quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 124 - Por Luiz Domingues

O próximo show seria novamente de choque, portanto adequado para shows compartilhados com outros artistas, e nesse caso, tratava-se de um festival. Iríamos novamente tocar na Feira da Vila Pompeia, uma tradicional festa popular deste bairro simpático da zona oeste de São Paulo, costumeiramente realizado na terceira semana de maio.

O leitor mais atento há de recordar-se que ali fizéramos o nosso primeiro show, exatamente dois antes antes, portanto, haveria de ser simbólico para nós uma nova participação com tantas coisas ocorridas nesse ínterim, e apesar das dificuldades inerentes à uma banda independente do underground da música, tínhamos crescido em vários aspectos. Nessa feira, o "Palco Rock" é tradicionalmente o mais concorrido, com certa dificuldade para agendar-se uma participação, tamanha a demanda de postulantes, incluso bandas de outras cidades e estados que sabem que a Feira da Pompeia é uma vitrine para as suas aspirações. Mas tentamos uma cartada nova como estratégia e quando negociamos a nossa participação, pedimos para tocar num outro palco, destinado à atrações off-Rock, transitando entre a MPB moderna e outras vertentes, tais como a World Music; música étnica, e até artistas de tendências experimentais. Não que estivéssemos negando nossas raízes, como uma assumida banda de Rock, mas queríamos ter a chance de tocar para um público diferente, no afã de conquistar novas frentes e além disso, a concorrência era bem menor em um palco assim, pois estávamos acostumados a lidar com a dificuldade em agendar-se espaço no Palco Rock.
O lado obscuro dessa estratégia, seria o resultado prático, pois apesar da habitual bagunça que o "Palco Rock" tem na sua produção e logística, é de fato o que mais atrai público. Dessa maneira, sabíamos de antemão que não teríamos um público de milhares de pessoas como acontece todo ano no "Palco Rock", mas apostávamos na presença de um público diferente e que talvez começasse a descobrir-nos como artistas além de, seguramente, termos mais espaço para tocar, visto que a logística do "Palco Rock" é sempre tumultuada e quando o artista sobe ao palco, inexoravelmente é muito maltratado por produtores do festival que estão um num estado de "pilha de nervos" pelos atrasos, e descontam em você toda a pressão pela bagunça da qual eles são os únicos responsáveis...
Fora isso, o tempo para tocar, geralmente programado para ser meia hora para cada artista, acaba reduzindo-se com os atrasos e relembrando, quando tocamos em 2006, esperamos horas para tocar e quando subimos ao palco, tocamos a primeira música e ao iniciarmos a segunda canção, já estávamos sendo violentamente pressionados a encerrar a nossa apresentação. Portanto, isso também pesou na nossa decisão de procurar espaço em outro palco, talvez menos concorrido e portanto presumivelmente mais confortável em termos de tempo. Tal palco chamava-se "Palco Atitudes". Acho que já exprimi a minha opinião para a conotação errônea que a palavra "atitude" assumiu no universo do Rock pós-anos oitenta, e a autêntica bronca que nutro por tal expressão forjada por marqueteiros e jornalistas mal intencionados.
Erro na interpretação do release oficial do evento, neste site, anunciaram-nos como se fôssemos tocar no Palco Rock.

Portanto, já causava-me uma impressão ruim tal nome denotando uma intenção obscura, para ser ameno...
Mas tudo bem, apesar disso, eu estava motivado para tocar e como os demais, estava apostando na eficácia de nossa estratégia. Mas tudo foi por água abaixo quando fomos notificados que havíamos sido escalados para tocar às 12:30 horas, ou seja, um horário ingrato pelo calor e fatal baixa frequência, pois mesmo com a Feira já tendo um bom público circulando nas ruas nesse horário, fatalmente não era o público consumidor de música e sim o contingente interessado nas centenas de barracas de comidas & bebidas, e artesanato. E não deu outra, quando chegamos ao palco montado na esquina das ruas Ministro Ferreira Alves e Tucuna, havia um público muito pequeno assistindo o artista que apresentava-se antes de nós. Sinceramente não lembro-me o nome da banda em questão. Apenas recordo-me que era um quarteto igualmente, mas nitidamente os músicos não tinham uma escola rocker como nós, pela pegada. Faziam um som pop, mezzo anos oitenta / mezzo MPB "moderninha" ao sabor dos artistas da gravadora "Trama", para definir de uma forma generalizada. Quando acabaram, percebi que a produção desse palco era nitidamente mais amistosa do que a grosseria típica dos sujeitos que produzem o "Palco Rock", e isso reconfortou-me pela escolha que fizéramos.
Fomos chamados a apresentarmo-nos e nosso show foi bem legal, com o som bem equalizado nos monitores. O lado mau, foi que o público não melhorou grande coisa quando começamos. Para ser sincero, em se comparando com a multidão do "Palco Rock", eu diria que era irrisório, com pouco mais de 50 pessoas na frente do palco, o que foi muito decepcionante para nós. Para contrariar o que falei parágrafos acima, digo que tocamos "quase" confortavelmente em termos de tempo, pois uma produtora começou uma leve pressão na penúltima música prevista de nosso set list, querendo cortar nosso tempo, alegando atrasos.
Foi ameno, é verdade, mas depois que saímos, subiu ao palco uma banda que na minha ótica agiu errado duplamente. Primeiro, que os sujeitos tocaram uma ou duas músicas autorais e as demais, covers, e pior ainda, covers de artistas de qualidade muito duvidosa no cenário do mainstream daquela época. E segundo, porque seu set foi quase o dobro do nosso, e ninguém importunou-os para encurtar e deixar o palco. O Xando ficou chateado, lembro-me bem, e na primeira oportunidade que a mocinha que incomodara-nos passou por nós ele cobrou-a, falando que a banda em questão estava tocando o dobro do tempo e ainda por cima não tinha cabimento estarem fazendo covers num espaço que era para música autoral. A mocinha ficou naquele discurso padronizado ao estilo "call center", dando desculpas esfarrapadas e só faltou dizer : -"estaremos analisando sua queixa, senhor"...
Resumindo, fizemos uma tentativa e não logramos êxito no nosso intento. Tocamos num palco desinteressante, num horário inóspito, e para um público sofrível. Não havia nenhum artista significativo do meio artístico para dar élan à nossa escalação no mesmo dia, e o razoável conforto que supostamente tivemos por não enfrentarmos a truculência típica perpetrada pelos sujeitos do "Palco Rock", não valeu a pena. Como consolo, dava para almoçar tranquilamente, e ir para casa assistir a rodada do futebol pela TV...
Uma última nota curiosa sobre esse dia, não tem nada a ver com a banda em si. Aproveitando a Feira em curso, Ivan foi dar uma volta com a família, visto que havia trazido a esposa e seu casal de filhos. Seu caçula, Lucas, não tinha nem dois anos ainda, e naquela semana havia levado um tombo caseiro e estava com o rosto ostentando um pequeno hematoma. Contudo, nesse dia estava alegre e excitado pela agitação da Feira, e por ter visto o pai tocar, nem lembrava-se do machucado. Bem nessa época, um caso policial que repercutia nacionalmente, dava conta de um pai e sua esposa, madrasta de uma menina de seis anos, que eram acusados de assassinar a criança, tendo-a jogado pela janela de um apartamento bem alto. Pois o que é a junção entre a estupidez humana e o poder da mídia... o passeio da família foi encurtado porque Ivan e sua esposa, Beth, foram hostilizados verbalmente por alguns populares, que julgaram ser o hematoma no rosto do menino, uma agressão de seus pais... em suma : "Santa Ignorância, Batman"...
Agora, era focar no lançamento do novo disco e mais shows, somente em julho.

Continua...  

Nenhum comentário:

Postar um comentário