quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 129 - Por Luiz Domingues


Depois que lançamos o disco novo no Centro Cultural São Paulo, em julho de 2008, comemoramos os elogios que o disco foi recebendo por parte da imprensa e nas Redes Sociais da Internet, notadamente o Orkut, que ainda era a Rede mais usada nessa época, embora começasse a dar seus primeiros sinais de desgaste.

Os bons comentários nos animavam, mas isso não refletia exatamente em oportunidades de novos show e novamente entramos numa fase difícil, com escassez de oportunidades e aí o clima interno da banda deteriorava-se, como acontece com toda banda que fica sem perspectivas imediatas.

Uma reaproximação do agente Marco Carvalhanas aconteceu, e desta vez ele sinalizou com uma possibilidade de intercâmbio com uma emissora de rádio AM de uma cidade da Grande São Paulo, chamado Franco da Rocha.

Seria uma permuta ao estilo das habituais permutas que ocorrem em emissoras de grande porte, com o "jabá" velado sendo cobrado em formato de shows ao vivo promovidos pela emissora. Nesse caso, por ser uma emissora pequena de uma cidade muito carente, é óbvio que os shows seriam sem infra estrutura grande e pelo contrário, realizados em pequenos palquinhos de madeira improvisados e sem chance alguma de se realizar ao vivo, sendo regidos pela palhaçada da dublagem.

Nunca o Pedra havia passado por um "mico" assim, e eu contava nos dedos de uma só mão, a quantidade de vezes que passei por situações parecidas com trabalhos anteriores que realizei. A priori, só me lembro das ridículas dublagens feitas no Teatro "Pimpão", que fiz com A Chave do Sol e o Língua de Trapo para o programa de Rádio, Balancê, da Rádio Globo / Excelsior, nos anos 1980, e uma dublagem ao vivo no Palácio das Convenções do Anhembi, para um programa da TV Record, com A Chave do Sol, também na década de oitenta.

Quando passei a situação para os companheiros, claro que eles ficaram divididos entre a indignação e o escárnio pelo caráter brega e ridículo de tal situação.

Eu também sentia o ranço brega forte nessa situação e duvidava da eficácia para o nosso anseio artístico de uma empreitada desse tipo. Uma coisa era fazer show nos salões suburbanos da baixada Fluminense para reverter em aparições no programa do Chacrinha, mas outra bem diferente seria encarar shows em bairros carentes de uma cidade da Grande São Paulo, para ter execução de uma música nossa na programação de uma rádio popularesca de baixa audiência e com espectro de ouvintes muito distante do nosso nicho alvo. 

Trocando em miúdos, a expressão certa era : para que ? 

Exatamente a mesma coisa era unânime entre os quatro, e até o Carvalhanas que fez a proposta também tinha essa consciência, é claro.

No entanto, a questão era : podíamos nos dar ao luxo de recusar sumariamente uma proposta de divulgação, mesmo não sendo algo fundamental para nós ? Naqueles picos de escassez de oportunidades que o Pedra enfrentava costumeira e infelizmente, quando um fato novo acontecia, diante desse panorama, era quase uma obrigação agarrar a oportunidade, mesmo que acarretasse posterior arrependimento.

Éramos como andarilhos no deserto e quando aparecia um pequeno oásis à nossa frente, não dava para questionar se a água disponibilizada era de qualidade ou não...

Nesses termos, mesmo a contragosto porque não era a melhor das oportunidades, aceitamos fazer e teoricamente a música "Nossos Dias" do nosso disco Pedra II, entrou na programação da tal emissora e seria trabalhada até popularizar-se e aí, no primeiro "show" promovido pela emissora na cidade, compareceríamos e faríamos uma dublagem da canção ao ar livre.

Alguns dias depois, uma entrevista ao vivo com um locutor de tal emissora foi agendada. Eu falaria num domingo a tarde com o rapaz por telefone e realmente isso aconteceu. Não me lembro de seu nome (aliás, nem da emissora...), mas me recordo no entanto que o rapaz era bem comunicativo e simpático, e apesar de fazer perguntas óbvias, denotando não ter a mínima noção do tipo de artistas que éramos e usando dos clichês habituais que são usados no mundo brega para entrevistar artistas populares, a intervenção foi boa.

De fato, "Nossos Dias" começou a tocar e por ser possivelmente a canção mais pop do disco, podia ser executada mesmo em emissoras populares e acho que com chances de se tornar um sucesso nessa camada da população.

Mas apesar do Carvalhanas falar com o rapaz da rádio constantemente, e eu mesmo ter falado algumas vezes, os tais shows de permuta nunca ocorreram. Se por um lado era um alívio não participar de eventos tão fora do nosso espectro artístico, por outro, nunca ficamos sabendo qual seria a real receptividade de uma música como "Nossos  Dias" numa camada popular. Poderia ter sido um balão de ensaio e tanto para aferirmos algo que era incompreensível para nós.

Outro evento ocorrido em 2008 e também envolvendo rádios, veio da parte do nosso amigo Osmar "Osmi" Santos Jr. e coincidentemente, um dos autores da canção que mencionei acima. Muito experiente no meio radiofônico, Osmi tentou nos ajudar mais uma vez, intermediando um contato na rádio Eldorado FM, aí sim, uma emissora de muito respeito no mundo radiofônico paulista e brasileiro.

Levamos nosso material lá, selecionando músicas como "Nossos Dias"; "Meu Mundo é Seu", e "Projeções", mas na ótica de seus mandatários, tais canções eram "pesadas" para os padrões deles e pior ainda, consideradas "juvenis". Mandaram nos dizer que o espectro da emissora era o de padrão "adulto". Era rir para não chorar, na idade que nós tínhamos, ouvir uma asneira tão despropositada dessas.

Mas o "Osmi", profundo conhecedor dos bastidores do mundo do Rádio, nos explicou que não era para nos ofendermos, pois isso era normal na visão deles, radialistas. Consideravam qualquer coisa que soasse, minimamente "pesada" como "Rock", e mediante tal rótulo, estigmatizam o artista em questão como dirigido à adolescentes e crianças. Ou seja, era uma classificação tão imbecilizante e obtusa, que lembrava a estupidez dos quadros que serviam à censura na época da ditadura militar, verdadeiras bestas analfabetas, literais e funcionais.

Tentando ajudar ainda e não nos deixar esmorecer em relação a tentarmos uma adequação para podermos tocar em rádios de porte, e ainda não contaminadas inteiramente com a vergonha do "jabá", "Osmi" nos contou que um expediente usado por artistas de gravadoras majors, era o de suprimir guitarras em versões especialmente concebidas para tocar nas rádios, e assim driblar o paradigma imbecil de que no rádio não pode tocar música mais pesada.

Segundo nos contou, muitos artistas faziam isso e assim asseguravam execução maciça nas emissoras, fazendo sua popularidade aumentar. 

Na sua opinião, era uma imbecilidade tremenda e ele mesmo, sendo um Rocker de carteirinha, odiava essa "Lei" velada que existia dentro das emissoras, com exceção das rádios Rock, logicamente. 

Sua explicação para o caso era claríssima, e nos chocou pela simplicidade dos fatos : algum idiota que militava numa emissora de rádio, décadas atrás, devia odiar Rock e passou a boicotar bandas que apresentavam peso acima do que seu gosto pessoal permitia. 

Nessa predisposição, rejeitava músicas nesse parâmetro e isso espalhou-se em outras emissoras. Em suma, era um paradigma idiota e que ninguém sabia exatamente de onde veio e qual a razão da rejeição, mas tradição criada, todo mundo foi perpetuando essa estupidez e isso está aí até os dias atuais.

Com a sugestão lançada, e em se considerando que o Xando tinha o estúdio à disposição, seria uma questão de poucas horas para pegar o track bruto da música "Sou mais Feliz"; suprimir a guitarra e acrescentar um violão riscado sem muitos desenhos rítmicos; abaixar teclados e baixo um pouco mais, e mixar uma nova versão "light" da canção.

Apesar de estarmos lançando um disco novo e termos três músicas com potencial pop excepcional, que já citei acima, o "Osmi" insistiu numa estratégia de trabalharmos "Sou Mais Feliz", porque ela tocava na sua emissora, a Brasil 2000 FM, até aqueles dias de 2008, e portanto, seria mais fácil obter um efeito cascata se entrasse também na programação da Eldorado. Segundo ele, quando uma cascata se formava no mundo das rádios, tal precipitação tendia a obrigar outras emissoras a viralizar a música, mesmo não havendo a maldita cobrança do jabá, portanto, era uma chance.

Perdeu-se tempo nessa operação, mas claro que valia a pena a tentativa e assim que uma nova versão de "Sou Mais Feliz" ficou pronta, o "Osmi" a pôs para tocar na Brasil 200 FM, já na estratégia de caso a Eldorado aderisse, a cascata radiofônica estivesse pronta para iniciar-se. 

Mas...a versão ultra light de "Sou mais Feliz" foi rejeitada e o programador mais uma vez insistiu na tese de que o Pedra não fazia uma música "adulta", e que buscasse execução em rádios "jovens".

Numa boa, sem rancor algum com a Rádio Eldorado FM e seu staff, mas se "Sou mais Feliz", na sua versão normal do disco, já era adequada para tocar, na minha opinião de músico, imagine então essa versão que seria aprovada até pelos fiscais do "Psiu"(para quem não é paulistano, explico que o "Psiu" é um órgão da prefeitura de São Paulo que fiscaliza casas noturnas que excedem o barulho durante a noite e madrugada), e seus indefectíveis medidores de decibéis...

Então é isso, quem sabe um dia o Xando lança essa curiosa versão light de "Sou mais Feliz" como peça curiosa da discografia da banda, e seria bem legal nesse aspecto.

Outro fato novo que aconteceu nesses meses finais de 2008, se deu também no campo do jornalismo. Um jornalista top, crítico musical de uma revista de circulação nacional e ouso dizer, a maior do país, nos abordou via E-mail. Disse que havia achado o nosso trabalho interessante, pesquisando na Internet e gostaria de ter nossos discos para uma análise mais aprofundada.

Particularmente, achei inacreditável que um jornalista do mundo mainstream nos abordasse espontaneamente e dessa forma simpática, solícita. Desde os anos oitenta, me acostumara a ser hostilizado nesse mundo da superfície do mainstream, e o que sempre esperava desse tipo de jornalista da camada superior, era desdém e rabo preso com a maldita mentalidade niilista, perpetrada pelos seguidores de Malcolm Mclaren.

Mas esse rapaz, se mostrava alheio à essa cartilha fascista e nefasta, portanto estava sendo sincero, o que era extraordinário, não só para o trabalho do Pedra, mas enxergando muito além, eu diria que era um fato inédito na minha carreira toda.

Ao longo da minha carreira, e o leitor atento há de se recordar dos capítulos anteriores de bandas pregressas que tive, eu citei muitos nomes de jornalistas que considero verdadeiras feras desse ofício, com canetas fortes e caráter ilibado, porém em sua maioria militando em órgãos pequenos e médios do jornalismo cultural. 

Sendo assim, creio que tirante minha estada no Língua de Trapo, que era uma banda bem relacionada em esferas maiores do jornalismo, um crítico musical top, militando num órgão de primeira grandeza e que abordasse com simpatia sincera um trabalho meu, era algo inédito na minha carreira e naquela altura já ostentando mais de 32 anos de existência.

Respondemos o E-mail e entregamos os discos no endereço residencial desse jornalista e dias depois, ele respondeu que havia curtido muito o som, mas não muito as letras. O Xando que tinha verdadeira obsessão por quesito em si, ficou chateado e estupefato, pois na sua ótica, as letras eram um dos grandes trunfos da nossa banda. Eu também achava / acho isso.

Dias depois, em outra conversa, por E-Mail, estreitou relações e quis nos conhecer pessoalmente e depois de quebrado esse gelo inicial onde o tratávamos com um cuidado especial devido à sua posição num órgão de imprensa gigante no mercado, fomos ficando amigos e maravilha, o cara era / é gente boa pacas...

Ex-aluno de jornalismo da...claro...Cásper Líbero, a faculdade de jornalismo que andou paralela à minha carreira musical desde os primórdios do Língua de Trapo, e lá estava eu de novo estreitando amizade com outro jornalista "casperiano"...

Inconformado pelo fato de uma banda como a nossa ser ignorada no mundo mainstream, falou coisas que foram dardos no meu coração, mas positivamente, eu diria...suas afirmações sobre falta de oportunidades e reconhecimento para trabalhos como o Pedra também poderiam ser atribuídas a trabalhos anteriores que fiz, notadamente com A Chave do Sol e a Patrulha do Espaço, portanto, ouvir isso da boca de um jornalista mainstream era um bálsamos para a minha alma.

Sua afeição pela banda foi total, mas daí a abrir seu computador e escrever resenhas para os nossos discos havia uma dificuldade.

Claro que tinha que respeitar a hierarquia de sua redação e não dependia só de sua vontade pessoal, contudo, era óbvio que enxergava qualidade em nós, e se dependesse dele, na primeira oportunidade nos daria uma mão.

E só para constar : depois que ficamos amigos e tivemos liberdade, o Xando lhe perguntou sobre ele não ter curtido as letras na primeira avaliação que fizera, e ele retrucou que confundira com outra banda, e isso era normal em se considerando que ouvia materiais o dia inteiro e escrevia diversas resenhas.

Sobre o ano de 2008, ele começou marcado pelo acúmulo de frustradas tentativas de recuperamos o embalo de 2006, perdido ao longo de um 2007 muito difícil para a banda.

A estratégia proposta pelo Rodrigo em buscarmos espaço no mundo dos festivais independentes foi muito válida, e só no decorrer do tempo nós fomos perceber que esse mundo era corroído por uma máfia tão articulada ou mais ainda, daquela que domina a difusão cultural mainstream. Mas tudo bem, encaramos o "vivendo e aprendendo" e fizemos dois shows em tais festivais, abrindo porta para um terceiro, graças a esse esforço dele, Rodrigo.

Tivemos um momento de intensa motivação quando fomos surpreendidos pela viralização do vídeo clip da música "Longe do Chão", e parecia que retomaríamos o embalo de 2006, e o superaríamos até, mas tudo virou pó da noite para o dia e por conta de uma mal entendido tremendo...

Nosso maior orgulho em 2008 foi o lançamento do álbum Pedra II, o segundo trabalho oficial da banda, pleno de atrativos musicais e visuais.
Vídeo promocional do CD Pedra II, produzido em 2008

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=r3782u2SXzk
 
Emendamos uma sequência de shows interessantes, inclusive fora de São Paulo. Outra grande surpresa foi ganhar o apoio sincero de um jornalista mainstream, do porte de Sérgio Martins.

Bem, e após o show de lançamento, caímos de novo num momento de ostracismo...

2008 terminou com o Xando muito incomodado com esses altos e baixos na trajetória da banda, e tendo uma ideia para ver se o panorama de 2009 mudava.

E tal ideia só ganhou corpo mesmo, quando um fato novo apareceu e nos animou mais uma vez.

Sérgio Martins, esse grande jornalista musical do mundo mainstream, nos ligou, e disse estar com uma pauta já em andamento para sua revista mega famosa de circulação nacional, a Revista "Veja". Ele queria acompanhar os bastidores de turnês de alguns artistas. Viajaria com artistas do mainstream em meio às suas turnês milionárias e recheadas de mordomias e conforto; viajaria com um artista médio, em condições boas, mas bem abaixo do luxo das mega estrelas, e por fim, encararia a dura realidade de um artista do underground, viajando e tocando com parcos recursos.

Estávamos convidados portanto a ter um jornalista top, acompanhado de um repórter fotográfico dessa grande revista, viajando conosco e cobrindo 24 h por dia as nossas dificuldades, e virtudes; nossos esforços para vencer adversidades; mas também a determinação de levarmos a nossa música onde fosse, angariando público e simpatia das pessoas.

Só tinha um detalhe, o Pedra era uma banda sem agenda, com uma dificuldade gerencial terrível nesse sentido, e não havia perspectiva alguma de show, nem para São Paulo. 

Mas esse jornalista fora taxativo : seu editor queria que ele viajasse para cobrir turnês e para figurarmos nessa reportagem, no mínimo deveríamos apresentar duas datas em cidades interioranas para chamar isso de turnê, e justificar nossa participação na reportagem...

Dava para dispensar sair numa mega reportagem recheada de fotos na Revista "Veja" ?

Portanto, o Xando tirou da cartola uma ideia e materializou dois shows no interior de São Paulo para janeiro de 2009, garantindo assim ao jornalista Sérgio Martins, que estávamos prontos, e ele poderia fechar conosco para essa etapa de sua reportagem de campo.

Dessa forma, 2009 tinha tudo para nos garantir uma guinada, e assim nos animamos mais uma vez para encarar tal desafio.

Continua...

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 128 - Por Luiz Domingues


Era chegada a hora do grande lançamento em São Paulo, do nosso novo álbum, Pedra II.

Com uma capa espetacular; um nome pomposo; e um conjunto de ótimas canções, tínhamos em mãos uma grande obra, que talvez tenha superado o primeiro disco, sem nenhum demérito ao anterior que também acho ótimo.

Contudo, era claro o nosso amadurecimento como banda, fazendo um disco cheio de coloridos memoráveis, tanto na qualidade das composições, quanto na excelência dos arranjos. Tinha a questão do apuro nas letras um ponto de honra para a banda e com a mão de ferro do Xando nesse quesito, que chegava a exagerar em sua exigência nesse aspecto.
Bem ensaiados e com surpreendente sequência de shows, atípico para a história da banda, lamentavelmente, chegamos ao Centro Cultural São Paulo para preparar o nosso palco bem cedo, logo no início da tarde.
 
Montamos tudo com rapidez e tivemos o apoio sempre bem vindo do iluminador Wagner Molina, que era garantia de tornar nosso espetáculo algo muito mais valorizado, graças à sua capacidade e criatividade para conceber um mapa de iluminação espetacular.

Sem banda de abertura, tampouco outras intervenções como havíamos feito com uma trupe de teatro e a performance ao vivo do artista plástico, Diogo Oliveira, em duas ocasiões anteriores, a ideia ali era fazer um show de Rock tradicional e mais longo, tocando o máximo de músicas do novo álbum, mescladas com algumas do primeiro disco, logicamente.

Estávamos num momento muito bom, tecnicamente falando, e apesar de alguns revés ocorridos recentemente, nosso astral estava bom, animados pela sequência de shows e lançamento do disco, refletindo-se no palco, com uma energia boa que transpassava ao público.

Portanto, a lembrança que eu tenho desse show no Centro Cultural São Paulo, em 2008, é da banda estar soando muito bem.
"Longe do Chão no CCSP - 18 de julho de 2008

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=_JhlxQOhQOY

De fato, foi um ótimo show e acredito que fizemos um belo espetáculo de lançamento, à altura do grande disco que estávamos apresentando aos fãs, críticos e sem soar piegas e presunçoso, mas sendo realista, para o mundo.
"O Dito Popular", com direito à menção de "Papa Was A Rolling Stone" - Centro Cultural São Paulo - 18 de julho de 2008

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=I07o8Rxj0J8

O único ponto negativo nessa equação, foi o público tímido que compareceu ao Centro Cultural São Paulo, mas havia uma desculpa na ponta da língua : o fato de cair numa sexta-feira, e naquele horário padrão das 19 Horas desse teatro, ou seja, uma hora de trânsito engarrafado em São Paulo, apesar de julho ser mais ameno por conta das férias escolares.

Então, talvez isso fosse um consolo, mas claro que apesar disso, nossa banda lançando um disco dessa qualidade merecia a casa lotada, e quiçá, numa temporada de cinco dias seguidos com casa cheia todas as noites.
"Projeções" no Centro Cultural São Paulo - 18 de julho de 2008

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=U6Z-o3IOL-Y

Então, foi assim, um show ótimo, de uma banda afiada e motivada, lançando um disco excelente, mas só com 80 pessoas na plateia...

Dia 18 de julho de 2008, no Centro Cultural São Paulo.

Continua...

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 127 - Por Luiz Domingues


Já com o segundo álbum em mãos, nosso próximo compromisso ocorreu novamente no interior de São Paulo, e numa ação pouco usual na vida do Pedra, infelizmente, no dia seguinte faríamos o show de lançamento em São Paulo, capital.

Digo que era uma grande pena mesmo que uma banda com um trabalho pautado pela excelência artística que possuía, tivesse tão poucas oportunidades de estabelecer uma agenda sustentável e dessa forma, ter dois shows seguidos em cidades diferentes era uma exceção e jamais a regra, como merecíamos e queríamos, certamente.

Bem, conjecturas em forma de lamentos à parte, lá fomos nós para Piracicaba em 17 de julho de 2008, para nos apresentarmos na unidade do Sesc daquela cidade super pujante e bem aprumada.

Preciso retroagir um pouco, no entanto, pois existe uma pequena história pregressa para explicar o porque de conseguirmos um show no Sesc de Piracicaba, se ainda não havíamos tocado em nenhuma unidade dessa rede sociocultural na nossa própria cidade, São Paulo.

Ocorre que meu primo, Emmanuel Barreto, havia morado uns tempos nessa cidade de 2007, até o o início de 2008, onde estava empregado num estúdio de gravação e ensaios, ali recentemente estabelecido.

Tal estúdio era de propriedade de uma amigo dele, que eu conhecia também e que fora dono de um estúdio em São Paulo, no final dos anos noventa, onde minha banda, Sidharta, chegou a ensaiar, e posteriormente, a Patrulha do Espaço, também fez seus primeiros ensaios, por volta de abril de 1999. O estúdio se chamava "Alquimia" e ficava localizado no bairro da Aclimação, na zona sul de São Paulo, e o nome do rapaz era Claudio, apelidado "Formiga", e que aliás era um bom guitarrista.

Sua esposa era de Piracicaba e ele resolveu mudar-se para essa ótima cidade interiorana, e lá montou um novo estúdio e convidou meu primo para lá trabalhar.

Enfim, fazendo contatos com a cena musical da cidade, conheceu muita gente e logo foi apresentado à uma produtora do Sesc Piracicaba, e então começou a batalhar por uma data para o Pedra.

Esse trâmite não foi nada fácil, pois não éramos famosos no mainstream e de nada adiantava argumentar que "éramos bons"; "éramos uma banda de Rock com elementos de MPB e Black Music, e não Heavy Metal" (como geralmente os leigos enxergam o Rock, generalizando-o como um barulho perpetrado por e para gente da faixa infanto-juvenil), etc etc.

Jogo duro na negociação, finalmente a mulher nos agendou, mas não colocando a menor esperança de que arregimentássemos um público mínimo, não agendou-nos no teatro como queríamos, mas num palco lounge, da lanchonete da instalação.

Não é nenhum demérito tocar num ambiente assim nas unidades do Sesc em geral, pois a infra estrutura de palco e equipamento é de primeira qualidade, haja vista os shows que ocorrem normalmente na Chopperia do Sesc Pompeia ou na "Comedoria" do Sesc Belenzinho, ambas com estrutura melhor que muito teatro por aí.

Mas sem dúvida que nossa aspiração seria o Teatro, com a perspectiva das pessoas sentarem-se ali para nos ver / ouvir, e não para comer e beber ao nosso som de fundo...

Paciência, claro que aceitamos o agendamento e assim processou-se.

Fomos para Piracicaba no dia do show e com bastante tranquilidade. Viagem rápida (188 Km de São Paulo, apenas), estrada excelente e astral legal porque tínhamos dois shows para fazer nessa semana, portanto, a motivação era total.

A unidade do Sesc é muito bonita, localizada num belo bairro residencial daquela cidade e próxima ao seu charmoso e famoso rio, o rio Piracicaba, cantado em prosa e verso, e cenário de vários esportes ligados à canoagem, pela sua forte correnteza.

Passamos por uma banca de jornais no caminho e ficamos contentes por constatar que havíamos saído em vários jornais impressos locais, com boas matérias.

A tal produtora mostrou-se surpresa com isso, e nessa altura já devia estar caindo na real que não éramos uma banda de Pop Rock iniciante, mas tínhamos substância, história e resultados já registrados para contar, e claro que nosso show deveria ter transcorrido nas dependências do bom teatro da unidade, mas, paciência...

Montamos o backline e ficamos contentes por verificar que o técnico de som era extremamente simpático e competente. Rápido e eficiente, nos deixou com um ótimo som de monitor no palco e um confortável som no P.A.. em se considerando que era uma situação diferente a de tocar num lounge de lanchonete ao invés de um teatro.

Nos contou várias histórias de artistas que havia sonorizado no teatro e recentemente havia trabalhado com aquela banda incensada que fora headliner no Festival Araraquara Rock onde nos apresentáramos uma semana antes. Desses sujeitos que achei arrogantes em cinco minutos de convivência nos bastidores de Araraquara, ele contou-nos coisas cabeludas. Extremamente afetados pela soberba, aprontaram ali e ainda saíram xingando a cidade de Piracicaba...ora ora...por que não vão catar caranguejos no mangue lá da sua terra ?

Soundcheck feito com muita tranquilidade, fomos descansar e esperar a hora de tocar.

Havia um horário, é claro, mas pelas circunstâncias, não necessariamente as pessoas apareceriam ali para nos ver. Sendo uma lanchonete, o entra e sai era frenético e tínhamos a total consciência de que poderíamos enfrentar todo tipo de situação adversa ali.

Mas o rapaz, que se chamava Danilo, nos disse para ficarmos tranquilos, pois hostilidade ali era impossível. O máximo que poderia acontecer era uma debandada, se o som não agradasse e outro ponto, palmas e manifestações positivas como gritos e assovios eram raros. A cada término de música, a tendência era o silêncio.

Ok, estávamos avisados...

Quando chegou a hora de tocarmos, o lounge tinha aproximadamente 100 pessoas presentes. Começamos a tocar e a cada fim de canção, poucas palmas e a maioria em silêncio. Muitos nem olhavam para nós, ignorando-nos retumbantemente.
"Saiu de Férias" no Sesc Piracicaba, em 17 de julho de 2008

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=3rjmyu-dM_o

Um rapaz que sentou-se bem na frente na primeira mesa, tomava um café e lia um jornal. Era um jornal local e deu para ver nitidamente quando ele estava na página do caderno cultural onde havia uma longa reportagem sobre nós, com direito à uma grande foto da banda.

Nem assim ele levantou a cabeça por um minuto sequer, por curiosidade tola que fosse, para checar se os caras da foto éramos nós em cima do palco, tocando...hilário !! Finalmente após acabar de ler o jornal inteiro, levantou-se e partiu sem olhar para nós...ha ha ha !!

Fomos tocando, sem nos importarmos com essas reações estranhas e quando o show acabou, o técnico nos disse que fora um sucesso, pois apesar do quase silêncio nas mesas, haviam gostado, pois em contrário, teria ocorrido uma debandada em massa logo na primeira música e que isso era costumeiro ali...

Numa mesa, havia um casal e uma moça, que foram uns dos poucos que aplaudiam e sorriam para nós, vendo o show com atenção. Nos abordaram e compraram os dois discos da banda. Haviam gostado e acho que se tornaram fãs doravante...

Na van, voltando para a casa, o motorista do veículo, que era uma indicação do Rodrigo, havia se mostrado sério, um senhor reservado, na viagem de ida. Mas na volta, mais ambientado conosco, começou a contar "causos" envolvendo clientes malucos que atendera em ocasiões passadas. Uma das histórias que nos contou é impublicável aqui, e nem vem ao caso especificar, mas digo que foi uma das mais hilárias que já ouvi e gerou uma epidemia de gargalhadas que nos deixou com os respectivos abdomens doendo, de tanto que rimos. Aos membros da banda que lerem este trecho e a equipe técnica que nos acompanhou nessa viagem (principalmente o Samuel Wagner, roadie, que quase teve um "treco" de tanto que riu), deixo só uma dica interna para se lembrarem : foi a história da "cumbuca"...

No dia seguinte, o compromisso era nobre : lançamento do álbum Pedra II, no Centro Cultural São Paulo.

Em Piracicaba tocamos no dia 17 de julho de 2008, na unidade do Sesc Piracicaba, com 100 pessoas na estranha plateia, e pelo visto, só com três prestando atenção...

Continua...