sábado, 28 de fevereiro de 2015

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 62 - Por Luiz Domingues

Essa tentativa frustrada de gravar de graça em Nova York deu um baque na banda, não vou negar, mas logo a seguir uma nova luz acendeu-se nesse quesito "gravadoras". Recebemos um convite para conhecer o escritório da gravadora "Velas", e lá, recebemos uma proposta de contrato / gravação. Tratava-se de uma gravadora independente, mas bem organizada, com estrutura interna de gravadora grande, e que tinha entre seus sócios, o compositor / cantor / pianista, Ivan Lins, e seu parceiro musical, o letrista Victor Martins.

                                Victor Martins & Ivan Lins

A sede paulistana da gravadora, ficava no bairro do Tatuapé, zona leste de São Paulo. Era um escritório bem estruturado, com diversos funcionários trabalhando a todo vapor, tudo informatizado etc.
Em princípio, estavam abrindo um selo de Rock dentro da gravadora, denominado "Primal", e o diretor artístico desse núcleo, era o guitarrista d' "O Terço", Sergio Hinds, padrinho do filho de Victor Martins, portanto seu compadre, e amigo de longa data.
Numa primeira conversa, gostamos da proposta, que seguia o padrão tradicional das gravadoras à moda antiga, com cobertura de toda a cadeia de produção, do estúdio à divulgação final. Mas o acerto, obviamente não saiu no primeiro encontro. Muitas visitas ao escritório do Tatuapé suceder-se-iam, com direito a almoço nos restaurantes de seu entorno.


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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 61 - Por Luiz Domingues

Anúncio do estúdio Be Bop, na revista "On & Off", em 1995, citando artistas que já haviam gravado discos em suas instalações, e com o Pitbulls on Crack, entre eles

Em meio ao "Dominguestock", um fato interno agitou a vida do Pitbulls on Crack, e sobre o qual mantivemos sigilo absoluto à época. Acredito que não há mal algum em revelar esse fato hoje em dia, 20 anos depois (2016). Foi o seguinte : o Chris Skepis conheceu por volta de 1989 / 1990, o produtor / técnico de som, norteamericano, Roy Cicala. O fato era que Cicala tinha vindo ao Brasil por conta de uma namorada brasileira, e a despeito de nosso terceiro-mundismo, gostou do Brasil, e esticou uma boa temporada por aqui.


Roy Cicala, já na fase final de sua vida, trabalhando em São Paulo

Sendo assim, o Chris tornou-se seu cicerone, e tradutor em muitas ocasiões, apresentando-lhe diversos músicos etc. Para quem não sabe, Roy Cicala trabalhou como técnico de som no Record Plant, famoso estúdio de Nova York, como assistente de Eddie Oddford, em discos históricos como "Electric Ladyland", do Jimi Hendrix, por exemplo.

Foto provavelmente da época das gravações do LP "Double Fantasy" de John Lennon, em 1980, com Roy Cicala operando a mesa e Lennon & Yoko próximos, na escuta.

E estava por trás de Alice Cooper em "School's Out"; John Lennon e David Bowie em "Fame", e tantas outras gravações seminais na história do Rock, que eu prefiro parar de citar, para não tomar espaço (e acredite, são dúzias e dúzias...). Por volta de 1995, Cicala voltou ao Brasil, e encontrando com o Chris, este mostrou-lhe o material do Pitbuls on Crack, e surgiu uma proposta : gravaríamos de graça em seu estúdio em Nova York, tendo que apenas bancarmos nossas despesas de viagem; estadia, e alimentação. Ficamos animados, claro. E tratamos de captar recursos assim que possível. O problema, era que estávamos numa curva descendente, desde o fim de 1994, e com poucos shows, o caixa estava vazio.
Pensamos em levantar recursos com patrocinadores, mas nossos contatos eram com patrocinadores pequenos, que só queriam bancar material de souvenir para a banda.

O próprio Cicala interveio, e propôs que hospedássemo-nos no seu estúdio, minimizando despesas com hotel. Claro que aceitamos, mas o dinheiro das passagens estava muito difícil de captar. Estava agendada uma data no estúdio, em agosto de 1995. Ele encaixou-nos entre as gravações do "Steely Dan", e da Patti Smith.
Frustrados, desistimos da empreitada, e o sonho de gravar em Nova York, com um produtor com status de mito, esvaneceu-se.

Alguns anos depois, o Roy Cicala mudou-se em definitivo para São Paulo. Ele abriu um estúdio no bairro da Vila Mariana, zona sul de São Paulo, e tornou-se figura carimbada numa padaria próxima, e que eu conheço bem...
 
Como adendo de 2015, acrescento que Cicala manteve esse estúdio por muitos anos, gravando muitas bandas ali numa casa próxima à Cinemateca Brasileira, no já citado bairro, incluso um álbum do Ciro Pessoa, com o qual passei a trabalhar em 2011. Infelizmente, Roy Cicala faleceu em 2014, aqui em São Paulo.




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Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 60 - por Luiz Domingues

Infelizmente, o "Equinox" extrapolou, e contrariando o combinado, tocou por mais de uma hora e meia, entediando o público com seu Heavy-Metal oitentista; defasado, e enfadonho. O guitarrista solo estava nervoso, e por estar contrariado, motivado pelo atraso no soundcheck, quis propositalmente afrontar-me, e prejudicar o show do Pitbulls on Crack. Atitude lamentável em que nada contribuía para divulgar o som de sua banda, pelo contrário, só criou um anticlímax. O meu aluno, Luiz, era extremamente gente boa, e ficou constrangido com as atitudes de seu guitarrista, mas o estrago estava feito. Enfim, o público cansou daquele som maçante e absurdamente alto. Dispersou, abrindo um clarão na frente da banda, e mesmo assim, insistiram em tocar mais e mais.

Pior que isso, hostilizou nosso roadie, o Jason Machado, que pedia insistentemente para que encerrassem, devido ao tempo estourado.
Claro, arrependi-me por tê-los incluído no evento. Teria sido muito melhor incluir outra banda de alunos, e havia várias que desejavam ter tido essa oportunidade. Já noite avançada, beirando a madrugada, o Pitbulls on Crack entrou em cena, e o público já estava pela metade.
Se a intenção do guitarrista rancoroso houvera sido essa, creio que o maior prejudicado foi ele mesmo, por ter entediado as pessoas, espantando-as. Claro, era de esperar-se que as pessoas cansassem-se de ficarem confinadas num bar minúsculo, com um áudio deficiente, e bandas de Rock tocando em volumes inacreditáveis. E também era esperado que muitos dispersariam após verem seus parentes e amigos apresentarem-se, tal como um festival juvenil. Isso não abalou-nos em nada, e fizemos o nosso show normal, sem preocupações, e contentes por ter sido um sucesso um evento do qual não esperávamos nada.
Isso ocorreu então, no dia 30 de abril de 1995, e o público foi excelente, com 520 pessoas presentes (informação oficial revelada-me pelo Jason Machado, no ano de 2015), para a alegria do dono do bar, que vendeu muita bebida nessa noite. Existe uma versão editada desse evento, gravado em Mini-VHS e digitalizada nos anos 2000. Pretendo lançar no You Tube em breve. Só não sei ainda se lanço separadamente cada banda, ou se mando tudo junto, como um documentário de Festival. E mais uma coisa : vou mudar o nome do Festival, passando por cima da história... vai ser "Dominguestock"... Ha ha ha !!!
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 59 - Por Luiz Domingues

E conforme o prometido, o "Parental Advisory" tocou o seu set de meia hora, e despediu-se. A voz esganiçada do vocalista adolescente, tornou-se hit imediato, e apesar da agressividade da banda, foi uma apresentação divertida que agradou o público (com a devida exceção de alguns pais, digamos assim, e fato já mencionado anteriormente...). Nesta altura dos acontecimentos, a casa estava super lotada, e o acúmulo era tanto, que o pequeno espaço interno inteiramente lotado, fazia com quem estava do lado de fora não conseguisse entrar, literalmente. O dono do bar estava eufórico, pois decadente, o Black Jack, há muitos anos não lotava daquela maneira. A próxima banda a entrar no palco seria o "Eternal Diamonds", banda de meu aluno, Alexandre "Leco", Peres Rodrigues, e que praticava um som pesado, quase no patamar do Heavy-Metal, mas tinha enormes influências boas de anos 1960 / 1970, principalmente a psicodelia sessentista, e o Prog setentista. Seus outros componentes eram Rodrigo Hid (guitarra e voz), e Fernando Minchillo (bateria). Conhecia-os todos desde 1993. Com aquelas feições faciais de adolescentes, e muita conversa sobre o Rock dos anos 1960 e 1970 etc. Sabia do potencial dos três, e apesar de serem inexperientes e muito novos ainda, o poder de fogo deles era enorme. O show começou, e a sonoridade era radicalmente mais leve que o "Parental Advisory", e as boas influências dos meninos eram nítidas no seu trabalho.

Eu, Luiz Domingues, e Rodrigo Hid numa foto de 1996, na minha sala de aulas

Eles tocaram suas canções compostas em inglês, e cuja mais famosa, pelo menos no círculo de amigos, era "Meet the Power", praticamente um Heavy-Metal. Mas surpreenderam positivamente ao tocar um cover do Pink Floyd, "Insterstellar Overdrive", trazendo uma excelente interpretação ao clássico da psicodelia Barrettiana. Lembro-me bem que durante o show do "Eternal Diamonds", o Deca reparou bem na performance do Rodrigo, e olhando-me a seguir, fez expressão de espanto (positivamente, é claro), demonstrando que também percebia o talento nato do menino. Tocando com desenvoltura e cantando muito bem, o Rodrigo tinha rosto de adolescente, mas postura de veterano no palco, brilhando intensamente. Dois anos depois disso, ele estaria iniciando o projeto "Sidharta" comigo, e com o próprio Deca, e mais dois a seguir, estaria na Patrulha do Espaço comigo. Dez anos depois, estaria no Pedra, comigo, novamente...
E os demais também tinham diferencial. O Alexandre, mesmo muito novo, apresentava percepções de psicodelia que muito lembravam o Roger Waters, fora seu talento nato para criar linhas de baixo nada usuais, e que são sua marca registrada no Klatu, sua banda atual, com dois discos lançados. E o Fernando também tocava de maneira segura, apesar da idade. Foi uma pena que tivessem apenas meia hora para tocar, pois o show do "Eternal Diamonds" foi muito agradável. Saindo do palco, chegou a vez do Heavy-Metal, do Equinox
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 58 - Por Luiz Domingues

Por ser um bar de pequenas dimensões, não comportava um P.A. grande, e sendo assim, o Black Jack Bar não tinha uma estrutura de som e luz adequada para shows de Rock com muita potência. O soundcheck foi lento, com a inexperiência da garotada atrapalhando também, e lembro-me que o guitarrista do Equinox foi bastante grosseiro comigo, pois atribuiu à minha pessoa, a culpa pelo atraso, sendo que isso fugia à minha alçada. E o combinado era meia hora para cada banda apresentar-se, quando o Equinox tocou por quase uma hora e meia, talvez "vingando-se" da minha pessoa, mas apenas sendo deselegante com todo mundo que bocejava diante de seu show maçante, pleno de clichês oitentistas de Heavy-Metal.

Mas a primeira banda a apresentar-se foi o "Parental Advisory".
A despeito do som ser um Thrash Metal ultra agressivo, os garotos tinham uma postura muito engraçada, que arrancaram gargalhadas do público.
Entre uma música e outra, o vocalista, que era um garoto enorme e com o cabelo pela cintura, falava com uma voz de adolescente, em processo de maturação, ou seja, "desafinava" falando, mas quando cantava (ou melhor dizendo, "urrava"), nas músicas, parecia um troglodita das cavernas, matando dinossauros a gritos... hilário !!
E uma música arrancou gargalhadas extras. Quando anunciaram-na, fizeram a contagem para iniciá-la, e ela resumiu-se à um acorde de acento único...
Mais um fato engraçado aconteceu também sobre essa banda.
Assim como para todas as bandas de abertura presentes, havia muitos familiares dos músicos envolvidos. Parecia uma festa escolar de fim de ano...

E contaram-me que durante a performance do "Parental Advisory", o pai do meu aluno Ricardo Garcia, suava, literalmente, espremido na multidão, e só resmungava, dizendo : -"que merda... que merda..." Ha ha ha !!!


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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 57 - Por Luiz Domingues

Uma entrevista do Chris Skepis ao Jornal da Tarde, em março de 1995, falando de sua aventura na Inglaterra, como membro do Cock Sparrer, uma banda famosa da cena do Punk' 1977

A virada para 1995 foi um pouco desalentadora, portanto. 
Descartados pela gravadora Roadrunner, e com a Eldorado desinteressada em investir no time da coletânea de 1993, após ver as cinco bandas dispersarem cada uma por si, apenas ensaiamos e trabalhamos em músicas novas nos primeiros meses de 1995. 
 Então, o primeiro compromisso do ano em termos de show, foi uma autoprodução completamente maluca que tinha tudo para ser uma mera e prosaica reunião em clima de festa particular, mas que ganhou dimensão inesperada, e foi um sucesso de público. Foi assim : o presidente do fã-clube do Pitbulls on Crack, Jason Machado, tinha uma data no Black Jack Bar, e perguntou se nós gostaríamos de tocar lá, visto estarmos há muito tempo sem shows. A data teria um significado especial para o Jason, e para o Pitbulls on Crack, pois marcava um ano de existência do Fã-Clube. Seria no dia 30 de abril de 1995, ou seja, na véspera de um feriado (1° de maio), com a possibilidade das pessoas saírem despreocupadamente para a noite, como se fosse o sábado. A despeito de também muita gente sair da cidade, achamos que a custo zero, não seria ruim, nem que a casa ficasse com público tímido. Mas a ideia evoluiu, e pensamos em colocar alguma banda de abertura. Mais um pouco e passamos a pensar em duas, depois três e estava configurado aí, um micro-festival. A grande sacada, seria que as bandas de abertura também arrastariam público, numa ação conjunta de divulgação.
E dessa forma, aproveitando o fato de eu ter cerca de 35 alunos regulares de baixo, era óbvio que de minha parte seria fácil arregimentar bandas novas. Tendo tantos alunos, e quase todos terem uma banda, seria uma oportunidade de ouro para eles também apresentarem-se. Para incrementar, o Jason Machado atuaria com força total no evento, e ele tinha um trunfo em mãos. 

Graças a um patrocinador que tinha para o seu fanzine, havia um acordo para a publicação de um tijolo de jornal, com o apoio da gravadora Eldorado, e dessa forma, no dia do show, tivemos um tijolo no Jornal da Tarde, como apoio de divulgação, fora cartazes e filipetas. Muitas bandas poderiam ser escolhidas, mas na "Hora H", as que puderam aceitar o convite, confirmando presença, foram : "Parental Advisory" (do meu aluno, Ricardo Garcia); "Eternal Diamonds" (do meu aluno, Alexandre Peres "Leco" Rodrigues), e "Equinox" (do meu aluno Luiz Nannini). Os garotos ficaram super empolgados, claro, e imediatamente engajaram-se na divulgação. Era a oportunidade deles tocarem num bar que tinha tradição no Rock Paulistano, e pelo fato de serem adolescentes imberbes, contava muito como façanha pessoal para eles, em início de carreira. Como nessa fase, eu ainda era conhecido por um apelido que após 1999, cortei com veemência, o nome do show que foi usado em profusão, fazendo a junção dele, com a palavra Woodstock. reescrevendo a história, chamo-o de outra forma nesta autobiografia. Não falava-se em outra coisa nas minhas aulas, a não ser a realização do "Dominguestock". Confesso que essa produção deu o ânimo que o Pitbulls on Crack precisava para sair da fase letárgica em que encontrava-se, desde o fim do segundo semestre de 1994, quando todo o impulso alcançado, parecia ter diluído-se pelo ralo.
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sábado, 21 de fevereiro de 2015

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 56 - Por Luiz Domingues

E o último compromisso de 1994 aconteceu novamente no Aeroanta. Desta vez foi um show compartilhado com as bandas "Party up" e "Stigmata A Go Go".

O "Party up" era uma banda indie com elementos de punk, e doses de metal no seu som. O grande atrativo era sua vocalista, uma garota muito bonita (Natacha), e que tinha uma pronúncia perfeita de inglês. Graças ao bom relacionamento que seu líder tinha no meio (o baterista que era um ex-membro do Viper, e muito amigo dos irmãos Cavalera, do Sepultura), estavam na iminência para serem contratados pela Roadrunner internacional, e entrar num circuito forte de shows pelo mundo. Na prática, era apenas mais uma banda indie com sonoridades modernosas, baseada na extrema simplicidade do punk-Rock, e o maior atributo recaía sobre a garota, que chamava a atenção pela beleza.
E esse  "Stigmata A Go Go" era uma banda americana. Também outro exemplo de indie Rock, sem nada que atraísse-me, muito pelo contrário, com um som eletrônico misturado à ruindade Punk, realmente era difícil achar algum mérito naquela maçaroca esquisitinha. O show foi  morno, sem grandes novidades, e ocorreu no dia 16 de dezembro de 1994, para um público de apenas 100 pessoas. O embalo sensacional que havíamos obtido desde 1992, estava diluído, infelizmente. O melhor teria sido lançar logo um CD, mas a quebra de palavra por parte da Roadrunner impossibilitou-nos nesse sentido. Fazendo shows esporádicos, e sem perspectiva de lançar um disco, foi uma fase de desânimo geral, que consumiu-nos algum tempo para realizarmos um esboço de reação.
Olhando hoje, com distanciamento histórico, fica claro que foi o fim da primeira fase da banda. Após o hiato de alguns meses, entraríamos na segunda, e última fase da banda (pelo menos sob a minha perspectiva, pois após a minha saída, eles teriam uma terceira fase, sem a minha presença). A insistência em cantar em inglês era um ponto sempre trazido à tona por parte de jornalistas na época.
Realmente, essa cena de bandas emergentes do início dos anos noventa, cantando em inglês estava sendo atropelada por bandas cantando em português. Era o caso a pensar-se, mas o Chris não queria nem saber disso. E assim encerrou-se 1994, com o embalo perdido, e esvaído pelo ralo, infelizmente. 
 


Entrevista concedida ao crítico de Rock e escritor Glauco Matoso, para a revista Top Rock nº 21, e mais focada no Chris Skepis por conta de sua passagem pela banda britânica, Cock Sparrer, daí o título "Chris Skepis : Do Cock ao Crack".  


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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 55 - Por Luiz Domingues

Sem empresário e sem gravadora, ainda tínhamos ecos do embalo adquirido, e mesmo sendo uma banda onde a estratégia era a absoluta falta de estratégia (isso é para rir ou para chorar ??), tínhamos a preocupação em estabelecer um novo rumo para tentar aproveitar o embalo. E assim sendo, a próxima atividade da banda deu-se na festa da Revista Rock Brigade, que comemorava a sua centésima edição lançada.

O show ocorreu no Aeroanta, no dia 28 de novembro de 1994, com a presença também de duas outras bandas : "Neanderthal", nossos amigos e companheiros de coletânea da gravadora Eldorado, e "Avalon", uma banda de Heavy-Metal oriunda do estado do Piauí, recém radicada em São Paulo. Era um dia útil (segunda-feira), portanto um dia difícil para angariar público, mesmo sendo um show gratuito ao público. Contudo, cerca de 100 pessoas compareceram, e algum tempo depois, estávamos numa matéria da própria revista, cobrindo a sua festa.

Nossa apresentação foi desprovida de energia, devo registrar.
Apesar da banda ser norteada pela absoluta falta de preocupação com nada, e entre seus membros o bom humor sempre predominar pela veia humorística que tinham, nesse show, todos pareciam estar taciturnos, e sem energia. Não havia um motivo explícito para tal, mas era evidente que os ecos da perda de embalo que duramente havíamos construído através de dois anos e meio de atividades, estavam implicitamente no ar. Enfim, apesar de tudo, tocamos...


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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 54 - Por Luiz Domingues

Nessa época, recebemos um telefonema vindo da gravadora Roadrunner. Esse selo europeu (da Holanda), que tinha o "Sepultura" em seu cast, havia recentemente aberto uma representação no Brasil, e por uma feliz coincidência, a diretora artística da seção brasileira havia indicado-nos ao diretor geral, e este, ao ver-me na foto da banda, reconheceu-me de pronto...

          Jerome Vonk, diretor geral da Roadrunner Brasil, em 1994

Era Jerome Vonk, o empresário com quem trabalhei na minha segunda passagem pelo Língua de Trapo, entre 1983 e 1984. Em princípio, foram marcadas reuniões prévias com a Alê, diretora artística e baixista / vocalista do "Pin Ups", uma banda Indie famosa na cena paulista. 
Alê, baixista / vocalista da banda indie, "Pin Ups", e diretora artística da Roadrunner Brasil, naquele momento de 1994

A ideia inicial era lançar um CD, com gravações no bom estúdio Be Bop, onde havíamos gravado a coletânea da gravadora Eldorado, em 1993. As primeiras conversas giravam em torno dessa ideia. Segundo disse-nos, a gravadora estava disposta a contratar cinco bandas da cena indie daquela atualidade, e com uma verba fixa para cada banda, a ideia seria cada uma cuidar de sua produção, com a obrigação de gravar no Be Bop (naturalmente haveria um desconto por ser um pacote "1x5"), e entregar o tape mixado no prazo estabelecido. Era um esquema bastante confortável, no sentido de cuidarem de toda a produção, nos moldes das gravadoras grandes, com o advento de não haver ingerências desagradáveis no nosso conteúdo artístico, embora com a responsabilidade de sermos muito rápidos no estúdio, e com a advertência de ter de cobrir do bolso, qualquer despesa contraída além da verba destinada pela gravadora. Nos contatos iniciais, tivemos a informação que já haviam contratado outras bandas. Lembro-me do Viper, nessa altura uma banda sedimentada e veterana no cenário do Heavy-Metal, entre elas. O "Garage Fuzz", de Santos / SP era outra e as outras eram : "Zero Vision"; "Lethal Charge"e "Killing Chainsaw". O tempo foi passando, e começamos a notar que o clima mudara. Agora pediam-nos sempre mais tempo, e o contrato nunca era assinado. Cansados, pedimos uma definição, e só aí a Alê disse-nos que o Viper estourara a verba no estúdio, e dessa forma, inviabilizou a nossa contratação. Mas... e aquela conversa de verba fixa, e equânime entre os artistas ? 
Bem, o Viper era mais famoso, e tornou-se prioridade da gravadora, segundo ela. Em conversa reservada com o Jerome com quem eu tinha liberdade, infelizmente a justificativa também foi evasiva, pois alegou cuidar de questões gerais da gravadora, e na parte artística, não envolvia-se, dando carta branca à Alê. Então, tá...
Foi assim o efêmero contato com a gravadora Roadrunner, resumindo-se a uma série de reuniões que revelaram-se infrutíferas, na "Hora H". Como fato curioso, apenas relato que o Jerome disse-me uma coisa inusitada numa dessas ocasiões no pequeno escritório situado na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo : -"vocês são a única banda que entrou neste escritório, cujos membros não tem sequer uma tatuagem ou piercing..." 
Respondi também na base do humor, mas com uma verdade implícita : -"somos Rockers, não somos marinheiros, tampouco presidiários..." Na piada, tem embutido um conceito perdido no Rock, e que representa bem o que foram os anos noventa, enquanto cenário antagônico aos verdadeiros ideais Rockers...


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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 53 - Por Luiz Domingues

 
E finalmente o empresário sinalizou com algo mais animador...
Mas, se por um lado o novo show que agendou-nos, foi sucesso de público, por outro lado, era de novo numa casa onde não fazia sentido uma banda como a nossa, apresentar-se. Foi no dia 15 de outubro de 1994, que apresentamo-nos no "Babillon", perante um público de 800 pessoas, mas certamente alheias ao nosso som ultra barulhento para os padrões popularescos deles. 

Não fomos hostilizados, mas tratados com indiferença, o que foi um alento em se considerando o tamanho da adversidade a que estávamos expondo-nos. E finalmente, na última ação dele como empresário, cumprimos tabela num festival de colégio estadual, fazendo o show da eliminatória. Festival bagunçado e com pouco público, aliás injustificável para um evento escolar de adolescentes. 
Ocorreu no colégio Ibraim Nobre, no dia 5 de novembro de 1994, e com um público fraco de apenas 80 pessoas. E com a sequência de apresentações equivocadas que ele arrumou-nos, só restou-nos solicitarmos o rompimento da associação. Foi educado e tranquilo e seguimos o nosso rumo, tentando recuperar o embalo bom que tivéramos antes dele levar-nos a shows em lugares insólitos, e dignos do filme "This is Spinal Tap"...


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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 52 - Por Luiz Domingues

O próximo passo após o show do Olympia, foi bem menos glamoroso. Ainda aproveitando exposição na mídia de forma contundente, com shows grandes, rádio e TV tocando-nos diariamente, o próximo compromisso foi uma apresentação modesta no Bar "Pill 100 Bar". Lá, dividimos a noite com os donos do estabelecimento, a banda "The Pills", empresariada pelo empresário Jefferson, e uma outra, chamada "Rose Avalanche".
O Rose Avalanche era bem influenciado pelo Guns'n Roses, claro, e o The Pills fazia um pop, mas com elementos do indie Rock britânico. Por ser localizado próximo à represa de Guarapiranga, um local longínquo, no extremo da zona sul de São Paulo, tivemos público fraco de 50 pessoas, formado pelos amigos dos membros do The Pills, e habitues da casa. Isso ocorreu no dia 19 de agosto de 1994.
No dia 30 de setembro, o empresário Jefferson havia marcado uma apresentação nossa num salão em Osasco, cidade da Grande São Paulo. Quando perguntei a um aluno meu que residia naquela cidade, se conhecia aquela casa em específico, ele fez uma expressão facial de espanto, e disse-me achar impossível acontecer shows de Rock naquele lugar !! Segundo ele, tratava-se de um obscuro salão num bairro de periferia, onde só apresentavam-se artistas do underground da música brega. Ele achou inacreditável acontecer um show de Rock naquela espelunca. Mas era verdade... e no dia marcado, ao chegarmos no local, ficamos desolados ao ver suas instalações, mas como o Pitbulls era uma banda onde todos brincavam o tempo todo, tornou-se piada pronta para o resto da noite, certamente. Iríamos dividir a noite com a banda "Pandhora", do meu aluno, Marcos Martines, que também atuava como roadie do Pitbulls, vez ou outra. O equipamento era tão pavoroso, tão precário, que na impossibilidade de fazermos um som minimamente decente, resolvemos cancelar. 
O empresário negociou e os proprietários da pocilga alegaram que todos os artistas que ali apresentavam-se, não reclamavam etc e tal.
Claro, posso imaginar o naipe dos artistas que ali apareciam...
Então tocamos, para um reduzido e atônito público de 30 pessoas, todas habitues, com exceção de meu aluno Edil e sua esposa, Marilu, que gentilmente foram prestigiar-nos, naquele lugar insalubre. Voltaríamos contudo àquele lugar medonho, pois o Jefferson fechou outra data, garantindo-nos que o dono da casa melhoraria o equipamento. Ora, nem se colocasse um super P.A. com a iluminação do Pink Floyd, adiantaria alguma coisa. Mas como estávamos dando votos de confiança a ele, julgamos que o sacrifício valeria a pena, visando dias melhores em termos de shows. Pensando com o distanciamento histórico, não tinha nenhum cabimento continuarmos com um empresário com tais contatos.
Estávamos com uma música explodindo na principal rádio Rock da cidade; dois clips na MTV; shows no Ginásio do Ibirapuera & Olympia, portanto, que sentido fazia ir tocar no "Evidências Dancing" ??
Depois dessa experiência bizarra, o próximo show não tinha nada a ver com o empresário Jefferson. Era um convite do Tatola, para que participássemos do show de lançamento do novo CD do "Não Religião", sua banda.
Ocorreu no Aeroanta, dia 7 de outubro de 1994, com a presença do Pitbulls e do Neanderthal, entre as bandas convidadas, com o encerramento logicamente feito pelo Não Religião. Época ainda de "vacas gordas" para casas que só abrigavam bandas autorais, pois 350 pessoas entraram catraca adentro. Contudo, a seguir tivemos que cumprir então o show extra que o empresário fechou no horrendo "Evidências Dancing". Para tentar "vitaminar o show", convidou o "Não Religião", que lançava novo CD na ocasião e claro, por ter mais "status", que nós, ganhou destaque na filipeta.
Com o perdão do trocadilho infame, era "evidente" que seria uma outra grande noite perdida, naquela espelunca desoladora...
E foi mesmo, "evidentemente", mas aconteceu uma coisa insólita que salvou a noite de tanto que divertiu-nos. Quando chegamos ao local (além de dividirmos a noite com o "Não Religião", teríamos novamente a presença do Phandora), havia na plateia, um homem negro usando um terno todo branco, e com um exemplar da Bíblia debaixo do braço.
Pensamos ser um fundamentalista com o intuito de fazer uma pregação para as pessoas que tencionavam ver o show, ou coisa do gênero. O rapaz entrou e procurou-nos no camarim. Dizendo-se adepto da religião Mórmon, não parava de falar que vivera em Salt Lake City / Utah, e que lá, apesar de ser Mórmon, apaixonou-se pelo Punk-Rock.. estava ali no "Evidências", para ver o Pitbulls, e o "Não Religião", e no nosso caso, motivado pelo fato do Chris ser ex-membro do Cock Sparrer. E pasmem, quando o som mecânico da casa começou a tocar, correu para a pista, e passou a dançar violentamente, chamando a atenção das pessoas que estavam aguardando pelos shows. Era bizarro vê-lo dançando como Punk, com aquele visual de crente, e Bíblia na mão. E como se não bastasse tudo isso, ainda tinha o mais insólito : afirmando ser homossexual, disse estar interessado no nosso baterista ! Trancamo-nos no camarim, depois de saber disso, pois o rapaz insistia em voltar para lá, e aí seria uma confusão ver o crente / punk  /gay por ali importunando-nos mais, e pior ainda para o nosso baterista...
Isso ocorreu no dia 14 de outubro de 1994, e como os membros do Pitbulls eram humoristas por natureza, tornou-se assunto para uma semana aquela figura insólita. E quanto ao show, foi medonho com aquele equipamento. Claro que o dono do infame salão não colocou um equipamento melhor, conforme prometera. Dessa forma, fizemos um show de choque, e "zarpamos" dali, o mais rápido possível...

Continua...