quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 168 - Por Luiz Domingues



Bastante tempo antes de termos ido ao Rio Grande do Sul, já sabíamos que tocaríamos no Sesc Pompeia no fim de janeiro de 2002, como parte das festividades de aniversário da nossa cidade.

Tocaríamos num projeto denominado : "São Paulistas", uma alusão à São Paulo, em forma de trocadilho.

Era mais um projeto idealizado pela produtora Sarah Reichdan, e o formato seria o de um show duplo, com duas bandas de rock setentistas e significativas do Rock paulistano, Patrulha do Espaço e Tutti-Frutti, com a presença de três convidados especiais : o trombonista Bocato; o guitarrista do Sepultura, Andreas Kisser, e Clemente, o guitarrista e vocalista da banda Punk, Os Inocentes.

A ideia era que o Tutti-Frutti e a Patrulha do Espaço fizessem seus respectivos shows, inserindo convidados em seu decorrer, e ao final, todos os músicos, incluso os convidados, tocassem juntos um número final.

Em torno disso, digo em primeira instância que a ideia de um show conjunto era legal e a presença de convidados especiais, idem. Sob o ponto de vista artístico, isso é bacana, eu aceito essa ideia de forma tranquila.

Ainda falando do Sesc enquanto instituição, não me canso de dizer que é uma organização impecável, e que cumpre sua função sociocultural de uma forma brilhante, mantendo suas atividades num padrão de primeiro mundo, subsidiando tudo e entregando ao público, atrações e atividades gratuitas, ou cobradas em patamares simbólicos.

No esquema do Sesc, tudo funciona de forma exemplar, tanto para o público, quanto para os artistas e equipe técnica/produção. As instalações são impecáveis; o equipamento de som e luz é sempre de primeira linha; a cenotecnica é bem planejada, o camarim é super asseado, confortável e um lanche farto de comidas, bebidas e frutas é disponibilizado; os funcionários são atenciosos e cordiais. Os cachets são pagos regiamente e sob valores dignos, que respeita os artistas.

O Sesc, a meu ver, cumpre com galhardia o que o governo deveria fazer e não faz no campo social, como fomento à cultura, esportes, educação e até na área da saúde e cuidados com os membros da terceira idade.

Mas permito-me fazer duas críticas construtivas, absolutamente bem intencionadas, para deixar bem claro :

1) Há um excesso de rigor burocrático quando os shows são marcados. Tal exagero pode aos olhos da instituição, denotar a extrema lisura no trato contábil, fiscal e jurídico, mas na verdade, menos da metade da papelada exigida é realmente necessária. Portanto, para tocar no Sesc, é preciso ter um agente cadastrado na instituição e com estrutura comercial toda montada e sem rusgas, para poder transitar e negociar.

2) Sob o ponto de vista artístico, parece que o Sesc caiu numa armadilha criada por algum formador de opinião há muitos anos atrás, que certamente criou um paradigma. Pois é quase impossível se apresentar lá, se não for inserido num "projeto". O fato de um artista qualquer ter uma carreira, discografia e história, não parece ser suficiente para convencer um programador de Sesc, a lhe contratar e anunciar seu show, simplesmente. Você só participa se houver um "mote", e invariavelmente apresentar "um convidado".

Com isso, infelizmente, o Sesc dá a entender que não acredita nos artistas por sua força própria, mas pelo contrário, só os considera viáveis, se fizerem parte de um contexto criado. Não há como deixar de se observar que tem um elemento egóico nisso, pois alguém, dentro do Sesc, ou quem leva o pacote de tais "projetos", deve se achar "genial" por tê-lo idealizado...

Nesses termos, reitero que acho isso um maneirismo desagradável, mas que não pode de forma alguma diminuir o bem que a instituição faz ao país.

Da esquerda para a direita, a bandeira estadual paulista, e à direita, a bandeira paulistana da capital de São Paulo

Dentro dessa dinâmica de "projeto", a Sarah bolou esse pacote para o aniversário de São Paulo, e claro que ficamos honrados e felizes em participar.

Um ensaio foi marcado, portanto, para nos ajustarmos aos convidados tão somente, pois cada banda deveria responsabilizar-se por seu próprio show, naturalmente.

Já estava definido há semanas que o Tutti-Frutti tocaria com o Bocato e Clemente; e nós com o Andreas Kisser.

A sala de ensaio que a Sarah alugou para nós, foi o estúdio do tecladista Luiz  De Boni, ex-membro do Terço nos anos noventa. 

Era uma belo estúdio com várias salas, incluso de gravação, e muito bem localizado na avenida Indianópolis, no elegante bairro do Planalto Paulista, zona sul de São Paulo.

Eu tinha uma história pregressa com aquele estúdio, pois fora ali que gravei a primeira fita-demo do Língua de Trapo, no longínquo ano de 1980. Claro que nessa época, o estúdio era bem mais simples, com característica de uma sala de ensaio, pertencente à banda de bailes, Cia. Ltda., onde o Luiz De Boni era tecladista. 

Nesse ensaio com Andreas Kisser, tive uma agradável surpresa  da parte dele !

Continua...

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