domingo, 31 de maio de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 311 - Por Luiz Domingues


Nossos ensaios eram sistemáticos, com a preocupação de aproveitarmos ao máximo o tempo.

Claro que mesmo não tendo a estrutura de um estúdio com vedação e equipamento profissional, o fato de termos um mini P.A. desde o começo, nos garantia um mínimo de qualidade sonora para trabalhar, e a falta de vedação era compensada pela extrema boa vontade da família Gióia, que suportou nossos ensaios diários e esticados das 15 ás 22:00 h. de segunda a sexta, e muitas vezes com a inclusão de sábados e domingos quando tínhamos uma necessidade premente de um eventual reforço, por conta de um show mais importante, ou a iminência de entrar em estúdio para gravar um álbum.
Ainda como trio, posando na nossa histórica sala de ensaios, na residência da família Gióia, em 1984

Como já comentei anteriormente, nos primeiros anos, nossa determinação nesse sentido era ferrenha, e isso é a explicação pela qual A Chave do Sol era uma banda muito afiada ao vivo, e raramente errava pois ensaiávamos muito, e com dedicação extrema, até exagerada, eu diria.

Mas isso não quer dizer que não tenhamos tido momentos de descontração na nossa rotina diária de ensaios. Apesar desse caráter quase "caxias", nós tínhamos um clima leve e aberto a brincadeiras e dessa maneira, tivemos muitas ocorrências divertidas, como por exemplo a constante presença de convidados como descrevi no capítulo anterior.

Indo além, fora receber convidados, rir e conversar, muitas vezes foram realizadas jam sessions absolutamente descompromissadas, quando amigos músicos apareciam na nossa sala de ensaio.
Hélcio Aguirra, em foto do início dos anos oitenta, quando ainda era membro do Harppia

Nesses termos, um dos que mais apareciam lá para papear e tocar conosco, era o guitarrista Hélcio Aguirra, nosso amigo, e que nessa altura, 1986, já estava no Golpe de Estado, e a banda dava seus primeiros passos mais firmes rumo ao sucesso, que ainda naquela década alcançariam.

Nessas visitas, costumávamos tocar clássicos do Rock e temas livres, com o Hélcio atuando com sua habitual categoria e muitas jams ficaram na minha memória pelo aspecto da química boa que ele tinha conosco, proporcionando momentos de grande inspiração musical.

Mas, indo além, gostávamos também de tocar outros instrumentos nessas jams descontraídas, e mesmo baixando o nível técnico por conta de assumirmos o instrumento onde não tínhamos o mesmo nível de nossas respectivas especialidades, o importante era a diversão, claro.
No meu caso, sempre que havia uma brecha, eu corria para a bateria e nesta minha autobiografia, mesmo em outros capítulos enfocando outras bandas onde atuei, já mencionei o fato de que aprecio muito esse instrumento, e numa análise fria e isenta de emoção, diria até que se pudesse voltar ao passado e mudar o rumo que tomei, tranquilamente teria investido na perspectiva de ter sido um baterista, e não um baixista.

Mas, mesmo tendo me desenvolvido técnica e emocionalmente com o baixo e a partir de tal prerrogativa, ter construído um afeto por esse instrumento, realmente se pudesse ter escolhido lá atrás, eu teria preferido a bateria.

Enfim, baterista frustrado, no bom sentido, sempre gostava de "tirar uma casquinha" nos ensaios e dessa forma, acabei desenvolvendo uma condição mínima como baterista que me permitia tocar, ainda que de forma simples, sem nem 10 % da técnica e genialidade do Zé Luis, meu colega de banda e de outros bateristas amigos que admirava.

Sendo assim, uma vez que o Hélcio apareceu no ensaio, e o Zé Luis não estava, fui direto para a bateria e deixei o Beto tocando baixo, para fazermos uma jam livre.

Na empolgação, o Rubens colocou uma fita K7 no tape deck, gravando essa brincadeira e quando a ouvimos, o som ficou tão legal que combinamos de realizar outras jams. 

De fato, essa repetição ocorreu e mesmo jamais cogitando que isso virasse uma banda de verdade, pois eu sabia de meus limites ao instrumento, é claro, e lógico que o foco para todos ali era A Chave do Sol para nós, e Golpe de Estado para o Hélcio, o bacana nessa história, para mim, foi que de uma certa forma eu curti muito não só a brincadeira, mas constatar que se estudasse e me dedicasse, poderia ter sido um baterista de fato, pois ali na jam, apesar de muito limitado, não deixei a peteca cair, mantendo o ritmo da banda, inclusive com várias mudanças de fórmulas de compasso, andamento e pulsação, além de viradas dignas, que me colocavam no patamar de um baterista simples, sem muitos recursos técnicos, mas capaz de tocar numa banda.

Com o tempo, as oportunidades de tocar um pouco com a bateria dos colegas, foram rareando e o pouco de técnica que tinha desenvolvido, acabou se dissipando. Estou bastante enferrujado e regredi, é claro.

Mesmo assim, costumo ajudar no soundcheck de shows ao vivo e em sessões de gravação, tocando para o baterista titular buscar a melhor equalização de seu instrumento.

Muito bem, contada essa história, cabe dizer que esse embalo que ganhamos no segundo trimestre de 1986, principalmente, ganharia ainda mais força com a entrada do segundo semestre.

O telefone estava tocando, como se diz no jargão, denotando que a banda ganhava mais e mais oportunidades, e somado aos esforços concentrados em quatro anos de trabalho aproximadamente, nos levava a crer que o grande momento de se abrir uma porta, e nos possibilitar enfim chegar ao mainstream, estava chegando.

O segundo semestre de 1986, foi o período da história da banda, onde mais chegamos perto disso, e tem muitas histórias para serem contadas, a partir de agora.

Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 310 - Por Luiz Domingues


Muitas visitas apareciam na nossa sala de ensaios, desde os primórdios da banda, em 1982. 

Na maior parte do tempo, amigos que gravitavam na nossa órbita costumeiramente, é claro, mas muita gente que teve envolvimento profissional de ocasião, também circulou pela residência da família Gióia, nos anos em que ali trabalhamos, no famoso quartinho da edícula.

Mas houve também uma terceira via, que era a de visitas completamente inesperadas que vinham sem avisar e algumas vezes por conta de convites não necessariamente formulados por nós, membros da banda.
Foto de janeiro de 1984, com Rosana Gióia participando da gravação dos Backing Vocals da música "Luz". Ela usa camiseta preta com a estampa da capa do LP "Black Sabbath Volume 4"

Nesses termos, muitos amigos, e amigos dos amigos da irmã caçula do Rubens, Rosana Gióia, por exemplo, apareciam inesperadamente, e para nós isso nunca foi problema, não causando incômodo.

Numa dessas situações (de adolescentes amigos dela da escola, geralmente), apareceu um rapaz que era amigo de um amigo dela. 

Serei sincero : não me lembro dessa situação que vou descrever especificamente, ali no calor dos acontecimentos. 

Minha lembrança sobre visitas de amiguinhos e agregados da Rosana Gióia, é uma verdadeira " mônada", misturando-se portanto, sem que haja alguma ocasião, ou pessoa que se destaque em específico.

Contudo, no ano de 2002, eu tive uma surpresa incrível, quando um guitarrista conhecido mundialmente me contou com emoção, que era o tal garoto amigo do amigo da irmã do guitarrista da Chave do Sol, e a experiência de assistir um ensaio da banda que ele admirava pelas apresentações nossas que via pela TV, principalmente, nunca fora esquecida por ele.

Indo além, foi taxativo, dizendo que tal visita fora a gota d'água em sua vida, pois saíra decidido a se tornar um músico profissional, após ter tido a confirmação de que aquela vida, era a que desejava ter, vendo-nos ensaiar.

Seu nome...Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura...

Convido os leitores a ler com maiores detalhes esse relato sobre como Andreas Kisser me fez essa revelação, no capítulo mais adequado, que é o da Patrulha do Espaço, onde na cronologia correta, contei com detalhes essa história, ocorrida em janeiro de 2002.

Aqui, o comentário é an passant, pois no calor dos acontecimentos de 1986, eu não poderia imaginar que aquele garotinho imberbe se tornaria um dos mais famosos guitarristas do mundo, aliás, nem ele imaginaria isso naquela época, embora devesse sonhar com isso, naturalmente...

Outro caso de visita exótica e inesperada é muito mais vívido em minha memória, e passarei a relatá-lo agora.

Estávamos ensaiando um dia, na maior rotina, e sem expectativa de receber ninguém naquele dia em específico, quando ouvimos num momento em que não tocávamos, alguém batendo na porta. O Beto estava mais próximo e tomou a iniciativa de abri-la, e imediatamente nos espantamos com o grito que ele deu : 

-"Ferrugem" !!

Foi quando demos de cara com o famoso ator/ comediante da TV; teatro e cinema, e também muito conhecido pela sua atuação em comerciais de TV .

Ficamos atônitos, naturalmente, porque nenhum de nós o conhecia, ou sabia de alguém da nossa relação que o conhecesse.

A explicação para a sua presença ali, era a de ser um amigo do amigo da irmã do Rubens, como muitas vezes aconteceu em relação à outras visitas.

O próprio Ferrugem ficou muito surpreendido também, com a recepção escandalosa que o Beto lhe fez, e a justificativa da parte dele, Beto, era a de que o recebera daquela forma contundente porque ele era obviamente famoso e portanto, ficara contente com a sua presença.

Bem, isso era verdade...

O Ferrugem era/é, um cara sensacional, e o clima de sua visita foi de extrema camaradagem, com muitas brincadeiras, risadas, e foi de fato uma tarde/noite das mais agradáveis para todos.

Mas houve uma outra surpresa vinda da parte dele : alegando ser baterista e paralela à carreira de ator/comediante e garoto propaganda, ter uma banda cover do Whitesnake, nos surpreendeu. 

Eu, particularmente, não imaginava que ele fosse músico e ainda melhor, Rocker.

Portanto, claro que o convidamos a tocar no ensaio, e mais uma vez me surpreendi, pois sua pegada como baterista era de profissional, com peso e técnica. Nos divertimos muito tocando várias músicas do Deep Purple; Led Zeppelin; Whistesnake; Rainbow etc.

Ao final nos despedimos com a promessa de nos encontrarmos em shows, mas por um acaso, isso nunca se concretizou, infelizmente.

Só fui vê-lo novamente nos anos 2000, mas de forma muito fortuita, pois estava circulando por uma rua do bairro da Aclimação, na zona sul de São Paulo, e nos reconhecemos no trânsito, mas a circunstância do tráfego não nos permitiu parar e bater um papo naquele momento, portanto, ficamos só nas buzinadas e acenos.

Bem, contada essa história, falo agora sobre a "banda de quartinho" que montamos de brincadeira, com o Beto Cruz tocando baixo, e eu na bateria...


Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 309 - Por Luiz Domingues

Com os três aprovados, lembro-me que mesmo sendo uma situação irreversível para mim, eles ainda falaram bastante que eu havia sido "turrão" ao extremo por manter-me firme nos meus princípios, e que dessa forma, amargaria a falta do cachet "gordo" que eles receberiam.

Indo além, na visão deles, mesmo aparecendo como anônimos no comercial, muita gente nos reconheceria, pois naquela altura, metade de 1986, tínhamos um público grande, conquistado através de todos os nossos esforços acumulados ao longo de quatro anos de trabalho.

Nesse aspecto, eles tinham razão, pois realmente a nossa banda tinha alcançado tal visibilidade, até ultrapassando certos limites do nicho Rocker, atingindo pessoas alheias à esse universo, pois tínhamos feito bastante TV, aparecido em revistas fora do mundo especializado e assim, após tantos programas de TV de cunho feminino, éramos conhecidos por donas de casa não necessariamente rockers.

Nesse caso, mesmo não ficando arrependido de forma alguma, eu entendia a colocação deles como legítima, pois nesses termos, uma exposição, ainda que aleatória, seria mais conveniente com a banda completa na peça publicitária.

Não caí num possível sentimento de remorso no entanto, pois minha convicção de que esse fator era algo muito vago, não deixou que a argumentação deles me provocasse arrependimento.

Então, lembro-me que eles foram convocados para teste de roupas, e a gravação do comercial consumiu-lhes um dia inteiro de dedicação. 

Um quarto músico apareceu na peça, e o rapaz era o Mauro Sanches, baterista da banda Pós-Punk, "Nau", que fez relativo sucesso mainstream na metade dos anos oitenta.

Voltando ao foco, o comercial era para promover uma coleção de roupas ditas "jovens", de um magazine famoso, no estilo das Lojas de Departamentos. Tratava-se da Mesbla, uma rede que estava espalhada nas principais capitais do Brasil.

O comercial era bem simples, com imagens intercaladas de jovens dançando em meio à banda fictícia. Tais jovens, rapazes e moças, eram logicamente modelos de agências contratados. E uma das garotas fez o papel de crooner da banda, aliás uma bela morena.

Um fato curioso, na "hora H", cismaram em não usar uma bateria tradicional na horrenda dublagem, e o Zé Luis foi esperto e antes que lhe sugerissem o lastimável uso de caixa e prato (como a seguir o padrão dos programas de TV), ele pediu-me o meu baixo, e no dia da gravação, apareceu tocando-o na propaganda.

Essa peça teve apoio gráfico significativo, e garotas usando as tais roupas semelhantes às do comercial, apareceram em muitas revistas, jornais e outdoors de São Paulo e Rio, e creio que em outras capitais e grandes cidades interioranas.

A trilha sonora era um pop insosso de FM, bem sem vergonha e com os típicos timbres medíocres oitentistas. 

A produção musical de tal jingle era do guitarrista da Blitz, Ricardo Barreto, e também de Bernardo Vilhena (parceiro do Lobão, e de outros artistas da época), o que explica de certa forma a concepção desse pastiche oitentista. 

Aquele reverb indecente na bateria; guitarra gravada em amplificador Roland Jazz Chorus; teclados horrendos, e demais porcarias inerentes à mentalidade da época, seguindo a cartilha pop baseada na estética do Pós-Punk, típica daquela década.

Foi engraçado ver a propaganda passando na TV, com os companheiros naquela micagem...

Ele foi veiculado com bastante repetição nos primeiros quinze dias e depois foi diminuindo a sua aparição paulatinamente, até desaparecer.

Passou em horário nobre, pois era conta peso pesado, e de fato, muita gente reconheceu os três e o Sanches, mas a despeito de qualquer argumentação em contrário, nada acrescentou para a carreira da Chave do Sol, tampouco do Nau.

No frigir dos ovos, acho que a vantagem alardeada pelos meus companheiros, ficou só pelo cachet mesmo (de quem participou, logicamente), e "numa boa", apesar de ter sido uma boa grana, até hoje não me arrependo de minha atitude de recusa em participar.

Eis o link para ver tal comercial no You Tube.


https://www.youtube.com/watch?v=Umh7l_AeHoE&feature=youtu.be




Foi filmado no teatro do Sesc Pompeia, aqui em São Paulo, e dá para ver bem o Zé Luis, bem no início, com meu baixo em mãos.

Quando a atriz principal (que de fato era uma cantora também, e chamada Karla Sabah), começa "rasgar" as embalagens de papel que envolvem pessoas, o Rubens passa correndo por ela, com sua guitarra Jackson.

Beto, e Rubens podem ser vistos novamente, quando entram num ônibus com os demais modelos.

A Karla Sabah fez o tipo "Punk de Boutique", com visual inspirado em cantoras espalhafatosas da cena Pós-Punk oitentista, tais como Cindy Lauper, e principalmente Nina Hagen. 

Claro que existia a referência à personagem de Daryl Hannah no filme Blade Runner, também...ah...os replicantes tão cultuados naquela década...

Suas caras e bocas em alguns momentos são constrangedoras, mas talvez tenha sido ideia "brilhante" do diretor e não culpa dela, no afã de imprimir "irreverência jovem"...

E a marca da coleção dita "jovem" que a Mesbla estava lançando, se chamava "Alternativa".

A seguir, falo de algumas visitas muito inesperadas na nossa sala de ensaio em 1986.

Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 308 - Por Luiz Domingues


Conforme já havia mencionado anteriormente, o Rubens havia participado de uma peça publicitária para a TV em 1986, graças à um contato que surgira na Loja/Gravadora Baratos Afins.

E algum tempo depois, mais ou menos em junho de 1986, surgiu outra oportunidade para outra campanha publicitária de roupas, onde queriam trabalhar com o mote da "juventude", e procuravam por músicos reais que sabiam empunhar instrumentos corretamente, e não modelos desajeitados, sem familiaridade com o universo musical e rocker, sobretudo.

Claro, era imprescindível ter cabelos longos, mais imprimindo uma aparência de ambientação Hard-Rock ou Heavy-Metal, em detrimento da corrente majoritária na década de oitenta, ou seja, seguidores da estética do Pós-Punk .

O telefone tocou na casa do Rubens, portanto, e o convite era para a nossa banda comparecer em peso num teste de câmera a ser realizado pela produtora de vídeos contratada pela agência de publicidade, que faria a campanha.

Todos toparam, mas eu criei um mal estar interno na banda, pois recusei-me terminantemente a participar dessa ação, e cabe uma boa explicação para justificar a minha atitude :

1) Não era um convite para a banda se apresentar usando sua imagem. Se o fosse, eu participaria, mesmo que a peça publicitária não representasse um produto digno, e a sua estética fosse de gosto duvidoso, pois jamais deixaria de estar presente numa ação oficial da banda.

Nesse caso, cabe salientar que se fosse um produto do qual eu não gostasse de estar pessoalmente vinculado (cigarros e bebidas alcoólicas, por exemplo), eu ainda assim colocaria a questão em discussão interna, mas se perdesse numa eventual votação, acataria a decisão da maioria, democraticamente.

Não me sentiria nada confortável em estar fazendo uma propaganda de maço de cigarro ou bebida alcoólica, pois nunca fiz uso de tais produtos, e tenho inúmeras restrições à eles, enquanto convicções pessoais que tenho sobre a sua existência na sociedade, mas se a banda achasse que a oportunidade de exposição midiática ou o cachet oferecido fizesse isso valer a pena, mesmo sob protesto, eu participaria, ainda que sob constrangimento pessoal intenso, pois tais produtos atentariam contra as minhas convicções pessoais.

Posso incluir nesse rol a questão da alimentação carnívora, pois se detesto militância vegetariana, que muitas vezes atua com truculência nazi-fascista a meu ver, sendo um vegetariano respeitoso ao extremo com pessoas que são carnívoras, mesmo assim me sentiria ridiculamente falso ao estar numa propaganda de uma churrascaria ou indústria frigorífica, rindo e compactuando com a ideia de que aqueles produtos ou serviços são de meu agrado.

Outra situação limítrofe seria estar numa campanha política, fazendo propaganda acintosa e assumida à um partido ou candidatos que ideologicamente falando, ferissem meus princípios democráticos. Seria terrível para mim, estar vinculado a radicais, seja lá de que lado da polarização direita-esquerda.

Mesmo assim, se a banda batesse o martelo de que seria uma ação benéfica para a nossa carreira, mesmo em conflito ideológico gritante, a questão de não abrir mão de meus princípios seria suplantada pela ética de estar fechado com a minha banda, acima de tudo.

2) O outro ponto crucial para mim, era o fato da agência publicitária não estar convidando a nossa banda especificamente para a campanha e isso me incomodava de uma maneira muito incisiva. O leitor pode interpretar essa minha reação como um arroubo de "orgulho" de minha parte, mas acho que posso justificar tal sentimento.

Eu achava que seria ofensivo à nossa banda, participar de um comercial, só pelo fato de sermos "cabeludos" com instrumentos musicais na mão, como se fôssemos anônimos ou simplesmente modelos (sem nenhum demérito à esses profissionais, mas só exprimindo que para eles era/é normal encenar coisas falsas, quase como interpretando situações, portanto, atuando como atores, praticamente).

Na minha ótica, se chamassem a nossa banda para fazer um comercial de TV, não teria problema algum se na peça publicitária ficasse claro quem éramos, e também sem problemas por colocarmos a nossa cara a bater por vender um produto. Muitos artistas fazem isso exaustivamente, incluso medalhões. E não só atores de cinema e TV, mas muitos músicos, cantores e compositores famosos.

Mas da forma como o convite chegou, era algo vago, e na minha opinião, até ofensivo, pois denotava que não lhes interessava quem éramos, mas simplesmente se éramos "cabeludos", e se sabíamos segurar instrumentos musicais de uma maneira mais convincente do que modelos sem nenhuma intimidade com o universo musical.

E o maior agravante, interessava-lhes a "fachada". 

O teste era para avaliar a desenvoltura em frente à câmera, mas sobretudo para avaliar a "beleza física" dos candidatos. 

Nada contra essa expectativa da parte deles, pois isso é norma nesse métier, mas partindo do princípio de que não éramos modelos, mas sim artistas genuínos, essa perspectiva de nos submetermos à esse tipo de avaliação, era a meu ver, uma indignidade.

Acha exagerado, leitor ?

Mas era o que eu sentia à época e ponderei isso com meus amigos, argumentando fartamente. Contudo, eles não se importavam em serem tratados como anônimos, e só lhes interessava a perspectiva de cachet.

Insistiram muito comigo para que eu mudasse o meu posicionamento, mas em nenhum momento acharam que a banda seria prejudicada pela minha recusa em participar, e pelo contrário, não achavam que aquilo prejudicaria a imagem da banda.

Sendo assim, lá foram os três para o tal teste, numa agência de publicidade, acho que nas imediações da avenida Faria Lima, não me recordo ao certo.

Chegando lá, estavam outros músicos conhecidos, a maioria da cena do Heavy-Metal, logicamente pela questão das cabeleiras, mas haviam outros de outras vertentes, também.

Todos se submeteram a testes individuais e alguns dias depois, o telefone tocou e os três, Rubens, Zé Luiz e Beto, haviam sido aprovados.
Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 307 - Por Luiz Domingues



Nessa segunda visita, Rubens e Beto interagiram. 

O Beto sempre foi bastante extrovertido, era de seu temperamento, normalmente e assim, era teoricamente o melhor entre nós quatro, para quebrar gelo. 

Eu tendo a ser formal e discreto sempre. Dificilmente estabeleço uma amizade instantânea, a não ser que as pessoas com as quais esteja interagindo, tenham enorme compatibilidade de ideias e ideais, quando, aí sim, costumo interagir com entusiasmo e desenvoltura.

O Rubens também era circunspecto, mas não tão fechado quanto eu. Tinha uma característica de extremo cavalheirismo em situações sociais, e até exagerava um pouco, chamando a atenção pelo excesso de palavras não coloquiais nos cumprimentos, mas claro que não estou reclamando, pois quem me conhece, sabe que aprecio valores de boa educação & cidadania, e nesse quesito, ele se portava como um diplomata em meio à cerimônias oficiais.

Já o Zé Luis, era educado, mas bastante despojado. Sua maneira de se colocar era sempre coloquial, sem afetações, mesmo quando estávamos em alguma situação de glamour, em meio à  fãs e/ou jornalistas, portanto, jamais se sentia inibido em tomar uma atitude em público, coisa que para mim que sou muito mais retraído, era bastante complicado (a não ser no palco, onde com exceção dos primeiríssimos shows da vida, no longínquo ano de 1977, nunca tive problema algum em falar no microfone, não importando o número de pessoas que estivessem fitando-me).

Dessa forma, o Beto era realmente o mais adequado para quebrar qualquer gelo, e os demais poderiam conduzir conversas posteriores com outra desenvoltura.

Mas havia um dado bastante óbvio nessas visitas : ali não era lugar para visitas sociais, e pelo contrário, nossa presença era basicamente um estorvo...

Sinceramente, hoje em dia eu valorizo ainda mais a predisposição dos Inocentes em nos ajudar, pois era muito inadequado convidar pessoas que nada tinham a ver com a sessão de gravação em si, para tumultuar o ambiente.

Ali é lugar de extrema concentração, foco e ainda mais com a agravante de ser um estúdio terceirizado e bastante caro, mesmo em se considerando que naquela época, as gravadoras majors trabalhavam com bastante fartura financeira, para dar as melhores condições possíveis para seus artistas.

Eu, quando vou gravar um álbum, quero o máximo de privacidade e fora os companheiros da banda e os técnicos envolvidos, não acho conveniente a presença de mais ninguém.
O baixista/guitarrista dos Inocentes, Ronaldo, um cara extremamente gente boa e solidário

Mas Clemente e Ronaldo estavam realmente empenhados em nos ajudar, e deixo aqui o meu agradecimento público, embora tenha externado isso à época, naturalmente.

Mas foi numa terceira visita que algo muito emblemático ocorreu e nesse dia, a percepção foi toda do Zé Luis, que foi muito perspicaz...

Nesse dia, eu não fui ao estúdio, mas o Zé Luis estava lá com o Rubens. Nessa altura, o clima estava mais descontraído com a produção e dentro daquele caráter comedido básico para não tumultuar, já haviam pequenos diálogos e momentos de descontração, com brincadeiras e piadas, denotando maior proximidade.

Mas se houve um contato maior, não posso afirmar de forma alguma que tenha sido o suficiente para estabelecermos amizade com Peninha e Liminha.

O fato de rirmos das piadas, e eventualmente nos sentirmos aptos para tecer comentários nesses momentos lúdicos, não caracterizava de forma alguma que "estávamos na turma", enfim.


O buraco era muito mais embaixo e vendo hoje em dia, percebo que ali a confraria era 100% fechada naquela estética, e fim de papo. 

Só por nos olhar e ver-nos nossas cabeleiras setentistas, estávamos estigmatizados como antiquados, e simplesmente fora de qualquer possibilidade de sonhar em fazer parte do mundo mainstream oitentista.

Então, quando decidiram encerrar aquela sessão, o Zé Luis ouviu o Liminha comentando que precisava sair rápido para o aeroporto de Congonhas, pois tinha um compromisso no Rio, ainda naquela noite.

Rápido no gatilho, o Zé Luis afirmou que estava de saída para ir à casa de sua irmã, na zona sul, perto do aeroporto, e que daria uma carona com prazer para ele.

Pura mentira, pois a Elizabeth Dinola, irmã do Zé que morava em São Paulo, na verdade residia em Pinheiros, na zona oeste da cidade, mas a sacada do Zé foi genial, em promover uma ação de camaradagem e mais que isso, quem sabe falar mais incisivamente sobre a nossa banda.

Então, lá foi o incensado Liminha, ex-baixista dos Mutantes nos anos setenta, e celebrado produtor musical nos anos oitenta, a bordo da famosa Kombi de propriedade do João Dinola, irmão do Zé Luis, e que tantas vezes auxiliou a nossa banda, desde o início de nossas atividades, em 1982.

A falta de glamour em andar numa Kombi de carroceria aberta, não causou nenhum constrangimento no celebrado produtor, que era sem dúvida, o maior do Brasil na ocasião.

No caminho, tentando usar de estratégia de despojamento, o Zé no início do caminho, só falou amenidades sobre o trânsito, meteorologia e esperou um tempo para comentar sobre as sessões de gravação dos Inocentes, que presenciara.

Quando o papo fixou-se em música, o Zé sacou do porta luvas uma cópia de nossa demo-tape e a colocou sutilmente para tocar, mas sem forçar nenhuma conversa. O papo foi fluindo e o Liminha perguntou se aquele som era de nossa banda, e limitou-se a falar muito timidamente que era "bacana".

Pura balela, pois era evidente que aquele som não lhe dizia absolutamente nada. Naquela altura dos acontecimentos, sua cabeça de produtor estava feita há tempos, em termos de uma estética 100% calcada no Pós-Punk e seus derivados, e nesses termos, pelo contrário, uma banda soando setentista, com solos de guitarra e cozinha sofisticada, devia era lhe incomodar.

Ignorando retumbantemente a audição que o Zé Luis estava promovendo veladamente no toca-fitas da velha Kombi, na reta final da viagem até o aeroporto, Liminha jogou a pá de cal sobre nossas parcas esperanças, ao iniciar um discurso inflamado sobre a banda que ele mais adorava naquele "momentum 1986" : "Camisa de Vênus"...

Praticamente uma banda Punk, bem tosca, ainda que seu líder, Marcelo Nova fosse influenciado pelo Rock'n Roll cinquentista (e claro que isso em tese amenizaria bastante a "punkice" dos rapazes, mas que na prática não ocorria), realmente não havia como convencê-lo de que o nosso som tinha possibilidades comerciais, que nos davam elementos para pleitear o mainstream.

Nem vou elucubrar sobre o caráter "Pop" da demo que graváramos em abril, e com nítido teor mais comercial,pelo menos em nossa ingênua ótica. 

Claro que algumas canções poderiam tocar na programação das rádios; claro que algumas poderiam figurar em trilhas de novelas da Globo; é evidente que poderíamos aparecer no "Chacrinha", dublando "Saudade" ou "Solange"...mas na cabeça do formador de opinião padrão dos anos 80, não havia espaço para tal hipótese, e a rudeza punk daquela década, norteava a sua percepção de mercado.

Então, o Zé Luis deixou o famoso produtor no aeroporto, e apesar de encerrar essa etapa com a sensação do dever cumprido, estava frustrado com o rumo da conversa, é claro.

Ainda tentaríamos mais duas abordagens com a Warner nesse ano de 1986. Éramos tenazes, não posso negar. Mais que tenacidade e/ou teimosia, acreditávamos no trabalho e apesar de estar nítido que produtores de gravadoras majors estavam fechados com uma estética avessa à nossa, achávamos que poderíamos dissuadi-los a nos enxergar com outros olhos, vendo o lado Pop que supostamente achávamos que tínhamos, em meio àquela seara árida, que mais parecia o set de filmagens do filme Mad Max.


E certamente que tínhamos, mas infelizmente não éramos uma banda norte-americana, e São Paulo não era Los Angeles, portanto, não havia meios de uma sonoridade Hard-Rock emplacar comercialmente, ainda que fosse moderna, com roupagem oitentista. O Brasil era e de certa forma continua sendo, a nação que mais ama o Punk-Rock e seus derivados.

Costumo brincar, dizendo que na minha opinião, a "Revolução Punk de 1977" não passa de um movimento pusilâmine, ou seja, tem esse apoio maciço dos brasileiros, porque a preguiça aqui impera, como dizia Mário de Andrade.

Uma estética que tem como "pilar", a máxima de que saber tocar um instrumento não é algo necessário para se ingressar numa carreira musical, cai como uma luva para preguiçosos, não é mesmo ?

Quanto aos Inocentes, gravaram seu disco (o EP, "Pânico em SP"), com uma qualidade de timbres bem bacana, graças ao empréstimo de meu baixo, e da guitarra do Rubens, e em contrapartida, além desse esforço em nos "introduzir" na panelinha de uma major, nos proporcionou um bom dinheiro em título de aluguel, pago regiamente pela gravadora.

É considerado pelos críticos, como o melhor trabalho da carreira da banda, opinião compartilhada pelo próprio Clemente. Portanto, fico contente por ter contribuído, mesmo de forma modesta, para esse êxito dos amigos Clemente e Ronaldo, com quem mais interagíamos.

E num breve futuro, ainda tentariam nos ajudar em outras circunstâncias, conforme relatarei no momento oportuno da cronologia.

Mais para frente, falo de outras investidas que fizemos na Warner, também. 

Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 306 - Por Luiz Domingues


Sem dúvida que o esforço que Clemente e Ronaldo, dos Inocentes, fizeram para nos ajudar foi muito salutar.


Assim como Charles Gavin, que também esforçou-se para nos dar um "empurrãozinho", ambos foram muito solícitos nessa ocasião, e logo mais contarei outros desdobramentos, também nessa prerrogativa deles terem nos auxiliado bastante nesse ano de 1986.

Enfim, voltando ao foco da narrativa, seguimos a orientação do Clemente, e paulatinamente fomos visitando o estúdio Mosh, nos aproximando dos produtores Peninha e Liminha, que eram os nomes fortes da Warner, e junto ao diretor da casa, André Midani, determinavam as contratações e estratégia de ação para o cast da gravadora.

Quem mais participou de tais visitas foi o Rubens, Beto e o Zé Luis, no entanto. 

Eu fui apenas uma vez, e havia uma estratégia explícita de nossa parte, pois combinamos de nunca estarmos os quatro membros da banda juntos, para não caracterizar uma ação predatória de nossa parte. Pelo contrário, queríamos transparecer despojamento em nossas visitas, ao máximo, e tentar dessa maneira, uma aproximação "natural" buscando nos enturmar com os formadores de opinião.

Nesses termos, posso falar de uma visita em que estive presente, onde algo hilário aconteceu.

Creio que posso contar isso numa boa, pois a despeito da trapalhada que se configurou, não é algo ofensivo para o seu artífice, meu amigo José Luis Dinola...

Como já falei várias vezes em toda a narrativa, inclusive em capítulos concernentes à outras bandas, o Zé Luis é um cara extraordinário como ser humano. Sua capacidade inventiva, também em aspectos extra-musicais é inacreditável, e suas qualidades musicais são indiscutíveis.

Mas ele é extremamente distraído, e não foram poucas as vezes que protagonizou situações engraçadas por conta de sua conhecida e costumeira distração contumaz. 

No capítulo do Sidharta, trabalho que fizemos entre 1998 e 1999, já contei a incrível história dele com o ex-estilista, Clodovil Hernandes (está nos últimos capítulos daquela narrativa, inclusive já encerrado). 

Mas neste caso das gravações do álbum dos Inocentes, em 1986, algo incrível ocorreu, e eu fui testemunha ocular...

Fomos ao Mosh numa tarde de terça ou quarta, não me recordo ao certo. Chegamos ao velho sobrado localizado na rua Coronel Melo de Oliveira, e tocamos a campainha.

Ao invés de um funcionário do estúdio nos receber, atendeu-nos a porta um dos vocalistas dos Titãs, Branco Melo.

Os Titãs estavam na crista da onda, e com aquela fisionomia típica dele, com olhos esbugalhados e corte de cabelo a la "New Wave", era impossível não reconhecê-lo imediatamente.

Agindo com uma certa formalidade, como se fosse um funcionário do estúdio, ao abrir a porta falou :  -" Pois não ?"

Claro que eu o reconheci imediatamente, mas o Zé Luis tomou a dianteira, e foi falando que estávamos ali a convite dos Inocentes etc etc.

O Branco foi solícito ao nos deixar adentrar a casa, e falou ser "Branco Melo dos Titãs", formalizando uma autoapresentação, mas mesmo assim, o Zé nem entendeu, e continuou tratando-o como à um rapaz desconhecido, com educação certamente, mas sem reconhecê-lo.

O Branco percebeu que o Zé não o reconhecera e sorriu para mim, como se buscasse a minha cumplicidade nesse episódio, que se não chegou a ser constrangedor, foi no mínimo, atrapalhado. 

Então ele pediu para esperarmos um pouco na recepção, e foi falar com o Clemente. 

Quando ele se afastou do recinto, eu falei para o Zé que ele dera um fora, pois não percebera que o rapaz era o Branco Melo dos Titãs. 

Aí ele surpreendeu-se, e fazendo aquela expressão facial de espanto, riu da situação, pois não acreditara que não pudesse ter reconhecido o Branco, mesmo sendo ele, visualmente falando, talvez o Titã mais marcante, justamente por conta de sua fisionomia, com os olhos proeminentes e geralmente realçados por recursos de maquiagem para forjar uma imagem artística agressiva, seguindo o modismo do Pós-Punk etc e tal.

Enfim, não me surpreendi com a distração do Zé Luis pois já o conhecia de longa data, mas que foi engraçado, foi...

Nesse dia, batemos um papo com o pessoal, num clima bastante amistoso, e o Clemente me falou que o meu baixo fora bastante elogiado pelo Liminha, que o testou e o aprovou para a gravação do disco. 

Nessa altura, eu o vi com cordas novas, de marca Rotosound, justamente a que eu mais costumava usar (gostava/gosto, da GHS também), e indo além, ele me falou que um jogo de cordas novo seria usado a cada dia de gravação, um requinte a que um pobre mortal artista independente e duro como eu, nem sonhava, pois um encordoamento novo em folha para mim, era algo bastante sazonal, infelizmente, por questões monetárias.

Os produtores Liminha e Peninha haviam saído para um lanche em algum lugar do bairro, demos azar nesse aspecto, e a nossa determinação era obviamente forjar uma aproximação com ambos, seguindo a estratégia planejada pelo próprio Clemente.

Então, tive a ideia de sair, mas deixando o Zé Luis ali presente para forjar uma suposta naturalidade, dissimulando nossa real intenção, mas sabedor de que o Rubens apareceria ali, posteriormente. Era excessivo ficarmos os três, e o Beto já havia dito que pretendia ir em outra ocasião.

E foi assim, de forma estratégica, eu me despedi de todos e aleguei um compromisso, deixando o Mosh para que o Rubens pudesse chegar a seguir, e junto com o Zé Luis, tentar essa aproximação velada.

Uma segunda visita ocorreria no dia seguinte, conforme relatarei a seguir.

Continua...