domingo, 24 de janeiro de 2016

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 162 - Por Luiz Domingues

2011 amanheceu no horizonte, e no dia combinado para a retomada das atividades da banda, eu cheguei e toquei a campainha da residência do Xando, quando estranhei seu semblante, que estava denunciando algo estranho.

Quando lhe disse : -"boa tarde, está tudo bem" ? Ele sorriu e sua expressão era quase de comiseração, mas ao mesmo tempo, de um indisfarçável alívio. Fiquei atônito, não compreendendo e nessa altura, estava mesmo absolutamente alheio ao que ocorreria.

Ele respondeu que os demais já estavam ali e que logo eu saberia o que estava ocorrendo.

Quando entrei, vi que todos estavam alegres, como se algo bom tivesse ocorrido e só faltava eu, para tomar conhecimento da notícia supostamente positiva.

Foi quando o Xando tomou a palavra e enumerando suas insatisfações pessoais com os rumos da banda e posturas de todos em relação à isso, anunciou-me que haviam decidido encerrar as atividades da banda, cansado que estava e de comum acordo com Hid e Scartezini.

Fiquei bastante surpreendido, pois mesmo sabendo que a banda vivia numa gangorra emocional desde 2007, na minha concepção, as insatisfações pessoais jamais poderiam suplantar a nossa obra, e se havia uma coisa que era impecável na nossa relação, era justamente o resultado artístico que criamos nesses anos todos.

Mas a cada tentativa de argumentação minha nesse sentido, Xando, e com intervenções dos demais, foram rebatendo meus apelos para que não se tomasse essa resolução naquele instante.

Mesmo superando o choque inicial pela notícia, e acrescento que fiquei também bastante chateado por estar sendo comunicado por último, e com a nítida sensação de que os três já haviam decidido isso bem antes, pela sensação que tive ao vê-los altivos, sem nenhuma comoção, e pelo contrário, aparentando alívio e felicidade pela decisão tomada.

Fiquei portanto, duplamente chateado, pois mesmo cônscio que o clima interno na banda não era dos melhores e haviam diferenças de mentalidade e até de apreço cultural muito acentuadas, principalmente entre eu e Xando, achava que tudo era superável, e a obra suplantava tudo.

Consegui ao final da conversa, pedir-lhes uns dias para ponderarem sobre tal decisão, e o Xando no seu afã típico de querer anunciar publicamente o final o quanto antes na internet, acabou cedendo e uma outra reunião foi marcada para poucos dias depois.

Hoje, sei que essa postergação foi absolutamente inútil, pois a decisão estava tomada de forma irreversível da parte dos três, e talvez tenham ficado com "pena" de mim para aceitar simular que pensariam. 
Eu não estava nem um pouco preocupado com minha situação pessoal, pois o Pedra não era vital para a minha manutenção pessoal e pelo contrário, era uma banda deficitária pela agenda fraca que sempre teve, e seu merchandising também era inócuo. Não era essa a questão.

Apenas fiquei muito chateado de deixar a banda finalizar sua carreira com um disco inacabado, dando-nos uma sensação de derrota, desnecessária a meu ver, pois se havia desgaste e isso havia mesmo, bastaria tirarmos férias da banda por um tempo indeterminado, com cada um buscando novos rumos, mas sem necessariamente anunciar um final nas redes sociais. Minha maior bronca era essa naquele momento.

Mas acrescento mais uma, não nego, também por ter me sentido preterido na decisão tomada de acabar com a banda, pois ficou nítido para mim que os demais já haviam decidido isso sem a minha presença, e quando cheguei no primeiro dia de 2011 para retomar os ensaios, eles estavam decididos, altivos e exibindo uma alegria que denotava alívio, que contrastou com minha surpresa, e choque pela notícia que me deram, e sobretudo por ser algo irreversível entre os três, descartando qualquer contra argumentação de minha parte, portanto, fiquei chateado.

Bem, na segunda reunião convocada, eu já cheguei sem esperança alguma de que meus argumentos fossem levados em consideração e ao reafirmarem sua decisão, desta vez não fiquei surpreendido, e mais conversamos sobre questões técnicas a respeito dessa decisão, sobre o site, discos que sobraram no estoque etc.

Mesmo conformado, ainda não estava satisfeito como eles, pois achava um erro anunciar fim oficialmente. Tudo bem cada um partir para o seu caminho, mas na minha concepção, a banda tirar férias e teoricamente se manter "viva" não era diferente da situação que enfrentávamos desde 2007, com longos períodos de escassez de apresentações ao vivo.

Portanto, se aparecesse uma oportunidade, era só nos reagruparmos, e em dois ou três ensaios tiraríamos a ferrugem e nos colocaríamos em forma para encarar um palco. Além disso, não descartando que alguns meses depois, com a cabeça mais "fria", nada nos impediria de nos reencontrarmos para finalizar o disco inacabado.

Mas não...o Xando no seu ímpeto de tudo anunciar publicamente, estava louco para fazer isso na internet, e foi o que ocorreu.

Haviam três situações finais para resolvermos ainda. O baixista do Tomada, Marcelo Bueno, entrara com um edital da Lei Rouanet para a produção de uma micro festival a ser realizado em São Paulo, com quatro bandas : Tomada; Pedra; Carro Bomba e Baranga. 

Tal edital fora aprovado e publicado no Diário Oficial da União, mas daí a sair do papel dependia de muitos fatores. Com o fim da banda, e se ele se concretizasse, pelo fato de termos todos assinado documentos dessa licitação, não poderíamos deixar de atuar. Portanto, o Xando fez essa ressalva, e todos aceitaram tocar caso o show se confirmasse, fosse quando fosse.

Outra questão, um programa de TV Comunitária, o simpático "Em Cartaz" do Atílio Bari estava marcado para o início de fevereiro, e nos comprometemos a fazê-lo, mesmo com a banda extinta.

E havia um terceiro compromisso também há muito tempo ventilado : um show num bar chamado "Melograno", num projeto com curadoria do Laert Sarrumor, meu antigo companheiro do Língua de Trapo.

Chateado, mas resignado, aceitei o final e certamente que me coloquei à disposição da banda para os compromissos "póstumos".
Todas as fotos são de Grace Lagôa, com exceção da primeira, extraída da internet

Continua...

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