quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 123 - Por Luiz Domingues

Recebemos convite da parte de uma produtora que dizia representar um escritório de agendamento de shows novato no meio, e que tinha planos de entrar no mercado para promover shows com bandas de Rock, autorais e off-mainstream. Na conversa inicial, apesar de ser bem jovem, mostrava-se articulada e desinibida, além de que sua argumentação parecia marcada pela prudência, ao estilo "pé no chão", sem inventar coisas fora da realidade, sonhando com produções exageradas, e sobretudo com resultados mirabolantes, em se considerando que tratariam com artistas como nós, que militavam no underground da música.

Bem, nesses termos, por que não aceitar a proposta inicial que seria um balão de ensaio para a produtora, organizando um show triplex numa casa noturna com razoável infraestrutura (refiro-me ao "Café Aurora", localizada no Bexiga, bairro central de São Paulo), e da qual já conhecíamos por termos apresentado-nos ali em duas ocasiões anteriormente ? Indo além, a companhia que teríamos nesses shows compartilhados, seria ótima, ao lado dos amigos das bandas "Tomada" e "King Bird".
Pois então aceitamos o convite e mesmo não esperando muita coisa de uma bilheteria compartilhada em quatro partes, e pior ainda em se considerando que o show fora marcado para um dia útil dificílimo para atrair público, uma terça-feira, vimos com alegria que a tal mocinha parecia estar fazendo as coisas direito, porque agendou uma entrevista na emissora Brasil 2000 FM para agitar o micro festival, e claro que aceitamos ir para promover o show, ao lado de alguns componentes do "Tomada". No dia do show, o clima de camaradagem era muito grande entre as bandas, e não era para menos, pela amizade ali generalizada. O Tomada tocou primeiro, e haviam trazido consigo o guitarrista Martin Mendonça, guitarrista da banda de apoio da Pitty, uma cantora que havia alcançado um patamar médio na música, entre o underground e o mainstream, portanto, tinha um certo prestígio no meio e estava envolvido com eles, produzindo o seu novo álbum. O King Bird tocou o seu som mais pesado, um Hard-Rock com muitos signos setentistas bem bacanas, mas não fechando no som retrô, propriamente dito. Seu som na verdade pendia para o moderno e esbarrava em alguns aspectos no Heavy-Metal. Músicos de excepcional gabarito e muito gente boa no trato pessoal, gostei muito em compartilhar um show com eles. Quando fomos chamados ao palco, lamentavelmente e por ser uma terça, a casa já não tinha o pico de público que iniciara a noitada e os que ali permaneceram estavam num estado etílico alterado, portanto a impressão que eu senti ali, foi que esperavam de nós uma atitude de banda de entretimento para embalar a sua bebedeira, mas o Pedra tinha uma proposta artística muito sofisticada para esse tipo de expectativa hedonista .
          No estúdio da Brasil 2000 FM, concedendo entrevista

Nesses termos, foi uma apresentação sem sinergia com o público e tirante poucos ali presentes que foram para ver-nos, em detrimento das outras bandas, realmente não foi uma noite feliz para o Pedra. Acontece, tal como jogador de futebol que entra em campo com a intenção de vencer o jogo sempre, músico também só sabe ao palco para fazer uma apresentação perfeita e que agrade inteiramente o público, mas isso nem sempre acontece. No caso dos jogadores, porque tem adversários com o mesmo objetivo, no nosso, são mil fatores, indo das falhas técnicas do equipamento à falta de sinergia com o público. Uma pena...
Enfim, bola para frente, teríamos um novo show em breve, e não queríamos que esse show com resultado pífio, aliado ao baixo astral que tivéramos com a retirada dos novos clips do ar, fato amplamente já relatado anteriormente, tirasse-nos o ânimo para os próximos compromissos. Sobre a garota e sua agência produtora, sumiram, e nunca mais tivemos notícias... e claro que isso não surpreendeu-nos, na medida que sabíamos há muito tempo que produzir shows de Rock dá trabalho, e os frutos dessa semeadura demoram para florescer. Noite de 13 de maio de 2008, Café Aurora em São Paulo, com cerca de 80 pessoas na casa.

Continua...  

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