sábado, 19 de dezembro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 299 - Por Luiz Domingues


Consummatum est...nossa formação estava encerrada, e com ela, o sonho acalentado desde os primórdios da formação do Projeto Sidharta.

A Patrulha continuaria seu voo, como sempre, e era admirável o poder de resiliência do Junior em passar por cima das adversidades, enfrentando tantas perdas, algumas até literais, caso de mortes de ex-componentes, mas mantendo a nave em pleno voo, com poucas paradas no hangar.

De nossa parte, estávamos todos chateados, mas tão fatigados com a labuta acumulada, que não houve mesmo outra saída a não ser apanharmos nossos respectivos paraquedas e nos ejetarmos da nave.

Havia o último compromisso e ele foi marcado por uma série de quebra de protocolos da parte da banda, visto que esse derradeiro compromisso se investira de uma aura completamente diferente da rotina da nossa rotina.

O mais gritante de todos, foi que não usamos o nosso ônibus, visando minimizar gastos e de fato, com a dissolução da formação, o próprio veículo perdeu sua função imediata e pouco tempo depois ele foi passado para frente, saindo de nosso domínio.

Portanto, soubemos que o Junior fechou tal show com apoio local para prover um backline, e dessa forma, viajaríamos em carros particulares, levando apenas instrumentos.

Foi o que ocorreu e o Junior foi com peças essenciais de sua bateria na frente, para participar da produção local e no meu carro, seguimos no dia do show, eu, Rodrigo e Marcello, apenas. Com o carro abarrotado de instrumentos, e isso levando o mínimo, com dois baixos, quatro guitarras e três teclados...

Viagem tranquila na ida, com o clima leve entre nós três, apesar do momento de ruptura do trabalho, mas sem lamúrias. A sensação era de um certo alívio por estar deixando o stress em que se tornara o cotidiano da Patrulha, e resignação pelo encerramento do trabalho. Havia a sensação de orgulho pelas conquistas artísticas, via reconhecimento do trabalho por fãs e críticos, e o melhor de tudo, o legado vivo, perpetuado através dos discos.

Durante o percurso, em tom de pura brincadeira, falávamos que iríamos tocar no "Cazzo", se referindo ao CAASO, o local onde tocaríamos e que era o Centro Acadêmico dos estudantes daquele campus avançado da USP.

Bem, acho que mesmo para quem não domina o idioma italiano, é dispensável traduzir o termo chulo em questão...daí a pilhéria.


Quando chegamos ao Campus da USP em São Carlos, e por nunca termos ido de carro, e sempre de ônibus, despreocupados com a logística imediata, nos perdemos e tivemos que perguntar a um porteiro o caminho para podermos chegar ao Centro Acadêmico, popular "CAASO", e foi quando o ato falho me traiu...

De tanto brincarmos na estrada, quando abordei o porteiro solicitando a informação, falei sério : -" Por favor, pode nos informar onde fica o "cazzo" ?

Marcello e Rodrigo explodiram em gargalhadas instantâneas e o sujeito ficou atônito, mas creio não ter entendido a ironia involuntária, e mesmo mostrando um semblante entre o indignado e o surpreso, deu a informação e foi duro para mim não rir também, e ficar sério ouvindo a orientação, e lhe agradecendo a posteriori...

Minha sorte é que o rapaz não conhecia o termo, coisa rara em qualquer quadrante do nosso estado tão influenciado pela aculturação da imigração italiana maciça por aqui, e provavelmente também, porque estava  acostumado a lidar com a juventude universitária e seu inerente estado de deboche permanente dentro das dependências da instituição.

Fizemos o soundcheck com tranquilidade e tínhamos o apoio total dos amigos que tocariam conosco na noite fazendo os shows de abertura e de vários rockers locais e ligados à universidade.

Claro que o clima não era igual, e nem poderia ser. O Junior estava focado na reformulação da banda, e claro que era legítimo o seu esforço em recrutar a nova tripulação o quanto antes para não ter que colocar a nave no hangar.

Fizemos o show com bastante profissionalismo, mas claro que não era a mesma coisa. Sem os ornamentos; sem os incensos; sem a determinação em resgatar nossos ideais contraculturais em signos múltiplos, estávamos ali fazendo um bom show de Rock, mas era só isso, sem o significado de outrora.
Rara foto do último show de São Carlos, em 15 de outubro de 2004

Apesar dos pesares, foi bem animado para a plateia e havia um ótimo público presente, portanto, isso ajudou a não deixar nenhum resquício melancólico no aspecto interno da banda.

"Homem com Asas" e "Rocha Sólida" tocaram conosco nessa noite.

Haviam cerca de 400 pessoas na plateia nessa noite no CAASO, o Centro Acadêmico dos estudantes da USP, Campus de São Carlos.

Foi no dia 15 de outubro de 2004.

Último ato da formação "Chronophágica" da Patrulha do Espaço, e a certeza de que tínhamos conquistado nosso quinhão na história dessa grande banda e por conseguinte, na história do Rock Brasileiro.

Continua...

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