terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 271 - Por Luiz Domingues


Coincidindo com a data de nossa chegada no estúdio/retiro de São José do Rio Preto, tivemos dois shows na rota, em cidades pelo caminho.

Entraríamos no estúdio na segunda-feira, dia 15 de dezembro de 2003, portanto, saímos de São Paulo no sábado, dia 13, com destino à São Carlos onde tínhamos agendado uma apresentação num bar daquela cidade.

Era a quarta vez que nos apresentávamos naquela pujante cidade interiorana, marcada pelo seu aspecto universitário muito forte por abrigar uma universidade federal renomada, a UFSCAR, e um campus avançado da USP, mas que também tinha outra característica marcante : era uma cidade com muitos rockers, e bastante antenados em rock vintage / clássico, ou simplesmente "60/70", como queiram denominar. 

Portanto, tocar em São Carlos era sempre prazeroso para nós, e mesmo porque já tínhamos ali também boas amizades com os músicos de bandas da cena local e agregados que orbitavam nessa vibração retrô.

Desta feita porém, em se considerando as três ocasiões anteriores em que ali nos apresentamos, a casa que nos abriria as portas era a mais modesta, com um espaço físico bem mais tímido que os shows realizados anteriormente.

Tratava-se de um estabelecimento chamado "Armazém Bar". 

Com um espaço tímido, não tinha como atrair uma grande multidão, portanto, sabíamos de antemão que seria um show quase intimista. 

Suas donas não sinalizaram com nenhuma obrigação de nossa parte em ter que tocar com volume mais comedido, como geralmente acontecia em casas dessas dimensões diminutas, porém, por uma questão de lógica, sabíamos que não poderíamos tocar à vontade.

Mesmo assim, não nos abstemos de fazer nosso show normal, sem ter que recorrer a formatos semiacústicos e improvisações desse nível, como havíamos feito em algumas ocasiões anteriores e já relatadas.

Com abertura da banda amiga, "Homem com Asas", e equipamento de P.A. providenciado por eles, o soundcheck foi tranquilo, e o convívio com os amigos, prazeroso, como sempre.

Nos hospedamos no confortável hotel pertencente à USP, poucas quadras dali e quando voltamos para o show, a casa já estava aberta e com o público chegando.

Uma coisa curiosa aconteceu antes da nossa apresentação. 

O "Homem com Asas" ainda nem tinha se apresentado, quando numa roda de conversa onde eu estava acompanhado do Luiz "Barata', um rapaz pôs-se a falar de um Site de cultura que adorava acompanhar. Falou bastante, detalhando o que mais o agradava nessa revista virtual, e o quanto admirava o seu editor/proprietário, um agitador cultural chamado "Barata"...

Foi incrível, mas o rapaz não fazia nem ideia de que estava diante do próprio, em carne e osso, sem imaginar sequer que isso fosse possível.

Não suportei e interrompendo-o, apresentei-o ao Barata e o rapaz ficou tão sem graça que de prolixo entusiasmado, pôs-se a calado constrangido, numa fração de segundos. Claro, o próprio Barata tratou de quebrar o gelo e também emocionado pela demonstração espontânea de carinho, agradeceu efusivamente o apoio do rapaz ao seu site etc etc.

Depois que o rapaz saiu da roda de conversa, o Barata me falou que manifestações assim eram o seu combustível para prosseguir com sua luta pró-cultura, e que estava muito surpreendido e tocado pelo ocorrido. Não era para menos e claro, isso disparou em mim a convicção de que embora não seja algo tão gritante quanto estar usufruindo da popularidade proporcionado pela mega exposição do mainstream, artistas underground como nós tendiam / tendem a não ter a dimensão exata do alcance do trabalho.

Mas o fato, é que mesmo não estando nas emissoras de rádio e TV popularescas, atingimos muitas pessoas e espalhadas pelo Brasil afora, e agora, numa perspectiva de alcance virtual com a qual lidamos nos dias atuais, 2015, pode-se afirmar que o alcance seja de âmbito mundial. Nunca se sabe de onde vem o apoio, mas ele vem, da parte de pessoas que te acompanham e apreciam seu trabalho.

O show do "Homem com Asas" foi ótimo como sempre, pela qualidade da banda e também pela escolha de repertório sempre buscando o inusitado dentro do Classic Rock, privilegiando o "lado B" de grandes artistas consagrados, e até a menção a artistas mais obscuros, mas igualmente geniais. 

Muito legal isso, mas eu sempre esperava mais atitude autoral da parte deles, que se mostravam tímidos nesse quesito, tocando uma, no máximo duas canções próprias, uma pena portanto, com todo aquele potencial.

Nosso show foi muito bom, com resposta quente do público rocker sãocarlense. A casa abarrotou de gente, mas com espaço físico limitado, ficou ali no patamar de 150 pessoas, apenas.

Ao melhor estilo "turnê da barata tonta", o show do dia seguinte seria em Limeira, cidade no sentido São Paulo e não o contrário de nosso destino final que seria São José do Rio Preto.

Paciência, foi o melhor que pudemos fazer, e lá fomos nós no domingo a tarde rodar 60 km para trás...

Continua...

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