sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 175 - Por Luiz Domingues

                                 Foto : Bolívia & Cátia

Depois do show do Bourbon Street, as atenções se voltaram para gravar uma nova leva de canções, finalmente, e finalizar o disco iniciado em 2009, e interrompido em 2011.

Mas antes disso, uma nova solicitação de entrevista para um Blog de Rock surgiu. Tratava-se do Blog Rock Imortal, gerido pelo mesmo editor do Blog Planet Polêmica, onde eu era colaborador desde 2011. 

Tal boa entrevista, ainda que bem curtinha, saiu em maio de 2013, portanto, um pouco antes da banda entrar em estúdio para finalizar a gravação do disco empacado.

Eis o Link para lê-la :

http://rockimortal.blogspot.com.br/2013/05/entrevista-com-banda-pedra_8.html
                                   Foto : Thomas Lagôa

Foi no mês de junho que o Xando se mobilizou, para abrir uma brecha no seu estúdio em relação aos clientes que o usavam, e reservou algumas datas para nós podermos realizar esse esforço de gravação.

Nessa altura, tínhamos muitas músicas novas para gravar e num dado instante, chegou-se a cogitar o lançamento de um álbum duplo, tamanha a quantidade de músicas compostas, e a maioria já arranjadas e prontas para gravar.  
                                   Foto : Grace Lagôa

Da parte do Xando, ele queria aproveitar algumas que compusera no hiato que o Pedra teve em 2011. Uma se chamava "Furos nos Sapatos", um Hard Rock bastante vigoroso e que segundo nos dizia, a letra tinha grande significado pessoal para ele. Sinceramente, nunca soube a razão por esse apreço especial em relação à essa letra, mas o próprio Ivan confirmou-me isso várias vezes, mas nunca me contaram a real motivação disso.

Portanto, deixo o convite ao ouvinte, que use a sua imaginação para tentar buscar a razão disso ou aguardemos que o Xando venha a público um dia e esclareça essa questão.
                                    Foto : Grace Lagôa

Outra que ele demonstrava ter muito apreço pessoal se chamava "Queimarás no Inferno". Curti ouvir a gravação que ele fizera com Ivan e Marcião Gonçalves pilotando o baixo, em 2011. Mas claro que quando começamos a ensaiar, criei minha própria linha. Acho até que a linha de baixo do Marcião é melhor que a minha, mas não teria cabimento subtrair suas ideias, portanto, quando a gravei, coloquei a minha identidade, aliás, o mesmo caso de "Furos nos Sapatos", que ele também havia gravado antes, provavelmente como material da banda que criaram, o Mulad Trem.

Agora que o Pedra havia voltado, o Xando quis reaproveitar tais canções para o nosso trabalho e de fato, elas tinham potencial e muita qualidade para encaixarem-se na nossa obra.
Acima, a versão solo de Xando Zupo para "Queimarás no Inferno", lançada em 2016

Todavia, "Queimarás no Inferno" foi descartada na época, e recentemente (2016), o Xando a lançou em caráter solo, com Ivan Scartezini na bateria e agora acrescentando convidados especiais, caso do saxofonista superb, André Knobl; o histórico Norton Lagôa no baixo, e Fernando Janson no vocal.

Havia uma terceira música nessas mesmas condições, mas o Xando, após alguns ensaios, a suprimiu do repertório, alegando ter dúvida de que ela tivesse clima igual às demais do Pedra.  
"Não há Nenhuma Paz", a canção descartada para o repertório do Pedra, mas que Xando lançou em caráter de carreira solo em 2016.


De fato, era uma canção híbrida, parecendo um Hard-Rock acelerado, quase no limiar do Heavy-Metal, e que em sua parte C, mudava completamente. Justamente essa parte era a que eu mais curtia, por ser bastante R'n'B sessentista, portanto, abria um campo excepcional para o baixo swingar fortemente com meu lado "Motown" me impelindo para esse desfecho.

Uma pena portanto, que ele tenha resolvido descartá-la, pelo aspecto musical, pois pelo teor da letra, essa, e a anterior que citei "Queimarás no Inferno, também, são absolutamente antagônicas aos meus ideais pessoais. Indo além, escancaram a grande diferença de mentalidade que sempre tive com o Xando, explicando claramente o desconforto velado que sempre tivemos um em relação ao outro em trabalharmos juntos, e curioso, nos respeitamos e gostamos um do outro como pessoas, mas a grande diferença sempre foi no campo estético/cultural.

Na mesma medida em que ele abomina o movimento Hippie; a contracultura; o Flower Power, todo o ativismo pacifista dos sixties; e o Drop out hippie, eu detesto o antagonismo da visão oitentista : cinzenta; bélica; rude; agressiva; antimusical; pessimista; blasé; cheia de soberba e não solidária etc etc.

As duas canções que ele lançou agora em 2016 são ótimas, super bem tocadas e arranjadas, com excepcionais participações e áudio exemplar. Posso até afirmar que as curto e é verdade, pelo aspecto meramente musical, mas o teor das letras; a mentalidade expressa; e até o título de ambas, em caráter explícito a afirmar com todas as letras a expectativa de vida sob o ângulo do desolador colapso humano, me desagradam frontalmente, portanto, pensando nesse aspecto, ainda bem que não entraram no disco do Pedra, e eu não esteja envolvido com tais mensagens desagradáveis para o meu gosto.

Haviam duas canções que eram da leva de 2010, mas que apesar de bastante ensaiadas, não foram gravadas na época, portanto ficando engavetadas. Uma se chamava "Segunda-Feira", e a outra, "Luz da Nova Canção".

Essa "Segunda-Feira" parecia um R'n'B mais modernoso, anos noventa para frente, e tinha muito do estilo do Jamiroquai. Eu curtia tocá-la, pelo sabor funkeado que possuía.

E "Luz da Nova Canção", que eu reputo ser uma das mais belas composições que o Rodrigo já compôs na sua carreira, e considere-se que ao comparar com o que ele fez para o Sidharta; Patrulha do Espaço e o próprio Pedra, realmente é inacreditável a qualidade de sua criação.  

Uma balada fortemente influenciada pelo R'n'B cinquenta-sessentista, com toque Beatle acentuado, trata-se de uma canção que emociona e se fosse composta por Ray Charles, teria sido muito natural, também...

Rodrigo não só compôs uma pequena obra-prima, como a arranjou nos "conformes" das tradições vintage, portanto, tinha tudo para ser uma das melhores faixas do disco e ao vivo, já estava incorporada no set list dos shows, desde a volta da banda em 2012, arrancando elogios rasgados das pessoas.

A letra é do parceiro e amigo Cezar de Mercês, que nos brindou com uma poesia à altura da canção. Gosto muito das imagens inspiradas dessa letra e a frase de onde se extraiu o título da música, é a meu ver, muito inspiradora : "Luz da Nova Canção". Chega a ser profético, para quem se liga em esoterismo.

Outra canção que demorou para decidirmos gravar, foi "Abstrato Concreto". Essa música tem uma longa história.  
                       Luiz Domingues & Rodrigo Hid, 1996

Quando o projeto do Sidharta começou a avançar, ainda em 1997, tal canção foi a primeira que surgiu no esforço para dar início ao trabalho de criação. Era uma canção que eu compus no violão, levando-a para as primeiras reuniões de criação. Começamos a ensaia-la numa primeira abordagem que eu a imaginara, com forte influência de Soul Music sessentista. Tanto foi assim, que antes de ganhar letra e ter um título oficial, ela foi apelidada entre nós como "Jackson Five", fazendo alusão ao estilo dessa grande banda negra.


Nós a ensaiamos assim por alguns meses, mas percebendo que não estava 100% do jeito que a queríamos, radicalizamos, fazendo uma mudança drástica nela. O Rodrigo acrescentou uma cadência harmônica antes inexistente e sugeriu que usássemos uma letra escrita pelo seu pai, Tufi Hid, nos idos de 1974, chamada "Abstrato Concreto".
                                    Rodrigo & Tufi Hid

Curtimos as mudanças e a letra, fazendo um jogo de palavras muito interessante e de certa forma evocando a loucura como percepção, ou seja, era "muito anos setenta" e encaixava-se como uma luva para o nosso projeto que buscava fortemente os signos retrô para o trabalho dessa banda.

Com tais mudanças, a música ficou parecendo muito mais Beatles, doravante, ficando muito legal.

O Sidharta fundiu-se à Patrulha do Espaço, mas no frigir dos ovos, das 23 músicas que levamos para serem aproveitadas pela Patrulha, dez ficaram de fora dos planos iniciais, e essa foi uma delas.

Foi quando da volta do Pedra em 2012, que o Rodrigo sugeriu a incorporação dessa canção que era nossa em parceria e contando com a letra do seu pai. Eu aceitei a ideia na hora.

Mas conhecendo o Xando como conhecíamos, aquele arranjo Beatle todo inspirado em Strawberry Fields Forever encontraria nela a sua resistência natural e daí, o Rodrigo fez uma terceira modificação na sua concepção e ela ficou muito parecida com o trabalho do Terço, que me agradou muito, e aos demais numa primeira impressão.

Mas o tempo foi passando e o Xando foi mudando de ideia. Aquela "cara prog" que a canção ganhara o incomodava, e quando ela já estava para ser descartada, o Rodrigo teve um lampejo de criatividade e começou a improvisar um piano ultra R'n'B sessentista, num balanço incrível, e daí surgiu o formato de Abstrato Concreto como foi gravada enfim, e que tem a cara do Joe Cocker, e se ele a tivesse conhecido, fatalmente a incluiria nos seus discos do final dos anos sessenta / início dos setenta.

Parecendo uma canção do "Mad Dogs and the English Men", só falta mesmo a voz do Cocker a conduzindo, com aquela rouquidão e dramaticidade, à beira de um ataque epilético.

Outra canção que o Rodrigo nos mostrou, parecia um Blues-Rock numa primeira instância. Nós a arranjamos nesses termos, mas com o decorrer dos ensaios, uma parte "C" foi incorporada e aquele looping criado ficou tão impressionantemente progressivo e esotérico, que é puro Yes. Ficou belíssima, e se chama "Siga o Sol".

Rodrigo tinha outro tema progressivo, muito bom, mas que se desdobrava em canção pop, o que era inusitado. Tal ideia era uma que queria ter gravado num disco solo que planejara lançar em 2004, assim que deixou a Patrulha do Espaço, mas como entrou no Pedra, tal projeto engavetou-se.

Foi objeto de muitas discussões, pois o Xando oferecia enorme resistência em gravá-la, alegando que não que fosse contra temas progressivos, mas que achava inviável comercialmente em pleno 2013, conceber tal peça cheia de partes e enorme introdução cheia de virtuosismos. Raciocinando como um produtor de gravadora major, tinha razão, mas como o que fazíamos ali era arte e não produto de consumo para colocar na gôndola de um supermercado, eu e Rodrigo, principalmente insistimos em incluí-la no álbum.

Sem título definido, ela ganhou um apelido pejorativo que até o Rodrigo aceitou na boa, como brincadeira, mas eu não gostava nem um pouco, pois era nítida a carga de desdém inerente e isso me entristecia.

No bojo de 12 a 15 canções de um disco, que malefício poderia ter um tema progressivo ? OK, essa provavelmente nunca tocaria numa emissora de rádio, mas era belíssima e mostrava a banda numa sofisticação instrumental sem igual, portanto, na minha concepção, teria que ser gravada e inserida no disco sem discussão, mas a julgar pelo apelido que ganhou, eu novamente era um opinante derrotado em 3 x 1, como se tornou o modus operandi dessa banda em relação à minha participação nela.

Mas, ela acabou sendo gravada, embora descartada quando o álbum virtual foi lançado, infelizmente.
          Compositor, cantor e instrumentista, Chico Teixeira

Outra canção que o Rodrigo tinha em mãos e na verdade estava gravada desde 2010, se chamava "A Cara da Gente". Tratava-se de uma canção com forte apelo Folk e marca Beatle. Eu curtia a canção, o arranjo e a linha de baixo que criei. Mas o Xando tinha forte rejeição por ela desde que fora gravada em 2010. Rodrigo a curtia muito, e a letra era de seu amigo, Chico Teixeira, filho do compositor Renato Teixeira.

Xando não curtia a letra e também não apreciava a canção. No quesito letras, o Xando adotava postura de mão de ferro, e se não passasse em 100 % do seu crivo, e entenda-se isso não como critério literário, mas muito mais por uma questão de linguagem, baseada em seus signos oitentistas, onde as referências mais recorrentes de seu imaginário eram Lobão e Cazuza, dificilmente ele aceitava letras vindas de outros membros, onde não identificasse tais similaridades com seu espectro de entendimento, emoção e meio de expressão.

E no caso dessa letra do Chico Teixeira, ele não a aceitava e portanto, sua intenção não era incluí-la de forma alguma, e somente pela insistência do Rodrigo que a bancava e com meu apoio, ela foi ficando até que na guilhotina final, fosse descartada.

Mesmo caso de uma canção gravada também em 2010, e que ficara ótima, revelando-se um Hard Rock zeppeliniano, cheio de climas, com muito órgão Hammond, parecendo uma peça do Led Zeppelin III, pronta para explodir.

Era uma canção do próprio Xando; seu arranjo ficara ótimo e a gravação, idem. Mas ele tentara escrever uma letra para fechá-la e pelo menos cinco tentativas redundaram em fracasso, com ele mesmo descartando-as.

Sou escritor, mas não sou poeta, embora já tenha escrito letras para trabalhos anteriores, inclusive gravados oficialmente, caso de discos da Chave do Sol e da Patrulha do Espaço. 

Meu negócio é escrever crônicas; resenhas & matérias de cunho jornalístico, eminentemente, mas observando que tal música corria risco de ser descartada pela falta de uma letra, pedi uma gravação da canção e mediante a melodia entoada pelo Rodrigo, escrevi uma letra. Tal canção passou  a se chamar "Ultrapasso" e tinha um forte apelo libertário, questionando as convenções da sociedade, mas sem ficar piegas e/ou panfletária, na minha ótica.

Lembra de certa forma o "Homem Carbono" da Patrulha do Espaço, pelo caráter de libelo, mas creio ter ficado imune à pieguice, assim como "Homem Carbono".

Infelizmente, essa também foi descartada pelo Xando, que alegou não ter curtido a interpretação do Rodrigo quando este gravou a voz oficial. Espero que o Xando reconsidere e lance-a no futuro, pois trata-se de uma bela canção e não merece morrer engavetada. Mesmo que descarte a voz do Rodrigo; também a minha letra, e a lance com outra versão.

Haviam também muitas vinhetas, que sinalizavam ideias a serem desenvolvidas como músicas, igualmente. Com o tempo passando, chegamos à conclusão de que tais vinhetas poderiam ser gravadas nesse formato mesmo.  

Uma delas, parecia um country-Rock bem na praia da Sheryl Crow, com forte apelo pop também. Curtimos muito gravá-la, e teria só um vocal que repetiria a palavra "Xi", fazendo uma brincadeira com as duas línguas, português e inglês, simulando "She".

Ficou muito legal essa gravação, e eu lamento que o Xando a tenha descartado na hora H. Espero que a lance um dia. Tem uma duração ínfima, sendo tratada como vinheta, mesmo. Seu swing é sensacional, e o arranjo destacando um slide bem caipira americano, é ótimo.

Uma outra vinheta era uma ideia que o Rodrigo havia trazido para a banda desenvolver uma música no estilo do Funk-Rock setentista. Tal esboço inicial ele desenvolvera para compor uma música com o saudoso cantor/ator/letrista e compositor, Paulo de Tharso, ex-companheiro do Xando na banda Big Balls.

Mas como acabou não concretizando a parceria entre ambos, Rodrigo trouxe a ideia para nós, mas após poucas tentativas, o Xando alegou não ter curtido-a por ser clichê demais. Mas eu não me conformei com esse descarte assim tão fácil, e numa ocasião posterior, a sugeri como vinheta, introduzindo uma locução ao estilo dos seriados policiais americanos de TV, dos anos setenta e nesse sentido, o tema criado pelo Rodrigo nos teclados era perfeito, pois parecia tema de abertura do Kojak; Baretta, Starsky & Hutch e tantos outros seriados setentistas, usando e abusando do Funk Rock cheio de swing, para dar clima de urbanidade total.

Eu mesmo gravei a locução, aproveitando o fato de ter uma voz muito grave, ao estilo dos locutores de rádio de antigamente, com aquela impostação formal ao estilo "Cid Moreira" etc etc.

Outra vinheta que estava cotada para entrar no disco, era uma brincadeira remota que havíamos gravado num ensaio, em 2009 ou 2010, não me lembro ao certo. 

Tal ideia surgiu quando falávamos sobre a extrema ruindade das bandas oriundas da cena "indie" quando de brincadeira e improviso total, o Xando puxou um riff grotesco evocando o Punk Rock e todos foram atrás, tocando cada um o pior possível para imitar a incapacidade atroz desses seguidores eternos de Malcolm Mclaren, e o Xando improvisou uma letra absurda em inglês.

Isso motivou o ultrajante título de "Dad's Cum", e prefiro não traduzir, mas quem entende inglês pode deduzir pelo título ultrajante, a "punkice" que isso era...

Por muito tempo, a ideia dessa gravação de ensaio, tosca, sem tratamento sonoro algum, e com todo mundo tocando mal de propósito, seria que fosse lançada como single de internet, para causar um rebuliço.Teria sido algo muito louco, pois os fãs da banda não entenderiam o propósito disso, mas nas entrelinhas, teria sido uma forma de ironizar a formação de opinião dos marqueteiros, há décadas incensando bandas horríveis que fazem esse tipo de som, como se isso fosse artístico. Seria uma forma divertida de desmascarar a desfaçatez desses malditos inescrupulosos, pois o que diriam diante de algo que geralmente diziam ser "legal" ? 

Se nos malhassem, ou se nos exaltassem, seria a queda da máscara desses crápulas, pelas duas hipóteses.  

Claro que ríamos muito ouvindo essa coisa horrorosa, e a ideia de lançar parecia um ato artístico corajoso até, mas no frigir dos ovos, ponderamos também que sem apoio por trás, mesmo fazendo algumas máscaras caírem, o poder mainstream trataria de abafar o caso, e nosso "manifesto" teria efeito de um mísero "traque", diante da bomba atômica que gostaríamos que fosse detonada.

Contudo, quando o disco começou a ser finalizado em junho de 2013, com a banda entrando em estúdio para gravar a nova leva de canções, a ideia de lançar "Dad's Cum", com aquela gravação tosca de ensaio em meio à canções sérias e bem gravadas, ganhou força novamente.

Quando o disco foi lançado em 2015, tal abominação não constava do repertório inserido nele. De fato, com a banda desmantelada e lançando o disco sem alarde, não fazia sentido ter essa peça para causar provocações, e se tivesse entrado, não seria entendida por ninguém, passando a pecha de uma coisa extremamente tola. Portanto, fez bem o Xando em não inclui-la.

Outras quatro ou cinco músicas foram descartadas, não chegando nem a serem arranjadas definitivamente. Gostava de um Blues-Rock que o Rodrigo havia proposto, que lembrava muito o Humble Pie, e uma com forte apelo nordestino, esta ainda da safra de 2010, que era total Pepeu Gomes/ A Cor do Som. Uma pena que não seguiram adiante.

Sobre o início das gravações da bateria, lembro-me que ocorreram bem no início das manifestações de rua de 2013. Todos estavam eufóricos com as imagens que vinham da TV e nos intervalos da gravação, corríamos para ver as notícias que não paravam de mostrar cenas absurdas vindas de São Paulo, Rio e Brasília, principalmente. A Internet também estava "bombando" de notícias e o mundo parecia estar virando de cabeça para baixo.

Tudo bem, não era só pelos R$ 0,20 de aumento da passagem dos ônibus e metrô em São Paulo, mas espalhara-se, denotando insatisfação generalizada. Todos estavam eufóricos, menos eu que via com tristeza tais cenas, porque aos meus olhos estava patente que haviam manipulações claras a insuflar a massa, e o que parecia ser a "legítima demonstração de  insatisfação do povo brasileiro", vendo aquela cambada de vândalos quebrando tudo, era óbvio que informação e contra informação se digladiavam nas mesas dos marqueteiros e o povo, mais uma vez estava fazendo papel de palhaço.

Mas calei-me, claro, para não me fazer mal compreendido pelos colegas.

Nesse calor dos acontecimentos, parecendo que o mundo viraria de cabeça para baixo naquela noite inicial das "manifestações", surgiu a ideia de que o nosso disco tinha semelhança com essa "revolução", pelo fato dele estar sendo preparado desde 2009, com direito a interrupção e portanto, sendo muito caótico em sua concepção. Daí, a palavra "Fuzuê" surgiu, e o Xando a adorou.

Não tenho nada contra o conceito e o nome, mas o que eu achava daquela manifestação popular inicial, continuo achando hoje, ou seja, a óbvia constatação que setores ultra radicais da direita e da esquerda manipularam a opinião pública na tentativa de perpetrar revolução e contra revolução ao mesmo tempo, portanto, o mundo virando de cabeça para baixo como pensavam, não viraria absolutamente nada, exatamente como eu imaginei na hora, mas guardando a minha opinião internamente para não ser estigmatizado como "chato" e até mesmo "incauto", visto que até tentativa de incendiar o Palácio do Planalto ocorreu naquela noite, com transmissão ao vivo pela mídia, calei-me...

"Água", como se diz no jogo de batalha naval, portanto, ao indagarem-me se eu não percebia que algo muito grande estava acontecendo, talvez querendo denotar estupefação diante de algo tão "gritante" e ao me verem com semblante triste ao invés de estar eufórico, de certa forma mostrava como a sintonia minha com essa banda não existia mais, e talvez nunca tenha existido, na essência.

O tempo passou, vieram mais manifestações, mais barulho, mais Black Blocks, e a ameaça de que o mundo iria explodir a cada novo raiar do sol...mas o tal fuzuê no país não se concretizou, e digo com tristeza que infelizmente, nem o nosso Fuzuê aconteceu...

Continua...

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