possa gravar mais discos, e ter um áudio tão bom ou mesmo superá-los, mas até este momento, os três discos do Pedra, representam o melhor áudio da minha carreira, e nesse caso, agradeço de público a Renato Carneiro & Xando Zupo por me proporcionarem isso.  
                                    Foto : Grace Lagôa

Agradeço aos companheiros dessa jornada; a todas as pessoas que passaram pela nossa vida nesses anos todos por sua inestimável ajuda e torcida pelo nosso sucesso, e aos fãs que curtiram e hão de continuar curtindo muito o trabalho da banda, que na verdade está eternizado, e já é um legado ao Rock Brasileiro, e por que não (?), também à MPB; Black Music brasuca, e ao Folk em geral.

Reta final da minha história com o Pedra, falta falar das pessoas, apenas...
                                   Foto : Grace Lagôa
Continua...

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