quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 285 - Por Luiz Domingues


Falo sobre as canções, agora...
"Rock com Roll" do áudio do disco

Eis o Link para escutar no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=yuGB3y3B3U0


1) Rock com Roll (Marcello Schevano - Rolando Castello Junior)

Riff ganchudo, lembra bastante o Hard Rock setentista de bandas como o Bachman Turner Overdrive; Blue Oyster Cult e Foghat, ou seja, apesar do peso e da contundência instrumental absurda, tem um quê de pop, por incrível que pareça...

As duas guitarras trabalham com uma composição de sobreposições muito inteligentes, como se tivéssemos ensaiado-a à exaustão, ou mesmo se a tocássemos ao vivo nos shows, há tempos, mas como já esclareci antes, não era o caso. Marcello e Rodrigo se acertaram em pouco tempo e ficou tudo espetacular, a meu ver.

Junior arrebenta como de costume, com uma condução mega inspirada e suas costumeiras viradas impossíveis. Não curto o som do bumbo logo no começo, fazendo acentos ainda com a ausência, mas não pelo arranjo e muito menos pela performance dele que é perfeita, mas pelo timbre que o deixou "latoso". Exagerando muito na sensação do "Kicking", mas creio que isso tenha ocorrido na masterização que trouxe uma sonoridade muita aguda para o disco inteiro e aí, prejudicou especificamente o bumbo, nessa música, justamente pelo fato dele ter ficado proeminente pela ausência da banda naquele trecho.

No caso do baixo, usei o Fender Precision e assim como tudo ficou agudo ao extremo por conta da masterização, ele nunca soou tão agudo, em nenhum outro disco que gravei, usando-o. Alguns graus menos, teria ficado melhor a meu ver, mas também não posso me queixar de ouvi-lo assim tão agressivo. Parece o baixo do Phil Lynott (Thin Lizzy), mas elevado ao cubo, cortando como uma lâmina de tão afiado que ficou.

Sobre o meu arranjo pessoal, fiz uma frase de difícil execução na parte da introdução, que também serve ao refrão, e naquela rapidez e com aquele timbre agudo, impressiona, admito. No restante, fico mais comedido, numa condução de Rock'n Roll tradicional, recorrendo à escalas cinquentistas, mas acho que era o que a música pedia e me dou ao luxo de usar o recurso de passar pela 9ª; 9ª aumentada e décima, um recurso estilístico mais usado nos anos setenta, e que curto muito.

Os solos e contra solos dos nossos guitarristas são ótimos, gosto muito. Tem um interlúdio com a base deixando acordes soltos, muito legal e o solo é bastante melodioso. O slide no fim é muito legal, também.

O vocal do Marcello é bem no seu estilo de voz, com aquele grave natural que ele tem, mas rasgando, quase chegando na rouquidão.

Os backing vocals estão muito precisos e por incrível que pareça, minha voz parece de forma cristalina, e por força da natureza, eu entre os três cantores da banda era o que tinha a menor emissão natural e por isso sempre evitei cantar solo, apesar do Rodrigo sempre ter me incentivado a fazê-lo.

Sobre a letra, acho que é uma boa sacada e apesar de alguns clichês, que eu não escreveria se fosse o seu autor, acho o mote bom.

Tal letra surgiu de uma ideia tirada de uma resposta que eu dei certa vez num programa de TV, que gerou risadas generalizadas. Indagado sobre o que eu achava de bandas moderninhas que faziam "misturas" inusitadas em sua obra, eu ironizei, respondendo que a Patrulha também fazia uma mistura insólita : misturávamos "Rock com Roll"...

Tal piada desconcertante fora proferida muito tempo antes, mas o Junior havia adorado a ironia implícita e que batia nos críticos buscadores de artistas novos, não pela qualidade de seu trabalho, mas pela simples menção de ser "esquisito", propositalmente...

2) Vou Rolar (Marcello Schevano - Rolando Castello Junior) 
"Vou Rolar", do áudio do Disco

Eis o Link para escutar no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=fPXEQ0q5LX4


Essa música tem uma letra que eu curto bastante, pois tem um significado interno para todos nós que vivemos essa banda nesses quase seis anos em que ficamos juntos. Fala da estrada, e sobretudo do que fazia valer a pena todo o esforço e sacrifício pessoal de cada uma para fazer turnês exaustivas e num patamar de estrutura de artista underground e não dos mega stars, ou seja, o prazer de chegar numa cidade e deparar-se com a alegria dos fãs, que desconhecendo seus problemas para poder concretizar a chegada ali, nos respondiam com sua emoção.

São citadas as cidades de São Carlos-SP; São José do Rio Preto-SP; Chapecó-SC e São Leopoldo-RS, de forma explícita, onde sempre fomos ovacionados por plateias rockers quentíssimas.

Sobre a parte musical, trata-se de um riff mega ganchudo, lembrando o AC/DC em sua introdução, mas tem outras influências ali. Acredito que a intervenção do slide deixa algo do Uriah Heep, claramente. A condução "tribal" criada pelo Junior, é sensacional e tem um peso mastodôntico, lembrando muito o Roger Taylor em suas intervenções mais Hard-Rock, nos primeiros discos do Queen.

A passagem para parte "A" traz um peso impressionante, lembrando o som do UFO, e me deixa com a impressão de que uma divisão "Panzer" está passando por cima do peito. Gosto do interlúdio que traz uma dinâmica, e a intervenção do baixo fazendo um looping com a cabeça do acorde sempre numa nota só, e as demais intercalando-se em quinta justa, quinta diminuta, quarta justa...

Sobre o baixo, o Fender Precision roncou forte mais uma vez. Menos ardido que o da faixa anterior, mas não muita coisa, ele rasga com um agudo impressionante, metálico. Inevitável não se lembrar mais uma vez do som do baixo do Phil Lynott.

A opção por abrir o disco com duas músicas desse punch, no limiar do Hard-Rock, e ambas com a voz rasgada do Marcello foi ousada, mas pensando num público bem fã da banda, acho que agrada em cheio. Em termos comerciais não teria sido uma boa escolha, mas uma banda como a Patrulha nem pensava em agradar alguém que não fosse o seu público cativo, portanto...

3) One Nighter (Marcello Schevano - Rolando Castello Junior)
"One Nighter", do áudio do disco

Eis o Link para escutar no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=itgjuo8yyW0


Aqui, a opção é um Funk Rock bem setentista, e é inevitável não se lembrar de bandas como James Gang; Aerosmith; Trapeze, e o próprio Deep Purple em sua fase Mark III, mas sobretudo, Mark IV

O riff inicial é bem Aerosmith, com peso de Hard-Rock, mas trazendo o suíngue da Black Music. O peso do baixo nesse riff é absurdo e com o brilho do Fender Precision, ficou matador. Nem o Tom Hamilton creio ter gravado com um Precision nesses termos, embora geralmente nos discos do Aerosmith e principalmente nos primeiros, dos anos setenta, era algo nesse patamar.

A parte "B" explicita o lado mais "Trapeze", e aí é funkão setentista mesmo, sem concessões. Muita guitarra "cutucada" e o baixo suingando forte, com o Precision roncando forte e lembrando bastante o som do Glenn Hughes.

O Junior "suinga" forte, lembrando bastante a quebradeira do saudoso Pedrinho Batera (Som Nosso de Cada Dia), mas com suas costumeiras viradas violentas, é claro.

Tem um interlúdio para um solo que é bastante dentro do suingue do Funk-Rock, mas com um solo de uma delicadeza ímpar, extremamente melodioso.

De minha parte, faço algumas evoluções inspiradas em bandas funk setentistas como o Funkadelic/Parliament; Kool & the Gang; Earth, Wind & Fire e acho que "ornou" bem com o espírito da canção.

Na parte "A", o Marcello canta, rasgando como nas músicas anteriores e finalmente o Rodrigo intervém com uma voz solo, levando a parte "B". Ambos cantaram muito bem, cada um no seu estilo.

Não curto a letra, pois acho que cai na vala comum de muitas bandas que insistem em temática sexista/machista/porcochauvinista etc etc. Acho que destoa dos princípios que nortearam o clima do "Chronophagia", mas era o tal negócio, o clima já não era de união total na banda em torno desses ideais e escorregadas desse tipo eram até compreensíveis. OK, garotas "One Nighter" são comuns nos bastidores de bandas de Rock, principalmente em longas turnês, mas do jeito que a canção desenvolveu-se, parece que éramos americanos e nosso ônibus carregava um harém nas turnês, e claro que isso não era a nossa realidade de Rockers tupiniquins...

Apesar disso, é divertidíssima a intervenção vocal do Junior ao final da canção, falando "One Nighter" em tom jocoso e com aquele vozeirão grave, de fato ficou engraçado e parecendo o Barry White. Tanto que ele mesmo brincou com isso e citou tal cantor na ficha técnica ("Vocal Barry White"). A risada foi absolutamente espontânea ao final. E durou muito mais que os poucos segundos que ficaram registrados no disco. Contagiou o estúdio inteiro e demorou para pararmos de rir, pois foi engraçado ao extremo.

4) Trampolim (Rodrigo Hid)
"Trampolim", do áudio do disco

Eis o Link para escutar no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=VfhryfcA95w


Finalmente uma canção para abaixar a adrenalina, aqui sim, o clima "Chonophágico" renasceu. "Trampolim" trata-se de uma das mais belas canções da nossa formação inteira, a meu ver.

Rodrigo sempre trazia uma canção "Beatle" na manga, em todo disco, mas desta vez, superou-se, e digo isso sem nenhum demérito às suas canções de discos anteriores que são belíssimas, mas "Trampolim" é realmente uma que poderia estar em qualquer disco dos Beatles, ou do Paul McCartney solo, pois é de uma qualidade melódica e harmônica incrível.

Tudo é bonito nela. Desde a introdução, com a harmonia doce levada ao violão, apoiada pelo slide brilhante, tecendo uma voz de guitarra extremamente melodiosa, das mais inspiradas.

A interpretação vocal do Rodrigo é perfeita. Lembra Paul McCartney é claro, mas tem muito de Rock brasuca setentista, e também da MPB hippie e maravilhosa dessa década.

Gravei com Rickembacker e isso acentuou ainda mais o McCartney explícito, embora eu tenha recorrido à chave de captadores para baixo, explorando o médio-agudo mais ao sabor "Prog". Nesses termos, para ouvidos mais atentos, vai lembrar o som do Beto Guedes, podem reparar. Curto muito não só timbre do RK, como as soluções que criei para compor minha linha de baixo.

E para realçar ainda mais o McCartney, a entrada do órgão Hammond ao final lembra "Maybe I'm Amazed", e a interpretação vocal do Rodrigo explode, inclusive com a aparição de um segundo canal com um vocalise desenhando uma melodia diferente.

O Junior montou uma bateria perfeita, com apenas pontuais intervenções mais fortes, realçando a melodia. Marcello arrebenta no slide, sem dúvida uma de suas melhores criações de contra solos em todos os discos da Patrulha em que ele gravou.

A letra é linda, e aí sim no espírito com o qual nos unimos ainda fora da Patrulha, eu; Rodrigo e Marcello e criamos o projeto do Sidharta, com toda aquela atmosfera 60/70.

Rodrigo usa da poesia e da metáfora com muita propriedade, mostrando-nos mais uma vez que também é um poeta, e ali, no subliminar, tem uma dose de espiritualidade sutil em algumas colocações.

"Estou chegando na ponta de um trampolim,

O mergulho vai ser para dentro de mim

Na minha mente paira a eterna ideia da missão, pois cada passo é um passo e cada tropeço, a lição

A vida é um novelo de lã, e eu...o gato a brincar com moinho de vento"

5) Quando a Paixão te Alcançar (Marcello Schevano - Rodrigo Hid - Rolando Castello Junior)


Mais uma canção com acento de Funk-Rock, mas aqui mais próxima da Soul Music. Tem muito balanço, e uma sensualidade implícita que remonta de certa forma ao trabalho solo de Rod Stewart nos anos setenta.

Começa com uma insinuação de guitarras como se fosse uma jam session livre e nesse caso, com o som "apodrecido", como se estivesse sendo escutado num radinho de pilhas com as frequências esmagadas pelos falantes "liliputianos" desse tipo de aparelho sonoro. Mas quando começa para valer, tudo clareia e a banda entra com peso e timbre, naturalmente.

Entrecortado ritmicamente, lembra bastante o som do Santana, ainda mais com a presença de uma percussão descoladíssima que o Junior concebeu e gravou com a apoio do nosso amigo Junior Muelas. Com Cowbell e o Guiro (No Brasil, costuma ser chamado de "Reco Reco"), o balanço que essa música ganhou foi impressionante, e se tornou mesmo um atrativo e tanto para a banda.

As guitarras "cutucam" o tempo todo e o baixo segue na linha da Soul Music, buscando o máximo do suíngue.

Gravei com Fender Jazz Bass, buscando o registro mais grave, aveludado, principalmente pensando nesse sabor de "Soul Music", mas o baixo ficou com um brilho agudo além, graças à masterização, todavia não me queixo, porque ficou incrível, mesmo não sendo exatamente o timbre que eu planejava.

Portanto, tem o peso normal de um Jazz Bass, mas com um metálico brilhante incomum, porém muito bonito, em minha opinião.

Em alguns momentos, o Junior improvisou uma batida bem Deep Purple, ao estilo "You Fool no One". Foi improviso mesmo em sua gravação e quando gravei o baixo separadamente, claro que realcei isso, fazendo um desenho de reforço rítmico e usando tônica e oitava. E acho que ficou muito bonito.

Tem um interlúdio para a intervenção de um solo em duo, que é um primor na minha opinião. Ali, baixou como incorporação mesmo, o espírito do Wishbone Ash, e é tão bonito que toda vez que eu escuto, fico torcendo para se alongar, mas infelizmente é uma parte curta, com três módulos apenas, com direito a uma subida de tom, na terceira repetição. Sutil, mas linda igualmente, é a presença de um piano Fender Rhodes nesse trecho.

Ao final, o Marcello gravou um solo curto, mas eficiente de Sax. Sua incrível capacidade para dominar inúmeros instrumentos mais uma vez trouxe esse brilho extra para a banda, certamente.

A interpretação vocal do Rodrigo é boa, como sempre, mas mais uma vez acho que a letra deixa a desejar. Tratando de sensualidade, falando de conquistas noturnas etc, não era a melhor solução para se escrever para o meu gosto e ainda pensando em princípios que estavam esvaindo-se nessa fase da banda, infelizmente.

Mas entendo que a música tinha uma sensualidade implícita, e falar de gnomos ou seres extraterrestres talvez destoasse de sua intenção.

6) Tão Perto Tão Distante (Marcello Schevano)
Vídeo montado por um fã, provavelmente para homenagear sua namorada, pelo teor das fotos editadas, mas bacana pela iniciativa de usar nossa música como sua inspiração romântica.

Eis o Link para assistir no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=dUIrdHqi3u8 


Quando o Marcello nos mostrou essa canção nos ensaios para definir o repertório desse disco, claro que a tratamos como a uma composição fortemente inspirada no Prog Rock setentista, mas em alguns aspectos, ela tem muito a influência de Southern Rock, e nessa junção bastante improvável, acho que acertamos a mão no arranjo, usando as duas influências com coesão.

Bem, assim como "Trampolim" do Rodrigo, "Tão Perto Tão Distante" é também uma canção belíssima, pela melodia, harmonia, letra e arranjo final.

Acho-a uma das melhores do disco, com muito sentimento e profundidade.

Claro que para quem curte anos setenta, só de ouvir a introdução com um órgão Hammond pontuado pela caixa Leslie, já desperta a simpatia imediata.

O piano acústico desenhando por baixo é belíssimo. É uma sutileza mixada para ficar quase imperceptível, mas convido o leitor a prestar atenção nesse detalhe.

O Rodrigo desta vez é que pilotou os contra solos de slide e brilhou muito. Muito lindos os desenhos que criou.

E é na parte B que mais se parece Southern Rock americano, lembrando bastante o som do Allman Brothers Band.

Gravei com Rickembacker, mais pensando em Prog Rock inglês do que Southern Rock americano, mas se tivesse optado pelo Fender Precision, acho que teria sido correto também.

Sobre o RK, o timbre agressivo deixou-o tão "RK", que nesse caso, acho que dei sorte com a masterização que realçou agudos no resultado final. Nem era o caso pela docilidade da canção (com exceção do solo de Hammond, mais proeminente), mas ficou espetacular. Nos discos do Pedra, o som do meu "RK" ficou legal, mas acredito que neste disco da Patrulha, alcancei o melhor resultado sonoro com tal instrumento, mesmo que tenha sido um golpe fortuito da sorte, graças ao efeito involuntário da masterização final.

Um lindo solo de Hammond executado pelo Marcello, lembra bastante o som de bandas Prog britânicas. É Rick Wakeman para caramba...

Intervenções pontuais de sintetizador, são sutis, mas estão lá, basta prestar atenção...

A interpretação mais suave do Marcello que mais contrastava com vocais mais rasgados, lembra bastante a voz do Tim Maia em baladas Soul. Gosto bastante.

Letra com uma certa intenção romântica, mas acho que o Marcello foi feliz e não correu nenhum risco de soar piegas, um perigo constante para quem se propõe a abordar o tema.

7) Universo Paralelo (Marcello Schevano - Rodrigo Hid - Luiz Domingues- Rolando Castello Junior)

"Universo Conspirante", do áudio do disco

Eis o Link para escutar no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=LDcfa4iB8i4

Essa era a única música que tínhamos antes de nos reunirmos para definir o repertório do disco e até já a tocávamos nos shows, em 2003. Fruto de uma jam, foi criação coletiva, daí os nomes de todos na assinatura da composição, embora o riff primordial tenha sido uma ideia do Marcello.

Bem, aqui se trata de Blues Rock, mais ou menos na linha de "São Paulo City", do disco anterior, mas com certos elementos do Jazz Rock em sua constituição.

O riff é poderoso e as partes "A" e "B" são muito fortes, com uma intensidade impressionante. A linha melódica costurando o riff e cantada em coro por nós três (eu, Marcello e Rodrigo), no refrão, tem uma força dramática enorme.

Gosto bastante da parte "A" cantada pelo Rodrigo, também entrecortada no Riff.

Tudo soa poderoso na música, com um peso incrível, e o solo tem uma parte feita em duo, mais uma vez lembrando o Wishbone Ash, mas aqui com mais peso do Blues Rock do Mountain, Blue Cheer etc.

A letra, como já revelei em capítulo anterior, foi escrita no último dia de nossa permanência no estúdio/chácara "Área '13". 

Lembro-me do Junior finalizando-a ao ar livre, buscando inspiração no bucolismo ali presente. Contudo, a letra nada tem de "silvestre", e pelo contrário, é densa, super urbana e tem como tema a teoria da conspiração, vista de forma generalizada, poder oculto e manipulação...

Acho uma letra forte e que condiz com a densidade da música.

8) Phrâna (Marcello Schevano)


Essa canção ultra prog-Folk e hippie ao extremo, o Marcello havia composto há muito tempo. Mas nós nunca havíamos tido tempo para nos dedicarmos à ela anteriormente.

Reputo ter sido uma ótima ideia incluí-la no disco, pois é de uma beleza incrível, super a ver com o espírito perdido na banda, e seu arranjo ficou maravilhoso.

Canção em 6/8, mais ou menos resgatando a linha de "Céu Elétrico", tem aquele sabor Prog Folk setentista e evoca também o Folk tupiniquim, com o Rock rural de Sá; Rodrix & Guarabyra; Secos & Molhados; Bendegó; Flying Banana e tantos outros exemplos setentistas sensacionais que curtíamos.

O trabalho de violões de Rodrigo e Marcello é magnífico. Fazem tantos dedilhados inspirados que chegam a lembrar o som flamenco e intrincado de Paco de Lucia e congêneres.

Meu Rickembacker falou alto mais uma vez. Aquele médio-agudo encorpado que ali gravei, é um dos melhores sons de "RK" que já gravei na vida.

Gosto muito das sutis percussões que estão ali inseridas, auxiliando a bateria corretíssima que o Junior criou.

Marcello a canta com intensidade e os backing vocals são muito bonitos. Tem uma intervenção rápida de flauta do Marcello, num micro solo.

A letra é toda calcada em espiritualidade de viés hippie e buscando referências na Índia. Fala em prana, a energia vital que se espalha no ar e através da respiração, segundo os yogis, é passível de ser absorvida por qualquer pessoa, promovendo o seu bem estar.

Tenho uma séria dúvida sobre o título, em termos de ortografia. Creio que a maneira correta de se escrever seria "prana", sem o h adicional e o acento circunflexo na primeira letra "a". Em sânscrito transcrito em caracteres ocidentais, existiria um acento exótico para nós, sobre a primeira letra "a", algo como um "underline", mas do jeito que o Marcello quis que ficasse "Phrâna", receio não fazer sentido, e pode até induzir algumas pessoas a interpretarem a junção "PH", com a fonética antiga de "F", chamando a música de "Frana", erroneamente. Paciência...

9) Anjo do Sol (Rodrigo Hid)


Eis aqui um tema eminentemente Prog Rock. Rodrigo o trouxe praticamente pronto na cabeça e só montamos as parte da suíte, arranjando-a, paulatinamente.

Bem, como peça tipicamente "prog" setentista, tem muitas imagens sobrepostas, como num grande mosaico.

Sua introdução ao piano é muito bonita, trazendo uma harmonia um tanto quanto melancólica, ao estilo do King Crimson, e eu sei o quanto a obra do grande Rei Escarlate influencia o Rodrigo bem,  e ainda bem...

Seguem-se parte de intensa massa instrumental. Logo de cara, ao sair do piano solo, a banda mergulha numa progressão de dois acordes sob aceleração total, e que lembra bastante o trabalho da banda italiana, Banco Del Muttuo Soccorso.

A seguir, partes diferentes propõe mudanças frenéticas. Uma rápida intervenção que lembra o Emerson; Lake & Palmer, emenda-se em um passeio de órgão Hammond, bastante ao sabor do Focus e do Atomic Rooster.

Convenções muito rápidas e precisas abrem o caminho para um final apoteótico que lembra muito o trabalho do Genesis. Com um vocal muito emocionante, cantado por nós três em vocalise, realmente é muito bonito e inspirador. Acho que é uma das músicas mais emocionantes no disco, e foi uma pena que tenha sido tão pouco executada ao vivo, pois nos emocionava e nas poucas vezes que a tocamos, causou comoção no público, principalmente pelo trecho final com apelo apoteótico e muito melodioso.

Gravei com Rickembacker e mais uma vez o som ficou matador. Acho que já mencionei amplamente o fator que gerou essa carga a mais de agudos no disco inteiro, mas no caso específico do Rickembacker, que é um baixo que poucos técnicos sabem gravar no Brasil, acho que dei uma sorte danada, pois ele soa exatamente como deve soar.

Sobre os demais instrumentos, todos brilham muito. Junior massacra na bateria, fazendo levadas e frases que só bateristas de altíssimo nível fariam, e esse é o seu caso, naturalmente.

Marcello faz um fraseado belíssimo de guitarra que só realçou a parte final ainda mais. É um item que ajudou decisivamente a criar a emoção que mencionei anteriormente.

As intervenções de sintetizadores também são muito legais.

Música instrumental, acho que teve no vocalise algo tão significativo que realmente dispensou a palavra cantada.

10) For Loonies Only (Rolando Castello Junior)  

Uma tradição iniciada no CD Chronophagia, o Junior sempre gravava uma vinheta instrumental só de bateria, geralmente um improviso gravado a esmo após encerrar a gravação de todas as baterias do disco.

Desta feita no entanto, ele planejou sua performance e trabalhou com os técnicos alguns efeitos interessantes com delay.

O título em inglês, diz tudo..."para lunáticos apenas", é uma boa menção à loucura, e entendido à luz do desbunde contracultural sessenta-setentista, tal menção à loucura é um elogio e não me refiro a Erasmo de Rotterdam...

11) Véu do Amanhã : A) O Agora / B) A Confortante Incerteza do Futuro (Marcello Schevano)
"Véu do Amanhã" , do áudio do disco

Eis o Link para escutar no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=HmS9_xyHe1E

Bem, aqui temos mais um tema Prog Rock do disco, e desta feita radicalizando ainda mais que "Anjo do Sol", pois a letra da canção mergulha em considerações subjetivas sobre a expectativa do homem em relação ao tempo-espaço, ou seja, um hermetismo nada pop, mas que eu defendo enfaticamente enquanto peça artística, e que se danem os que enxergam música como produto de gôndola de supermercado.

Sobre a parte musical, a simples menção à dois subtítulos, já deixa clara a intenção de ser uma peça prog sem concessões, rezando pela cartilha setentista do gênero.

Iniciando-se com um belo prólogo comandado pelo piano, tem intervenções muito bonitas da guitarra do Rodrigo, e entrecortadas pela bateria e o baixo Rickembacker que mais uma vez rasga na carne, com seu potencial de peso e timbre inigualáveis.

Logo o apoio do órgão Hammond chega, e o peso toma conta. Também com apoio de sintetizadores, ao estilo Moog, intrincadas partes fazem com que todos os instrumentistas brilhem bastante em seus arranjos pessoais.

A referência ao Emerson; Lake & Palmer; Banco Del Muttuo Soccorso; Triumvirat; Trace; e Omega, para citar algumas poucas bandas prog setentistas, é total. São partes bastante agressivas e exigiram muito dos quatro instrumentistas.

A parte final tem uma particularidade engraçada até. A despeito de sua beleza incrível, a frase contínua e ultra melódica que o Rodrigo criou na guitarra, lembra de certa forma, a melodia da música "Leãozinho", do Caetano Veloso. Não se trata de plágio, não caracteriza ipsis litteris tal semelhança, mas lembra-a vagamente e assim, claro que brincadeiras surgiram já desde os ensaios que fecharam o arranjo da música...

Independente disso, a parte final também executada em looping, tal qual "Anjo do Sol", emociona, e muito.

Por fim, uma intervenção robótica ao final, lembra a parte final da "Karn Evil 9 / Third Impression", do Emerson;  Lake & Palmer, bastante interessante, portanto.

Sobre o meu baixo, creio já ter dito que mais uma vez o som do Rickembacker ficou excelente, me deixando bastante satisfeito com o resultado.

Isso é "Missão na Área 13", um disco gravado sem muito planejamento, mas que diante das circunstâncias, ficou muito melhor que os anteriores no quesito áudio. 

Agradeço muito a Fabio Poles; Gustavo Vasquez e Alberto Sabella, que nos proporcionaram tal oportunidade de usar seu ótimo estúdio, e sobretudo pelo empenho que tiveram em operar essa gravação, com carinho, tornando-a, a melhor gravação que a Patrulha teve em nossa formação, e quiçá da carreira toda.

Agradeço também a Junior Muelas, que ajudou muito no processo todo.

Continua...

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