sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 82 - Por Luiz Domingues



Antes de adentrar na cronologia enfocando o ano de 2007 para o Pedra, é uma hora boa para esmiuçar um pouco melhor o álbum de estreia da banda, faixa a faixa.

Como o leitor já sabe, esse álbum começou a ser gravado no início de 2005, mas só veio a ser lançado na metade de 2006, por uma série de fatores.  

Primeiramente, porque as sessões de gravação ficaram muito espaçadas. Nosso técnico de som e produtor do álbum, Renato Carneiro, trabalhava como técnico de P.A. de uma dupla sertaneja mainstream (Zezé Di Camargo & Luciano), e fazendo 25 shows por mês em média, geralmente em rincões distantes do centro-oeste, norte e nordeste do país, sua disponibilidade para estar em São Paulo era mínima, e mesmo assim, claro que nos poucos dias de folga, tinha seus afazeres pessoais, fora estar angustiado por viver longe da esposa e dos filhos em idade escolar, portanto, sobrava pouco tempo para vir cuidar da nossa gravação e mixagem.  

Outro fator, logo no início da gravação, ainda contávamos com um quinto membro, o guitarrista Tadeu Dias, que infelizmente deixou a banda de forma abrupta, e nos forçou assim a apagar suas guitarras e fazer com que Xando Zupo regravasse as partes dele, visto que não daria tempo para o Rodrigo assumir essa tarefa. No frigir dos ovos, com os atrasos posteriores, claro que o Rodrigo poderia ter feito isso sem prejuízo algum à banda, em detrimento do tempo hábil para tal.  

Tivemos problemas com o baterista Alex Soares, infelizmente e que culminou com sua saída antes do lançamento do disco, aliás, antes mesmo de sua finalização técnica.

Até cogitamos uma regravação com Ivan Scartezini refazendo toda a bateria, mas seria uma loucura, visto estar tudo pronto, inclusive as partes vocais e a inserção de músicos convidados.  

Também tivemos atrasos em relação à arte final da capa do CD. Até essa parte se resolver e incluo nisso a questão do encarte e diagramação do texto, que também nos comeu bastante tempo.

No fim, atraso consumado, creio que a apresentação visual e o áudio do produto, corresponderam ás expectativas e até as superaram em certos aspectos.

Era indiscutível a qualidade artística do material composto; os arranjos; a performance individual de cada instrumentista/vocalista; a química conjunta; o bom gosto da escolha dos músicos convidados e sua contribuição; e sobretudo, a competência técnica do operador de áudio / produtor, Renato Carneiro.

Nessa feliz conjunção de fatores, creio que o álbum Pedra, ou Pedra I, como foi carinhosamente batizado, logrou êxito.

É sem dúvida, o melhor áudio que eu tive na minha carreira inteira, só comparado igualmente ao álbum seguinte, Pedra II, que foi gravado nas mesmas condições e com o mesmo Renato Carneiro no comando dos botões, e um pouco mais abaixo, mas quase deforma imperceptível, o álbum Fuzuê!, lançado em 2015, mas este sem grande intervenção de Renato Carneiro. Fica a ressalva que escrevendo este trecho em 2015, e tendo em conta o fato de que não encerrei a minha carreira, posso ter ainda outros discos tão bons, ou melhores do que os citados em termos de qualidade de áudio, e assim espero, mas até o presente momento, nesse quesito, permanecem insuperáveis.

O timbre dos meus instrumentos atingiu o pico de qualidade com esses trabalhos e o Renato me confessou tempos depois, que nas suas andanças na estrada e interagindo com outros técnicos, colhia elogios rasgados à tais gravações e especialmente aos timbres de baixo, com distinções nítidas entre cada modelo que usei, respeitando e exaltando o máximo de suas características naturais, e com um peso e timbre, verdadeiramente incríveis.

E ainda mais quando ele se tornou técnico de P.A. dos Mutantes em sua volta após 2006, e excursionando com eles pela Europa, impressionou gringos ao tocar o som no P.A de teatros e shows ao ar livre, quando lhe perguntavam que banda era essa, e intrigados por cantarmos em português que lhes soa exótico.

Certa vez, um técnico de um festival onde ele operou os Mutantes que se apresentaram em Liverpool, na Inglaterra, ficou encantado com a sonoridade e não acreditava que um som de baixo matador daqueles tivesse sido gravado no Brasil, que ele devia subestimar, naturalmente em seus conceitos. Puxa, o som dos meus dois Fenders, e meu Rickembacker "causando" na cidade dos Beatles...nem em sonhos poderia conceber algo parecido...

Sobre a parte artística, eis o que penso de cada faixa :

"Sou mais Feliz" :

Eis o Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=kgtwdKgWuOk

Era nossa aposta mais pop, mas orgulhosos de que a canção; seu arranjo; sua letra, e a performance individual de cada um, remetiam à uma espécie de pop sofisticado setentista, do nível dos Doobie Brothers; Al Stewart; quiçá até Steely Dan, sem querer ser presunçoso.

Gravei com meu Fender Jazz Bass e busquei o som aveludado e típico das gravações clássicas de R'n'B e Soul Music dos anos sessenta. A frase da parte A que criei, é repetida em looping e privilegia a sustentação rítmica do riff da guitarra, e em minha opinião, imprime muito balanço à canção. Já na parte B, optei por improvisar sem limites, buscando o máximo do groove da Soul Music, e acho que fui feliz nesse passeio livre que fiz e imortalizou-se na gravação.

Gosto da melodia e da interpretação do Rodrigo, e dos backing vocals, que não gravei no disco, mas ao vivo, para dar liberdade ao Xando para poder improvisar no seu solo, eu que passei a fazer doravante.

Acho que o trabalho de guitarras do Xando é muito feliz em todos os sentidos. O riff original que é sua criação, e que deu origem à canção, é genial por si só, mas todo o arranjo que criou é muito bom, incluso na escolha de timbres e uso e abuso de efeitos de pedais. Ele só preservou um desenho rítmico que fora criação do Tadeu Dias, porque é realmente muito bonito, mas de resto, tudo o que se ouve ali de guitarras é sua criação.

Nos teclados, o Rodrigo gravou com um piano Fender Rhodes emprestado do Marcello Schevano e que usamos muito no nosso tempo juntos os três, na Patrulha do Espaço. O que dizer de um timbre clássico de um Fender Rhodes ? É absolutamente fantástico.

"Vai Escutando" :


Eis o Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=MJiHYRWISdk

Não posso afirmar que não gosto de alguma faixa desse disco. Não é demagogia, nem proselitismo, realmente gosto de todas, mas uma ou outra, acho que gosto um pouco mais.

É o caso de "Vai Escutando", muito provavelmente pelo fato dela soar-me mais Soul Music que as demais e eu adoro tal escola da Black Music, e refiro-me à Soul Music situada entre as décadas de cinquenta e metade da década de setenta, naturalmente.

Gravei com o Fender Precision, e o timbre nessa faixa ficou tão espetacular, que virou referência para o Renato Carneiro timbrar outras canções não só desse disco, como do seguinte, para buscar a sonoridade que eu queria do Precision. Em suma, um "estalo" médio-agudo, mas com um corpo de grave incrível, imprimindo peso e uma sonoridade agressiva e metálica e entenda bem o leitor, refiro-me ao aço propriamente dito, da siderurgia.  

Uma certa vez, uma produtora musical e amiga minha, insistiu em criticar a linha melódica dessa canção, atendo-se ao fato de que a respiração do Rodrigo na sua interpretação, estava errada. Até acho que ela tem uma certa razão, e poderia ser diferente mesmo, mas não tenho queixa do jeito que ele burilou essa melodia, e a gravou.

Gosto muito do interlúdio funk (acho uma lástima ter que fazer um adendo, pela inapropriada cooptação da palavra "Funk" para designar o lixo anticultural que assolou a nação fortemente após os anos 2000, mas quando falo "Funk", é óbvio que não me refiro a isso, e sim ao "verdadeiro Funk", derivado do R'n'B e soul music clássicas), que considero bastante sofisticado, e o Rodrigo foi genial nos teclados pelas suas criações, execução e escolha magnífica de timbres, principalmente no uso do sintetizador Mini Moog. 

Ao final, a ideia de fazer uma citação à "Partido Alto" do Chico Buarque, acho bacana e deu um verniz, é claro, mas na época eu temi ter problemas com Ecad e a editora que detém seus direitos, mas para todos os efeitos, os créditos estão bem claros no encarte do CD.

"Se Agora eu Pulo Fora":

Eis o Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=eh7IgcOzkXU

Falei sobre gostar de todas as músicas, e é verdade. Falei que também tem algumas que gosto um pouco mais, e esta é uma das que gosto um pouco menos.

É uma canção curta, intensa e tem força dramática, não nego. A harmonia e a maneira com a qual a melodia principal se delineou, são legais. O que não curto muito é a letra, que tem uma visão "Bukowskiana" da vida, viés que eu detesto. Como espiritualista que sou e absolutamente aquariano, esse negócio de junkie existencialista vivendo em quartinhos fétidos; escuros e decadentes, para mim soa deveras deprimente, e não sou favorável a ser difusor desse conceito, glamourizando-o.

Mas eu curtia tocá-la ao vivo pela batida da bateria, os acordes soltos e ressoando em notas semibreves preenchendo o compasso inteiro; dos bons solos, e das junções com bendings das duas guitarras.  

Gravei com um Jazz Bass para buscar exatamente o timbre "gordo" e típico desse baixo, privilegiando as semibreves em profusão.

"Me Chama na Hora":

Eis o Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=eh7IgcOzkXU

Como o Xando queria o conceito da música anterior ficar unida à esta, como uma espécie de continuidade da história que queria contar na letra, muita gente confundia e achava que eram uma canção só, mas não, são independentes, ainda que irmãs em alguns aspectos.

Essa canção tem forte influência de Jazz Rock na parte A, tem também um interlúdio "funkeado a la serventies", no meio, e na parte final, quando volta à parte A, o Xando sugeriu a inserção de uma percussão de escola de Samba, ao estilo "Samba Enredo", mesclada sem concessões ao riff nervoso de Jazz Rock.

Sabíamos que isso causaria estranheza para muita gente, notadamente fãs e jornalistas que nos conheciam por trabalhos pregressos centrados no Rock, sem concessões. E certamente, que era uma maneira explícita de deixar claro aos radicais de plantão, que o Pedra era uma banda de leque aberto para múltiplas sonoridades e não fechadas somente na pureza do Rock.  
Caio Inácio, percussionista convidado, e que gravou a Escola de Samba inteira nessa faixa citada...

A inspiração dele veio de uma música do Lobão, que admirava e a lembrança desse artista sendo hostilizado pelo público xiita do Sepultura, ao se apresentar acompanhado da bateria da Escola de Samba Mangueira, no Festival Rock in Rio, de 1991. 

Nunca me esqueço, um crítico que não entendeu direito a nossa proposta, escreveu sobre essa música : -"Parece Pink Floyd sendo interpretado pelo Zeca Pagodinho"...ha ha ha, uma das críticas mais hilárias e também injustas que já li sobre um trabalho meu...

Gravei com Fender Precision e o timbre matador, tanto nas partes agressivas de inspiração Jazz Rock, quanto no groove sempre inspirado em Sly and the Family Stone, Funkadelic/Parliamant e bandas desse naipe, ficou excelente.

"Amanhã de Sonho" :

Eis o Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=yyQqj1kRKAw

Essa era uma ideia que eu tinha desde 2003, e tentava inserir nas composições da Patrulha, visando o álbum "Missão na Área 13", mas não consegui, infelizmente. Quando iniciei atividades com o Pedra, mostrei a ideia ao Xando e ele curtiu, burilando-a. Ficou um pouco fora do que eu imaginava originalmente, mas reconheço que se tornou uma balada boa, com potencial pop e um dado muito interessante, depois de lançada oficialmente, tornou-se uma das mais pedidas nos shows, e eu sinceramente não pensava que se tornaria tão querida do público.

Guardadas as devidas proporções, e sei bem como funciona a cabeça de produtor-predador do show business mainstream, ela tinha potencial pop para invadir estações de rádio FM, inserir-se em trilha de novela da Globo, e cair na boca do povo, em larga escala.

Gosto muito da delicadeza generalizada e da performance de todos. Rodrigo a cantou de uma forma muito poética. A parte B foi criada pelo Xando, e parece "The Police" na minha ótica. Não gosto dessa banda e de sua concepção de fazer música calcada em agudos exagerados. O excesso de som processado do Police, me incomoda profundamente, e eu acho que a parte B dessa canção quase partiu para esse caminho pasteurizado.

Mas tem atenuantes, como o uso de um simulador de mellotron a la Beatles (Strawberry Fields Forever), que é muito legal e os backing vocals com apoio de flanger que soam psicodélicos.  

O mote da letra é legal a meu ver. Buscar a visão de uma menina naquela transição da mudança de corpo na adolescência x hormônios & medos inerentes, é um tema bom, e quando a letra foi concluída pelo Xando, nós brincamos que essa música cairia como uma luva para acompanhar uma personagem feminina adolescente da novela "Malhação" da TV Globo. Acho que poderia mesmo...

Mas também acho que a letra exagerou um pouco na dose, e quase soa piegas, analisando hoje em dia. De qualquer forma, em se considerando que o Pedra nunca chegou nem perto do mainstream, foi extraordinário notar que era provavelmente a mais querida entre as mulheres, e foi elogiada até por críticos notadamente exigentes e intransigentes, como Régis Tadeu, por exemplo, que a citou como uma boa balada pop, com méritos e qualidade.

"O Dito Popular" :

Eis o Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=a7XOjXJf48E


Assim que entrei na banda em outubro de 2004, essa era uma das poucas canções que o Xando tinha concluída para dar início ao projeto.

Trata-se de um Funk-Rock bem anos setenta, com ótimo Riff inicial; excelente refrão; e uma base de solos muito bem engendrada, com forte identificação Rocker setentista.

A letra, reputo ser uma das melhores do álbum, traçando uma colagem de diversos ditos populares, de uma forma muito bem alinhavada. Tem um senão de minha parte e que foi objeto de discussão entre eu e Xando, até que ele insistisse em manter sua ideia original na gravação : o recurso de um palavrão em sentido de interjeição.

Seu argumento era o da contundência a expressar a revolta pelo conteúdo de uma letra com intenções de protesto contra a política e o sistema em geral, aliado ao fato de que o coloquial despojado cairia melhor. Eu ao contrário, encaro o palavrão como chulo e desnecessário, e argumento que para se fazer contundente não é necessário baixar o nível do vernáculo e pelo contrário, sou absolutamente contra o artista que se nivela pelo baixo espectro educacional para se fazer entender pelo povo. Isso é baixar o nível e assim, o artista colabora com decadência em favor da subcultura ou pior ainda, da anticultura. Penso que falar errado de propósito ou usar expressões chulas, não dá estofo artístico algum a ninguém, e pelo contrário, só retarda a melhoria do nível educacional e cultural do povo.

Mas e o Adoniran Barbosa ? Pois é, licença poética e genialidade incontestáveis, mas seu caráter prosaico, assim como de Mazaroppi e Luiz Gonzaga, nunca partiram para o chulo. Enfim...

Outra coisa, se não entendem o que falo, busquem o dicionário e aprendam uma nova palavra enriquecendo seu vocabulário, mas daí a falar errado para se fazer entender, é algo que não engulo como argumento. 

Era um mero detalhe, mas gerou discussões acaloradas, no bom sentido, mas acabou prevalecendo a opção pelo palavrão explícito.

Sempre cantei ao vivo, respeitando tal opção e proferindo um sonoro palavrão, sem nunca deixar de fazê-lo pela dignidade artística da banda, mas nunca gostei disso.

Então, está lá : -"E aí Fudeu"...paciência.  

Gravei com Fender Precision, e acho que tirei um timbre muito vibrante, lembrando bastante o som do Trapeze e consequentemente, o som do Deep Purple da formação Mark IV. É puro "Come Taste the Band", na minha opinião.

Sendo a primeira música que trabalhamos, por conta de ser o primeiro clip ainda em 2005, um ano antes do disco ficar pronto, chegou a tocar um pouco na Brasil 2000 FM e veiculado com muita profusão em programas da Rede NGT de TV, além de uma efêmera participação na MTV. Comemoramos também as seis exibições no canal Multishow, ao final de 2005, dando-nos a falsa expectativa de que explodiria.

Sinceramente, tinha todas as condições para se tornar popular no mainstream, apesar da sonoridade Rock, com solos agressivos e não coadunados com a mentalidade mumificada dos donos do poder no Show Business. Em minha ótica, é uma ótima música, com muitos atrativos.

"Madalena do Rock'n Roll" :

Eis o Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=G1yvX8cLdPM

Essa música o Xando tinha guardado de tempos remotos, quando ainda nem pensava no projeto do Pedra. Trata-se de um riff muito bom, que de certa forma lembra a sonoridade bluesy do Led Zeppelin à época do Led Zeppelin II, de 1969.

A letra foi construída em torno de boatos de que pessoas que gostavam da minha atuação e do Rodrigo na Patrulha do Espaço, estavam desapontadas por nós dois termos deixado a banda e nos unido ao Xando para fazer o Pedra. Era portanto, uma ciumeira descabida e absolutamente inoportuna, pois tais pessoas não levaram em consideração que nossa saída da Patrulha era inevitável e que o Pedra apareceu como opção, e depois...

Fazendo uma analogia horrorosa, mas que serve para ilustrar, é como se uma pessoa fosse odiada por vizinhos que ficaram sabendo que ela se casou de novo, sem saber que o casamento anterior estava encerrado e a nova esposa não foi a causadora da dissolução do casamento anterior.

Baseado nessa premissa, o Xando escreveu essa letra alfinetando gente em geral que pensa e age dessa forma criticando as demais sem conhecer os fatos em sua realidade, ou seja, prejulgando. Isso fora o "muro das lamentações" em que se colocam e pior ainda, não suportarem a alegria alheia em detrimento de seus fracassos pessoais.
Gravei com o Rickembacker e desta feita, o Renato Carneiro teve mais dificuldades, mas isso não é novidade em se tratando desse instrumento que poucos sabem tirar som, no Brasil. Sua briga com os choques que as frequências médio-aguda em profusão desse instrumento, sua marca registrada, tinham com teclados, notadamente o piano acústico que Rodrigo usou, foi grande, mas com boa vontade ele chegou num bom termo.

Para quem conhece bem a sonoridade típica de um Rickembacker, é fácil de identificar seu timbre característico e como no meu arranjo pessoal usei bastante o recurso do "glissando" (ato de escorrer o dedo sobre a corda, fazendo com que várias notas deslizem, sendo tocadas ao mesmo tempo, e fiquem difusas, sem definição harmônica/melódica definida), que tratou de acentuar ainda mais o timbre lindo dele.

Gosto bastante das guitarras do Xando, especialmente suas intervenções de slide. A melodia é bem bacana e o Rodrigo, rasgou a voz com muita qualidade.

A parte dos solos, tem uma dose de experimentalismo muito interessante, uma ideia do Rodrigo, que imprimiu acordes dissonantes e notas jogadas a esmo, nos teclados, intercalando-se com partes soladas com musicalidade "normal", principalmente no uso do órgão Hammond. Ficou bastante "Hermeto Paschoal" e intrigante a meu ver. 


"Reflexo Inverso" :

Eis o Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=G1yvX8cLdPM

Muito interessante essa canção que tem muitas nuances, e por ter várias partes, é interpretada como uma peça de Rock Progressivo por muitos fãs e críticos, que a identificam como a uma suíte tipicamente progressiva.

Não está errada não essa avaliação e tendo a concordar com ela, em linhas gerais.

A parte "A" da canção tem muita influência de música brasileira. 

Dá para identificar fácil o "Clube da Esquina" de Milton Nascimento & Cia., tem Elis Regina e pasmem, acho que uma dose de Ivan Lins na conjunção harmônica da canção. Mas ela muda radicalmente a seguir e traz o elemento Rock, ainda que evocando o dito Rock Rural setentista. Ali passeiam Sá; Rodrix & Guarabyra; O Terço e Beto Guedes, certamente.

O final épico, com vocais fortes e "tecladeira" setentista a todo vapor, realmente lembra muito O Terço em seus melhores momentos da carreira.

Gravei com Rickembacker novamente, e gosto da sonoridade ali inserida. E claro, por gravar com esse baixo, se achavam que parecia uma suíte Prog Rock setentista, Prog tornou-se, definitivamente, com o Chris Squire que habita minhas memórias afetivas setentistas, soltando seus cães impiedosamente sobre o track...

Letra muito boa, fazendo um jogo de espelho e máscaras, buscando questões subjetivas, e de certa forma doloridas das entranhas do ser humano, aqui não tenho ressalvas, mas só elogios.

"Misturo Tudo e Aplico" :

Eis o Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=u_B0kqLIJCg

Talvez o único exemplar genuinamente Hard-Rock do disco, e acredito, que para muitos fãs de trabalhos anteriores meus, do Rodrigo e do Xando, tal canção representava a real expectativa que nutriam sobre o resultado de nosso trabalho. Para muitos, o disco inteiro deveria soar dessa forma, acredito.

Bem tudo ali soa "gordo", como é de se esperar de um Hard-Rock estilo setentista, Timbrão de teclados, notadamente o órgão Hammond evocando mestres Hard como Jon Lord; Ken Hensley e Vincent Crane, por exemplo; Riff forte de guitarra; baixo pesado etc etc.  
O trompetista Robson Luis, nosso convidado especial na gravação do álbum e que criou o clima de mariache mexicano nessa faixa.

Gosto bastante de tudo, incluso a inusitada intervenção de uma mini "orquestra" de trompetes ao final, trazendo melodias mariaches e naquela época as paletas mexicanas ainda não haviam tornado-se moda no Brasil...

Não curto a letra. Outra citação à vida junkie, mas sob um viés vazio, de mentalidade oitentista baseada na absoluta falta de propósito, uma marca registrada daquela geração sem ideais. Se ao menos falasse em algo minimamente válido como o conceito do "Open Mind" sessentista, no viés da busca de um escape, ou mesmo a visão cinquentista e beat de mergulho numa busca frenética e sem pontuação ortográfica, pelo sentido da vida fora do sistema, se deixando levar pela vida na estrada, ainda vá lá, mas junkie sem sentido algum, realmente não dá...dê-me licença e vá se internar, por favor.

Ataquei novamente de Fender Precision e busquei inspiração em bandas setentistas mais "duras" do Hard britânico, como Budgie; Sir Lord Baltimore; Toad etc.

"Estrada" :

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=UpqyLBbHDjM


Gosto muito dessa canção que foi a primeira colaboração que o Rodrigo trouxe à banda, assim que chegou, no finzinho de 2004.

Muita gente a considera Hard-Rock estilo britânico, mas eu penso nela como Southern Rock americano.

Tanto o riff inicial quanto as partes "B" e "C", remetem-me à tradição dessa escola estilística. Gosto muito dessa construção das três partes, e dos arranjos feitos coletiva e individualmente.

A base do Rodrigo, com leslie, é uma maravilha aos meus ouvidos sessenta-setentistas. Gosto bastante das intervenções do Xando com slide, também;

Na parte "C", onde também se calcou a sessão de solos, eu soltei a mão e busquei o som de Precision do baixo de Berry Oakley e Lamar Williams, dois baixistas que passaram pelos Allman Brothers Band.

Melódicos e com muito senso de preenchimento rítmico, imprimiram tal conceito para esse estilo e eu adoro...Muitas notas colcheias, preenchendo bem cada compasso, e para esse tipo de música, mais é mais...

A letra é sui generis, eu diria, pois apesar dessa sonoridade toda de Southern Rock, não buscou elementos rurais como é típico dessa escola, mas investiu na relação Homem-Mulher. Acho uma boa letra, bem construída, e com algumas colocações que até surpreendem para quem prestar atenção.

Minha singela contribuição ao arranjo geral, foi a sugestão de inclusão de Backing vocals na parte final. Por três vezes, Rodrigo; eu, Luiz Domingues, e Xando, cantamos "Uh Uh Uh", usando técnica de falsete, e minha inspiração foi explícita no Mad Dogs and the Englishmen, com Joe Cocker; Leon Russell & Cia, naquela malandragem maravilhosa do Blues de New Orleans.

"O Galo Já Cantou" :

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=IcKU1fLgg_c

Claro que curto a sonoridade Rock' n Roll crua e nua dessa música. 

Como fã inveterado dos Rolling Stones, como não curtir ?  E gosto bastante da quebra insólita desse conceito dentro da música, quando numa parte "C" muito inesperada, o pop quase tropical a invade, e dá um colorido muito grande.

As duas guitarras trabalham de forma muito sincronizada o tempo todo; curto muito o timbre forte do baixo Fender Precision, e acho bacana a inserção de um exótico fade in, quando as pessoas pensam que a música acabou, mas ela volta. E muita gente deve ter se assustado se demorou para dar stop no CD player após um longo espaço de silêncio, a música retorna, "do nada".

E assim encerro minhas impressões sobre as faixas.

Acrescento que a atuação do baterista Alex Soares é comedida no disco e isso foi um dos motivos pelos quais gerou-se uma discórdia e ele acabou deixando a banda e tendo sido creditado como "convidado" e não membro oficial (embora a principal razão, e eu já falei mas vou frisar, foi que quando ele saiu, o material gráfico estava prestes a ficar pronto e a solução foi suprimi-lo, após sua saída).

Uma menção não citada em lugar algum, mas é importante deixá-la aqui, um amigo meu e do Rodrigo, desde o tempo em que estávamos na Patrulha do Espaço, chamado curiosamente também Rodrigo Oliveira (O Rodrigo Hid se chama Rodrigo de Oliveira Hid oficialmente no seu RG), nos deu um apoio e tanto, trazendo seu PC ao estúdio Overdrive e acoplando seu HD onde tinha "plugins" de um programa sensacional de timbre de teclados vintage, e assim colaborou bastante para que os timbres dos teclados desse disco, soassem ao máximo com sonoridades sessenta /setentistas.

Thiago Skloaude foi o responsável pelo Lay-Out da capa e o próprio Rodrigo Hid cuidou das lâminas internas do encarte.

Fábio Mulan deu o suporte na diagramação do texto do encarte


As pontuais colaborações de músicos convidados, enriqueceram o trabalho, não tenho dúvida. Gratidão à Caio Inácio e Robson Luis.

Em suma, valendo-me de tudo que já disse anteriormente, um trabalho excelente, e do qual me orgulho bastante como peça artística, e também como produto comercial de alto padrão no mercado da música.

Ouça o álbum na íntegra :

Eis o Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=IcKU1fLgg_c 

Fotos de Grace Lagôa

Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário