sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 290 - Por Luiz Domingues

Haveriam várias bandas locais, a partir da tarde, porém, eu só conhecia uma, que aliás é muito boa, chamada "Epopeia" e que era composta por músicos que faziam parte daquela turma sensacional de Freaks de Chapecó, que viajaram fretando ônibus para nos ver várias vezes, na cidade vizinha de Concórdia.

Uma banda do Rio Grande do Sul, que se colocava como "emergente" da vez, por ter um esquema de divulgação fartamente bancado por um produtor mecenas e que possuía seu nome em destaque nos cartazes e nos outdoors de rua, chamada "Reação em Cadeia", estava em evidência também na divulgação do evento. 

Estavam com uma música tocando na Ipanema FM de Porto Alegre, e um clip na MTV etc etc, mas infelizmente parecia, a julgar pelo som em si, mais um embuste de marqueteiros. Não deu em nada (infelizmente para os seus componentes, e claro que lastimo pelo aspecto humano), e a tal "reação em cadeia" só se fosse uma rebelião de detentos, mesmo...

Com um som chinfrim entre o Indie e o Punk paupérrimo de sempre, claro que não levamos a sério e na boa, eu era mil vezes mais o "Epopeia" e uma ou outra banda local que tocou sem glamour algum.

O Ira havia tocado na noite de sexta, como headliner, e a tal banda citada no parágrafo anterior, como sub headliner.

Enfim, após o debate sobre o panorama da música em 2004, etc e tal, lá fomos nós tocar.

O local do evento devia ter naquele instante, cerca de 20 a 25 mil pessoas, aproximadamente. Mas aglomerados na frente do nosso palco, devem ter ficado apenas cinco mil, acredito, baseado na minha avaliação ocular, sem nenhuma informação concreta para me apoiar com certeza.

Isso porque o grande grosso do público estava aglomerado em frente ao palco da banda dos skatistas, esperando pelo seu show. 

Nada contra os rapazes, pessoalmente, apesar do choque estético abissal que nos separava. Mas ao mesmo tempo era triste constatar que a manobra de seu staff para lhes dar um palco exclusivo, havia sido um tiro no pé, pois nós estávamos para entrar no palco, passando das 21 Horas, e o caminhão trazendo o P.A. exclusivo da tal banda, não havia nem chegado ao local.

Ora, qualquer pessoa que milite na produção musical profissional, sabe que num show de multidão de grande porte, ao ar livre, a praxe é montar o equipamento de P.A., um dia antes do evento, pois é um trabalho pesado e que envolve muitos detalhes técnicos que para se fazer "correndo", sob a escuridão da noite e com 20 mil pessoas impacientes berrando, fica praticamente impossível de ser executado.

Bem, isso era problema deles. O que nos concernia era subir ao nosso palco e tocar, com tudo montadinho e checado, como se deve.

A relação de rivalidade entre o próprio público era visível. Os cinco mil que estavam ali nos vendo, eram os rockers da cidade e certamente oriundos das cidades vizinhas, também, e concomitante ao fato de nos curtir e vibrar com o nosso som / performance, dava mostras de hostilidade em tom de ironia aos "20 mil" que estavam amontoados sob aquele frio de rachar, olhando para um palco vazio, sem uma caixa de P.A. sequer como ornamento.

Fomos tocando o nosso show normal e despertando a reação que sempre esperávamos nos pontos chave da nossa apresentação.

Muito gostoso tocar num palco de grande proporção, com luz e som de alto padrão; e P.A. de pressão sonora de show de Rock internacional.

O nosso público foi maravilhoso até quando tocamos músicas desconhecidas ainda para eles, do repertório do novo disco que mal havia ficado pronto da fábrica. 

Aliás, nos demos ao luxo de tocar peças progressivas desse disco e era uma dicotomia para lá de interessante tocar suítes desse grau de sofisticação para um contingente bem menos inexpressivo que a multidão que espremia-se para ouvir as canções (quem sabe em que hora), escritas por um letrista que se orgulhava de escrever  pérolas como "Eu não sou poeta, mas que se f..." 

A anticultura já dava as cartas nos anos 2000, e depois me perguntam por que eu não tenho apreço à essa subcultura de streetwear/skate...  

Enfim, existe até uma rápida filmagem da banda tocando "Anjo do Sol" e que planejo postar no You Tube, assim que possível. Uma pena, é só um trecho e bem tremido, pois o cinegrafista em questão não dominava a técnica. Valerá hoje em dia como um tesouro inédito e raro, mas não tem a qualidade que eu gostaria que tivesse.

Por falar nessa música, apesar da banda estar em seus momentos finais nessa formação, com o ânimo bem baixo entre todos, minha lembrança é a de ter sido uma performance excelente e com muita garra, presenteando o público Rocker de Chapecó, tão fiel à Patrulha, e do qual, jamais sairá de minha lembrança.

Quando encerramos o nosso show, um produtor do festival nos pediu que alongássemos a nossa apresentação, pois não havia nem sinal do caminhão do equipamento de P.A. da atração maior do festival, chegar. Claro, atendemos o pedido e tocamos por quase 40 minutos além do previsto para a nossa apresentação. Para nós foi um prazer duplo, pois o show estava com uma tremenda energia e também sinergia com o nosso público. E também por colaborarmos com a produção do festival que fora solícita conosco.

Contudo, nosso esforço em manter o som ligado enquanto a banda headliner não chegava, não logrou êxito em 100%, pois a grande massa nos ignorava e onde estavam, nosso som chegava como um radinho de pilhas com delay (atraso), mas acima de tudo, não lhes interessava em absoluto.

Sorte do nosso público que deleitou-se para valer e ficamos contentes também por isso, ou seja, esses rockers de Chapecó mereciam esse presente de nossa parte.

Encerramos o show e os organizadores nos agradeceram pela esticada estratégica, mas que de nada adiantou na prática.

Os skatistas deveriam ter começado seu show poucos minutos depois de encerrado o nosso, mas começaram a montar o seu P.A., depois das 11 da noite, e mesmo a toque de caixa, nem é preciso dizer que o show dos rapazes começou quase às três da manhã, e que o seu público chiou muitas vezes, criando coros de protestos pela espera insuportável.

Cada um com sua estratégia e certamente que o staff da referida banda deve ter conversado bastante a respeito, nessa madrugada e no dia seguinte.

Bem, essa gente não gostava de rock, e nós tampouco do simulacro de rock que eles faziam, portanto, nos despedimos dos nossos fãs no camarim, e zarpamos para o hotel, buscando o cobertor quentinho a nos salvar da madrugada gelada do outono catarinense, e lembro-me que naquele instante o termômetro marcava 5º...

No dia seguinte, viajamos após o almoço, e se a viagem não nos causou grande transtorno com as costumeiras panes no bólido azulado, estávamos todos taciturnos.

Chegamos em São Paulo quase sob um silêncio constrangedor, cansados da viagem, certamente, mas o cansaço verdadeiro era outro.

Nossa formação chegara no limite. Sem perspectivas de dar um passo maior na carreira e ao mesmo tempo não conseguindo manter a sustentabilidade funcional para existir no mundo underground, estávamos exauridos.

Tínhamos um ótimo novo disco em mãos, mas nem isso nos dava forças para encarar as adversidades com otimismo.

Mas uma pequena luz surgiu à nossa frente, e talvez fosse o último fio de esperança para acreditarmos em dias melhores.

Uma micro temporada no Centro Cultural São Paulo e que o Junior trataria de dar um verniz diferente, ao elucubrar uma ideia sensacional, eu diria.

E se gravássemos os três shows visando lançar um disco ao vivo ??

Continua...

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