terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 269 - Por Luiz Domingues


O Junior havia feito contato com o nosso amigo Junior Muelas, de São José do Rio Preto, e a informação que tivemos era que um estúdio estava recém montado nessa mesma cidade, com três sócios, todos amigos e interligados ao Muelas, por laços de amizade e parceria musical, de longa data.

Com instalações bem montadas e equipamento top de gravação, tinha estrutura para gravar um álbum com qualidade, e melhor, ficava na zona quase rural de São José do Rio Preto, numa espécie de chácara, onde havia a possibilidade de hospedar bandas de fora da cidade, estabelecendo um regime de gravação "full time".
Foto do Chateau "H'érouville, badalado estúdio nos arredores de Paris, onde Elton John gravou o LP "Honky Chateau", de 1972

Bem, eu nunca havia gravado um disco assim, nos moldes em que tantas bandas internacionais que eu curtia, haviam gravado, em estúdios montados em ambientes paradisíacos, em meio ao campo; castelos medievais ou localidades praianas desertas, de países exóticos.

Não chegaríamos nem perto disso, mas seria algo similar, se acertássemos o negócio, ficando entre dez e quinze dias hospedados numa chácara interiorana e afastada do ambiente urbano da cidade, concentrados em gravar um disco inteiro.
Outro estúdio mítico, o Musicland, de Munique / Alemanha, onde o Led Zeppelin; Queen, e Rolling Stones gravaram álbuns, entre tantos outros artistas

Seria uma experiência muito próxima das que ouvíamos dizer de bandas clássicas que curtíamos, e claro que seria muito legal para nós.  

Então, antes um pouco de irmos excursionar por Santa Catarina, o Junior nos comunicou que havia feito um acordo com tal estúdio e que teríamos que decidir se aceitávamos gravar, mas havia um empecilho.

Desde que entráramos no ano de 2003, nosso empenho era o de lançar o CD ".ComPacto", e apesar da agenda de 2003, não ter tido o mesmo ímpeto de 2002, não estava nos planos imediatos parar para pensar em músicas novas e ensaios para burilar um novo material.

Portanto, a perspectiva de gravar nesse estúdio/chácara era maravilhosa, mas nós não tínhamos material inédito para gravar de imediato.

Dessa forma, Marcello e Rodrigo afirmaram que tinham algumas ideias novas em termos de riffs e que poderíamos marcar ensaios, aproveitando o hiato de shows até dezembro e vermos se conseguiríamos num tempo curto, relativamente, desenvolver tais ideias preliminares, transformando-as em músicas estruturadas, preparando arranjos e definindo letras a tempo de encarar a tarefa.

Ao contrário do "Chronophagia", que tinha uma base em que eu; Rodrigo e Marcello havíamos preparado com calma no projeto Sidharta entre 1997 e 1999, e que acrescidas de algum material feito em conjunto já como Patrulha do Espaço, e também o ".ComPacto", que demorou uma eternidade para ser lançado, mas teve um tempo de criação relativamente curto, neste caso, não tínhamos nada novo em mãos, a não ser ideias muito preliminares e vindas de ações individuais de criação da parte do Rodrigo e do Marcello e mesmo assim, que nunca havíamos escutado em conjunto.

Na verdade, só uma única ideia que era do Marcello, nós estávamos cientes e começando a desenvolver coletivamente, pois tratava-se de um riff que ele nos mostrara em algum soundcheck de show, e que costumávamos então brincar livremente como Jam, e que acabamos desenvolvendo na estrada e incorporando-a ao set list dos shows, mas que não pensávamos em gravar um novo disco tão cedo. Era o riff do que veio a se tornar "Universo Conspirante".

Mas como sempre ocorreu na história da Patrulha e muito por conta do senso de oportunismo do Junior, as coisas aconteciam muitas vezes de forma fortuita e atuando forçosamente no underground, a banda nunca pode se dar ao luxo de recusar oportunidades, desde o tempo do Arnaldo Baptista nos anos setenta, e assim, sua história construiu-se por movimentos estratégicos abruptos.

Bem, não estou reclamando, pelo contrário, apesar da situação nova que se apresentava de forma inesperada, gravar um disco novo era uma perspectiva muito boa.

Marcamos ensaios então, num estúdio localizado no bairro da Saúde, zona sudeste de São Paulo, numa rua próxima à rua do Cursino e Avenida Bosque da Saúde.

Chamava-se "Outro Estúdio" e tratava-se de uma residência muito ampla, numa zona residencial de casas de alto padrão, e portanto, um ponto do bairro muito bom para se viver.

O dono era um rapaz chamado Eduardo, que morava ali e montara um bom estúdio de ensaio numa área não habitada da sua residência. Já havíamos ensaiado ali em 2002, algumas vezes, e em 2003, os ensaios para o show Tributo à Keith Moon, que o Junior organizou em outubro próximo passado, haviam sido ali, também.

Marcamos ensaios que foram realizados antes e depois da viagem à Santa Catarina (foram treze no total), e aí, os riffs propostos pelo Marcello e Rodrigo foram apresentados à banda e daí, começaram a tomar forma, tornando-se músicas de fato, com a consequente preparação de arranjos que foram elaborados para todas as novas canções.

O material era de muita qualidade, sem sombra de dúvida, e mais se coadunavam com o espírito do "Chronophagia", do que o do ".ComPacto", com muitas incursões ao Prog Rock setentista, e influência sessentista, via Beatles, principalmente.

Como tudo fora abrupto, o montante se concentrou nessas ideias que os dois disponibilizaram à banda, e não houve muita troca entre os quatro. Eu por exemplo, tinha só uma ideia de balada, mas que não prosperou ali, tendo sido aproveitada dois anos depois, numa outra banda na qual eu faria parte, o "Pedra", vindo a se chamar "Amanhã de Sonho".

Mesmo assim, saliento que não posso reclamar, pois apesar do caráter emergencial com que tudo foi preparado, tais canções que fechamos, eram ótimas.

Entre essas canções novas, o Junior teve a ideia de regravar uma música inédita da própria Patrulha em seus primórdios, de autoria do Arnaldo Baptista e que não entrou no repertório do primeiro LP da banda, o "Elo Perdido", de 1977.

Chamava-se "Sr. Empresário", um Rock'n Roll bem visceral, com estrutura tradicional e quadrada harmonicamente falando, mas com uma letra cheia de deboche e cinismo, típica da criação do Arnaldo, e bem no estilo das letras de seu LP solo, "Loki", de 1975.

Junior ponderou que teríamos que falar com a Lucinha, esposa do Arnaldo e que gerenciava a carreira dele, além, de procurar a Warner Chappell, que detém os direitos de edição da canção, e certamente teríamos que pagar uma taxa para poder inclui-la no nosso novo CD, mas que pensaríamos nessa burocracia a posteriori, e que deveríamos aproveitar o estúdio, e gravá-la.

Então foi assim, que ensaiamos durante uma semana nessa sala de ensaios, e fechamos o estúdio de gravação em São José do Rio Preto para gravarmos a partir da segunda semana de dezembro de 2003.

Era uma sandice total, mas como se dizia nos anos setenta, "loucura pouca é bobagem"...

Continua...

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