domingo, 31 de maio de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 311 - Por Luiz Domingues


Nossos ensaios eram sistemáticos, com a preocupação de aproveitarmos ao máximo o tempo.

Claro que mesmo não tendo a estrutura de um estúdio com vedação e equipamento profissional, o fato de termos um mini P.A. desde o começo, nos garantia um mínimo de qualidade sonora para trabalhar, e a falta de vedação era compensada pela extrema boa vontade da família Gióia, que suportou nossos ensaios diários e esticados das 15 ás 22:00 h. de segunda a sexta, e muitas vezes com a inclusão de sábados e domingos quando tínhamos uma necessidade premente de um eventual reforço, por conta de um show mais importante, ou a iminência de entrar em estúdio para gravar um álbum.
Ainda como trio, posando na nossa histórica sala de ensaios, na residência da família Gióia, em 1984

Como já comentei anteriormente, nos primeiros anos, nossa determinação nesse sentido era ferrenha, e isso é a explicação pela qual A Chave do Sol era uma banda muito afiada ao vivo, e raramente errava pois ensaiávamos muito, e com dedicação extrema, até exagerada, eu diria.

Mas isso não quer dizer que não tenhamos tido momentos de descontração na nossa rotina diária de ensaios. Apesar desse caráter quase "caxias", nós tínhamos um clima leve e aberto a brincadeiras e dessa maneira, tivemos muitas ocorrências divertidas, como por exemplo a constante presença de convidados como descrevi no capítulo anterior.

Indo além, fora receber convidados, rir e conversar, muitas vezes foram realizadas jam sessions absolutamente descompromissadas, quando amigos músicos apareciam na nossa sala de ensaio.
Hélcio Aguirra, em foto do início dos anos oitenta, quando ainda era membro do Harppia

Nesses termos, um dos que mais apareciam lá para papear e tocar conosco, era o guitarrista Hélcio Aguirra, nosso amigo, e que nessa altura, 1986, já estava no Golpe de Estado, e a banda dava seus primeiros passos mais firmes rumo ao sucesso, que ainda naquela década alcançariam.

Nessas visitas, costumávamos tocar clássicos do Rock e temas livres, com o Hélcio atuando com sua habitual categoria e muitas jams ficaram na minha memória pelo aspecto da química boa que ele tinha conosco, proporcionando momentos de grande inspiração musical.

Mas, indo além, gostávamos também de tocar outros instrumentos nessas jams descontraídas, e mesmo baixando o nível técnico por conta de assumirmos o instrumento onde não tínhamos o mesmo nível de nossas respectivas especialidades, o importante era a diversão, claro.
No meu caso, sempre que havia uma brecha, eu corria para a bateria e nesta minha autobiografia, mesmo em outros capítulos enfocando outras bandas onde atuei, já mencionei o fato de que aprecio muito esse instrumento, e numa análise fria e isenta de emoção, diria até que se pudesse voltar ao passado e mudar o rumo que tomei, tranquilamente teria investido na perspectiva de ter sido um baterista, e não um baixista.

Mas, mesmo tendo me desenvolvido técnica e emocionalmente com o baixo e a partir de tal prerrogativa, ter construído um afeto por esse instrumento, realmente se pudesse ter escolhido lá atrás, eu teria preferido a bateria.

Enfim, baterista frustrado, no bom sentido, sempre gostava de "tirar uma casquinha" nos ensaios e dessa forma, acabei desenvolvendo uma condição mínima como baterista que me permitia tocar, ainda que de forma simples, sem nem 10 % da técnica e genialidade do Zé Luis, meu colega de banda e de outros bateristas amigos que admirava.

Sendo assim, uma vez que o Hélcio apareceu no ensaio, e o Zé Luis não estava, fui direto para a bateria e deixei o Beto tocando baixo, para fazermos uma jam livre.

Na empolgação, o Rubens colocou uma fita K7 no tape deck, gravando essa brincadeira e quando a ouvimos, o som ficou tão legal que combinamos de realizar outras jams. 

De fato, essa repetição ocorreu e mesmo jamais cogitando que isso virasse uma banda de verdade, pois eu sabia de meus limites ao instrumento, é claro, e lógico que o foco para todos ali era A Chave do Sol para nós, e Golpe de Estado para o Hélcio, o bacana nessa história, para mim, foi que de uma certa forma eu curti muito não só a brincadeira, mas constatar que se estudasse e me dedicasse, poderia ter sido um baterista de fato, pois ali na jam, apesar de muito limitado, não deixei a peteca cair, mantendo o ritmo da banda, inclusive com várias mudanças de fórmulas de compasso, andamento e pulsação, além de viradas dignas, que me colocavam no patamar de um baterista simples, sem muitos recursos técnicos, mas capaz de tocar numa banda.

Com o tempo, as oportunidades de tocar um pouco com a bateria dos colegas, foram rareando e o pouco de técnica que tinha desenvolvido, acabou se dissipando. Estou bastante enferrujado e regredi, é claro.

Mesmo assim, costumo ajudar no soundcheck de shows ao vivo e em sessões de gravação, tocando para o baterista titular buscar a melhor equalização de seu instrumento.

Muito bem, contada essa história, cabe dizer que esse embalo que ganhamos no segundo trimestre de 1986, principalmente, ganharia ainda mais força com a entrada do segundo semestre.

O telefone estava tocando, como se diz no jargão, denotando que a banda ganhava mais e mais oportunidades, e somado aos esforços concentrados em quatro anos de trabalho aproximadamente, nos levava a crer que o grande momento de se abrir uma porta, e nos possibilitar enfim chegar ao mainstream, estava chegando.

O segundo semestre de 1986, foi o período da história da banda, onde mais chegamos perto disso, e tem muitas histórias para serem contadas, a partir de agora.

Continua...

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