sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 112 - Por Luiz Domingues



Um telefonema vindo de um produtor do Centro Cultural São Paulo, nos convidou a ocupar uma data naquele espaço, em outubro de 2007, e aproveitando o ensejo, reativamos a ideia de um show "happening", como havíamos feito em fevereiro do mesmo ano.

Nos animamos, é claro, mas desta vez, além do tempo ser mais escasso para uma produção mais caprichada, não haveria a participação de uma segunda banda. Como o Parabelum que participara na ocasião anterior, não existia mais, resolvemos não convidar ninguém, atendo-nos ao nosso próprio espetáculo apenas, como atração musical, e dando um espaço um pouco maior para a trupe de teatro, e quiçá para Diogo Oliveira, o grande artista plástico, poder extravasar seu talento performático, ao vivo.

E assim fomos ao CCSP, para mais uma experiência de happening compartilhada com artistas de outras áreas.

Era o dia 5 de outubro de 2007, e uma lembrança inicial boa que tenho desse show, foi o fato de ter ajudado o grande Diogo Oliveira a instalar algumas peças de pano que ele desenhara especialmente para esse espetáculo, para nos servir de cenário.

Era uma instalação simples, composta de alguns "panôs", se visto separadamente, enquanto peças isoladas, mas o efeito que deram reunidos, foi extraordinário. Fiquei muito entusiasmado em estar ajudando-o nesse momento, mas também por essa movimentação remeter-me subjetivamente aos valores culturais que norteiam-me como artista, desde os primórdios.

Apesar do Pedra ter sonoridades setentistas em muitos aspectos, nunca foi uma banda que se colocasse ao lado de tais ideais e pelo contrário, tal espectro causava um desconforto interno, pois abertamente o Xando não compactua com valores contraculturais.

Sua visão do Rock, e o contexto em que ele se insere, chega a ser antagônica à minha, e isso sempre gerou um certo mal-estar quando situações que colocavam o Pedra nessas circunstâncias, apareciam.

Claro que eu respeitava o posicionamento dele nessas questões, mas discordava de inúmeras colocações dele nesse sentido.

Nesses termos, democraticamente respeitava certos posicionamentos tomados para a banda, mas alguns pontos começaram a ficar incômodos para mim. Resiliente por natureza, claro que fui relevando muita coisa, pois a banda tinha que ser maior que tudo naquele instante.



Contudo, questionamentos sobre visual (foi falado sobre o uso de cabelos longos e figurinos retrô que eu e Rodrigo normalmente usávamos), e outros detalhes que pudessem remeter ao "passado proscrito" dos críticos obcecados pelo assunto, começavam a vir à baila. Esse tipo de discussão era salutar para uma banda que ainda lutava com esperanças de chegar, talvez não ao mainstream, mas num patamar médio da música. Disso eu não discordava e não reclamava obtusamente, mas haviam outras tantas coisas a se considerar, antes de se trazer à baila questões dessa monta, que parecia-me inútil, portanto, mesmo em se considerando qualquer esforço para recorrer ao marketing, tentando chegar num degrau acima.

Enfim, ninguém é perfeito e nessa altura do campeonato, com 48 anos de idade e digamos, já fora de idade para pleitear um lugar ao sol no mundo mainstream, somado à experiência de 32 anos de militância na música, eu não achava errado pensar em detalhes assim, desde que fôssemos jovens o suficiente para estarmos abertos a estabelecer sacrifícios estéticos, e amplos, portanto com real eficácia absolutamente improvável.

Mas não era o caso, não só pela idade cronológica que eu já tinha naquela época, mas pelo fato de não enxergar tais sacrifícios como garantia de absolutamente nada, e com a possibilidade de tais esforços não nos levarem à lugar algum.

Não só eram questionáveis ao extremo tais argumentos, como o mundo da música se encontrava em profunda convulsão, portanto, qualquer medida a ser tomada, era temerária, pois ninguém, nem mesmo os tubarões do mainstream, sabiam exatamente o que estava acontecendo e principalmente, onde terminaria tal terremoto.

Voltando ao cenário, a despeito de suas lindas evocações psicodélicas e sessentistas, isso não representava exatamente o que era o Pedra, quase na mesma proporção que o aparato psicodélico que deu suporte ao lançamento do CD Lift Off, do Pitbulls on Crack em 1996, tinha como evocação visual, mas na verdade, destoava do espírito real da banda.
Continua...

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