segunda-feira, 30 de março de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 245 - Por Luiz Domingues


A outra história também passou pelo famoso balcão da loja Baratos Afins. O Luiz Calanca nos contactou para nos comunicar que fora abordado por um rapaz que desejava lançar "Song Book" de artistas do cast da Baratos Afins.

A ideia parecia bastante interessante, e mesmo ponderando ser um tipo de ação de marketing meio elitista, claro que topamos de pronto, pois o outro lado dessa suposta elitização, era o fato de ser algo bem chic para o portfólio da banda.

Bem, o rapaz queria fazer o Song Book, nos moldes dos que existem normalmente no primeiro mundo, com rica ilustração de fotos, biografia da banda e acabamento de luxo, com papel de alta qualidade e capa dura.

O único problema, é que nenhum de nós sabia ler e escrever música para transcrever corretamente as nossas músicas e o editor queria a transcrição completa de todos os instrumentos e a melodia dos vocais.


Sendo assim, o Luiz Calanca resolveu contratar um músico de grande capacidade teórica para fazer a transcrição e nós curtimos muito quando tomamos ciência de que esse teórico seria o Bocato, trombonista superb da música brasileira, com "trocentos" trabalhos como side man de artistas da MPB; Rock; Pop; Música instrumental; Black Music; Música latinoamericana & Caribenha; Jazz; experimental etc etc, fora seus trabalhos próprios, discos solos e trilhas de cinema, teatro, TV e publicidade.

Daí em diante, foram muitas sessões de transcrição marcadas na casa do Rubens, onde ele gastou muitos cadernos de pentagrama, transcrevendo nota por nota de cada instrumento. 


Ele foi muito camarada e teve uma paciência de santo. Lembro-me de passar tardes inteiras com ele, com o baixo em mãos e o apoio de um pick-up, com os dois discos da banda a postos, para audições ad nauseam de pequenos trechos, e em momentos de dúvida, eu lhe mostrava a frase executada, ali na hora.

E assim foi com a bateria e a voz do Fran Alves, pois esses trabalhos ocorreram ainda com a presença dele na banda, como membro oficial.

Na hora de transcrever a guitarra, o Bocato sofreu um pouco no quesito "efeitos, alavancadas & ruideiras" em geral. Claro que tais efeitos não entram na teoria musical oficial, representados no pentagrama, de forma tradicional. Mas por outro lado, sem a menção de tais efeitos, a transcrição não ficaria fidedigna, pois tais artifícios estavam explícitos na gravação de quase todas as músicas.

Então, o Bocato deu um jeito de fazer menção de uma forma criativa e dessa forma, todas as músicas do EP, mais "Luz" e "18 Horas" (do compato anterior, de 1984), foram fielmente transcritas, num trabalho magnífico de sua parte.


Infelizmente, por conta da desistência do editor, esse Song Book nunca foi editado, e dessa forma o projeto foi engavetado.

Ficou a frustração, pois realmente deu um trabalho danado, e teria ficado muito bonito o registro. Hoje, como peça de memorabilia, seria um luxo tê-lo no acervo...

Essas foram as duas histórias extra-resenhas/entrevistas, que tinha a relatar neste instante. 


Continua...

domingo, 29 de março de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 244 - Por Luiz Domingues


Aproveitando o gancho na narrativa, onde relato a repercussão do EP na mídia escrita, preciso relembrar dois eventos ocorridos em 1985, relacionados à publicações, mas que fugiam um pouco da abordagem tradicional de reportagem/resenha/nota & entrevista, quatro modalidades clássicas do jornalismo musical.

Não sei precisar as datas em que ocorreram, mesmo porque, em ambas, foram situações que desdobraram-se e demandaram muitas reuniões e fatos gerados.

Vamos lá, a primeira história : 


O Luiz Calanca nos comunicou que um rapaz o abordara com uma proposta interessante no campo do marketing. A ideia era lançar um álbum de figurinhas, com todo o cast de artistas da Baratos Afins, ao lado de artistas do Rock internacional.

Claro que gostamos da ideia e aceitamos participar. Aliás, quem em sã consciência, não aceitaria ?

Bem, daí a ser efetivamente lançado nas bancas, o álbum teve um longo processo de etapas burocráticas e técnicas a serem vencidas, e nesse quesito gráfico, inclusive, nós acabamos sendo prejudicados, pois houve uma pressão do editor para fechar o material (o que aliás era natural e legítimo da parte dele), mas infelizmente, essa pressa fez com que perdêssemos a oportunidade de termos duas figurinhas da Chave do Sol no álbum, pois não deu tempo de incluir a capa do EP.

Nesses termos, ficamos representados só com a figurinha da capa do compacto de 1984, mas não podemos reclamar, pois foi um apoio de divulgação e tanto, e motivo de orgulho para a banda, claro.

Apesar desses aspectos positivos que arrolei, haviam um negativo, também. E era inevitável, pois estávamos em 1985...

Isto é, claro que o álbum tinha um ranço Heavy-Metal acentuado, muito mais do que outras vertentes. Se por um lado era legal estar no álbum,  por outro, estar inserido em meio à cena heavy, não era exatamente o ambiente que desejávamos. 


O álbum chamava-se "Rock Stamp", com boa apresentação gráfica, ilustrações e as figurinhas tinham boa impressão, com cores bem definidas e sem distorções.

Lógico que eu comprei um álbum e revivi a minha infância, visitando as bancas de jornais e revistas com frequência e tendo assim o prazer de comprar os famosos "pacotinhos".

Contudo, assim que arrumei a figurinha da Chave do Sol, e a colei no álbum, parei de comprar as figurinhas, pois realmente não tinha interesse em completar o álbum, com toda aquela carga de bandas de Heavy-Metal.

Essa foi a primeira história. A seguir, falo da segunda ocorrência, que nos consumiu muitos dias de dedicação.


Continua...

sexta-feira, 27 de março de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 243 - Por Luiz Domingues


Na Revista Bizz, nós tínhamos ao menos um elemento não compactuado com aquele tipo de jornalismo de rabo preso com a estética niilista oitentista.

Era o Leopoldo Rey, que parecia um oásis humano, naquela redação infestada de "comungantes da hóstia" de Malcolm McLaren...

E ele teve a audácia de publicar uma resenha sobre o EP, ainda que pequena, pois ali era realmente jogo duro ter espaço para algum artista que não fosse da estética apreciada pela "intelligentsia"oitentista.

Eis a transcrição :

"No início de carreira, A Chave do Sol era um power-trio e depois do primeiro compacto, já na Baratos Afins,resolveu-se por um novo elemento na presença de Fran. Surgem agora nesse extended-play (45 rpm) com seis faixas de qualidade. Som e vocal bem equilibrados (note em "Um Minuto Além"). Algumas letras ficam devendo, mas Rubens come sua guitarra e Tigueis (Luiz Domingues) e Zé Luis estão entrosadíssimos. Muita garra e energia".

Leopoldo Rey


Nada como ser um jornalista do ramo, e mesmo com pouco espaço que lhe deram, dar o recado preciso. 


Só por afirmar ser um " Extended Play", o popular "EP", já fez um golaço, diante de tantos chutes fora do estádio, por parte de outros jornalistas. 

                     Leopoldo Rey, em foto bem mais atual

Reconheceu a qualidade de "Um Minuto Além", enaltecendo o Fran, e teceu elogios ao trio de instrumentistas da banda, além de dar um mega resumo da trajetória da banda.

Achei vaga a referência negativa sobre as letras, mas claro que respeito a posição dele em não ter gostado, de uma maneira geral.

Essa resenha saiu no nº 4 , de novembro de 1985.



Continua...

Kim Kehl & Os Kurandeiros - 27/3/2015 - Sexta / 20:30 h. - Melts - Liberdade - São Paulo / SP

Kim Kehl & Os Kurandeiros

27 de março de 2015

Sexta-Feira - 20:30 H.

Melts

Avenida Liberdade, 472

Estação Liberdade do Metrô

Liberdade

São Paulo - SP

KK & K :

Kim Kehl - Guitarra e Voz
Carlinhos Machado - Bateria e Voz
Luiz Domingues - Baixo

quarta-feira, 25 de março de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 242 - Por Luiz Domingues


Uma exposição bacana nos foi proporcionada quando recebemos o inusitado convite para uma entrevista numa revista de alcance popular. 

Estávamos habituados a sermos publicados em revistas especializadas de música, e Rock em específico, mas uma publicação fora desse mundo era uma novidade (e muito bem vinda por sinal), pois tratava-se de uma oportunidade para expandir nossos horizontes.

Era a revista "Amiga TV Tudo", especializada em assuntos de TV, fofocas de artistas desse mundo, novelas etc etc. Claro que não era o "nosso" mundo, mas o simples fato de termos sido abordados espontaneamente pela produção da revista, foi comemorado, pois denotava um crescimento. 


Se recebemos tal convite, realmente era um indicativo de que estávamos começando a desgarrar do mundo fechado do underground, e chamando a atenção da mídia mainstream, ainda que nesse caso, o público alvo desse tipo de publicação, era totalmente insólito para uma banda com a sonoridade e propósitos da Chave do Sol.

Enfim, topamos fazer a entrevista que foi realizada na residência do Rubens, numa tarde de um dia útil, e a matéria foi publicada no nº 816, com direito à uma foto promocional daquela sessão equivocada, mas este click ao menos, estava mais razoável.

Eis a transcrição da matéria :

"A Chave do Sol só nos Baratos (primeiro LP anima grupo)


Há três anos surgia em São Paulo  um grupo que se definia eclético, misturando Rock, Jazz e Heavy-Metal. Formado por Rubens (22 anos, Guitarra), Luiz Domingues (25 anos, Baixo), Zé Luis (24 anos, Bateria) e Fran (vocalista), A Chave do Sol resolveu mostrar que é possível fazer uma música no estilo metaleiro com muita criatividade e qualidade. Dispostos a conquistar seu espaço, o grupo lança seu primeiro LP pela Gravadora Baratos Afins.

A banda existe desde 82 e ano passado gravou um  compacto simples cuja faixa principal é a canção "18 Horas", que foi bastante executada pelas rádios paulistas, na maioria alternativas.

Depois de algumas modificações, os rapazes do A Chave do Sol afirmam que o grupo agora está perfeito. Inspirados no Jazz e Rock dos anos 60, eles partem com uma proposta diferente : criar um som voltado e preocupado com a parte técnica e combinação de metais, ou seja, criatividade.

Segundo Rubens, a intenção da banda é acabar com aquela ideia de que Heavy Metal é apenas uma música barulhenta".

Solange Guarino

Bem, a moça foi extremamente simpática conosco, mas cometeu deslizes na edição do papo que tivemos, e de nada adiantou a gravação da conversa num gravador, e suas anotações de apoio, pelo visto...

Por exemplo, já começou com o subtítulo da matéria. Dou o desconto que a história do EP gerou muita confusão na mídia, conforme já venho relatando, mas afirmar logo de cara que estávamos lançando um "LP", já foi demais (em se considerando que recebera release oficial da gravadora como material de suporte, e tinha à sua disposição, toda a conversa gravada conosco, além de que nenhum de nós quatro falou se tratar de um LP, logicamente)...

Outra observação que faço, não é uma queixa, mas uma constatação : incrível como nesse ramo de jornalismo especializado em TV, existe a tola preocupação em definir a idade das pessoas. 


Qual a relevância em determinar a idade de cada um de nós ?
 

E admitindo que isso era uma praxe nesse tipo de mídia focada no mundo da TV, esqueceram-se de definir a idade do Fran...

Outro ponto interessante, em dado instante, ela embaralhou a conversa, pois afirmou que usávamos "metais" nas nossas músicas, certamente se confundindo com toda aquela baboseira de "metaleiros".

Enfim, a boa intenção dela foi ótima, e a despeito dessas falhas, ficamos contentes por sairmos publicados numa revista popular, e tendo assim, a oportunidade de atingir um público mais amplo e diferente.



Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 241 - Por Luiz Domingues


Na Revista Rock Stars nº 16, saiu a seguinte resenha :

"Firme no propósito pela conquista de um lugar ao sol, prossegue em sua batalha o grupo paulista A Chave do Sol, que está lançando agora seu primeiro LP, através do selo independente Baratos Afins.

A banda existe desde setembro de 1982, e iniciou suas atividades como um trio, contando com Rubens Gióia (guitarra); Zé Luis (bateria) e Luiz Domingues (baixo). Recentemente, um quarto elemento se juntou a eles : foi o vocalista Fran, que já comparece no LP.

É interessante perceber que tais grupos se esmeram no sentido de proporcionar à juventude brasileira algo melhor que os campeões de danceteria (Barão Vermelho, Titãs & Caterva),  que  se acomodaram em seu modelo pequeno-burguês, e se esqueceram que o Brasil está mais para favela do que para glitter.

No LP da Chave, destaque para "Um Minuto Além" ("O mundo teria de ser um lugar onde todos pudessem viver / Com a certeza de um amanhã melhor / Com a certeza de um lugar ao sol / Eu só queria entender  por que tantas diferenças sociais ? / Tantas discriminações ? Somos todos iguais"...

Presente também no LP, a faixa instrumental "Crisis (Maya)", que conta com a participação do tecladista Daril Parisi (do Platina). Estamos torcendo para que a banda atinja seus objetivos, marcando assim, uma importante etapa da música jovem brasileira".


A resenha não está assinada, mas pelo estilo e vocabulário usado, está patente se tratar da autoria do editor Valdir Montanari, que realmente se expressava com bastante formalidade, pois além de ser jornalista musical, era também professor de física num colégio tradicional da zona sul de São Paulo, e nos seus textos, a formalidade; o bom uso do idioma; e a ausência de gírias, eram marcas registradas.

Infelizmente, ele citou tratar-se de um LP, o tempo todo, mas na verdade, era um EP, como já sabemos. Mais uma confusão gerada pela falta de ênfase na capa do disco, para deixar clara a rotação alternativa e adequada para ouvi-lo.


Bem, muito interessante ele ter pego o gancho da política, baseado na letra de "Um Minuto Além". A alfinetada no BR-Rock parece não ter sido no alvo correto, pois a despeito da fragilidade musical das duas bandas que citou, no quesito letras, não eram nem de longe as piores, e pelo contrário, muito provavelmente tinham nesse quesito, o seu ponto forte.

Aliás, justiça seja feita, no caso do Barão, o Cazuza escrevia boas letras, com conteúdo e poesia, e se haviam restrições, sem dúvida eram relacionadas à duvidosa performance dele como cantor, e a fragilidade da banda, na parte instrumental (deixo a ressalva, que a banda melhorou muito, anos depois).

Mas ele estava nos enaltecendo, e naturalmente que curtimos essa colocação, ainda que em termos comparativos inadequados, a meu ver.

Acho que ele gostou mesmo foi do teor sociopolítico da letra, e acabou citando "Crisis (Maya)", por ser instrumental e com elementos nítidos de Jazz-Rock, ou seja, algo muito mais próximo da sonoridade setentista que ele apreciava.

A resenha saiu com uma foto da banda, daquela sessão toda equivocada cuja história já contei, e é lastimável que a fotógrafa tenha nos enquadrado num fundo negro improvisado e todo torto.

Bem, posso dar a desculpa de que se tratava de um cenário "expressionista alemão" inspirado em filmes do Fritz Lang, para dourar a pílula, mas na real, era um pano preto; muito mal fixado na parede branca, e que ficou abominavelmente torto...ha ha ha...



Continua...

terça-feira, 24 de março de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 240 - Por Luiz Domingues


Uma exposição bacana nos foi proporcionada quando recebemos o inusitado convite para uma entrevista numa revista de alcance popular. 

Estávamos habituados a sairmos publicados em revistas especializadas de música e Rock em específico, mas uma publicação fora desse mundo era uma novidade, e muito bem vinda por sinal, pois tratava-se de uma oportunidade para expandir nossos horizontes.

Era a revista "Amiga TV Tudo", especializada em assuntos de TV; fofocas de artistas desse mundo; novelas etc etc. 


Claro que não era o "nosso" mundo, mas o simples fato de termos sido abordados espontaneamente pela produção da revista, foi comemorado, pois denotava um crescimento.

Se recebemos tal convite, realmente era um indicativo de que estávamos começando a desgarrar do mundo fechado do underground e chamando a atenção da mídia mainstream, ainda que nesse caso, o público alvo desse tipo de publicação, era totalmente insólito para uma banda com a sonoridade e propósitos da Chave do Sol.

Enfim, topamos fazer a entrevista que foi realizada na residência do Rubens, numa tarde de um dia útil, e a matéria foi publicada no nº 816, com direito à uma foto promocional daquela sessão "equivocada" (que tanto já citei...), mas este click ao menos, estava mais razoável.

Eis a transcrição da matéria :


"A Chave do Sol só nos Baratos (primeiro LP anima grupo)


Há três anos surgia em São Paulo  um grupo que se definia eclético, misturando Rock, Jazz e Heavy-Metal. Formado por Rubens (22 anos, Guitarra), Luiz Domingues (25 anos, Baixo), Zé Luis (24 anos, Bateria) e Fran (vocalista), A Chave do Sol resolveu mostrar que é possível fazer uma música no estilo metaleiro com muita criatividade e qualidade. Dispostos a conquistar seu espaço, o grupo lança seu primeiro LP pela Gravadora Baratos Afins.

A banda existe desde 82 e ano passado gravou um  compacto simples cuja faixa principal é a canção "18 Horas", que foi bastante executada pelas rádios paulistas, na maioria alternativas.

Depois de algumas modificações, os rapazes do A Chave do Sol afirmam que o grupo agora está perfeito. Inspirados no Jazz e Rock dos anos 60, eles partem com uma proposta diferente : criar um som voltado e preocupado com a parte técnica e combinação de metais, ou seja, criatividade.

Segundo Rubens, a intenção da banda é acabar com aquela ideia de que Heavy Metal é apenas uma música barulhenta".

Solange Guarino
 


Bem, a moça foi extremamente simpática conosco, mas cometeu deslizes na edição do papo que tivemos, e de nada adiantou a gravação da conversa num gravador e suas anotações de apoio, pelo visto...

Bem, já começou com o subtítulo da matéria. Dou o desconto que a história do EP gerou muita confusão na mídia, conforme já venho relatando, mas afirmar logo de cara que estávamos lançando um "LP", já foi demais...

Outra observação que faço, não é uma queixa, mas uma constatação : incrível como nesse ramo de jornalismo, especializado em TV, existe a tola preocupação em definir a idade das pessoas. Qual a relevância em determinar a idade de cada um de nós ?
E admitindo que isso era uma praxe nesse tipo de mídia de TV, esqueceram-se de definir a idade do Fran...

Outro ponto interessante, em dado instante, ela embaralhou a conversa, pois afirmou que usávamos "metais" nas nossas músicas, certamente se confundindo com toda aquela baboseira de "metaleiros".

Enfim, a boa intenção dela foi ótima e a despeito dessas falhas, ficamos contentes por sair numa revista popular e tendo assim, a oportunidade de atingir um público diferente.



Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 239 - Por Luiz Domingues


Conforme já havia ventilado anteriormente, na Revista Metal, em seu nº 14, foi publicada a resenha oficial do EP. Assinada pelo jornalista Antonio Carlos Monteiro, que aí sim, foi fundo na análise do trabalho.

Eis a transcrição :


"Depois de muita expectativa entre os roqueiros de Sampa, foi lançado, finalmente, o primeiro EP do grupo A Chave do Sol, através do selo Baratos Afins. Mas apesar da demora, quem teve´paciência não se viu frustrado com o disco.

O grupo, formado por Zé Luis (Bateria), Luiz Domingues (Baixo), Fran (Vocais) e Rubens Gióia (Guitarra), mescla o Heavy Metal com o Hard Rock e com o Jazz Rock, e dentro desse estilo, obteve um excelente resultado em sua segunda experiência em estúdio - a primeira havia sido um compacto independente, lançado em 1984.

O EP é aberto com "Anjo Rebelde", um Hard-Rock que lembra, em algumas passagens, o início do Heavy-Metal (vide Purple e Zeppelin), e que se torna primoroso pela bela guitarra do Rubens e pelo vocal bem colocado de Fran.

"Um Minuto Além", a faixa seguinte, trata-se de uma belíssima balada, bem construída e bem executada, e  que possui também uma letra interessante. Nota-se nessa música, toda a influência de Blues que envolve o trabalho fe guitarra de Rubens.

"Segredos" e "Ufos", dois poemas de Julio Revoredo musicados pela banda ( "nós temos muitos amigos poetas que nos dão trabalhos para colocarmos músicas, explica Luiz Domingues), não apresentam grandes novidades.

Já "Crisis (Maya)", número instrumental, é o ponto altro do disco. Nessa faixa é possível perceber nitidamente a tendência "jazz-Metal" da banda : o baixo de Luiz Domingues fazendo uma bela linha e o teclado de Daril Parisi (membro do Platina) dando o clima que a música exige. Nota dez.

E "Ímpeto", composição assinada por todos os membros da banda, é um hard'n roll" vibrante que encerra o EP com chave de ouro.

Vale esperar por esse disco. As eventuais falhas que possam existir acabam sendo passadas para segundo plano pela performance extremamente profissional de cada instrumentista e pelo bom gosto das composições. E a isso ainda some a qualidade das letras, que se destacam dentro da mesmice que invade o Rock nacional".

Antonio Carlos Monteiro

 

 O jornalista Tony Monteiro, em foto bem mais recente

Uma excelente resenha do ótimo jornalista Antonio Carlos Monteiro, que era um dos poucos naquela década, que não estavam inebriados pela estética do pós-punk, e escreviam sem o ranço niilista e odioso, baseado na infame cartilha de Malcolm McLaren.

Sua isenção era total, e de fato, apesar de ser um fã confesso da banda, tinha liberdade para tecer críticas negativas em aspectos que detectava, e assim o fez, conforme está no texto acima.



Continua...

segunda-feira, 23 de março de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 238 - Por Luiz Domingues


Paralelamente às primeiras ações da banda com seu novo vocalista, Beto Cruz, matérias e resenhas iam saindo na mídia impressa, motivadas pelo lançamento do EP.

Vou transcrever algumas delas, neste momento.

Na coluna do Leopoldo Rey na revista Som Três, chamada "Dr. Rock", foi só uma nota, mas curtíamos muito sermos citado ali, pois o Leopoldo era um dos mais respeitados jornalistas especializados e mantinha uma postura íntegra, sem ater-se ao modismo em voga, e sua indefectível má vontade com tudo o que não rezasse pela cartilha do Punk'77, caso da maioria esmagadora de seus pares na ocasião, infelizmente.


Dr. Rock - Leopoldo Rey - Revista Som Três 

"A Chave do Sol, segundo disco de 45 rpm (EP) desse grupo, que mistura Rock pesado com progressivo. A formação é : Zé Luiz (bateria), Rubens Gióia (Guitarra), Luiz "Tigueis" (Baixo) e Fran (vocal).

Apenas uma nota, como já havia salientado, mas a visibilidade da coluna do Leopoldo era enorme, e comemoramos a sua publicação, certamente. Saiu na edição nº 82, de outubro de 1985, e contendo a capa do EP como ilustração.

Na revista "Metal", nº 13, uma nota anunciou o disco, com direito a foto promocional do quarteto. Na edição posterior, nº 14, aí sim, foi publicada a resenha do jornalista Antonio Carlos Monteiro, outro grande nome do jornalismo especializado e de conduta ilibada, bem diferente dos proclamadores de hypes indecentes e adeptos do niilismo barato oitentista.




Eis a nota :

"Chave em Disco

Quem acaba de lançar-se em disco é o grupo paulista Chave do Sol, que soltou um EP de 45 RPM pela Baratos Afins. O grupo foi formado em 1982 e conta com Rubens Gióia na guitarra, Fran nos vocais, Luiz Domingues no baixo e Zé Luiz na bateria. É mais uma banda de qualidade que a Baratos  joga no crescente mercado nacional".


Uma nota sucinta, mas bem objetiva. E no mês posterior, aí sim, a Revista Metal lançaria uma ótima resenha. 



Continua...

domingo, 22 de março de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 237 - Por Luiz Domingues


Não deu outra, o sujeito "capotou" depois do soundcheck, e nós optamos por deixá-lo dormindo, pois não reuniria condições de se recuperar da embriagues, a tempo de operar o som da banda na hora do show.

Resultado : fizemos o show sem a presença dele na pilotagem dos botões. O técnico local não era nenhuma sumidade no quesito áudio, mas operou razoavelmente. 


Nessas circunstâncias, dava-nos por felizes em ter um sujeito coibindo microfonias básicas, pois todo o nosso esforço em levar um técnico nosso, que conhecia as músicas e poderia nos dar o luxo de uma pilotagem de "levels" nos momentos chave de solos & afins, havia ido para o ralo.

Como poderíamos suspeitar que o cara não se conteria e cairia na armadilha da fartura interiorana, e com direito ao típico : -"experimente esta aguardente da região... blá blá blá"...? 


Enfim, nem ficamos bravos com o rapaz, mas claro que ficamos desapontados e na volta à São Paulo, ele mostrou-se bem chateado, nos pedindo mil desculpas etc etc.

O show foi bom, em se considerando que aquele dito festival não atraíra um público interessado em bandas de música autoral.  A maioria ali presente, esperava bandas cover, e o clima era o de um "churrascão de fazenda", com todo mundo querendo mais era "farrear" ao som de covers internacionais.

Mas não posso me queixar, pois se o público foi meio frio, toda a hospitalidade dos produtores foi ótima (até no mau sentido da pinga farta...); o cachet acordado foi pago em dinheiro vivo, e regiamente, meia hora antes de subirmos ao palco. 


Apesar do dia bom, com sol; calor; e consequente noite de céu aberto e estrelado, o público esperado pelos organizadores foi aquém.

Cerca de 500 pessoas estiveram presentes. Se fosse um teatro de porte médio, ou uma casa noturna, eu diria se tratar de um número excelente, mas para um festival realizado numa chácara ao ar livre, decepcionou.

Era 15 de novembro de 1985, uma sexta-feira de eleições no feriado nacional.

Só para constar, houve eleição municipal nesse dia, e todos, tivemos que votar bem cedo para poder viajar ao interior. Botucatu fica a 245 KM de São Paulo, ou seja, uma distância razoável. 


 

As pesquisas davam como certa a vitória de Fernando Henrique Cardoso à prefeitura de São Paulo, e num ato tresloucado, ele deixou-se fotografar no gabinete de prefeito, sentado imponentemente, um dia antes da eleição.

Tal foto saiu na capa do jornal Folha de São Paulo, no dia da eleição, e quando o resultado oficial apontou Jânio Quadros como vencedor, sua primeira atitude, muito deselegante por sinal, foi querer ser fotografado com um desinfetante spray à mão, higienizando a poltrona de prefeito...

Um dos outros atos deselegantes que esse senhor perpetraria como prefeito a seguir, foi o de perseguir, até fechar implacavelmente, o teatro Lira Paulistana.

Preciso dizer mais o que achei dessa vitória dele ?


Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 236 - Por Luiz Domingues

 
Resenha sobre o Show realizado no Sesc Campestre, em São Paulo, publicada na Revista Metal, algum tempo depois

E não havia muito tempo para respirar (ainda bem !!), pois o próximo compromisso seria logo em seguida. 

Tínhamos sido convidados para um show num evento no interior de São Paulo, e seria realizado numa chácara, próximo à cidade de Botucatu, no centro do estado.

O cachet acordado era muito bom, mas ao contrário do show de Santos, onde havia um contrato formal, assinado e com reconhecimento de firmas mediante cartório, desta feita o acordo fora verbal, mas a confiança que tivemos era total, mesmo não sendo os organizadores do festival, conhecidos nossos, propriamente disso.

Fomos cedo para Botucatu, no dia do show, com carros particulares, e a viagem transcorreu de forma tranquila e prazerosa. 

Foto ilustrativa, não é esse o Dodge Dart que o Zé Luis tinha naquela época, mas era nessa linha de pintura cor de vinho com capota de vinil, embora o dele fosse o modelo, "Charger RT" 


Na nossa comitiva, além dos quatro integrantes, a aspirante a produtora, Cristiane Macedo, também foi; além de Edgard "Pulgão" Puccinelli; Eliane Daic (namorada do Zé Luis desde 1983, e que sempre ajudava como quebra-galho de tudo na produção, inclusive acionando explosões pirotécnicas...); e o técnico de som, Nico, que conhecêramos no estúdio Vice-Versa, por ocasião da gravação do EP, recentemente.

Nossa primeira ideia era levar o amigo Can Robert, mas este estava compromissado com outro artista na mesma data (provavelmente Os Inocentes, não me recordo com certeza), e assim, levamos o Nico, que era bem competente e gente boa.

Chegando à cidade, fomos à residência de um dos contratantes, e de lá, fomos guiados à chácara, que localizava-se na zona rural daquela cidade. 


O evento, por sinal, chamava-se "Rock in Chácara", numa alusão ao "Rock in Rio", aliás, em 1985, isso tornou-se uma febre, com muitos festivais por todo o Brasil copiando tal título, tentando aproveitar-se do vácuo do festival realizado no Rio.

A tal chácara era muito simpática, e a estrutura do festival era simples, com um palco de sustentação de madeira, relativamente baixo. O P.A. e o sistema de luz disponibilizados eram dignos, sem muito luxo, mas suficiente para suprir a área onde o palco fora montado.

Os organizadores esperavam entre mil e 2000 pessoas presentes, e nós seríamos a atração principal da noite, com duas bandas locais fazendo a abertura.

A hospitalidade dos organizadores foi muito grande, e um almoço muito farto, tipicamente interiorano, nos foi servido, e com direito a
sobremesas maravilhosas, feitas com frutas colhidas no próprio pomar da referida chácara.

Mas, a hospitalidade não ficaria só nisso. Com todo o tipo de drinks sendo servidos, e em sua maioria à base de aguardente interiorana e de "boa fonte" (segundo os entendidos), com minha exceção óbvia, que sou abstêmio, todo mundo foi bebendo a vontade... 


Alguns se contiveram, mas outros, não resistiram à ação da pinguinha maledetta...

Quando chegou a hora do soundcheck, o pior de todos no estado etílico, infelizmente, foi o Nico, o técnico que leváramos para operar o nosso show.

Já na passagem, ele estava apresentando sinais de tal transtorno etílico, e se não houvesse a compreensão do técnico local, e dono do P.A. que prontamente ficou ao lado, auxiliando, infelizmente
tudo arruinaria-se... 



Continua... 

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 235 - Por Luiz Domingues



Após um sábado difícil, lidando com adversidades para lá de presumíveis (mas que não tivemos a capacidade de discernir à época, ao ponto de evitá-las, simplesmente...), o domingo parecia ser mais promissor e digno para A Chave do Sol, e de fato, foi mesmo.

O compromisso era na unidade do Sesc, conhecida como Sesc Campestre, uma bela instalação com muita natureza; lagos; e equipamentos de lazer aos montes, incluso muitas piscinas. 


O show seria numa concha acústica sui generis, pois ficava instalada dentro de um lago de razoável extensão de comprimento e largura, com o público se acomodando na margem do outro lado, num declive que insinuava-se como uma pequena encosta. 

Visualmente falando, era muito bonito, e claro que foi bacana ter tocado ali, por esse e outros motivos. Alguns anos depois, esse mesmo palco seria o oficial para o programa da TV Cultura, "Bem Brasil", onde muitos artistas da MPB e Rock brasileiro tocaram, incluso o Big Balls do Xando Zupo, futuro companheiro meu no Pedra. Acho que o Golpe de Estado também tocou nesse programa.

Esse show fora marcado graças à intervenção do Luiz Calanca, e nós dividiríamos o palco com o Centúrias e o Platina, bandas do cast da Baratos Afins, também. 


Chegamos no Sesc Campestre no horário combinado, e o soundcheck foi muito rápido, pois por ser tratar de um palco ao ar livre, não era possível realiza-lo com a devida calma que seria de bom alvitre.

Mas esse não seria um grande problema, pois o equipamento era de bom nível e os técnicos, competentes. Portanto, estávamos confiantes de que mesmo sem um soundcheck mais apurado, tudo daria certo. 

O Centúrias tocou primeiro, e da coxia, o som da banda parecia agradável na monitoração, para se tocar com segurança. Mas quando o show deles encerrou-se, vimos que saíram com queixas sobre a monitoração, e isso acendeu a luz amarela para nós.

Levamos o Edgard Puccinelli Filho, popular "Pulgão", como roadie e ele insistiu para recitar um de seus poemas antes do nosso show.


Achamos que não teria nada de mau ele entreter o público um pouco antes de entrarmos em cena, mesmo porque, ele era extremamente divertido, e suas performances tresloucadas, arrancavam risadas e euforia, geralmente.

Mas vendo hoje em dia, será que agimos certo ? Bem lá foi ele declamar "A Morte", um de seus poemas.


Apesar da declamação ser muito exótica, o tema era mórbido e convenhamos, não era um show Dark ou Gótico no Madame Satã, mas um show no período da tarde; num ambiente bucólico; ao ar livre; com muito sol e calor; portanto, com as pessoas curtindo o dia, quase num clima de pic-nic.

Enfim, muita gente riu, houve aplausos, mas quando lemos a resenha do show, publicada na revista "METAL", algum tempo depois, ficamos surpresos por ver que o crítico Antonio Carlos Monteiro, não aprovou a performance, e deixou registrado assim, seu desagravo (mais adiante, publico literalmente o que ele falou). 


O show foi curto, pois era compartilhado com outras bandas, mas foi muito bom. O Beto já conseguiu soltar-se um pouco mais e nesse aspecto, o desastre em Santos na noite anterior, acabou sendo benéfico.

Lembro-me que a energia foi muito grande.


Um dado curioso ocorreu nesse dia e que desencadearia uma mudança de vida para o Beto, dali em diante, acompanhando-o pelo resto de sua estada à frente da banda. Acho que posso revelar isto, pois não é nada comprometedor, e ele não teria motivo para chatear-se.

Graças à esse show, alguns comentários sobre a aparência dele chegaram até nós. Por ser vocalista e estar mais exposto, sem um instrumento às mãos, qualquer pequena saliência que apresentasse no seu abdômen, poderia ser detectada, principalmente pelas mulheres, sempre mais observadoras.  


E assim, uma gordurinha chamou a atenção desse tipo de audiência, e tais comentários incomodaram-no. Não deu outra, na segunda-feira posterior, ele matriculou-se numa academia de ginástica perto de sua casa, e a chamada "malhação", tornou-se rotina na sua vida. 

Mas ele tinha razão em se cuidar, pois vocalistas são os músicos que mais chamam a atenção do público em geral, e sendo assim, tinha mais é que observar isso com atenção. 

E não era nada demais a gordurinha extra que ele apresentava nesse início, e confesso, no lugar dele, eu não teria tomado providência alguma...

Assim foi o show no Sesc Campestre, no dia 10 de novembro de 1985, um domingo quente. Segundo os produtores do Sesc, haviam cerca de mil pessoas nos assistindo.

Todas as fotos desse show, e que ilustram este capítulo, são de autoria de Rodolfo Tedeschi ("Barba"). Fica a ressalva que foram "scanneadas" diretamente de um contato fotográfico, e não de cópias reveladas em papel, portanto, tem qualidade visual muito aquém do desejável, mas mesmo assim, justificam-se pelo valor histórico, naturalmente.


Continua...