terça-feira, 30 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 356 - Por Luiz Domingues


Bem, apesar de estarmos com o "gás diminuindo", havia a atenção para os dois encontros que poderiam nos dar novo alento, com executivos de gravadoras.

O primeiro, seria a tentativa de Eliana Dinola em abordar o produtor da Warner, Liminha. E a segunda ação, mais plausível, a reunião prometida na RCA Victor, através do divulgador "Bip Bip", que tornara-se nosso amigo.

Sobre a irmã de Zé Luiz, já elenquei anteriormente suas qualidades pessoais que a credenciavam a tentar uma abordagem. No bojo, acrescento o óbvio, ou seja, a extrema boa vontade dela que tinha sua vida; uma casa e uma filha pequena para cuidar; suas atividades profissionais etc.

Ela tinha mesmo uma capacidade de expressão extraordinária, e se apresentando como produtora musical, passou facilmente pela triagem inicial na organização, marcando uma reunião com Liminha em pessoa.

Não que a subestimássemos, de forma alguma, mas ficamos realmente estupefatos quando noticiou-nos que a reunião estava agendada, com a exceção evidente de Zé Luis, que conhecia bem a obstinação e capacidade de sua irmã mais velha.

Enquanto isso, aguardávamos um sinal semelhante vindo do divulgador "Bip Bip", que também veio logo. Uma reunião estava agendada portanto, com o produtor conhecido pela alcunha de "Barriga".

Era o homem que batia o martelo, pró ou contra, na decisão final de contratar ou não, como diretor de repertório da gravadora.

Então, resolvemos quebrar o protocolo básico, e ao invés de escalarmos a namorada do Zé Luis, e nossa produtora executiva, Eliane Daic, para falar com o tal "Barriga", resolvemos irmos nós mesmos. 

Sei que era errado e quebrava a regra básica de que o artista em pessoa não deve participar desse tipo de negociação, mas tratava-se de uma instrução direta do "Bip Bip", que nos alertou que o "Barriga" não tinha frescuras com protocolos, e gostava de falar direto com o artista, sem conversa ensaiada de empresários / produtores, e sua "lábia de vendedor".

A julgar pelas alcunhas de ambos, e o patamar de inferioridade momentânea que a gravadora ostentava naquele instante oitentista, amargando posição abaixo da concorrência, fazia sentido que a praxe fosse abolida e as abordagens ocorressem na base da total informalidade.

No Rio, a irmã do Dinola conseguiu de fato a reunião. No gabinete do Liminha, falou, usando sua habilidade verbal de vendedora nata, e foi muito bem tratada pelo produtor. Contudo, não conseguiu lograr êxito, pois o discurso dele foi o padrão, alegando que a nossa banda não estava coadunada com o que eles acreditavam naquele instante.

Pura verdade, e nós já sabíamos disso, há anos...portanto, cabe observar que nossa insistência em abordar a Warner, seguidas vezes, e usando vários meios para tal, era em si, uma péssima estratégia.

Numa metáfora grosseira, parecia a tática de caçadores de autógrafos tentando burlar a segurança de hotéis, onde artistas famosos estão hospedados...

Por isso, hoje tenho a convicção de que ao sermos rejeitados pela primeira vez e sabedores na época, que independente da qualidade / possibilidade comercial da banda, uma segunda tentativa de abordagem caracterizou um erro estratégico, nos estigmatizando. O que dizer então da terceira, quarta, quinta...

Acho que ficamos marcados na gravadora como os cabeludos anacrônicos e chatos...numa demonstração de teimosia insuportável.

Eliana foi mega bacana conosco e tenho certeza de que não tentou nos ajudar apenas pelo seu laço sanguíneo com o Zé Luis, mas porque gostava da banda. Todavia, apesar dessa imensa boa vontade, também não conseguiu um resultado melhor que o de Sonia, representando o Studio V.

Nenhuma abordagem daria certo pelo evidente disparidade de mentalidade da parte deles e nosso trabalho que lhes soava antagônico aos seus princípios.

E nessa altura, o fato de termos tentado várias abordagens, só piorava as coisas, acredito, pensando hoje em dia. 

Outro fator : mais uma coisa impossível de ser detectada ali no momento, mas hoje é cristalina, é o fato de que o BR Rock  80's estava encerrado.

A grande onda que caracterizou-lhe com aura de um movimento, cena, chame como quiser, havia quebrado na areia da praia. Falando dos artistas expoentes que surgiram nessa "onda", somente quem conseguiu solidificar-se individualmente ainda teve e continuou tendo espaço na mídia e portanto, contando com um gerenciamento profissional sustentável, doravante.

De 1986 para frente, isso já estava delimitado claramente, mas lógico que ninguém tinha essa visão na época.

Portanto, a chance para artistas que jamais estiveram compactuados com a estética oitentista, eram infinitamente piores ainda, em relação aos que surfaram na crista da onda, e agora viam a onda acabando.

Duas situações que embaralhavam essa visão na época e nos davam esperanças, na verdade não eram sinais de absolutamente nada para se animar. Eram falsos sinais que não soubemos interpretar na ocasião.

O primeiro caso foi o do Ultraje a Rigor que surpreendeu à todos, com uma repaginada radical no seu visual, dando a entender que assumiria uma identidade Hard-Rock, deixando de lado a roupagem supostamente coadunada com o Pós-Punk adotada em seus primórdios, e momento de pico na mídia.

Muita gente que estava na trincheira oposta, do Rock pesado, comemorou tal mudança de posicionamento da banda de Roger & Cia., acreditando ser uma sinalização de que o mundo mainstream estaria se abrindo para uma outra estética, libertando-se dos tentáculos dos seguidores de Malcolm McLaren.

Mas era um ledo engano, pois a banda mudara apenas o seu visual, adotando figurino de bandas americanas de Hard-Rock em voga; cabeleiras imensas e armadas com muito laquê, bem no gosto, ou mau gosto sendo realista, daquela egrégora pesada dos anos oitenta.

O trabalho deles continuou igual, com sonoridade Rock'n Roll bem básica, e ênfase total nas letras com teor de deboche.

Outro exemplo de sinalização errada, era o próprio Sepultura. De fato, a banda entrou numa ascensão meteórica e de cunho internacional impressionante, e ecos de seu sucesso lhes proporcionou algumas portas abertas no Brasil, que nem mesmo eles esperavam que se abrissem. Acredito que pelo fato de ser uma banda de Metal extremo, não tinha de forma alguma, nenhuma possibilidade de atingir um público não coadunado com tal estética, pela total falta de apelo pop em sua música radical, por mínimo que fosse.

Portanto, ao deparar-se com pessoas completamente de fora do nicho do Heavy-Metal, indo aos seus shows, como atores globais e alguns playboys desavisados, a única explicação razoável para tal fenômeno de aceitação insólita, residia na histórica "macaquice" do brasileiro em valorizar uma manifestação artística que antes desprezava ou ignorava, somente pelo fato de que os "gringos" estavam ovacionando-a.

Não posso cravar essa hipótese como incontestável, mas creio que é bastante sólida para explicar portanto o fenômeno estranho em ver pessoas completamente alheias ao mundo do Heavy-Metal, quiçá o Metal extremo, ainda mais radical e anti-pop em sua essência, frequentando shows do Sepultura e sendo fotografadas em camarotes caros de casas de shows badaladas do Rio e São Paulo, com copinho de Whisky importado na mão, e fazendo careta com língua de fora e "malocchio"com a outra mão...

Dessa forma, o fenômeno Sepultura não caracterizava nenhuma tendência de mercado no âmbito das gravadoras que aqui operavam a indústria da música local. Estavam na verdade, surfando no seu êxito pessoal e no qual tinham todos os méritos, sem dúvida, mas isso não queria dizer que o Rock pesado teria espaço como um todo, abrindo chances para outras bandas.

Feita essa análise, resta-me falar sobre a reunião com o tal "Barriga".

Ao cair da tarde de um dia útil, no final de abril de 1987, eu e Beto fomos ao gabinete do produtor citado, com nosso material em mãos e imbuídos de esperança de um resultado satisfatório.

Isso porque o clima de descontração que aquela gravadora tinha, aliado ao fato de que não parecia estar preocupada em fechar questão com a estética A, B, ou C, eram alentos para nós, sempre inferiorizados por sermos outsiders naquela década.

O apoio do Bip Bip, que era figura respeitada na gravadora, e nos vira em ação nos shows de Caraguatatuba, também haveria de somar-se nessa equação.

Enfim, chegamos ao gabinete e apesar de recebidos com educação por ele, sua apatia denotava total falta de interesse na conversa. Lhe entregamos o material de portfólio e a fita K7 com a demo tape, e ele mal falava conosco até então.

Foi quando, deu uma folheada no material e o fechou bruscamente, como se aquilo o estivesse incomodando, fazendo-o perder tempo com algo que absolutamente não lhe interessava.

Então, com uma certa truculência, ligou o tape deck que tinha próximo de si, e nos disse que estava empolgado com uma banda gaúcha que estava produzindo, e seria o novo "estouro na mídia".

Começamos a ouvir então o som do TNT, que não era uma banda ruim, reconheço, e tinha até suas qualidades, e sem comungar com o Pós-Punk como era sempre de se esperar naquela época.

Mas também, não era nada de mais, tratando-se de uma banda comum, sem nenhum atrativo excepcional e inquestionável que fizesse dela, algo "especial".

Durante aqueles minutos em que ficamos em silêncio ouvindo o som do TNT, ficara claro o desprezo do tal produtor em sequer mencionar a intenção de ouvir um segundo de nossa música...

Ouvimos duas ou três músicas do TNT e ao desligar o tape deck, iniciou um monólogo sobre o quanto acreditava que fariam sucesso retumbantemente.

Foi então quando descobri que isso era uma praxe nesse mundo das corporações musicais. Liminha o fizera na Kombi do Zé Luis (história contada em detalhes, vários capítulos atrás), quando desconversou sobre o som de nossa demo que tocava, e emendou um discurso sobre a maravilha que era o "Camisa de Vênus". 

Agora o tal Barriga fizera ainda pior, pois numa reunião formal para se analisar o material de uma banda, no caso a nossa, a estratégia desdenhosa e vergonhosa, fora nos fazer ouvir o trabalho de outra banda...

Nos anos noventa, eu passaria por algo igual com o Pitbulls on Crack, quando numa tentativa de mostrar um novo trabalho ao produtor Miranda, este respondeu apertando o play da máquina de gravação do estúdio BeBop, e assim nos obrigando a ouvir o "Mundo Livre S/A", certamente uma maneira sutil de nos dizer que nosso som era inadequado, e aquilo que nos mostrava, era a grande Coca Cola gelada do deserto.

Muitos anos depois, um amigo que militou a vida toda no mundo corporativo e não ligado às artes, portanto ainda mais monolítico, me disse que a tática padrão para lidar com assuntos indesejáveis era o do desestímulo sutil. Nunca abordando o assunto de forma cartesiana com a pessoa, mas permanecendo alheio e dando sinais sutis contrários, elogiando opostos, criando assim a inibição. E caso a pessoa insista ou perca a cabeça, partindo para a agressão verbal, a postura era de ficar em silêncio e suportar a verborragia, até a pessoa cansar de falar, para no primeiro momento de pausa possível, dar por encerrada a conversa, e educadamente pedir para a pessoa retirar-se.

ha ha ha...não se tratava portanto de um complô contra nós, nem mesmo era o caso de alimentar teoria da conspiração, pois tal tática de desdém com ares blasé, era uma praxe corporativa, tão somente.

Falou, sr. "Barriga"...pois que fosse feliz acumulando sua banha abdominal, até explodir como a "Dona Redonda" do "Saramandaia", talvez usando TNT para estimular sua ida aos ares...
 
Uma última tentativa de abordagem à gravadoras ocorreu de nossa parte, em meados de junho, mas isso, conto mais tarde.

Continua...

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