sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 113 - Por Luiz Domingues


Sem outra banda para dividir a noite conosco, nosso show ocupou mais espaço e a intervenção teatral do "Comédia de Gaveta" também teve mais espaço para encenar suas sketches.

Contudo, dada a ocasião ter surgido repentinamente, o grupo teatral também estava desprevenido e desfalcado de vários atores, portanto, as três meninas que atuaram, tiveram que criar sketches diferentes, com produção mais light.

Deu tudo certo, foi uma apresentação bonita das atrizes (Lu Vitaliano, Ana Paula Dias e Lucia Capuchinque).

Quanto ao Diogo, sua atuação ao vivo criando pinturas de puro improviso e criatividade, foram magníficas, mais uma vez. 
A performance arrepiante do artista plástico Diogo Oliveira, em meio à psicodelia de "Jefferson Messias"

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=ekQjGq2oIB4

Fizemos um bom show, também, podendo tocar mais músicas, num set mais avantajado, eu diria e entre elas, várias canções novas, já do Pedra II que estava sendo gravado.

Tudo isso ocorreu no dia 5 de outubro de 2007.  
Nossa performance de "Nossos Dias", nesse show do CCSP em 5 de outubro de 2007. 

Eis o link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=AW29QaVrei8

Não tivemos tempo hábil para empreender uma divulgação. Apesar de nessa época, o Orkut já estar solidificado como maior rede social da internet, no Brasil, e sendo a maior plataforma para divulgação virtual, não conseguimos mobilizar um grande público. Apenas 80 pessoas passaram pela bilheteria.  
"Rock'n Não", nesse mesmo show do CCSP de outubro de 2007

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=qLIfQVSfnsc

Uma pena, pois o espetáculo que oferecemos foi de muita qualidade, com três modalidades artísticas interagindo simultaneamente, num espírito de happening que há muito tempo não existia mais na praça.

Mesmo porque, considerando que o ingresso cobrado era de um valor popular e quase simbólico, aliado ao fato de que o CCSP é super bem localizado na cidade de SP, com uma estação de Metrô acoplada, inclusive, realmente era um espetáculo que merecia ter tido uma audiência maior.

5 de outubro de 2007, Centro Cultural São Paulo, com cerca de 80 pessoas na plateia...  
"Filme de Terror" no CCSP em outubro de 2007

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=r7Q9qhWZjAE

E naquela época, na Rede Social Orkut, ainda não estava sedimentada a choradeira típica e irritante que existe hoje em dia nas diferentes redes sociais modernas, quando observamos uma espécie de triste modismo, com as pessoas lamentando não ter comparecido à um show, mesmo tendo afirmado categoricamente que compareceriam, previamente. 

"Reflexo Inverso" no CCSP em outubro de 2007

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=FQeYoztLJjc  
"Sou Mais Feliz no CCSP em outubro de 2007

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=L1Skba6JTHc

Isso é muito irritante para quem está no underground como nós, e se esforça muito para ter enfim uma oportunidade de se apresentar ao vivo; produz com dificuldades um show e amarga uma baixa frequência, para no dia seguinte ter que aguentar esse velado deboche das pessoas. 

Quase desanima...quase, porque somos muito teimosos e a tenacidade nos mantém na luta, mas se dependesse desses chorões...


Ainda no QG do Overdrive Studio, mas de saída para o Palácio das Convenções do Anhembi, será que ganharíamos o "Prêmio Dynamite Toddy de Música Independente", na categoria a que fôramos nomeados, por melhor álbum de 2006 ? 

Mas em outubro teríamos um lampejo de alegria por dias melhores, pois havíamos sido indicados para um prêmio, concorrendo na categoria de melhor disco de 2006, ainda referente ao nosso disco de estreia, naturalmente.

Tratava-se do Prêmio Dynamite de Música Independente, ligado a Revista Dynamite, e que por conta de seu patrocinador, uma famosa fábrica de bebidas achocolatadas, recebia o nome de "Premio Toddy".

Com uma cerimônia nos moldes das premiações tradicionais, com certo glamour, eu diria, fomos ao Palácio das Convenções do Anhembi, participar do evento.
Já no saguão do Palácio das Convenções do Anhembi, Xando Zupo & Rodrigo Hid

Ali haviam centenas de artistas de diversos campos da música independente, mas muito mais concentrados no espectro "indie", que já dominava fortemente o underground. Havia a ala "metaleira", é bem verdade, mas os "esquisitinhos mamadores da Lei Rouanet" dominavam tal cena, era visível pela frequência ali caracterizada.

Haveriam alguns shows programados e seriam diversificados. A banda satírica "Massacration", uma gozação perpetrada por uma trupe de humoristas ligadas à MTV, com o objetivo de debochar da cena do Heavy-Metal, faria o "show" inicial.

Mas haveriam apresentações "de verdade", posteriormente, com outros artistas escalados para fazer os shows. 

Logo que nos aproximamos do local, e estávamos todos no carro do Xando e com a sua esposa e fotógrafa, Grace Lagôa, conosco, a fila para adentrar o estacionamento era gigantesca. Estávamos parados como todo mundo e eram centenas de carros, quando uma garota completamente desequilibrada forçou uma manobra perigosa ao extremo e se colocou à nossa frente com seu carro, sem nenhuma cerimônia e nenhum cabimento. Ainda bem, o Xando era/é calmo ao volante e suportou a quase colisão absurda que ela causaria e nos limitamos a comentar entre risadas que era uma "louca varrida", entre outras observações desse teor.

Quando conseguimos entrar enfim e nos aproximamos do local, vimos a mocinha tresloucada que quase nos abalroara, aos prantos, berrando com um rapaz que devia ser seu ex-namorado, enquanto este simplesmente a ignorava, apesar da crise nervosa dela, que promovia um escândalo. O rapaz em questão era um músico famoso no meio, e filho de uma artista muito mais famosa ainda. Paro por aqui, não sou editor de Blog de fofocas...mas estava explicado o nervosismo da mocinha transtornada...

Nos encontramos com Tony Babalu, o guitarrista superb e a simpática Suzi Medeiros, sua esposa, que acompanhados do não menos superb baterista Franklin Paolillo, e da jornalista Marina Abramowicz, nos acompanharam para o interior do Palácio, quando nos sentamos juntos.
Nossa comitiva no Anhembi para assistir a cerimônia do prêmio. Em pé, da esquerda para a direita : Telma Vecchione (irmã de Oswaldo e Celso Vecchione, os Glimmer Twins do Made in Brazil); Franklin Paolillo; Samuel Wagner; Suzi Medeiros; Luiz Domingues; Ivan Scartezini; Tony Babalu; Xando Zupo; Marina Abramowicz e Rodrigo Hid. Agachado : Daniel "Kid"

Tony Babalu era o produtor fonográfico do nosso disco, e se ganhássemos o prêmio, ele subiria ao palco conosco para receber a honraria, e muito provavelmente faria um breve discurso de agradecimento, em nome de sua gravadora. 

Logo que as luzes se apagaram, entrou em cena o "Massacration" e numa tentativa de interação com o público, seu "vocalista" propôs que todos se levantassem para prestar em voz alta, um "juramento de fidelidade ao Heavy-Metal", e a plateia levantou-se incontinenti para participar da palhaçada, menos eu. 

Tenho uma bronca danada desse tipo de expediente de artista que dá voz de comando para fazer o público de bobo. Por isso recusei-me a participar, ficando sentado e já profundamente entediado com um começo de festa/premiação que começara mal para o meu gosto.

O "show" era uma galhofa, mas muitos incautos levavam a sério, achando se tratar de uma banda de Heavy-Metal de verdade, e eu ali torcendo para acabar logo e não sabendo definir o que era mais entediante : o Heavy-Metal ou a paródia dele ?

Enfim, logo começaram a anunciar as categorias e os diversos premiados subindo ao palco e fazendo seus discursos, uns bem piegas ao estilo do Oscar, outros sendo debochados, e até alguns querendo aproveitar para expressar alguma opinião política.

O segundo show era supostamente de uma banda séria, mas como levar a sério a cena "indie" ? 

Por ética e compaixão, não vou citar o nome da banda, mas digo que era mais uma banda se autoproclamando "Rock'n Roll", mas que na verdade praticava o sofrível Punk-Rock raquítico de sempre, e misturando elementos do folclore nordestino em sua obra. 

Creio poucas vezes ter visto uma banda tão ruim, e com a ressalva de que atravessei os anos oitenta e noventa inteiros vendo com perplexidade artistas dessa qualidade sofrível, e o pior, sendo endeusados por setores da crítica, numa inversão de valores insuportável.

Era o caso desses moleques, e para piorar, se apresentaram usando apenas fraldas geriátricas como figurino, trazendo-nos tal dissabor a mais.

Já no meio da apresentação dessa banda, e que era muito incensada pela imprensa na época, muita gente se retirou do recinto, mas eu fiquei e aplaudi educadamente a cada final de música, embora não tivesse tal obrigação moral, visto estar desgostoso com a performance horrorosa do referido artista.

Então, após mais algumas nomeações anunciadas e prêmios outorgados, eis que surge a figura do "Seu Jorge". 

Não sou nenhum fã de sua obra, mas foi um bálsamo assistir sua apresentação intimista, só ele e violão acompanhando-se sozinho. 

Após um simulacro de Heavy-Metal e uma banda indie ruim de doer, ouvir alguém com a proposta cartesiana de cantar e tocar dentro dos parâmetros do que nos habituamos a chamar de "música", em tempos de outrora, foi um alívio.

Nessa altura, da comitiva do Pedra, eu era o único sentado e aplaudindo educadamente os artistas que se apresentavam e as nomeações. Todos alegaram que queriam "fumar" e simplesmente abandonaram o evento, não retornando mais, e claro que as rodinhas de conversas e as cervejas lá de fora estavam mais agradáveis, sem contar os famigerados cigarros...

Veio o Made in Brazil e seu Rock tradicional foi tocado com o teatro já quase vazio...

Não vencemos. Eram dez ou doze álbuns concorrendo conosco, e ficamos em terceiro ou quarto lugar, não me recordo ao certo, num parâmetro ditado por votação de jornalistas especializados.
Duas grandes feras da bateria no Rock Brasileiro : Ivan Scartezini e Franklin Paolillo

Ficamos contentes em termos sido nomeados e uma banda como a nossa, fora do mainstream, mas também fora do mundo "indie", era "outsider dos outsiders", portanto ficamos até surpreendidos com a nomeação.

Dias depois, comentando sobre essa noite, um membro da nossa banda disse ter ficado chateado comigo. Seu argumento foi que minha atitude de não me levantar para atender o comando do "vocalista" do "Massacration" para participar da interação cênica por ele proposta, fora uma decisão errada que eu tomara, pois poderia passar a imagem de arrogância de minha parte, e por conseguinte, respingar na banda, sendo blasè naquele instante. 

Prosseguindo, me falou que se fosse um prêmio mais requintado como os prêmios Sharp; MTV Awards ou o Multishow, e estivéssemos sendo filmados, uma atitude dessas flagrada por uma câmera, teria causado uma péssima impressão para a banda e para eu mesmo.

Ponderei sobre e concordei, era verdade sob esse ponto de vista, contudo, de pronto coloquei também um outro lado da medalha e que era indiscutível : - "E vocês que saíram para fumar um cigarro antes da metade da cerimônia e não voltaram mais, isso também não pegaria mal se fosse num prêmio mais requintado" ?  

Como última lembrança dessa noite de outubro de 2007, o fato de que dois atores fantasiados de "vacas", animal símbolo e logotipo do achocolatado, faziam gracejos o tempo todo no palco e a plateia, mesmo formada por artistas e produtores musicais em maioria absoluta, não perdoou e fez vários coros ofensivos em tom de pilhéria, fazendo menção aos animais em questão, mas com conotação sexual. Não tem jeito, era o povo brasileiro, sempre se portando como se estivesse num estádio de futebol, com sua deselegância padrão... 

Continua...

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