sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 159 - Por Luiz Domingues


Muito contente sobre a abordagem alvissareira da parte dessa velha amiga e produtora, marcamos um encontro em seu escritório, localizado na Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo.

Não era um escritório exclusivo, mas de uma produtora de vídeo, onde ela trabalhava naquela atualidade, como diretora. Tal empresa costumava realizar trabalhos para duplas sertanejas emergentes, e minha amiga trabalhava ali por ter adquirido experiência em lidar com esse espectro de artistas popularescos, visto ter atuado por anos em gravadora major, e lidando com esse tipo de artista.  
A grande produtora Cida Ayres, pessoa que admiro e pela qual tenho gratidão em minha carreira


Tal pessoa era uma produtora e amiga que muito admirava, chamada Cida Ayres. 


Sou o primeiro da direita para a esquerda, usando chapéu de cowboy, nessa foto do Língua de Trapo publicada num jornal em 1984, época em que Cida era nosso "anjo da guarda"

Minha lembrança da Cida era a melhor possível, pelo fato dela ter sido uma produtora de enorme capacidade, com muito "jogo de cintura" para resolver inúmeros problemas do cotidiano da banda, com uma criatividade e boa vontade, exemplares, quando a conheci por ocasião da minha segunda passagem pelo Língua de Trapo, entre 1983 e 1984.

Além disso, na ocasião ela simpatizou com minha outra banda, A Chave do Sol e muito nos auxiliou, dando dicas preciosas e até interagindo pessoalmente em muitas ocasiões, nos facilitando contatos preciosos na mídia e no mundo empresarial.

Cida Ayres era o braço direito do empresário Jerome Vonk, e era nítido o quanto trabalhando em dupla, funcionavam bem em favor do Língua de Trapo, dessa forma, reitero o que já disse no capítulo dessa banda, ou seja, os agradeço muito por isso.

Portanto, tantos anos depois, não tendo visto outros trabalhos que fiz nesse ínterim, foi muito gratificante para mim, que Cida me redescobrisse e numa banda que tinha um espectro artístico com potencial para flertar com o mainstream, além da substância musical; poética e categoria e experiência de seus componentes, individualmente falando.

Cida me conhecera muito jovem, e agora eu tinha um acúmulo de experiência enorme, com então 14 discos lançados no mercado e meu portfólio pessoal tornara-se gigante.

Portanto, muito animei-me com esse contato, evidentemente.  
Still do vídeo-clip de "Régui Spiritual", do Língua de Trapo, filmado em 1984. Sou o primeiro à esquerda

Quando lá cheguei, nos confraternizamos, conversando sobre os velhos tempos do Língua de Trapo e A Chave do Sol, naturalmente, mas ela também me contou sobre os anos e anos que trabalhou em gravadora major e a experiência que acumulou sendo assessora de artistas mainstream do mundo sertanejo, dirigindo pessoalmente a construção de carreira desses artistas.

Confirmou portanto, o que eu já intuía, dando conta de que salvo raras exceções, a maioria desses artistas populares, construídos por grande empresários e com respaldo de gravadoras major, tinham baixo nível educacional e cultural, portanto lhe deram trabalho muito grande em sua "construção de carreira".

Sobre o Pedra, nesse contato inicial, ela me explicou bem que desde que havia deixado uma gravadora major, não trabalhava mais diretamente com música, e que agora nessa produtora de vídeo, seu contato era mais indireto, tratando de administrar o negócio, apenas no campo das negociações com o staff de artistas que os procuravam, visando filmarem vídeo-clips, e ou DVD de shows ao vivo.

Mas pensaria em ajudar o Pedra, certamente. Deixei-lhe material de portfólio, e os dois álbuns da banda, naturalmente. 

Lhe falei também que uma pessoa amiga da banda estava tentando inserir-se no mercado como produtora, ajudando-nos. Era Cida Cunha, que nos auxiliara por ocasião de nosso show no Sesc Vila Mariana em maio último, e agora estava tentando arrumar-nos novas oportunidades nessa instituição, visitando várias unidades dela, entregando nosso material na mão de produtores artísticos dessa instituição.  
No estúdio da Net Cidade, acompanhando a filmagem do Pedra para o programa "Music All", Cida Cunha à direita e Fausto, o fã fidelíssimo, à esquerda. E o que ele segura em sua mão, não é o que parece...

Pensando que Cida Cunha não tinha experiência alguma como "agente", mas demonstrava uma força de vontade extraordinária para tentar cumprir tal missão e nos auxiliar, perguntei para sua xará, Cida Ayres, se ela não se importava que eu a levasse na próxima reunião que teríamos dias depois, para ela lhe dar algumas dicas.

E assim, alguns dias depois, lá estávamos nós, Cida Cunha e eu, diante da amiga Cida Ayres, em seu escritório.

Cida Ayres me disse que gostara dos discos, mas achava difícil pleitearmos espaço no mundo mainstream com esse material. 

Experiente nessa altura do campeonato, tal afirmação não me surpreendeu, é claro. Fazia tempo, muito tempo que a difusão mainstream estava circunscrita ao mundo brega como monopólio total e artistas como nós, 100% antagônicos ao tipo de artistas que professavam tal ditame, não tinham chance alguma.  

Mas, qualquer brecha, mínima que fosse, seria bem vinda e nós tínhamos músicas no nosso repertório que poderiam ser absorvidas tranquilamente no mundo mainstream. Músicas como "Sou Mais Feliz"; "Nossos Dias"; "Meu Mundo é Seu"; "Amanhã de Sonho"; "Só", e até a versão de "Cuide-se Bem" (considerando-se ser "pesada" em relação à versão original do Guilherme), eram exemplos disso.

Então, sendo muito generosa, Cida Ayres apanhou sua agenda pessoal e deu vários telefonemas na nossa frente, para contatos muito fortes que tinha nos bastidores de programas de rádio e TV mainstream, e usando de sua influência, falando com pessoas que lideravam tais produções, apresentado o Pedra como uma banda que ela recomendava com ênfase etc etc.  

Saímos do escritório com vários endereços anotados para enviar material pelo correio, direcionados diretamente para os contatos de Cida Ayres, e claro que nos animamos. Um só desses programas que nos desse uma chance, teria sido uma oportunidade de ouro para ter uma exibição mainstream off-jabá, e isso teria sido extraordinário como ajuda.

Claro que eu sabia que a difusão cultural mainstream estava toda comprometida há anos, pela máfia do jabá. Contudo, nutri uma mínima esperança de que através de uma produtora como Cida Ayres, que tinha contatos sólidos nesses bastidores, ao menos uma pequena brecha surgisse, baseado na relação de prestígio pessoal que ela mantinha com tais produções.

E havíamos tido um pálido exemplo disso, quando ainda em 2010, um E-mail vindo da Rede Globo nos sondou sobre a possibilidade da música "Sou mais Feliz" fazer parte de uma trilha sonora de uma novela nova que estavam preparando. O iluminador Wagner Molina havia entregue nosso material nas mãos de produtores da Globo, lá no Rio de janeiro, e daí o contato feito.

Chegaram a nos enviar minuta de contrato e um manual de regras da sua corporação, como por exemplo, a obrigatoriedade de regravarmos a música em estúdio estipulado por eles e produtor musical opinando no arranjo e áudio; além de deixar claro que fariam versões incidentais de trechos da canção para serem usados em ocasiões diferentes nos capítulos da novela, e o regulamento sobre os direitos do fonograma, para entrar nos CD's oficiais a serem comercializados com a trilha da novela.

Nos deixaram claro que era só um aviso prévio, e que outras quatro canções estavam sendo analisadas simultaneamente. Nunca mais nos mandaram E-mails e deduzimos que escolheram outra canção, naturalmente.

Mas ficou-nos essa impressão, ou seja, sim, estava tudo dominado pela máfia, mas haviam brechas mínimas ainda para outsiders, portanto, de minha parte, achei que algum contato da Cida, baseado em seu prestígio pessoal com essas pessoas, frutificaria. E haviam nesse bojo, contatos peso-pesados como o "Programa do Jô" e o "Altas Horas", do Serginho Groisman, entre outros. 

Mandamos o material pelo correio...mas nenhuma resposta veio...

Isento a Cida Ayres desse fracasso, é claro, afinal de contas não era novidade alguma que a difusão cultural mainstream estava comprometida pelo odioso "pedágio do jabá"...

Uma última ação de boa vontade da parte da Cida Ayres, se deu quando percebi que ele se frustrara também pelos seus contatos nos ignorarem retumbantemente. Numa última reunião, em que a visitei no seu escritório, ainda em 2010, ela mudou o tom da conversa e ficou me falando sobre gestão de carreira, experiência que adquirira cuidando da imagem de duplas sertanejas numa grande gravadora major, em que trabalhara nos anos noventa.

Pelo teor da conversa, onde me falava sobre como duplas sertanejas emergentes ficavam excitadas por saírem de remotas cidades interioranas, notadamente do estado de Goiás, para tomar "banho de loja e cabeleireiro" em São Paulo, geralmente bancadas por mecenas, fazendeiros e industriais ricos desse estado citado, notei que sua intenção era dar mensagens subliminares sobre o Pedra e a minha figura em si.

Tudo o que observava era extremamente realista e sua intenção era a melhor possível em achar que estava me "abrindo os olhos", mas ao mesmo tempo, eu sabia disso, há anos e minha / nossa arte não era feita para atender tais propósitos nada nobres.

Nessa hora, vi também que ela estava contaminada por uma visão da música, sob o ponto de vista mais mercadológico e distante da arte possível, fruto de anos e anos de contato com gente dessa mentalidade ou seja, gente que aposta só no popularesco como material artístico a ser difundido e sobretudo, sem nenhuma preocupação com arte, tratando a música como produto barato de gôndola de supermercado. Portanto, gerir carreira, passa ao largo de se preocupar com a música em si, mas sim levar ex-boias-frias ao estrelato, "construindo suas carreiras" baseados em ternos caros das lojas de luxo da Rua Oscar Freire, tão somente.

Nesse parâmetro, é claro que o Pedra não tinha perfil para se encaixar nem em 1%, e ainda pensando nesses termos, vendo pelo meu estado naquele instante, caminhando para os cinquenta anos de idade; com o cabelo e a barba ficando grisalhos; barriguinha proeminente...em suma, aspecto de "tiozinho", batia ipsis litteris com a experiência que eu tivera poucos anos antes, quando uma produtora da Rádio Gazeta FM, e totalmente dentro dessa mesma mentalidade, falou-me que não acreditou que eu fosse artista, mas pensou que eu estava ali como empresário de um artista brega qualquer...  

Resumindo : BB King não teria chances com essa gente, e que se dane a música...

Bem, pessoa boníssima, Cida ainda tentou dar uma mão, alegando que queria conhecer a banda inteira, e levar um papo conosco. Sua última cartada seria nos apresentar ao produtor Liminha, para tentar nos ajudar.


Não falei nada, mas a despeito de respeitar muito o Liminha como músico e produtor, sabia também que sua cabeça estava feita pelo sistema desde o fim dos anos setenta, e ele não aguentaria ouvir nem dez segundos de qualquer música nossa, mesmo as que considerávamos mais "pop", na nossa concepção, que certamente era muito diferente da visão dele...

Num gesto de boa vontade mútua, marcamos um encontro no estúdio Overdrive, mas ela não foi, simplesmente. Isso aconteceu no início de dezembro.  

Acho que sua consciência lhe disse que seria inútil tentar ajudar uma banda que na sua concepção tinha uma obra, imagem e mentalidade tão distante das condições mínimas que se espera de um artista que pleiteia o mainstream, que não valeria a pena nos tentar persuadir disso, levando em conta que éramos homens maduros, e no meu caso, já caminhando para a terceira idade...

De nossa parte, nós não tínhamos nenhuma ilusão a respeito. Apenas achávamos que poderia haver uma pequena brecha para nós e isso poderia nos ajudar a ter um pouquinho mais de exposição para entrar de vez no circuito de shows no Sesc, mas sem sonhar com a fama popularesca, tocando para multidões de 50 mil pessoas em festas de rodeios agropecuários, como esses aspirantes a famosos de duplas sertanejas sonham, costumeiramente.

Bem, o fato dela não ter ido nos visitar no final de 2010, em nada abalou a minha admiração e gratidão por tudo o que ela fez de bom para a minha carreira nos tempos de Língua de Trapo e A Chave do Sol, e inclusive essa boa vontade em ter tentado ajudar o Pedra.

Sou muito grato à Cida Ayres, por ter tido esse gesto também com o Pedra, tantos anos depois.
Continua...

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