quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 168 - Por Luiz Domingues



Bastante tempo antes de termos ido ao Rio Grande do Sul, já sabíamos que tocaríamos no Sesc Pompeia no fim de janeiro de 2002, como parte das festividades de aniversário da nossa cidade.

Tocaríamos num projeto denominado : "São Paulistas", uma alusão à São Paulo, em forma de trocadilho.

Era mais um projeto idealizado pela produtora Sarah Reichdan, e o formato seria o de um show duplo, com duas bandas de rock setentistas e significativas do Rock paulistano, Patrulha do Espaço e Tutti-Frutti, com a presença de três convidados especiais : o trombonista Bocato; o guitarrista do Sepultura, Andreas Kisser, e Clemente, o guitarrista e vocalista da banda Punk, Os Inocentes.

A ideia era que o Tutti-Frutti e a Patrulha do Espaço fizessem seus respectivos shows, inserindo convidados em seu decorrer, e ao final, todos os músicos, incluso os convidados, tocassem juntos um número final.

Em torno disso, digo em primeira instância que a ideia de um show conjunto era legal e a presença de convidados especiais, idem. Sob o ponto de vista artístico, isso é bacana, eu aceito essa ideia de forma tranquila.

Ainda falando do Sesc enquanto instituição, não me canso de dizer que é uma organização impecável, e que cumpre sua função sociocultural de uma forma brilhante, mantendo suas atividades num padrão de primeiro mundo, subsidiando tudo e entregando ao público, atrações e atividades gratuitas, ou cobradas em patamares simbólicos.

No esquema do Sesc, tudo funciona de forma exemplar, tanto para o público, quanto para os artistas e equipe técnica/produção. As instalações são impecáveis; o equipamento de som e luz é sempre de primeira linha; a cenotecnica é bem planejada, o camarim é super asseado, confortável e um lanche farto de comidas, bebidas e frutas é disponibilizado; os funcionários são atenciosos e cordiais. Os cachets são pagos regiamente e sob valores dignos, que respeita os artistas.

O Sesc, a meu ver, cumpre com galhardia o que o governo deveria fazer e não faz no campo social, como fomento à cultura, esportes, educação e até na área da saúde e cuidados com os membros da terceira idade.

Mas permito-me fazer duas críticas construtivas, absolutamente bem intencionadas, para deixar bem claro :

1) Há um excesso de rigor burocrático quando os shows são marcados. Tal exagero pode aos olhos da instituição, denotar a extrema lisura no trato contábil, fiscal e jurídico, mas na verdade, menos da metade da papelada exigida é realmente necessária. Portanto, para tocar no Sesc, é preciso ter um agente cadastrado na instituição e com estrutura comercial toda montada e sem rusgas, para poder transitar e negociar.

2) Sob o ponto de vista artístico, parece que o Sesc caiu numa armadilha criada por algum formador de opinião há muitos anos atrás, que certamente criou um paradigma. Pois é quase impossível se apresentar lá, se não for inserido num "projeto". O fato de um artista qualquer ter uma carreira, discografia e história, não parece ser suficiente para convencer um programador de Sesc, a lhe contratar e anunciar seu show, simplesmente. Você só participa se houver um "mote", e invariavelmente apresentar "um convidado".

Com isso, infelizmente, o Sesc dá a entender que não acredita nos artistas por sua força própria, mas pelo contrário, só os considera viáveis, se fizerem parte de um contexto criado. Não há como deixar de se observar que tem um elemento egóico nisso, pois alguém, dentro do Sesc, ou quem leva o pacote de tais "projetos", deve se achar "genial" por tê-lo idealizado...

Nesses termos, reitero que acho isso um maneirismo desagradável, mas que não pode de forma alguma diminuir o bem que a instituição faz ao país.

Da esquerda para a direita, a bandeira estadual paulista, e à direita, a bandeira paulistana da capital de São Paulo

Dentro dessa dinâmica de "projeto", a Sarah bolou esse pacote para o aniversário de São Paulo, e claro que ficamos honrados e felizes em participar.

Um ensaio foi marcado, portanto, para nos ajustarmos aos convidados tão somente, pois cada banda deveria responsabilizar-se por seu próprio show, naturalmente.

Já estava definido há semanas que o Tutti-Frutti tocaria com o Bocato e Clemente; e nós com o Andreas Kisser.

A sala de ensaio que a Sarah alugou para nós, foi o estúdio do tecladista Luiz  De Boni, ex-membro do Terço nos anos noventa. 

Era uma belo estúdio com várias salas, incluso de gravação, e muito bem localizado na avenida Indianópolis, no elegante bairro do Planalto Paulista, zona sul de São Paulo.

Eu tinha uma história pregressa com aquele estúdio, pois fora ali que gravei a primeira fita-demo do Língua de Trapo, no longínquo ano de 1980. Claro que nessa época, o estúdio era bem mais simples, com característica de uma sala de ensaio, pertencente à banda de bailes, Cia. Ltda., onde o Luiz De Boni era tecladista. 

Nesse ensaio com Andreas Kisser, tive uma agradável surpresa  da parte dele !

Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 167 - Por Luiz Domingues


Voltamos ao apartamento de nosso anfitrião e apesar do show não ter despertado a mesma reação que o de São Leopoldo na noite anterior, na capital gaúcha tivemos exposição midiática com dois programas de TV e um de rádio. Além do mais, o show não foi um desastre, pois tocamos bem, mas foi morno.

No dia seguinte, acordamos e fomos ao Manara buscar o nosso equipamento que dormira lá na casa. E não havia outra alternativa, pois tememos deixá-lo no ônibus que também passara o dia estacionado numa rua.

O clima que azedara com o motorista e sua entourage, amenizara-se com sua permanência no sábado em Bento Gonçalves, mas nunca mais foi o mesmo, e estava bem esquisito, na base da tolerância estabelecida no limite.

Reservadamente, o nosso roadie, Samuel Wagner, revelou-me que ouvira uma conversa do motorista com seu fiel escudeiro, o carrier, de que deliberadamente transformaria a nossa viagem de volta "um inferno", e que sabotaria o nosso plano de estar em São Paulo até quarta feira, pois na quinta tínhamos ensaio marcado para passar três músicas com o guitarrista Andreas Kisser, do Sepultura, que seria nosso convidado de honra num show que faríamos no Sesc Pompeia, nas festividades do aniversário de nossa cidade. 


Seu rancor era muito grande, e eu não duvidaria que seu plano de sabotagem lograsse êxito...

Nos despedimos do nosso amigo Luciano Reis que nos acompanhou nessa jornada desde o domingo, e o deixamos próximo de uma estação de trens, onde partiu para São Leopoldo. 


Decidimos voltar pela estrada BR- 101 que margeia o litoral dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, até a divisa com o Paraná quando se bifurca com a tradicional BR-116, que vai para São Paulo.

O clima estava azedo e tenso entre nós e o motorista, mas nada indicava o tal boicote que havia planejado. Resolvi guardar essa informação para mim, para não preocupar ninguém, e só a revelaria se houvesse um indício disso na prática, e a guerra fosse declarada, de fato.

Mas havia um fator decisivo nesse processo e no fundo, foi o que o conteve : éramos em cinco e ele contava só com seu amigo. Não poderia contar com a esposa e o filho pequeno se o tempo fechasse nas vias de fato. E claro que não colocaria sua família numa situação de perigo e constrangimento.

Mesmo assim, ficamos em alerta, eu e Samuca, observando os movimentos de ambos.

Paramos nas proximidades de Criciúma, em Santa Catarina, para um descanso quando já anoitecia e ele revelou estar fatigado na condução do veículo. Nesses termos, era mais prudente acatar e dormir.

Muito cedo, no dia seguinte (6:00 h da manhã), fomos para dentro do veículo, e partimos para a segunda etapa da viagem de volta, sempre atentos aos movimentos da dupla dinâmica, enquanto nossos amigos riam, tocavam instrumentos ou simplesmente dormiam em longos trechos.

Então, algo inusitado ocorreu quando alguém se lembrou das uvas que ganháramos de nosso amigo Evandro de Bento Gonçalves. Naquele calor, foi uma boa pedida se lembrar disso e todo mundo aceitou pegar alguns cachos para refrescar um pouco a garganta.

Foi quando o Samuel deu um berro vindo do compartimento de carga do veículo ! As uvas estavam perdidas por uma questão de sabotagem !!

E apesar disso que estava contando até agora, não era obra do motorista e do carrier. 


Ligando os fatos, o Samuel havia se recordado que vira dois rapazes de uma banda famosa de Porto Alegre que haviam ido nos ver no show de Porto Alegre, e que no meio do show, saíram de nosso camarim às gargalhadas, sem motivo aparente, enquanto nós tocávamos.

Não revelarei publicamente porque não quero fazer de minha autobiografia um muro das lamentações, mas o fato é que esses dois artistas nos desrespeitaram, urinando na enorme caixa de isopor que continha uma quantidade absurda de cachos de uvas.

Agora estava explicado o motivo das risadas e o motivo pelo qual colocamos o isopor no camarim era óbvio : no ônibus, sofrendo o calor escaldante do dia ensolarado, elas estragariam.

Ficamos muito indignados, pois tratamos bem esses moleques e eles foram dissimulados nos tratando com simpatia etc, apenas aguardando uma oportunidade para aprontar uma molecagem dessas.


Pode ser que eu seja ingênuo, mas nunca na minha vida tive esse comportamento de querer fazer brincadeiras de mau gosto com as pessoas e fiquei muito chateado.

Esses caras devem ter lido muitas biografias de bandas de Rock clássicas, falando de molecagens de bastidores e desejavam ardentemente viver tais experiências em sua vida, como uma espécie de autoafirmação Rocker, ou coisa que o valha.

Eu jamais fui ou serei assim e não me conformo com tal procedimento, que considero de baixo nível, e sou tão Rocker quanto eles pensam que o são.

Enfim, na hora ficamos muito indignados e claro, tivemos que jogar tudo fora.

A viagem acabou sendo normal e recordando hoje em dia, acho que o fator foi mesmo o da estratégia, pois ao menor sinal de que estivesse nos boicotando, o tempo fecharia para o motorista, e apesar de ser um sujeito rude e que certamente encarasse as vias de fato, em outras circunstâncias, ali a desvantagem era enorme.

Mas ele percebeu que o Samuel sabia, e dali em diante, o clima acirrou-se entre os dois e num futuro muito próximo, quase chegariam ao embate das vias de fato. Conto no momento oportuno.

Chegamos em São Paulo extenuados e no limite de atravessar a cidade em tempo de escapar do rodízio de veículos, quase às cinco da tarde da quarta-feira.

Descarregamos o equipamento e no dia seguinte o compromisso seria ensaiar com Andreas Kisser.

A pré-produção desse show no Sesc e o show em si, rendeu muitas histórias !!

Aguardem, que vou relatá-las a seguir...

Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 166 - Por Luiz Domingues

Chegamos ao Manara para o show, por volta das 21:00 h. e estávamos acompanhados do baterista dos "Arnaldos", que afinal de contas, era o nosso anfitrião...

Tivemos a boa surpresa de vermos na casa, os músicos e amigos Renê Seabra e Fares Junior, que estavam em Porto Alegre fazendo um trabalho de workshop. Renê Seabra foi baixista da Patrulha em duas fases, tendo gravado o LP Primus Inter Pares, de 1992.

Havia um bom público na casa e até a hora do nossos show, aumentou, fazendo um bom quórum. Mas com a ressalva de que a casa comportava bem mais gente, portanto, as 250 pessoas que ali compareceram, não lotaram a casa, mas, numa segunda ressalva, considerando que tratava-se de uma segunda-feira, consideramos um número muito bom de pessoas presentes. 


O show dos "Arnaldos" foi divertido, os caras tocaram várias canções do LP Loki, com qualidade. E antes de tocarem, nos abordaram para pedir autorização para tocar "Sexy Sua", música do primeiro disco da Patrulha, que sabiam que era do nosso repertório também. Talvez eles temessem que nós vetássemos que eles tocassem, para privilegiar a nossa performance, mas muito pelo contrário, curtimos a ideia de que eles a tocassem e em seguida nós, também, assim o público teria a oportunidade de curtir a canção do Arnaldo, em duas versões.

Se bem que no frigir dos ovos, não havia diferença radical entre as versões, visto que eles tocavam o arranjo do disco, e nós também... 


Chegou enfim a nossa vez de subir ao palco.

Estávamos ainda com a vibração de São Leopoldo na cabeça e projetávamos uma recepção semelhante em Porto Alegre, visto ser uma cidade grande e ter grande tradição rocker.

Mas infelizmente, não foi o que aconteceu...

Música após música, recebíamos em troca, apenas aplausos educados e quase burocráticos, muito longe da comoção que causáramos em São Leopoldo, na noite anterior.

O pessoal do Cachorro Grande apareceu em peso e foram simpáticos conosco no camarim do pós-show, mas sinceramente acho que não curtiram o nosso som, pois não demonstraram nenhum entusiasmos a mais do que a educação simpática. Achei estranho, pois os caras eram antenados em som retrô, portanto haveriam de identificar-se com todos os signos vintage inerentes à nossa proposta, mas não foi o que aconteceu, de forma enigmática para mim. Paciência. 


Nenhuma canção parecia mudar tal panorama, nem mesmo os pontos chave do show, onde estávamos acostumados em despertar reações sempre parecidas, independente de onde estivéssemos, com exceção de ambientes inóspitos, onde era óbvio que nos defrontávamos com pessoas que ignoravam retumbantemente a nossa cultura Rocker.

O som e a luz estavam legais; nossa performance muito boa, pois estávamos muito bem ensaiados e o público ali presente era antenado, portanto, esse show no Manara entrou para a história da banda como um enigmático exemplo onde o cenário apontava para um sucesso retumbante, mas no cômputo geral, não houve "química"...

É a tal da sinergia que todo artista que se apresenta ao vivo, ressalta que precisa existir para tudo funcionar bem. Tanto artistas musicais, quanto teatrais, sabem que o palco tem essa particularidade. E muitas vezes é absolutamente inusitado o motivo pelo qual não funciona tal predisposição, pois não havia nenhum motivo sequer para não dar certo.

Bem, como último detalhe que me recordo, teve uma canja de última hora, quando chamamos ao palco, o ótimo guitarrista gaúcho, Bebeco Garcia, que era famoso na cena oitentista sulista, por ter feito parte da banda "Garotos da Rua", que chegou a emplacar um hit no movimento do BR-Rock daquela década. 


Sujeito legal, boas influências, muito bom guitarrista entrou para tocar conosco, mas infelizmente estava bastante alterado, digamos assim, e mesmo fazendo um solo Rock'n Roll muito legal no início, foi estendendo a sua participação e causando uma estranheza ao público. Não queríamos cortá-lo bruscamente, é claro, mas ele não demonstrava vontade de encerrar, e a cada segundo a mais que estendíamos, percebíamos uma insatisfação do público, mesmo sendo o Bebeco, querido por todos.

Sua expressão facial era de catatonia, lembrando o Syd Barrett, não pela genialidade e estranheza psicodélica, mas pela patologia propriamente dita. Chegamos a ficar assustados vendo-o solando ad infinitum, sem demonstrar estar inserido com a banda, mais parecendo estar num mundo particular, tocando sozinho. Com os olhos esbugalhados, fitava as paredes do Manara, parecendo estar em outro lugar. E certamente estava.

Bem, missão cumprida, foi assim o show em Porto Alegre, com aplausos educados e nada mais...

Era o dia 21 de janeiro de 2002, com 250 pessoas presentes na plateia.

Ainda tenho alguns fatos para comentar sobre essa tour pelo Rio Grande do Sul... 

Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 165 - Por Luiz Domingues


Num arranjo bem fraternal, economizamos uma boa grana que gastaríamos com hotel, nos hospedando no amplo apartamento do baterista da banda "Os Arnaldos", que faria a abertura do show da Patrulha. Solícito ao extremo, foi um anfitrião muitíssimo hospitaleiro, nos deixando muito à vontade. O produtor do show, inclusive, era o vocalista da banda.

Onde ele morava, ficava muito perto de uma casa de shows underground, mas bem falada da cena gaúcha, onde diversas bandas off-mainstream costumavam se apresentar ("Garagem Hermética"). 


Na porta de tal estabelecimento, vimos dois freaks, que estavam vestidos como se estivessem na Swinging London dos anos sessenta. 

Achamos incrível avistarmos figuras assim e melhor ainda foi que eles nos reconheceram e nos abordaram com bastante simpatia.

Eram dois membros da banda "Cachorro Grande", que naquela ocasião ainda não tinham nem 10 % da fama que conseguiram construir no futuro próximo. Naquele instante, eram ainda artistas do underground, mas eu reconheci o baterista, porque me lembrei dele em fotos da banda Júpiter Maçã, onde ele atuava anteriormente, no final dos anos noventa. O outro rapaz era o vocalista, e já usava o seu famoso boné estilo sixties, que é sua marca registrada.

Simpáticos, ficaram contentes em nos ver, e claro que os convidamos para o show da noite e eles acabaram indo, inclusive levando os outros membros da banda.

Eu e Júnior fomos dar uma volta na Avenida Independência, a seguir, e achamos uma loja de instrumentos interessante. 


Entramos e ficamos felizes por ver que havia um cartaz de nosso show em exibição no quadro de avisos. O dono nos recebeu com bastante empolgação, e ainda fomos abordados por um casal de paranaenses que nos reconheceu por ter lido a enorme matéria de página inteira que havia saído nos dois jornais da cidade de Londrina, por ocasião de nosso show nesse município paranaense, bem no início daquele mesmo mês.

Rockers gostam de fazer ligações "mágicas" nessas horas, e claro que brincamos que eram muitos sinais positivos acontecendo para um dia só.

Ao final da tarde, tínhamos mais um compromisso televisivo. Seria uma rápida inserção ao vivo num programa de variedades da TVE gaúcha. Eu no entanto, sucumbi ao cansaço, e fiquei no apartamento onde nos hospedáramos.

Os demais foram e fizeram uma inserção acústica, tocando "Céu Elétrico". 


A banda de abertura, "Os Arnaldos", tinha uma particularidade exótica : era uma banda cover exclusiva do Arnaldo Baptista !! 

Os músicos adoravam o Arnaldo e tinham no seu repertório, músicas de todas as fases da carreira do Arnaldo, o que era bastante salutar, apesar do caráter "cover" de tal empreitada. 

Um dos músicos dessa banda, era o tecladista "Astronauta Pinguim", que era bem equipado com teclados vintage e ótimo músico. Anos depois ele mudou-se para São Paulo e hoje em dia é bem famoso na cena da música eletrônica e Indie Rock, inclusive com reportagens em jornais e revistas de mídia mainstream, fora aparições na TV etc.

Chegava o momento do show com a noite avançando...



Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 164 - Por Luiz Domingues


Acordamos bem cedo, pois apesar de São Leopoldo ser uma cidade satélite de Porto Alegre, teríamos que encarar um razoável percurso de tráfego pesado, passando por outras cidades muito próximas da capital gaúcha, como Viamão e Canoas por exemplo, e o trânsito ali num dia útil, ganha contornos de engarrafamentos, no sentido de Porto Alegre.

Estávamos muito satisfeitos com a performance da noite anterior, mas "quebrados" fisicamente, pois as condições no minúsculo Bar Br-3, eram difíceis em todos os aspectos, e tais dificuldades subtraíra-nos bastante energia.

Já indo para Porto Alegre, de fato enfrentamos um trânsito considerável e fomos direto para a casa noturna onde nos apresentaríamos, onde o planejamento era de descarregar o equipamento ainda na parte da manhã, e o produtor do show ali nos encontraria para nos conduzir à duas entrevistas que faríamos : uma na TV Bandeirantes; e outra na emissora de rádio Ipanema FM.

O guitarrista e produtor do show em São Leopoldo, Luciano Reis, viajou conosco a fim de nos auxiliar em Porto Alegre como um apoiador, e sua presença no ônibus foi fundamental como guia, nos levando com precisão à porta da casa onde tocaríamos.


A primeira impressão que tive ao entrar na casa de shows "Manara", foi muito boa. A estrutura era de médio porte, e lembrou-me muito o ambiente de casas de shows semelhantes que existiram em São Paulo entre os anos oitenta e noventa, como "Woodstock" e "Aeroanta".

Ou seja, casas de médio porte, com estrutura de palco; equipamento de som e luz; e retaguarda de camarins, muito acima da média de bares que tem pretensão de serem casas de shows, mas não conseguem.

No caso do Manara, realmente assemelhava-se às casas paulistanas que citei. Tinha um palco um pouco menor, mas muito digno para um artista autoral se apresentar com desenvoltura. Um bom P.A. e boa iluminação de um teatro, estilo cabaret. 


As instalações da casa eram de ótimo nível e a decoração era moderna, talvez não muito agradável para o meu gosto pessoal, pois remetia à motivos caribenhos que insinuavam reggae, mas tudo bem, isso é mera questão de gosto pessoal.

Logo que os roadies começaram a descarregar o ônibus, o produtor local do show chegou e muito educado e profissional, nos levou para os compromissos de mídia e posteriormente nos conduziu à um charmoso restaurante vegetariano de ótima frequência, relativamente próximo ao Manara.

Na Ipanema FM, concedemos entrevista ao vivo. 




Fico devendo o nome do locutor que nos recebeu, mas lembro que nos tratou com muita simpatia e respeito pela banda. Infelizmente, situações assim era tão raras em se tratando de mídia nos anos 2000, que até estranhávamos quando éramos tratado com o devido respeito e reverência que o nome da banda merecia pela sua história.

Particularmente, eu estava muito feliz por estar ali e até comentei com o rapaz , num momento em off, fora do ar, que tinha uma simpatia e dívida de gratidão com aquela emissora gaúcha, pois a minha banda nos anos oitenta, A Chave do Sol, foi muito executada ali, em sua programação, ajudando a formar um grande público gaúcho para a nossa banda. 


Infelizmente, nunca tivemos a oportunidade de nos apresentarmos em solo gaúcho, apesar de termos a consciência de que tínhamos naquele estado, um grande número de fãs, formados pelas nossas apresentações no programa "A Fábrica do Som", da TV Cultura de São Paulo, que era retransmitido pela TVE de Porto Alegre para todo o estado do Rio Grande do Sul, e muito em função da maciça execução radiofônica que tivéramos por conta da Ipanema FM de Porto Alegre. Portanto, estava realmente feliz por estar ali naquele estúdio, embora usando outra camisa agora, a da Patrulha do Espaço.

Foi um papo muito legal, promovemos o show que faríamos no Manara, naquela noite e tocou-se duas músicas do CD Chronophagia. 

Dalí, fomos voando para a TV Bandeirantes, curtindo a bonita visão do rio Guaíba e o estádio Beira Rio, do Internacional. Naquela época já era bem vistoso, imagino agora com a reforma para adequar-se ao "padrão Fifa", da Copa do Mundo... 


Na TV Bandeirantes, a inserção foi um encaixe muito rápido no jornalismo local. Praticamente só o Jr. falou, mas nós tocamos ao vivo, sim. Fizemos "Céu Elétrico" e  "O Pote de Pokst", com o Rodrigo, Marcello e eu "pilotando" violões, e o Jr. na percussão leve de uma pandeirola. Claro que o Marcello também tocou flauta no "Céu Elétrico".

Mas estávamos contentes, com duas ações de mídia de massa, reforçando o show.

Fomos então almoçar no restaurante que citei, nas proximidades do histórico auditório Araújo Viana, onde fiz questão de conhecer pelo menos a fachada, numa caminhada que fiz isoladamente após o almoço. Ali, shows históricos do Rock brasileiro foram realizados, incluindo a própria Patrulha do Espaço, muitos anos antes.

Com razoável tempo de sobra, fizemos o soundcheck no Manara... 



Continua...

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 163 - Por Luiz Domingues


Exatamente como estávamos sentindo que seria, o show ferveu...

Puxa vida, como era bom tocar para uma plateia que sabia exatamente quem você era, e ansiava por aquelas canções...

Como no melhor das tradições de um show de Rock à moda antiga, o público vibrou só por nos ver subindo ao palco tomando posicionamento de apanhar os instrumentos. Era uma plateia antenada; rocker; freak, na melhor acepção do termo.

Assim que os primeiros acordes de "Não Tenha Medo" foram tocados pela guitarra do Marcello, o público incendiou-se, e na primeira virada do Junior, antes mesmo de iniciarmos o vocal, urros foram dados e aliás, esse era um termômetro que tínhamos, pois quando nesse comecinho de show, ouvíamos urros de regozijo nessa virada, sabíamos que estávamos diante de uma plateia rocker que entendia o que estava ocorrendo naquele palco, visto que uma plateia leiga, não valorizava uma virada de bateria milhas acima da média de bateristas comuns. 


Só por esse detalhe velado, percebíamos que haviam rockers no público e quanto maior o urro de satisfação, mais nos animávamos, visto que a sinergia seria total durante o decorrer do show inteiro. 

E mais uma vez na tour, constatávamos uma espécie de azar, eu diria, porque em shows realizados em casas de melhor infraestrutura, geralmente encontrávamos uma plateia "não iniciada" nas tradições do Rock, e que pior que isso, mal sabiam quem éramos e que a nossa banda tinha uma longa história dentro do Rock brasileiro, vinda de uma árvore genealógica nobre.

Em contrapartida, era curioso que geralmente em casas de estrutura modesta, ou mesmo ruim, deparávamos com plateias quentes, sabendo exatamente quem éramos, nossa história e nossa linhagem dentro do Rock nacional...

A se lamentar, apenas essa equação, que prejudicava indevidamente a nossa performance, ao tocarmos com um P.A. inadequado e ausência de uma iluminação decente, justamente para quem merecia nos assistir/ouvir, com as melhores condições técnicas possíveis...

Bem, feito o desabafo em ritmo de constatação ou vice-versa, relato que o show foi sensacional do começo ao fim, com vários picos de euforia. É muito gratificante para qualquer artista, olhar nos semblantes das pessoas e ver que estão emocionadas, e era isso que eu via na maioria das faces que mirava, no calor da mise en scené.

A euforia era tanta, que nos arriscamos a fazer um improviso de última hora, tocando um pedaço da música "Sociedade Alternativa", do Raul Seixas, fazendo uma brincadeira com o freak doido, dono da casa, o tal Biba. Cantamos no refrão : "Viva, viva, viva o Biba e sua cabeça alternativa"...ha ha ha... 


Quando surpreendemos o público com o riff de "In a Gadda da Vida", do Iron Butterfly, a casa caiu, com gente pulando de alegria, como se comemorasse um gol no estádio de futebol.

Os temas mais progressivos fizeram o público vibrar, também. A cada demonstração de ecletismo dos nossos guitarristas, trocando de instrumentos o tempo todo, também, e esse era um trunfo que somente plateias rockers poderiam mesmo valorizar.

Em suma, esse show em São Leopoldo, foi um dos melhores que havíamos feito até então, desde o início dessa formação em 1999, com uma sinergia incrível.

Quando encerrou-se, o assédio foi total, pois naquelas dependências muito simples, com ausência de camarim, era realmente inevitável, mas não me queixo, e pelo contrário, guardo com bastante carinho essa lembrança das pessoas nos cercando para pedir autógrafos em discos, ou em pedaços de papel. 


Demorou para a adrenalina abaixar e o calor no recinto era imenso. Foram cerca de 200 pessoas confinadas num espaço que era adequado para cinquenta, talvez setenta, no máximo.

A nossa sorte era que estávamos descansados, pois o dia anterior fora de lazer total na cidade de Bento Gonçalves, conforme já relatei anteriormente.

Descansamos e nos programamos para sair cedo no dia seguinte para Porto Alegre, onde faríamos o terceiro show no Rio Grande do Sul, pois teríamos compromissos de imprensa pré agendados a cumprir.

Visitaríamos São Leopoldo outras vezes e gostamos tanto de tocar lá, que incluímos seu nome numa letra de música composta posteriormente, quando lançamos em 2004, o CD "Missão na Área 13". 


Na música, "Rock com Roll", citamos "São Leo"(São Leopoldo-RS), e "Sanca" (São Carlos-SP), duas cidades que sempre nos receberam com um calor rocker acentuado.

Era o dia 20 de janeiro de 2002 e haviam cerca de 200 pessoas no minúsculo Bar BR-3.

Agora, "vou para Porto Alegre, tchau"...

Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 162 - Por Luiz Domingues


Quando chegamos para fazer o show, a casa estava abarrotada, com uma multidão tentando entrar e sem conseguir seu intento, de tão absurdamente cheio que estava. 

Para a comitiva da banda poder entrar, foi preciso acionar a tal porta de emergência que ficava atrás do palco, e fazer uma ginástica incrível para passar naquele aperto, saindo pelo outro lado. Não havia outro local para ficarmos aguardando o nosso show, a não ser o mezanino minúsculo onde ficava a mesa do P.A. e para lá fomos, com bastante dificuldade para atravessar o mar de pessoas que existia entre nós.

Assistimos então a parte final do show do Sabbra Cadabra, cujo vocalista se esmerava para imitar os trejeitos do Ozzy Osbourne, com fidedignidade, incluso o figurino especialmente confeccionado como imitação do que o vocalista original do Black Sabbath usava na capa do LP Volume 4.

Não costumo apoiar bandas cover, mas reconheço seu esforço em fazer jus à banda que homenageavam e os meninos gaúchos desse quarteto tributo eram bons músicos, principalmente o Luciano Reis que demonstrou ter um talento como guitarrista.

A plateia era rocker, dava para sentir no calor do show da banda de abertura, e obviamente pelo visual da maioria, com tantos cabeludos à la anos setenta. 


Quando encerrou-se o show de abertura, nosso roadie se contorcia para arrumar o palco minúsculo e abarrotado, e dava para sentir a temperatura subir, motivada pela ansiedade. Nem havíamos subido ao palco e já dava para sentir a expectativa do público, denotando que teríamos um show quente do começo ao final.

Quisera termos tido essa dinâmica todo dia, mas shows assim, à moda antiga das mais belas tradições do Rock, eram raros. 


Nos resignávamos por fazer shows para plateias desinteressadas, mas como era bom termos um público rocker de verdade, que gostava de nós, conhecia a nossa história e repertório...

Bem, divagações à parte, chegou a hora...quando subimos ao palco do "BR-3"...



Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 161 - Por Luiz Domingues


Luciano Reis, nosso anfitrião e produtor local improvisado, era bem jovem e de fato, assim que se apresentou, lhe perguntei se ele era o produtor local do show e ele riu, dizendo não ser um produtor profissional, mas apenas um fã e músico, e que ocasionalmente ajudara na logística por conhecer bem a cena da cidade.

Apesar de jovem e enfatizar que não era um produtor profissional, o fato é que na base da boa vontade e intuição, o Luciano não mediu esforços para nos proporcionar as melhores condições possíveis e nesse caso, tudo me lembrava a produção do show que fizéramos em São Carlos, no interior de São Paulo, meses antes, quando a estrutura da casa onde tocaríamos era precária, e graças ao improviso dos Rockers locais, tudo viabilizou-se, ainda que de forma muito improvisada.

Fazia um calor inacreditável quando chegamos à São Leopoldo.


Cheguei a brincar com o Luciano, lhe perguntando se ali era mesmo o Rio Grande do Sul, ou tratava-se do Mato Grosso, Goiás e outros estados onde o calor é tórrido. Apesar do sul ter invernos muito rigorosos no padrão europeu, com até ocorrências de nevascas, eu sabia que o verão gaúcho era igualmente rigoroso, e comparável aos estados que citei.

A casa onde nos apresentaríamos, se chamava "BR-3".


Era uma clara alusão à música do Toni Tornado que fez sucesso no ano de 1970. Tratava-se de um pequeno bar com ares de salão de Rock, muito rústico, simples mesmo. O equipamento de P.A. existente no local era precaríssimo. Para alimentar o som ambiente, dava, mas para segurar um show de Rock, não havia nenhuma
possibilidade.

Nesses termos, o Luciano e sua rede de amigos Rockers locais, se mobilizaram e reforçaram o equipamento com várias peças avulsas, transformando-o num autêntico P.A. "Frankenstein"...

Mas se ainda era tudo precário, ao menos garantimos as condições mínimas das mínimas para poder tocar. O tamanho do palco era outro problema e tanto a ser equacionado. Absolutamente minúsculo e bem alto, dava uma sensação de insegurança bem grande para nós.

O Junior por exemplo, montou sua bateria num espaço enviezado para ganhar espaço, e seu banquinho ficava a milímetros de um vão entre o palco e uma porta de emergência que dava acesso à rua. Estranha porta de emergência obstruída pelo palco de madeira, mas na hipótese de um tumulto, o Júnior teria um escape, sem dúvida... 


O dono do bar era um hippie da velha guarda, gente boa, mas completamente doidão. Era uma figuraça e todo mundo na cidade o tinha como um personagem local, pelo que percebemos. Era conhecido pelo apelido de "Biba", mas no sul tal apelido não parecia ter conotação de homossexualismo como tem no nordeste, pois ninguém tecia brincadeiras maliciosas quando o citava.

Além de falar pelos cotovelos, falava coisas absurdas, contando "causos" mirabolantes e no decorrer de poucas horas em que convivemos, deu várias sugestões bizarras para a Patrulha fazer nos shows, em termos de cenários e efeitos, e claro que rendeu muitas risadas de todos.

Aos trancos e barrancos, conseguimos ajeitar-nos no palco. Desconheço fotos desse show, mas sei que existem filmagens de bastidores e trechos do show, que um dia serão disponibilizadas na Internet. Gostaria de rever tais imagens para constatar como conseguimos montar o palco com tão pouco espaço...

O som ficou "setado"(do inglês "Set Up"), no melhor padrão possível diante das circunstâncias de um infraestrutura precária, e por volta das 18:00 h. fomos para a casa do Luciano, onde passamos momentos agradáveis sob sua hospitalidade sensacional, quando curtimos uma sessão de discos de vinil muito legal de sua vasta coleção. Ouvimos entre outros discos, o som do Mandrill, que beleza !!.


Ele era também Luthier, e nos mostrou sua pequena oficina, onde costumava trabalhar no ofício de restaurar instrumentos de corda etc etc.

Fez questão de checar a regulagem de oitavas das guitarras do Marcello e Rodrigo, além dos meus baixos, também. E cometeu uma loucura diante de nossos olhos, que nos arrepiou : pegou uma de suas guitarras (acho que era uma Ibanez), e pediu para o Junior deixar uma assinatura em seu corpo. Daí, em cima da assinatura a caneta, pegou uma ferramenta de marcenaria e tratou de esculpi-la a talhos !!

Sua banda abriria o evento e tratava-se de um Black Sabbath Cover, chamada "Sabbra Cadabbra".


Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 160 - Por Luiz Domingues



O day-off na chácara da família do Evandro Demari, foi um verdadeiro "Spa" para nós. 

Apesar do clima tenso orquestrado pelo motorista e sua comitiva, estávamos alheios às suas bravatas, e sabíamos que ele se pronunciaria a qualquer momento.

Enquanto aguardávamos a manifestação do rapaz, descansávamos e curtíamos a estrutura da chácara. Lembro-me de um futebol animado no campo bem estruturado; piscina; muita uva colhida in natura na enorme videira; muita música etc.


Por volta das 17:00 h. recebemos o telefonema do motorista, dizendo que havia tomado a decisão de voltar imediatamente para São Paulo, e que passaria na chácara apenas para deixar o nosso equipamento e partir.

Então ele chegou e surpreendeu-se pois a nossa postura foi de continuar jogando bola no campo, com outros na piscina, e ninguém parecendo estar preocupado com sua bravata descabida.

Então, mediante uma conversa onde a ponderação de bom senso prevaleceu de nossa parte, e ele felizmente permaneceu quieto, o destituímos da falsa impressão de que haveria um suposto desdém por ele; sua família, e pelo carrier, que era seu fiel escudeiro.

Mostramos para eles que não havia nenhum cabimento para pensarem em contrário e que deveriam usufruir da estrutura da chácara, e não se segregarem num hotel, e ainda por cima gastando dinheiro do bolso. 


Enfim, a contragosto, aceitou nossa argumentação, mas com o semblante fechado, como se o seu orgulho fosse maior que a razão. Nesse caso, o que poderíamos fazer ?

Bem, nessa altura o seu filho que devia ter uns 4 ou 5 anos de idade, já estava se divertindo na piscina, brincando com uma bola e interagindo conosco, o que mostrava que o clima era fraterno e só ele havia detectado o suposto "desdém" de nossa parte, e daí havia contaminado sua esposa e o carrier. A sabedoria da criança, através de sua ingenuidade, falou mais alto.

O resto do dia foi de recuperação da relação azeda, mas a verdade é que nunca mais nos acertamos e não só por conta desse episódio, mas por uma série de acontecimentos somados, a nossa insatisfação com ele inviabilizou a parceria doravante.


O sujeito tentou criar esse clima para estabelecer um certo domínio da situação, e nós não poderíamos ficar em suas mãos, sob coação, aceitando tal procedimento. Então, a "luz amarela" acendeu nesse dia, mas a verdade é que a relação já vinha azedando desde algum tempo.

Daí em diante, começamos a cogitar a hipótese de comprar sua parte na sociedade, e assumirmos o veículo. Claro que acarretaria-nos  muita dor de cabeça inerente com tal responsabilidade, mas a perspectiva de não ficar à mercê de chantagens baratas como a que enfrentamos, era bastante animadora. 


Bem, com o day-off, todo mundo quis passear por Bento Gonçalves após o jantar. De fato, trata-se de uma cidade muito bacana, com um infraestrutura excelente e forte identidade cultural regional, como acontece em todo o estado do Rio Grande do Sul.

Somente eu não quis sair à noite, preferindo ficar no conforto da chácara.

No dia seguinte, domingo, acordamos tarde e partimos na hora do almoço para a segunda cidade da Tour.  A distância entre Bento Gonçalves e São Leopoldo era bem pequena e dessa forma, não havia a necessidade de sairmos cedo, mesmo porque, o soundcheck na casa onde nos apresentaríamos, seria só no final da tarde, portanto, tínhamos tempo de sobra.

Deu para pararmos na estrada, para uma exótica sessão de fotos num avião que agora serve de enfeite para um posto de gasolina, nas proximidades de Caxias do Sul. Temos até uma filmagem de bastidores com essa parada, e um dia será disponibilizada, ou em DVD, ou direto no You Tube. 


Chegamos em São Leopoldo por volta das 15:00 h e logo o nosso contato na cidade apareceu. Tal rapaz, chamado Luciano Reis, era um fã da banda e músico também, sendo que sua banda faria o show de abertura naquela noite.

Ele desdobrou-se para nos proporcionar as melhores condições possíveis, e se tornaria um grande amigo da banda doravante, não só nessa, mas como em diversas outras ocasiões em que fomos ao sul.

Esse show seria o oposto do show que fizéramos na sexta em Bento Gonçalves, pelo bem e pelo mal : pelo bem, ao contrário da plateia de playboys daquela casa noturna, teríamos um público rocker, quentíssimo. Pelo mal, a casa em que tocaríamos era muito simples, e a infraestrutura,muito precária...



Continua...