segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 111 - Por Luiz Domingues


Enquanto o ônibus embonecava-se no estaleiro, cumprimos mais um compromisso próximo. 

Voltamos então à casa "Volkana", de São Bernardo do Campo e desta feita não arriscamos bilheteria como das ocasiões anteriores.

Mais tranquilos com cachet fixo, não nos preocupamos com a conversa fora da realidade do folclórico gerente da casa. Mas na realidade nós deveríamos ter nos preocupado, pois o sujeito falava em mutirões de divulgação, como se fosse tarefa fácil mobilizar equipes gigantescas de voluntários e na realidade, mal havia verba para produzir um modesto material de divulgação.

Nesses termos, nós relaxamos e confiando que eles fariam o máximo para divulgar, levando-se em conta que nos pagariam um cachet fixo e de valor substancial para os padrões de 2001, não levamos em conta de que na iminência de uma revés, a casa teria problemas para honrar seu compromisso.

Isso sem contar o quanto era chato para nós, artisticamente, tocar numa casa com público aquém de sua capacidade, caso isso acontecesse.

Haveriam duas bandas de abertura. Uma delas era o Madreterra, um ótima banda do ABC, mesmo, e cujo baixista era um ex-aluno meu, chamado Marcos Pessoto Lira, um cara 100% bacana e ótimo músico.

Tal banda desenvolvia um trabalho próprio muito bacana e calcado em Hard-Rock setentista, mas com muitas dificuldades para achar espaços, tinha que necessariamente tocar covers na noite, para sobreviver. Todavia, mesmo tendo que usar desse recurso, ao menos tocavam um repertório agradabilíssimo de covers setentões, e me lembro claramente de tocarem coisas até surpreendentes de bandas como Grand Funk, Uriah Heep, Ten Years After etc.

Outra banda que tocou, foi o "Railway". Sinceramente, não me recordo com muitos detalhes do som deles, tampouco de seus componentes. Só recordo-me que achei agradável também a sonoridade dos caras e provavelmente se tratava de uma banda de influência setentista para eu ficar com essa pálida lembrança de algo simpático aos meus ouvidos.

Infelizmente, o público presente não foi muito grande. O dono da casa nos chamou para uma conversa na hora do acerto de contas e recorreu à clássica choradeira de falta de condições para honrar integralmente o cachet combinado, vindo à baila.

Todavia, ao contrário da imensa maioria de donos de estabelecimentos dessa categoria, eu reconheço que esse rapaz em particular era extremamente sincero e honesto, e realmente se viu em apuros para cobrir o cachet, pois era nítido que a bilheteria não cobriria nem a metade do valor.

Com ele, houve a compreensão de nossa parte e apesar de não ser correto de forma alguma, nós acabamos cedendo e aceitando o valor do cachet, reduzido.

Mas se dependesse de seu gerente, creio que não teríamos tal consideração, pois o cara deu um show de amadorismo nessa noite. E sua atuação de canastrice iniciou-se ainda antes do nosso show, com as bandas de abertura ainda tocando.

O sujeito, percebendo que o movimento da casa não aumentaria, começou a ficar nervoso com a perspectiva de ter de nos dar um cheque num valor alto, que a bilheteria não lhe garantiria o ressarcimento e dessa forma, tentou sensibilizar-nos da pior maneira possível, simulando estar numa crise estomacal.

Usando uma toalha de rosto que apanhara no toilette da casa, dizia estar numa crise aguda de úlcera e que sentia ânsia de vômito. Contorcendo-se, dizia estar com muitas dores e entremeava tais lamentos com frases pseudo-subliminares, fazendo alusão à "preocupação em nos pagar".
Nota sintética sobre o lançamento do CD Dossiê Volume 4, na Revista Rock Brigade, nº 181, de agosto de 2001

Era nítido se tratar de um teatro medíocre que fazia, pois numa circunstância real de crise, já teria saído correndo para um pronto-socorro, sem nenhuma perda de tempo em querer angariar a pena de quem quer que fosse.

De certa forma, foi engraçada a cena patética do cara com a toalhinha no rosto e claro que o Rodrigo, um imitador nato, já compôs o personagem no camarim e aquilo nos divertiu ali mesmo.
Nota sobre o lançamento do CD Dossiê Volume 4, na Revista Guitar Player nº 64, de agosto de 2001

Lógico que sabíamos que o pouco público presente traria dificuldades para a casa. Era óbvio que o espaço não tinha reservas para bancar shows e dependia do movimento da bilheteria. Infelizmente foi o que aconteceu, mas como já disse, o dono era um rapaz honrado, e sempre nos tratou bem, portanto, acabamos relevando.

Mas se dependesse do "ator", e sua indefectível toalhinha...

Isso aconteceu no dia 15 de setembro de 2001, um sábado, e o público presente foi de 120 pessoas.

O próximo show seria uma aventura e tanto. Conto a seguir...

Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 110 - Por Luiz Domingues


Enquanto o ônibus passava por tais modificações de funilaria e pintura, cumprimos um novo compromisso, alguns dias depois do show que fizéramos em Campinas, conforme já descrevi anteriormente.

Desta feita, nem que o veículo estivesse à nossa disposição, creio que valeria a pena usá-lo, pois se tratava de um compromisso numa casa noturna, na movimentada rua 13 de maio no bairro do Bexiga, aqui em São Paulo, e convenhamos, para estacionar um ônibus nessa via em pleno dia útil, seria uma proeza, com direito à uma carga de stress, absolutamente desnecessária.

Dessa forma, fomos com nossos carros particulares mesmo, a despeito de termos sempre um backline grande, e que demandava trabalho para transportar.

Enfim, o compromisso ocorreu no Café Aurora, no dia 13 de setembro de 2001 e portanto, numa quinta, dois dias após o atentado terrorista contra as Torres gêmeas de Nova York.

Lembro-me inclusive que o Junior chegou a proferir algumas considerações sobre o atentado, e arrancar alguns gritos da plateia, com tal manifestação.
O surpreendente baterista do Quarto Elétrico, Ivan Scartezini

A banda de abertura foi o "Quarto Elétrico", banda que curtíamos muito pela identidade grande da qual comungávamos, além é claro, da qualidade artística que eles possuíam, e para nós era um prazer ter uma banda desse quilate abrilhantando a noite.

Mundo pequeno e sempre surpreendente, pois apenas cinco anos depois, numa reviravolta da vida, eu e Rodrigo Hid estaríamos fora da Patrulha do Espaço e tocando numa nova banda onde o baterista do Quarto Elétrico, Ivan Scartezini, seria o nosso baterista...

Enfim, assunto para outro capítulo (Pedra), e que se encontra já em adiantada fase de cronologia narrada.

Nesse show do Café Aurora, cerca de 80 pessoas estiveram presentes e uma presença ilustre na pessoa do produtor Antonio Celso Barbieri, que há anos estava radicado em Londres. 
Foto de Antonio Celso Barbieri, de 2015, quando esteve em São Paulo promovendo o lançamento de seu livro : "O Livro Negro do Rock"

Barbieri fora produtor de inúmeros shows de Rock nos anos oitenta e produzira muitos para a Patrulha do Espaço e também para A Chave do Sol, minha banda naquela década, e tais histórias estão contadas devidamente nos capítulos da Chave do Sol, também.

Dois dias depois, tivemos um novo compromisso em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.

Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 109 - Por Luiz Domingues


A ideia de pintar o ônibus era acalentada pelos quatro membros da banda, com muito entusiasmo, porém, não era só uma questão de querer fazer, pois logo descobrimos que para oficializar uma pintura desse tipo no veículo, gastaríamos mais uma verba considerável,  havendo a possibilidade de ficar sob judice das autoridades, pois ao contrário do que imaginávamos, inocentemente, pensando na enorme profusão de veículos conduzidos por hippies nos anos sessenta, para rodar tranquilos, com o veículo regularizado em sua documentação, o buraco era mais embaixo, principalmente aqui no Brasil.

Então, levando em consideração tais fatos e somado ao fato de que o funileiro quando consultado sobre uma possível pintura artística, relutou e deu a entender que não saberia fazê-la corretamente, acabamos abortando o projeto, lamentavelmente.

Ficamos chateados obviamente, pois teria sido um prazer enorme, além de uma propaganda móvel muito bacana. Chegamos a cogitar levantar patrocínio, mesmo conspurcando um pouco a pintura psicodélica, mas logo desistimos pois seria um trabalho que demandaria muito tempo e nós estávamos com o carro parado na oficina já em fase de serviço de funilaria (aos cariocas que estiverem lendo : entendam "lanternagem"), e o rapaz (aliás nem nós mesmos), não poderia esperar por tal definição financeira para cobrir essa ideia.

O artista plástico que concebeu a pintura, chegou a oferecer-se para pintar pessoalmente, mas precisaríamos de uma garagem adequada, pátio ou estacionamento e haveria toda a estrutura de pintura que sairia cara com a compra não só das tintas, mas de pincéis adequados e material de apoio, fora a questão da sujeira inevitável e posterior responsabilidade pela limpeza e possível reparação de danos causados.

Ele chegou a falar sobre um mutirão, trazendo alguns colegas do atelier do Peticov, e que seria uma curtição para todos, mas infelizmente não tínhamos estrutura para tal e já estávamos inclinados a abortar a missão pelas dificuldades que teríamos com as autoridades de trânsito.

Não consigo recordar-me do nome desse jovem artista, pupilo de Antonio Peticov, mas lembro-me que graças à ele, nessa mesma época, ajudamos uma ONG de reciclagem de materiais, doando uma música para um CD coletânea com várias bandas. 

O Junior cedeu "Ser", extraindo o áudio diretamente do CD "Chronophagia". Tal coletânea se chamou "Música para Reciclar" e a ONG pertencia à uma associação de um bairro da zona norte de São Paulo, não me lembro se Pirituba ou Freguesia do Ó. Nela, haviam bandas novas e desconhecidas e só a Patrulha e o Tutti-Frutti como "dinossauros", com história.

Dessa maneira, tivemos que optar por uma pintura tradicional e discreta. Numa consulta à loja de tintas, curtimos um tom de azul bem escuro, que na nomenclatura do catálogo de tintas, se chamava "Azul Universo".

Curtimos a ideia do ônibus ter uma cor sóbria, e essa discrição ser fator de segurança, pois também ponderamos que a pintura psicodélica era maravilhosa, mas estávamos em 2001, no Brasil, e não na América de 1967, portanto, não obstante o fato de ser lindo para o nosso gosto estético, cultural e ideológico, aquilo seria uma chamariz  para coisas potencialmente ruins na estrada, também.

Por isso, ao descartarmos a pintura psicodélica, fomos em direção diametralmente oposta, optando pela segurança, via "camuflagem"...

Outro aspecto dessa parada no "estaleiro", veio do Junior. Quando o funileiro perguntou sobre os frisos, ele foi incontinente na determinação de mandar arrancá-los. Eu fui contra, mas ele persuadiu os garotos, e numa eleição de última hora, perdi nessa escolha.

O ônibus mantendo os frisos originais que estavam em bom estado e só precisavam de uma limpeza e polimento, teriam ornado muito melhor com a cor escura que escolhêramos, mas com a lataria "pelada", realmente ficou muito feio, a meu ver.

Fora a questão estética, havia o aspecto da segurança, também. Frisos não servem só para enfeitar, mas são sustentáculos importantes dos gomos de lata do veículo. 

Em 2003, passaríamos um apuro na estrada, justamente pela falta desse equipamento importante.

Enfim, vivendo e aprendendo...

Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 108 - Por Luiz Domingues


Diante da dificuldade que detectáramos na tarefa de carregar e descarregar o equipamento do ônibus, surgiu a ideia de promover uma transformação na lataria, abrindo um novo caminho mais confortável para o empreendimento de tal tarefa logística.

O sócio-motorista indicou um amigo funileiro que tinha experiência com esse tipo de serviço e dessa maneira, fomos até o município de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, onde ele morava, e posteriormente à oficina de seu amigo, num bairro daquela cidade.

Era o começo de uma era de peregrinações ao universo de oficinas; lojas de autopeças; eletricista de autos; borracheiros e afins, que confesso, sempre detestei, mesmo para cuidar de meu carro particular, quanto mais de um ônibus.

O sujeito era mais um daqueles típicos personagens desse universo, cheio das malandragens e maneirismos, e claro que eu e qualquer outro membro da banda, destoava disso completamente, e aos olhos dessa gente, éramos presas fáceis para que exercessem sua arte de ludibriar, usando de terminologia estranha ao nosso vocabulário e métier.

Só não foi fatal, porque nesse quesito, o sócio-motorista tomou a dianteira e falou a linguagem desses tipos, mas num curto espaço de tempo, ficaríamos vendidos nesse quesito, conforme relatarei na cronologia.

Enfim, o tal funileiro avaliou e projetou uma porta lateral no fundo, que facilitaria a tarefa de carga e descarga de equipamentos. Aproveitando o ensejo dessa intervenção, cotamos a pintura do veículo.

A pintura original de fábrica não estava ruim, mas se pudéssemos dar uma melhorada no carro, por que não aproveitar a oportunidade ?

Pairava contra, a ideia de uma dívida extra, pois ainda tínhamos prestações a pagar do veículo e vários pequenos reparos a serem feitos. Contudo, o preço que o rapaz pediu para pintar o veículo, ficou abaixo da média de mercado e portanto, tornou-se uma oportunidade.

Antes de comentar sobre essa pintura, preciso retroagir um pouco, pois mesmo antes dessa possibilidade aparecer, nós já havíamos pensado numa pintura, porque conversas foram mantidas com um artista plástico, que inclusive nos entregou um raf incrível que nos fez "viajar" nessa hipótese, literalmente.
Os irmãos Peticov, Antonio acima, em foto dos anos sessenta, e André, abaixo, em foto mais atual

Foi assim : o Júnior era amigo dos artistas plásticos Antonio e André Peticov, desde o final dos anos sessenta. Para quem conhece a história do Rock Brasileiro, sabe bem que esses irmãos tem uma parcela enorme de contribuição à arte de uma maneira geral e interagiram com bandas de Rock, desde essa época, com muita profundidade.

Antonio foi mentor dos Mutantes e André foi um dos primeiros artistas a fazer projeções psicodélicas de bolhas, em shows de Rock em São Paulo.

Mais ou menos em abril de 2001, fui com o Junior ao atelier do Antonio Peticov, um enorme galpão no bairro do Itaim-Bibi, na zona sul de São Paulo para uma visita.

Nessa visita, conhecemos um de seus muitos pupilos e quase todos ali eram entusiastas do Rock 60/70.

Algum tempo depois, nos lembramos desse rapaz, pois ele havia se oferecido para nos ajudar com qualquer tipo de lay-out que precisássemos, de cartazes de shows a capas de discos, enfim.

Então o Junior o chamou à sua casa e conversamos sobre a possibilidade dele desenvolver uma pintura psicodélica ao estilo dos ônibus e vans que circulavam na América, nos anos sessenta, no auge do movimento Hippie.

Claro que o rapaz adorou a ideia e alguns dias depois, voltou à casa do Junior com um raf, mas na verdade, já era um "boneco". Para quem não conhece o jargão de quem lida com lay-outs gráficos, "Boneco" é uma miniatura bem realista de como um produto vai ficar quando pronto, para o cliente ver e aprovar ou não a sua confecção.

Enfim, o ônibus de papel que nos trouxe ficou absolutamente incrível !! 

Era uma pintura louquíssima, multicolorida e o que era fascinante : 100% fidedigna à psicodelia sessentista, porque o conceito "psicodelia", há muito tempo foi deturpado por aí, por gente que lida com grafite, ou está ligada à tais raves de música eletrônica.

Mas não era o caso desse rapaz, pois como pupilo de Antonio Peticov, era naturalmente inteirado da egrégora, sabendo exatamente o que procurávamos, e indo além, claro que desenhou com paixão, pois também amava aquela estética.

Portanto, quando tivemos a chance de pintar o ônibus, claro que queríamos aquela pintura psicodélica incrível, mas fatores alheios à nossa vontade, mudaram nossos planos...


Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 107 - Por Luiz Domingues


Encarando a novidade, rumamos à Campinas e logo no primeiro posto rodoviário, fomos "convidados" a parar para uma conversinha com o policial rodoviário.

Apesar da aparência discreta do veículo e estar tudo em ordem, inclusive a documentação já registrada no nome do nosso motorista/sócio, éramos novatos nessa dinâmica de nos considerarmos donos de um ônibus, e posso afirmar que foi o primeiro susto desagradável que tal atribuição poderia proporcionar-nos e infelizmente, coisas muito piores aconteceriam doravante, por anos...

Imbuído da típica malandragem de quem tinha vivência nesse tipo de coisas, o motorista só nos disse para ficarmos quietos dentro do veículo e aguardarmos, pois ele trataria do assunto com o policial.

De fato, o policial quis olhar os itens básicos de segurança do veículo, não achou nada de errado na documentação e só alertou sobre os pneus que não havíamos trocado previamente e certamente também precisavam ser substituídos (só trocáramos dois, os piores, mas o certo seria ter comprado um jogo novo)

Mas o policial quis dar uma olhada na parte interna, e com cara de poucos amigos, entrou e verificou que era uma banda de Rock a bordo, com um monte de cabeludos, instrumentos e equipamentos. 

Temi por um pedido de inspeção geral, alimentado pelo preconceito de praxe em ralação à drogas, mas ele apenas desejou-nos feliz viagem e nos liberou, enfim.

A parada consumiu quase meia-hora da nossa viagem, ou seja, a metade do tempo que se gasta normalmente para ir de São Paulo à Campinas.

Enfim, chegamos finalmente ao Delta Blues, no simpático bairro Castelo na cidade de Campinas, e assim como na ida, ficou a constatação de que carregar e descarregar o equipamento pela porta tradicional do veículo era um fardo. Além de pouco anatômica para a função, produzia um lógico cansaço extra para a equipe de roadies, além da morosidade nesse processo, gerando um stress a mais.

Providências teriam que ser tomadas sobre tal questão, além da adequação dos bancos, pois o ideal era ter menos que as quarenta e tantas poltronas tradicionais do ônibus.

Falando do show em si, foi uma excelente performance. Honrando as tradições da banda, "fizemos (de fato), uma noitada excelente"...

Era a noite do dia 6 de setembro de 2001, véspera de feriado nacional, e cerca de 300 pessoas entraram na casa para nos assistir.

Um fato alheio à banda abaixou um pouco o astral da noite, com uma briga que aconteceu quando seguranças da casa expulsaram alguns garotões impetuosos que tentaram entrar sem pagar.

E outro fato, este sim, pertinente para nós, foi que logo na saída, havíamos notado areia no interior do veículo, ainda que não em grande quantidade e nitidamente notava-se que havia escapado de uma vassourada prévia.

O nosso "sócio" tentou disfarçar, falando que transportara areia de uso pessoal, mas a verdade veio à tona a seguir : ele transportara uma banda de pagode para a cidade de Santos, alguns dias antes, e o passeio na praia certamente deixou vestígios.

Nosso trato era o de usarmos o veículo exclusivamente para nós, mas logo de cara, já ficamos desapontados com tal atitude sem a nossa concordância, e aí já começou uma quebra de confiança que só aumentaria nos meses subsequentes.

Na volta para São Paulo, a viagem foi tranquila. O ônibus não esboçou nenhuma pane, e a polícia não nos parou para inspeções, mas quando já estávamos transitando pela cidade de São Paulo, um problema nos surpreendeu em pleno vale do Anhangabaú, bem no meio do túnel subterrâneo...

Uma falha lamentável ocasionada pelo marcador de combustível, nos deixou sem noção da real situação do abastecimento do tanque de óleo diesel. Foi repentino e lamentável, ficar por volta das seis horas da manhã com o carro sem meios de prosseguir. A sorte, era que se tratava de um feriado e num horário muito cedo, pois se fosse num dia útil qualquer, seríamos alvo fácil dos xingamentos dos motoristas estressados.


Enfim, sanado esse "probleminha", seguimos em frente e já tínhamos uma outra questão para resolver : o marcador de combustível e sua indefectível boia...

Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 106 - Por Luiz Domingues


Embora fosse óbvio que teríamos gastos adicionais da ordem de ajustes de manutenção do veículo, além das prestações da aquisição propriamente dita, o nosso sócio-motorista, sempre minimizava tais questões, como se fosse fácil resolve-las.

É claro que não era, mas a contrapartida dessa aquisição, era a óbvia perspectiva de aumento da demanda de shows, com o consequente aumento da arrecadação. Nesses termos, parecia que a estratégia lograria êxito, e na pior das hipóteses, conseguiríamos manter a banda no "azul", o que já seria aceitável naquele momento.
Rara foto desse show no Delta Blues de Campinas em 2001, e do acervo pessoal do nosso roadie, Samuel Wagner

Enfim, gastamos uma boa quantia para alguns ajustes mínimos, no intuito de usar o ônibus o quanto antes e torná-lo assim, rentável.

E a primeira experiência com o veículo, se deu no início de setembro de 2001. Fomos à Campinas, para mais uma apresentação na casa de shows, "Delta Blues".

Como a cidade de Campinas dista apenas 100 KM de São Paulo, julgamos ser uma experiência ideal para testar o carro na estrada e sentir assim se poderíamos confiar no seu desempenho.

O motorista também parecia bastante animado e como costumava enfatizar, queria curtir a vida na estrada levando a banda para tocar a toda parte.

Nesses termos, parecia uma parceria perfeita, mas não pensávamos nessa ocasião, o quão imprudente é contar com um único motorista para conduzir o veículo.

Na animação inicial, não ponderamos os impedimentos inevitáveis que poderiam ocorrer, tais como : problemas de saúde; imprevistos familiares; problemas com a carteira de habilitação do dito cujo etc etc...

Tais questões só viriam à tona, tempos depois, quando nos deparamos com eventos desse nível, pois naquele momento inicial, só pensávamos o dia-a-dia.

E assim, com o ônibus tendo passado por pequenos ajustes iniciais básicos (troca de óleo e filtros; dois pneus novos; um check-up na mecânica; freios, e parte elétrica), encaramos o primeiro desafio.

Posso afirmar hoje em dia, que era uma nova etapa na vida da banda e não simplesmente só uma mera aquisição. Realmente, daí em diante, as coisas pautaram-se muito em cima desse ônibus, pelos aspectos bons e ruins de tal rumo que tomamos. 

Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 105 - Por Luiz Domingues


Tocamos outras músicas nesse dia, mas os vídeos que um fã/amigo, e que teve curta participação como roadie da banda em 2000, (Rogério André), disponibilizou no You Tube, são esses anteriormente citados.

O programa era obscuro, e evidentemente que teve audiência quase zero na época de sua exibição. A despeito da qualidade de imagem ser precária, pela falta de recursos de iluminação melhores no estúdio daquela universidade, claro que foi válido participar.

Uma pena, pois a performance da banda foi boa, com pouquíssimos erros e isso deve ser creditado ao fato de que estávamos bem azeitados pela frequência boa de shows que fazíamos.

O próximo compromisso que teríamos, seria numa casa noturna famosa do interior de São Paulo, e que já havíamos visitado no final de 2000.

E nesse show em específico, uma novidade aconteceria como um teste preliminar, mas que tornaria-se doravante uma esperança de solução para a logística da banda, mas concomitantemente, uma fonte permanente de dores de cabeça, para todos nós.

A esposa do Junior na ocasião, conhecera um rapaz que era dono de duas vans, e que levara a banda para shows no interior, anteriormente, no regime de locação.

Esse sujeito disse ter conhecido um outro rapaz que estaria vendendo um ônibus, por um preço convidativo, e que estaria disposto a facilitar o pagamento.

Então, numa fase onde tínhamos muitas oportunidades de tocar em cidades interioranas; viajar para outros estados, e sobretudo, deixávamos uma gorda fatia de nossos cachets sair de nosso bolso para pagar a locações de  micro-ônibus, vans e similares, a ideia de ter um transporte próprio, parecia ser boa em princípio, mas muitos desdobramentos ocorreriam dessa ideia.

Claro que conversamos e ponderamos os prós e contras de um investimento desses. A autonomia para viajar, parecia ser o grande argumento pró, mas a contrapartida gerava dúvidas. Não seria melhor investir tal dinheiro em outras coisas importantes para a banda ?

Enfim, essa conversa nos ocupou a atenção entre agosto e setembro de 2001.

Continua...

domingo, 30 de agosto de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 104 - Por Luiz Domingues


Chegando ao campus, verificamos com pesar que o estúdio de TV dos estudantes do curso de Rádio e TV, ficava no quarto andar de um prédio, sem a existência de um elevador sequer.

Ora, diante dessa escadaria massacrante, e do fluxo gigantesco de estudantes subindo e descendo pelos andares, percebemos que nossos roadies se matariam nessa tarefa, e pior, essa logística atrasaria demais o trabalho de montagem do equipamento, e consequente início dos trabalhos de gravação do programa.
Então, mais uma vez contando com o poder da improvisação e camaradagem, alguns alunos envolvidos nessa produção, dispuseram-se a ajudar, num ritmo de mutirão, pura e simplesmente...

Conseguindo assim, escalar os quatro andares com aquela tralha toda, incluso o órgão Hammond, que demandava a presença de no mínimo, quatro homens fortes para carregá-lo.

Claro, muita gente caiu na real quando viu o tamanho do equipamento, pois talvez alguns desavisados, principalmente do corpo docente da instituição, deviam ter imaginado a presença de uma banda despojada, de garotos de bermudas, sem essa preocupação com a qualidade sonora etc etc.
Começamos então a montar tudo, e nesse ínterim, acompanhei uma conversa em off de uma professora envolvida na produção do programa, com o técnico de som, preocupada, vendo que o áudio não poderia sair mal, com uma banda profissional desse nível. Era óbvio que estava mesmo surpreendida, pois esperavam uma banda amadora, formada por alunos ou conhecidos dos mesmos, mas com um equipamento mais simples e certamente, completamente despojada.

Diante disso, era compreensível que ficasse preocupada, ao ver os alunos sob sua responsabilidade, intimidados com uma banda com história. De fato, dava para perceber que estavam nervosos, principalmente a garota que seria a apresentadora.

Percebemos que andava para lá e para cá, com a ficha de informações e perguntas na mão e tentando decorar alguns tópicos. 

Aliás, esse procedimento é comum entre profissionais de jornalismo televisivo, já vi repórter tarimbada fazendo isso, portanto, a professora ensinara corretamente a técnica, mas a garota era só uma estudante, chamada Alessandra Leite, bem novinha e estava nitidamente intimidada com a nossa presença.

Normal, ninguém nasce sabendo...
E na medida do possível, nós nos solidarizamos com ela, pois tratamos de quebrar o gelo, lhe dando suporte nos momento antes da gravação iniciar-se, enfim.

Haveria também um pequeno público presente, que foi acomodado numa pequena arquibancada dentro do estúdio. De última hora, o Samuca avisara alguns amigos seus, e que se misturaram à alunos.

Foi bem legal essa participação, trazendo um pouco de calor humano, fundamental para nos soltarmos um pouco mais, pois é sempre intimidante tocar em estúdio de TV, só com a presença de técnicos.
O programa chamava-se "Página Aberta", e era exibido no canal comunitário da cidade de São Paulo e também num similar da região do ABC. Infelizmente, a audiência era perto do zero, mas não podíamos e não desprezamos a oportunidade, sem dúvida.

Tocamos diversas músicas, e um bate-papo foi intercalado em trechos. O programa foi dividido em dois blocos, e exibido em duas datas de agosto, com meia hora cada um.

A qualidade sonora da mix televisiva surpreendeu-nos, até, quando o vimos no ar, dias depois.
Uma postagem no You Tube, foi feita anos atrás, de um trecho desse programa, mas dando o credito errado, dizendo ser um programa da TV Cultura. Não é verdade, e por isso deixei um comentário na página, fazendo a correção.

A iluminação deixou a desejar, mas acho que por falta de mais recursos. De fato, é um vídeo um tanto quanto escuro, em se considerando ter sido feito num estúdio de TV, não 100% profissional, mas em termos experimentais e didáticos, bem aparelhado.

Essa postagem que citei, onde tocamos a nossa versão para "Ando Meio Desligado", dos Mutantes, obteve muitos views. Claro que o chamariz de ser uma música famosa dos Mutantes pesa, mas creio que a nossa performance tem seu valor, ainda mais pelo improviso que fazíamos no meio da canção, com direito à citação de "In-a-Gadda-da Vidda", do Iron Butterfly...


O vídeo de "Ando Meio Desligado", dessa citada aparição no programa "Página Aberta", produção dos alunos do curso de Rádio e TV da Universidade Metodista, de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Exibido na TV Comunitária de São Paulo, em agosto de 2001.

http://www.youtube.com/watch?v=GPbNby6HyCo
O Link para assistir no You Tube
O Link para assistir no You Tube



http://www.youtube.com/watch?v=UYzqmDaqkgc
O Link para assistir no You Tube


Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 103 - Por Luiz Domingues


Voltando a falar da cronologia, o próximo compromisso foi um convite de uma casa noturna tradicional do bairro do Bexiga, próximo ao centro de São Paulo.

Tratava-se do "Café Aurora", casa que existia há muitos anos na rua 13 de maio, e que costumava privilegiar uma programação de bandas cover, predominantemente.

Mas como o convite partiu da casa, era óbvio que haveria um cuidado especial em produzir uma noite para o som autoral e dessa forma, aceitamos o convite.



Ainda por cima, haveria a boa companhia dos amigos do Baranga, portanto, no mínimo, seria uma noitada de Rock, agradável.

Isso ocorreu no dia 26 de julho de 2001 e 120 pessoas foram computadas na plateia. 

Enquanto a gravação do novo álbum se encerrava, um convite para fazer um programa de TV surgiu, mas vale a pena me estender um pouco nele, pois rendeu história.

Como foi muito comum nessa fase da Patrulha, foram raros os programas de TV aberta ou mesmo paga, em que participamos. As raras oportunidades que tivemos, foram proporcionadas por programas obscuros de TV's Comunitárias e/ou universitárias, com pouca visibilidade, infelizmente.

E quando surgiam, é claro que os aceitávamos, de bom grado, pois a boa vontade expressa ao formular o convite, não poderia ser desprezada de forma alguma.

Foi o caso desse convite que recebemos de um grupo de estudantes universitários, que produziam um programa, como atividade curricular de seu curso de Rádio e TV, numa universidade privada do ABC.

Era a turma de estudantes de Rádio e TV da Universidade Metodista, de São Bernardo do Campo, cidade da região do ABC paulista.

O convite surgiu através de uma amiga do nosso roadie, Samuel "Samuca" Wagner, chamada Rosângela. Ela não era estudante desse curso, mas conhecia a turma de Rádio e TV, e sugeriu a Patrulha, exatamente pela proximidade de conhecer o Samuca e saber que o contato seria fácil, nesses termos.

A ideia seria gravar um especial de uma hora de duração, com a banda tocando ao vivo nos estúdios da Universidade, e claro, com direito a um bate-papo falando do trabalho, etc etc.

Seria sem cachet, evidentemente, mas a estrutura da universidade nos foi oferecida, e pelo menos a logística estava garantida, com a cessão de vans para providenciar o transporte do equipamento, e da banda.

OK, estava topado e assim, no dia 10 de agosto de 2001, nos dirigimos ao campus da universidade, em Rudge Ramos, bairro daquela cidade, que faz divisa com São Paulo.

Continua...