sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 130 - Por Luiz Domingues


Com um incentivo desse porte, ou seja, a oportunidade de sair numa reportagem de várias páginas na maior revista semanal do país, claro que não poderíamos perder a chance.

Dessa forma, o Xando teve a ideia ótima de contactar nosso amigo Junior Muelas, o baterista da "Estação da Luz", banda sensacional de São José do Rio Preto, e lhe propôs dois shows compartilhados no interior de São Paulo, onde Muelas tinha contatos, e poderia nos auxiliar nessa tarefa de arrumar condições mínimas para tocarmos.

A contrapartida seria a oportunidade para "A Estação da Luz" tocar conosco e mesmo sendo um dos shows em sua própria cidade, portanto onde estavam habituados a se apresentar, seria uma oportunidade bacana de fazer um show com uma banda da capital e mesmo estando no mesmo patamar de grandeza, nós tínhamos muito mais mídia agregada, e isso seria legal para eles.

E no caso de um segundo show em outra cidade interiorana, a vantagem era óbvia para as duas bandas.

Fora isso, a grande motivação mesmo seria a presença do jornalista e seu repórter fotográfico juntos conosco e que mesmo indiretamente olharia para a banda dele, também, e claro que isso animou Muelas, pensando na oportunidade que também respingaria em sua banda.

Sobre a casa onde tentaria-se fechar um show, além do Muelas ter contato com seus mandatários e costumeiramente ali se apresentar com sua banda, haviam possibilidades ótimas para nossas duas bandas.

Em primeiro lugar, tratava-se de uma casa de espetáculos atípica no interior de São Paulo, por abrir suas portas com frequência para artistas autorais off-mainstream, caso raro em se tratando da mentalidade generalizada da parte de proprietários de casas noturanas.

O segundo ponto, era que tinha uma ótima estrutura de equipamento de som e luz, portanto, dava para fazer um espetáculo de qualidade em seu palco.

E uma terceira vantagem, era que tal casa tinha uma filial em outra importante cidade interiorana, no caso, Ribeirão Preto. Portanto, a matriz de São José do Rio Preto geralmente proporcionava a possibilidade de agendar-se automaticamente um segundo show na filial de Ribeirão Preto.

Tal casa se chamava "Vila Dionísio" e além de abrir as portas para artistas do underground, tal casa também promovia shows de artistas de médio porte, e até alguns que já tinham tido espaço significativo no mundo mainstream e naqueles dias já não gozavam dessa prerrogativa.

Bem, para agendar os shows do Pedra, não seria uma negociação fácil pela obviedade de não sermos artistas militando no mainstream, portanto, convencer os dirigentes da casa usando a fortuita argumentação de que éramos uma "boa banda" e com discos "legais" e elogiados em órgãos especializados, não era garantia de nada.

E nessa altura, nem pensávamos em pleitear um cachet digno, mas estávamos convencidos de que se conseguíssemos verba para cobrir as despesas operacionais, já estava bom demais. 
Foto a esmo, não é de nossa apresentação, apenas ilustrando como era o espaço próximo ao palco

Muelas tinha consciência plena de todas as dificuldades inerentes nessa negociação e usando de seu poder de influência com os proprietários usou o argumento mais premente como cartada definitiva e logrou êxito. Ou seja, o fato de que um jornalista da Revista Veja estaria cobrindo os shows com total foco visando uma reportagem e que fatalmente as duas casas seriam citadas e retratadas em fotos, nas páginas da maior revista brasileira. 

Diante de tal perspectiva alvissareira, os dirigentes convenceram-se de que valia a pena nos contratar e assim, graças aos esforços do Xando e de Junior Muelas, que foi incisivo como agente de campo e hábil negociador.

Habemus turnê...a  fumaça branca espalhou-se no céu da Vila Mariana...faríamos dois shows no interior de São Paulo, nas cidades de São José do Rio Preto e Ribeirão Preto, compartilhando-os com a ótima banda, "Estação da Luz".

Ligamos para o jornalista Sérgio Martins, e lhe demos a boa nova que tínhamos os shows marcados e portanto, estávamos prontos para o mote de sua reportagem.

Ele já tinha viajado com uma mega estrela mainstream numa etapa de sua tour cheia de mordomias pantagruélicas; havia concluído matéria com um artista mediano e popular, no caso, o grupo de pagode "Inimigos do HP", viajando em ônibus confortável e agora teria que encarar a dureza de uma banda com infraestrutura muito aquém das que experimentara, ralando numa van com o sol a pino do verão interiorano paulista, e uma banda com equipe modestíssima de apoio etc etc...

Bem, era exatamente o que ele queria, já que a reportagem tinha como pauta expor as diferentes realidades do show business brasileiro.

Continua...

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