quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 223 - Por Luiz Domingues


Abordo neste instante alguns fatos sem uma cronologia precisa, porque são lembranças díspares entre si, embora oriundas de uma mesma fonte : o fato do novo álbum ter sido lançado em 45 rotações por minuto (rpm).

Esses três casos que contarei, aconteceram no segundo semestre de 1985, após o lançamento do disco, naturalmente, pois as confusões são inerentes à questão gerada pela rotação alternativa do vinil.

Nos primórdios da indústria fonográfica, a rotação dos primeiros discos de vinil, era a clássica 78 rpm. 


Só nos anos cinquenta, surgiu uma nova tecnologia que trouxe o LP (Long Player), um disco com maior capacidade de armazenamento de músicas, e a rotação adequada para executá-lo, passou a ser de 33 & 1/3.

Mas haviam também discos lançados em 45 rpm, geralmente compactos simples e duplos.

Não saberia determinar exatamente quando surgiram os discos  adequados para 45 rpm, mas no meio dos anos 80, virou uma espécie de moda, principalmente na Inglaterra, bandas tanto do nicho do Heavy-Metal, quanto da turma do Pós-Punk, lançar entre um LP e outro, um EP, ou seja, um trabalho em 45 rpm, como uma opção intermediária entre o compacto simples, que geralmente trazia o grande hit do LP, e uma música obscura no lado B (geralmente não inclusa no LP, para forçar o fã a comprar o compacto, também), e o LP normal a seguir. 

Essa matéria acima, saiu em junho de 1985, na Revista Bizz, enfocando a Baratos Afins não como loja, mas como micro gravadora que apesar de estar lançando tantos artistas, tinha suas dificuldades financeiras, também. Na foto tirada na famosa Galeria do Rock, onde a Baratos Afins foi a pioneira loja de discos ali a se instalar, da esquerda para a direita, Serginho Santana (Patrulha do Espaço); Robson (Performances); Hélcio Aguirra (Golpe de Estado); Luiz Calanca e eu, Luiz Domingues, com a mão no queixo e assinalado por uma marca de caneta esferográfica.

Então, antenado sempre nas novidades europeias, o Calanca quis lançar alguns discos das bandas de seus cast, nesse formato. 

Seus argumentos principais eram : 

1) A tendência "moderna", e;

2) O fato do sulco ser mais largo, aumentando a qualidade do áudio da bolacha.

Mas claro que havia um terceiro elemento além, que era o fato do álbum ficar mais barato, pois se continha menos músicas, portanto minimizava o custo do artista em estúdio.


Postas essas explanações, vamos aos casos propriamente ditos :

1) Certa vez, eu estava na loja Baratos Afins, visando falar com o
Calanca, quando finalmente ele veio atender-me. Para quem conhece o Luiz Calanca, e a movimentação na loja, sabe bem que é mais fácil marcar uma audiência com o Papa, ou o presidente dos Estados Unidos, do que falar com calma com ele, Calanca.

Não que ele seja difícil por questão de temperamento, muito pelo contrário, pois é um cara simples, solícito, brincalhão e sempre de bom humor. 


O problema, é que não param de abordá-lo, o tempo todo. 

É assim desde que o conheci, em 1983, até os dias atuais.

Então, num raro momento em que me chamou para conversarmos, um funcionário nos interrompeu poucos segundos depois, dizendo ser um interurbano de um cliente de Cachoeiro do Itapemirim / ES, que estava querendo fazer uma troca.

Inevitavelmente, ouvi-o falando ao telefone.
 

Dizia que o disco estava perfeito e não estava entendendo a reclamação do rapaz. Falava coisas como : 

-"Como assim, parece que o vocalista está bêbado" ?  
-"Disco estragado" ?

Foi quando o Calanca lhe disse :

-"Amigo, em qual rotação o disco está sendo tocado na sua pick-up" ?
 

Aquela frase gelou-me a espinha, pois temia pela resposta que o cliente daria...

Quando desligou enfim o telefone, disse-me que enquanto
falava com o cliente, ouvia ao fundo, "Anjo Rebelde", sendo tocada em 33 &1/3 e dessa forma, é claro que a banda soava como um pastiche em fase de derretimento... 


Aconselhado a mudar a rotação no pick-up, o cara verificou enfim, que em 45 rpm, a música era executada em sua normalidade...

2) Mais ou menos nessa mesma época, eu estava em minha casa num domingo a tarde, lendo o jornal e descansando, quando resolvi ligar o rádio. 


Sabia que o nosso disco estava com a execução de "Anjo Rebelde" e "Um Minuto Além", na programação da 89 FM, e dessa forma, arrisquei ouvir um pouco da programação para ver se dava sorte de escutar uma das duas.

Deviam ser 15 :00 h mais ou menos e após uma overdose de bandas techno-Pop oitentistas, ouvi a introdução de "Anjo Rebelde", mas claramente na rotação errada de 33 & 1/3.

A música arrastava-se e o riff soava medonho, como se o baixo e a guitarra estivessem com as cordas frouxas, muito longe da altura correta de sua afinação. 


Quando a voz do Fran entrou, piorou muito, pois parecia um fantasma ébrio, cantando uma ária de ópera no tobogã de uma piscina...

Aquilo me deu desespero, pois era vergonhoso para a banda, ter uma execução radiofônica nessas circunstâncias !!

Então, subitamente, a música foi tirada do ar, mas de uma maneira brusca, denotando que algum técnico entrou correndo na sala técnica do estúdio e tirou a agulha do disco às pressas, com truculência eu diria, pois deu para ouvir um tremendo arranhão !!

Ha ha ha !! 


O funcionário colocou o disco no pick up, e deve ter ido ao banheiro, cafezinho, sei lá, e deixou tocar a música daquela maneira, até a sua metade praticamente !!

A rádio ficou alguns segundos em silêncio profundo, mas a música não tocou novamente, na rotação correta, como eu torci para que acontecesse. O sujeito deve ter ficado com raiva, e quebrado o disco...

A terceira história é a mais hilária, ainda que vergonhosa para a banda, embora não tivéssemos nenhuma culpa por isso. 


Conto a seguir...



Continua...

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 222 - Por Luiz Domingues

Não quero parecer chato, mas veja o texto desse serviço publicado na revista "Isto é", uma das maiores do Brasil. Como assim, damos uma chance ao Jazz Rock, e ao Blues ? A ideia do release distribuído à imprensa era clara : todas as vertentes citadas tinham a ver com o trabalho.

Os shows de lançamento do EP foram feitos com o foco máximo que podíamos manter. 

Digo isso, porque o clima estava estranho internamente, apesar de estarmos num ritmo frenético, com tantos compromissos de mídia e shows, porque sabíamos que o Fran estava chateado com os sinais de rejeição que eram claros, lamentavelmente, por parte dos fãs, principalmente, mas também por pessoas ligadas mais diretamente à nós, que comentavam seu desagrado em relação à presença dele na banda.

Mesmo chateados com essa movimentação, e vendo o Fran entristecido, não queríamos que ele saísse, numa primeira instância.


Para nós, tínhamos dúvidas em relação ao posicionamento que adotáramos sobre o peso extra adquirido no trabalho da banda, praticamente aposentando o repertório antigo e tradicional, mas mesmo que mudássemos tudo (que loucura, com um disco novo recém lançado), não cogitávamos ficar sem o Fran.

Gostávamos dele como cantor; frontman; artista; e ser humano, sem dúvida alguma. 

Enfim, essa era a nossa posição, mas ele tinha seus sentimentos, e era natural que buscasse seus interesses pessoais. 


Digo isso baseando-me no fato consumado, pois na prática, no calor da ocasião, é claro que eu não dimensionava isso. 

Nem ninguém... 

Bem, a despeito dessa energia mais baixa que notamos, o empenho nos ensaios foi total e a pré-produção, idem. Fizemos tudo o que era possível na época, para divulgar os shows corretamente.

Tínhamos um belo cenário pronto, criado e produzido pela Elisabeth Dinola, e claro, com a providencial mão de obra de seu irmão, José Luis Dinola.

As intervenções performáticas eram mais simples desta feita, mas estavam ensaiadas a contento, também. 


O técnico do Lira Paulistana era nosso amigo e daí em diante, tornou-se até nosso técnico em shows fora do Lira. 

Enfim, tudo era favorável para que efetuássemos ótimos shows...e assim concretizou-se !

Não tenho lembranças específicas sobre cada um deles, que justificasse alguma menção, especial, portanto, falarei genericamente sobre os três dias.

Bem, o show começava com uma locução em off, com o poeta Julio Revoredo declamando um poema de sua autoria. 


Ele fazia essa locução, pela coxia do teatro e causava um impacto inquietante, visto que obviamente declamava um de seus poemas mais herméticos, de difícil compreensão para o público em geral. 

Claro que isso causava um efeito, e me lembro de que o jornalista Antonio Carlos Monteiro, representando as revistas Roll e Metal, ter comentado que achara aquilo muito incomum para um show de Rock "moderno", pois era o tipo de intervenção performática que não era mais comum, desde os anos setenta.

Bem, nesse aspecto, particularmente eu tomava uma declaração dessas como um verdadeiro elogio, é óbvio. 


Tocamos todas as músicas do EP, evidentemente, além de "Luz" e "18 Horas" , do compacto. Mas também tínhamos "Átila", no repertório, que tinha bastante peso, e intervenções dos três instrumentistas em momentos solo, eram observadas no palco.

E geralmente tais intervenções eram longas, justificando a saída dos demais do palco, para voltarem em momentos combinados previamente como "deixas".

Para dar uma diferenciada numa dessas ausências do Fran, nos números instrumentais, criamos uma intervenção com "atores".


O sketch era mais uma intervenção de "Teatro do Absurdo", com três atores entrando no palco, ao final da música que antecedia uma dessas saídas do Fran, "sequestrando-o", mediante o uso de força bruta, e sob a mira de uma arma de fogo.

Tratava-se de uma velha espingarda que o Rubens tinha em casa, que era mais uma peça decorativa do gabinete de seu pai. Claro que não funcionava, mas era real e antiga.

No número, os atores entravam mascarados e tiravam o Fran com uma certa truculência. 


Havíamos combinado que mesmo não sendo uma ação feita por atores profissionais, que fosse contundente e rápida, para suscitar a dúvida no público. 

O efeito de tal ação se realçaria com o fato de que mesmo diante de uma situação inusitada, a banda continuaria a tocar, ignorando o ato. 

Nessa fração de segundos, queríamos deixar o público atônito. 

Claro que esse sentimento duraria poucos segundos, pois não haveria de demorar muito além do bom senso de cada um...

Mas, nos três dias, o efeito foi alcançado, e particularmente, eu adorava ver a reação das pessoas nesse momento do show.

Na parte final, outra intervenção semelhante ocorria, com o poeta Julio Revoredo totalmente disfarçado, usando um manto negro, entrava no palco e caminhava de forma lenta e um pouco sombria. 

Uma receita de bolo absurda, lida em off, e que desnorteava o público. Acervo de Julio Revoredo.

Outra locução, desta feita gravada em fita K7 (com minha voz), era disparada e deixava o público novamente atônito.

Bem mais simples, como já havia salientado, mas tais sketches foram muito funcionais.

Devo registrar que o cenário ficou lindo, mas recebeu críticas, e até motivou pilhérias, infelizmente...

O fato, é que quando vimos a concepção da obra, dos primeiros rafs da Beth Dinola, até o seu lay-out final, não levamos em consideração a malícia, típica do povo brasileiro.

O homem olhando o horizonte, sob o sol, era retratado de costas, é bem verdade, mas inteiramente nu...

Nosso visão era de uma metáfora da humanidade, mas piadas circulavam sobre o show da Chave ter um homem "pelado" como cenário e portanto, ter conotação "gay"...

Rimos, é claro, dessa baboseira, mas consideramos que aquilo jamais seria compreendido como algo filosófico, evocando o humanismo, a não ser que passássemos a fazer shows na sede da Palas Athena, ou da Sociedade Teosófica... 

Embalagem de um saco de balões (aqui em São Paulo, chamamos isso de "Bexiga"), que usamos no show. Acervo do poeta Julio Revoredo

Lamentando bastante a incompreensão do público, só usamos o cenário completo, nesses três dias, aposentando o homem nu...

A partir daí, só passamos a usar a parte externa, com a fechadura, e mesmo assim em poucas ocasiões, pois demandava uma estrutura de cenografia que nem todo lugar onde tocamos doravante, possuía. 

Esses três shows de lançamento do EP, ocorreram nos dias 27, 28 e 29 de setembro de 1985,no Teatro Lira Paulistana.

O público presente nos três shows foi de :

Dia 27 : 80 pessoas
Dia 28 : 120 pessoas
Dia 29 : 90 pessoas

Volto a falar sobre os aborrecimentos que o disco nos causou, pelo fato da sua rotação alternativa, de 45 rpm...



Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 221 - Por Luiz Domingues


Nessa fase, também fizemos bastante programas de rádio para divulgar o novo disco, e os shows de lançamento, que se aproximavam.

No dia 1° de setembro de 1985, eu e Rubens fomos à rádio 97 FM, de Santo André, e falamos bastante sobre o novo disco, e os shows que se aproximavam. 


Claro, falamos também do show intermediário que faríamos no mesmo teatro Lira Paulistana, no projeto "Pátria Amada, Pátria Irada", do produtor Antonio Celso Barbieri.

Nesse programa, apresentado pelo Beto Peninha, o enfoque de seu público era o Heavy-Metal, e daí, tocamos "Ufos"; "Segredos", e "Um Minuto Além" se revezou com "Anjo Rebelde", como "BG", ou seja, foram músicas de fundo, enquanto éramos entrevistados.

No dia 6, fomos novamente à Rádio Cultura AM, onde o simpático, e então desconhecido Serginho Groismann, novamente nos recebeu para um bom papo. 


Essa entrevista em específico, eu ainda tenho preservada em fita K7. Penso em digitalizá-la e a disponibilizar no You Tube, assim que possível.

No dia 7, tínhamos agendado duas entrevistas em dois programas numa mesma estação, a USP FM, que foram muito bacanas para a banda, mas uma delas teve um significado simbólico para mim, em especial. 


Participamos inicialmente da "Rádio Matraca", programa conduzido pelo Laert Sarrumor, e portanto, foi importante para mim, como se fosse uma oportunidade de jogar uma pá de cal sobre qualquer resquício de ressentimento que pudesse ainda haver entre eu e o Laert, por conta de eu ter deixado o Língua de Trapo, um ano e dois meses antes, para dedicar-me à Chave do Sol.

Mais simbólico do que isso, era impossível, pois estávamos ali, eu e Rubens, falando do novo disco da Chave do Sol, shows etc.

Nesse dia, fiquei mais uma vez muito impressionado com o conhecimento mastodôntico que o Ayrton Mugnaini demonstrou ter. 


Não que eu não soubesse disso, desde 1980, quando o conheci, mas naquela tarde nos estúdios da USP FM, ele estava produzindo um bloco sobre jingles de uma famosa indústria fabricante de geladeiras e máquinas de lavar roupas. 
Em suas mãos, tinha cerca de 50 compactos simples, contendo jingles dessa empresa e seus produtos, de sua coleção particular...

Isso era infernal ! 


O cara sabia tudo sobre Rock, MPB, Jazz, Blues, Folk, erudita, Black Music...e até jingles publicitários ???

Terminada a nossa participação na Rádio Matraca, fomos à outro estúdio, nas mesmas instalações dentro do campus da USP, e gravamos participação no programa "Sinergia", do jornalista Valdir Montanari. 


Esse era um raro programa na rádio paulista e brasileira, que em plena metade da década de oitenta, se propunha a tocar e falar sobre Rock Progressivo setentista, um verdadeiro disparate, digno de ser alvo fácil dos xiitas aquela década...

Mas o Valdir era um abnegado, e além de manter nas bancas, as revistas Rock Star e Rock Show, tinha esse programa de rádio, e acabara de lançar um livro sobre Rock Progressivo.

E, na sua visão, ele enxergava elementos progressivos na Chave do Sol, embora particularmente eu achasse isso um pouco vago. 


Se havia algo Prog na nossa música, era muito sutil, pois embora eu amasse (amo) o Prog Rock setentista, na Chave o que predominava era o Jazz-Rock, outra vertente setentista que aprecio, mas bem mais moderadamente.

O Rubens também curtia Prog, mas a nossa história se galgou muito mais no Jazz-Rock, mesmo nesse momento de 1985, onde o peso do Hard-Heavy oitentista incorporou-se à nossa música.

A entrevista foi legal, e eu também a tenho preservada numa fita K7, à espera de um provável lançamento no You Tube.

Voltamos, dias depois, ao "Matéria Prima" da Rádio Cultura AM, numa gentileza do Serginho Groismann, que nos convidou para reforçarmos a divulgação dos shows de lançamento do EP. 


Isso aconteceu no dia 27 de setembro de 1985, com mais músicas executadas, e um papo.

Já no dia 30 de setembro de 1985, estávamos novamente no programa "Balancê, da Rádio Excelsior/Globo, de São Paulo. 


Verdadeiros habitues daquele programa, eu e Rubens representamos a banda mais uma vez, naquela "palhaçada" de dublar para uma pequena plateia presente. 

Nesse dia, o Fausto Silva reforçou o convite para agilizarmos uma aparição no programa de TV , "Perdidos na Noite" que a mesma equipe do Balancê produzia.

Nessa altura, o programa já não estava mais na TV Gazeta, e agora era exibido pela TV Record, numa estrutura melhor de produção, mas mantendo a anarquia generalizada.

Segundo ele, nós deveríamos entregar o nosso material para a sua produtora, Lucimara Parisi, e como éramos velhos fregueses do Balancê, ela nos escalaria rapidamente.

Claro que topamos, e rapidamente nos mobilizamos para tal tarefa, que foi realizada por mim.

Esta é uma história inacreditável, e há alguns capítulos atrás, eu cheguei a adiantar que o fato do novo álbum ter sido lançado em 45 rpm, nos trouxe aborrecimentos, não é mesmo ?

Pois é...

Essa é uma das histórias que vou contar, ou seja, mais uma que entrou para o rol de histórias tragicômicas da banda...

Mas antes disso, para não perder a cronologia, chegou o momento de falar dos shows de lançamento do EP...



Continua...

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 220 - Por Luiz Domingues


Ainda falando sobre TV, no dia 30 de agosto, tivemos uma jornada dupla, em programas femininos. 

Logo de manhã, bem cedo, estávamos novamente lutando contra o sono, nos estúdios da TV Record de São Paulo. 


O compromisso era no programa "A Mulher Dá o Recado".

Apresentado pela simpática atriz, Márcia Maria, era o típico programa feminino, com muitas matérias sobre moda; maquiagem;
cuidados com o corpo/estética e cabelos; psicologia no enfoque feminino, e culinária & decoração etc.

Já havíamos participado desse programa anteriormente, e a entrevista havia sido conturbada, motivada pela falta de conhecimentos musicais da apresentadora, mas sobretudo
pelo fato de sua produção não ter lhe dado subsídios na ficha que tinha em mãos. 


Enfim, entendo perfeitamente que não fora sua culpa,
inteiramente. 


Desta feita, tínhamos o lançamento do EP para falar, além de shows, e um novo vocalista, Fran Alves, já que na aparição anterior, tínhamos Chico Dias no line up da banda.

Claro, num programa direcionado à um público nada aficionado do Rock, escolhemos a única opção mais palatável, que era "Um Minuto Além". 


A apresentadora, Márcia Maria, era simpática e solícita, sempre, mas desta vez, cometeu uma gafe, na hora em que me entrevistou. Ao iniciar sua fala, ela referiu-se à banda, como "Chave de Ouro"...ha ha ha... 

https://www.youtube.com/watch?v=hF84iZ2BVUU
O Link para assistir no You Tube

Bem que eu disse no começo da narrativa, que esse nome era inadequado para uma banda de Rock...

Quando iniciamos a dublagem, contudo, notamos um certo frisson dos cameramen, e de outros funcionários da produção. Pareciam incomodados com a duração da canção. 

Como apesar de ser uma balada lenta, tinha uma extensão acima
do padrão pop de músicas radiofônicas, no alto de seus cinco minutos, era mais um problema que teríamos doravante, tanto na TV, quanto rádios.

No período da tarde, enfrentaríamos outra maratona de TV.


Desta feita na TV Gazeta, participaríamos do "Mulheres em Desfile", outro programa feminino, e posso afirmar, ainda mais tradicional que o que fizéramos na parte da manhã, na TV Record.

Apresentado pela dupla, Yone Borges e Claudete Troiano, tinha a típica grade dos programas femininos, com uma boa audiência, ainda que para os nossos interesses, seria óbvio que a porção que arrebataríamos seria bem pequena.

Fomos muito bem tratados pela produção, sem dúvida, mas apesar disso, a espera para entrarmos em cena, foi longa, pelo fato do programa ser ao vivo, pediram que estivéssemos no estúdio, com uma hora de antecedência, mas estávamos na verdade, escalados para entrar no ar, bem mais tarde. 


Bem, como já disse muitas vezes, neste e em outros capítulos, sempre adorei bastidores de TV. 

O contato com outros artistas, inclusive de outras modalidades, era sempre estimulante para mim, fora as coisas engraçadas,
os improvisos, coisas malucas que acontecem atrás das câmeras...

E nesse dia, não foi diferente, com a possibilidade de assistirmos uma explicação minuciosa de um ginecologista falando sobre menstruação, e um confeiteiro que passou uma receita de bolo de coco, antes de nós sermos chamados a entrar em cena... 


Fomos introduzidos pelas apresentadoras, e fizemos a nossa dublagem. De novo, quando a música ainda estava na sua metade, os cameramen estavam ouriçados. 

Alguns faziam sinais para nós, cobrando-nos o término da música...

Que idiotas !! 

Não sabiam que estávamos dublando ?

Enfim, era claro que teríamos mesmo um problema, a ser enfrentado doravante em termos de TV e Rádio.

Por nossa falta de noção do mercado, com maior clareza, não era só a questão das músicas do novo disco serem peso pesado para o padrão popular do mainstream, mas a metragem delas, era proibitiva para os padrões desse métier.


https://www.youtube.com/watch?v=skTmNw3mK5g
O Link para assistir no You Tube

Enfim, foi bem desagradável para nós ver essa gente mal educada fazendo "sinaiszinhos" fora de propósito, mas uma luz vermelha acendeu na nossa cabeça. Era mais uma contrariedade que
teríamos por conta de nossas escolhas feitas no fim de 1984...

No dia 4 de setembro, estávamos novamente nos estúdios da TV Gazeta, desta feita para participarmos novamente do "Realce Baby", um programa onde já éramos habitues, e era sempre engraçado participar, principalmente pelas maluquices do Mister Sam.

Desta vez, dublamos "Segredos e "Ufos", duas músicas muito pesadas do disco, mas sem preocupação com a estética ou tamanho delas, pois era um ambiente muito mais propício para uma banda de Rock, e a liberdade que o Mister Sam nos dava, era total.


Desta vez, digno de nota, é que nos esquecemos de divulgar a nossa caixa postal, e o Sam nos se fez de rogado, abrindo o terceiro bloco do programa nos dando mais uns minutinhos, e na brincadeira, o Rubens o chamou de "pilantra", dentro do contexto da linha adotada pelo próprio Sam, é evidente...

Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=w7XMxNrb4_4

Finalmente, voltamos ao "Realce Baby" no dia 29 de setembro de 1985, com a clara intenção de reforçar a divulgação dos shows de lançamento do EP.
 

Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=n3TBotg0Xwc

Nessa aparição, além de dublarmos uma música pouco divulgada desse disco, no caso, "Ímpeto", há de se mencionar o fato de que na edição da TV Gazeta, foi acrescentado um efeito psicodélico muito legal durante a execução da música.

Parecendo o programa "Beat Club", que causou furor nas décadas de sessenta e setenta, era anacrônico para os anos oitenta, é lógico, mas nem preciso dizer o quanto eu curti essa inserção totalmente surpreendente, para dizer o mínimo, na condição de inveterado fã da estética dessas duas décadas.

No vídeo acima, é preciso avisar que infelizmente a cópia original em VHS com a qual o preservamos, apresentava um corte brusco, portanto, quase a metade da música foi suprimida. Paciência...


Falo a seguir sobre programas de rádio, nessa fase de lançamento do EP.


Continua...

domingo, 28 de dezembro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 219 - Por Luiz Domingues


O que tínhamos criado para as intervenções nos shows, eram apenas três performances.

Na entrada do show, uma locução em off ; no meio do show, uma atuação de atores interagindo com a banda ; e na parte final, uma performance do poeta Julio Revoredo, mais uma vez disfarçado,  com uma caracterização enigmática.

A intervenção do meio, era parecida com a que usáramos em 1984. 

A diferença, era que ao invés de uma simulação de perseguição de um estranho refugiado na bateria do Zé Luis, a ideia seria desta feita, um sequestro relâmpago.

Atores entrariam com certa contundência, munidos de armas de brinquedo, e "sequestrariam" o vocalista Fran, para que pudéssemos tocar o número instrumental "18 Horas".

A participação do Julio também seria simples.

Apenas uma entrada em cena, durante a execução de uma música, onde andaria pelo palco, sem maiores explicações ao público, e sairia, de forma inusitada e incólume.

Apenas uma intervenção para confundir o público, usando um pouco do conceito do Teatro do Absurdo, nada demais, mas sempre passível de criar um frisson extra na plateia.

Desde o final de agosto, estávamos trabalhando forte no quesito divulgação do disco, simultaneamente aos preparativos do show de lançamento do novo disco.

Em 28 de agosto de 1985, participamos ao vivo do programa "Panorama", uma revista cultural muito bacana, produzida pela TV Cultura de São Paulo. 
Participar do "Panorama", era um sonho cobiçado de qualquer artista, pois era "chic" aparecer lá, e certamente rendia bons frutos ao artista.

Nossa participação foi tocando ao vivo, com direito à uma micro entrevista.  

Chegamos cedo aos estúdios da TV Cultura, e passamos o som dignamente. 

Apesar de termos escolhido uma das músicas, bem pesada ("Segredos"), conseguimos tocar com razoável conforto, em se considerando a contenção de volume que nos era solicitada dentro de um estúdio de TV.

A outra canção, seria "Um Minuto Além", definitivamente a eleita como mais conveniente para apresentações na TV, doravante.

Então, quando o programa entrou no ar, esperamos o sinal dos técnicos, e tocamos "Segredos", com muita energia.

Quando encerramos, a apresentadora/entrevistadora Paula Dip, foi muito simpática conosco, mas mal preparada pela sua produção, não tinha perguntas de qualidade na sua ficha, para nos formular.

Querendo ser descontraída, insistiu em nos perguntar sobre sermos ou não "metaleiros", e exagerando em fazer o famigerado "malocchio", aquele ridículo sinal de chifrinho, de origem medieval, achou que nos agradaria com aquela baboseira. 

Eu mesmo respondi, com simpatia, é claro, mas neguei que tivéssemos relação com aquela cultura metálica.

Disse-lhe que éramos uma banda de Rock, nossas letras evocavam ideais humanistas, sociais etc, mas ela insistia naquela caricatura, tecendo comentários sobre o comprimento de nossas respectivas cabeleiras, nossas roupas etc etc.

Enfim, falamos do novo álbum, e um pouco sobre a Baratos Afins, onde o Rubens enalteceu o Luiz Calanca pelos seus esforços em prol do Rock etc etc.

Quando o papo encerrou-se, fomos convidados a tocar o segundo número, mas o tempo da TV urgia, e pelo monitor, vimos que mal a música havia saído da sua introdução, e os caracteres do programa já estavam subindo, denotando que o programa estava encerrando-se. 

Questão de segundos, vimos que saiu do ar, e assim paramos de tocar, naturalmente.

No cômputo geral, apesar das queixas que teci acima, foi uma ótima apresentação. 

Vendo o vídeo, acho que a banda estava muito afiada.


O Link acima direciona para o vídeo citado, no You Tube


Certamente que  "Segredos" não era nem de longe uma música minimamente com um apelo Pop, e que justificasse portanto, sua execução na TV, mas naquele momento, na perspectiva de querermos mostrar as músicas novas do novo disco, descartávamos "Crisis (Maya)", por ser instrumental, portanto, qualquer uma das outras cinco opções, estava disponível, em tese.

Logo notamos que no ambiente avesso ao Rock que era a TV, a escolha natural sempre recairia sobre "Um Minuto Além", mas na possibilidade de se exibir mais de uma, todas as outras quatro opções, eram pesadas.

Dessa forma, tocar "Segredos" no Panorama, foi natural para nós, mas vendo hoje em dia, era muito paradoxal que na entrevista, a banda se colocasse como uma banda palatável para o público em geral, quando na verdade, é claro que não era, e aquela pauleira toda, mais assustava e estigmatizava, do que nos dava dividendos.

Outro paradoxo era o de se ter buscado o caminho do peso, mas ao mesmo tempo, negar a conexão com o Metal em voga. Essa confusão de identidade também ajudava a confundir o público, certamente

Falo isso com toda a isenção, e usando de sinceridade, no alto da experiência adquirida.

Mais uma razão para repensar o rumo da banda na época, e de fato, estávamos com um disco recém lançado, mas tínhamos dúvidas sobre o (mau) passo dado...

Mais compromissos de TV estavam agendados para os próximos dias...


Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 218 - Por Luiz Domingues


Por incrível que pareça, tínhamos um compromisso a ser cumprido no mesmo espaço onde faríamos os shows de lançamento do EP.

Aparentemente, isso era um baita de um anticlímax, mas aceitamos fazer um show avulso no Lira Paulistana, exatamente porque não dispensávamos oportunidades nessa época, e também porque não achávamos que essa coincidência atrapalharia nossos planos.

De fato, era uma outra época e shows de música autoral haviam aos borbotões, e quase todos os dias pela cidade. Realmente não me lembro de termos ventilado sequer, que a proximidade de datas, e sobretudo o fato de ser no mesmo espaço, automaticamente pudesse inviabilizar as próximas datas. 


O produtor Antonio Celso Barbieri, em foto bem mais atual
 
Outro fator, era por ser mais uma ação perpetrada pelo produtor Antonio Celso Barbieri, e animava-nos ver que entre tantos produtores que entraram e saíram de nossa vida, o Barbieri era de longe, o mais sério e empenhado em fazer a cena ir para a frente.

Dessa maneira, subimos no palco do Teatro Lira Paulistana, no dia  15 de setembro de 1985, dividindo a noite com a banda "Excalibur", no evento que recebeu o nome de "Pátria Amada / Pátria Irada", numa alusão à data cívica de 7 de setembro.




Era um dia de semana, e não atraiu um grande público, apesar dos esforços do Barbieri, mas curtimos tocar com os amigos do Excalibur e sua performance "quase Doorsziana", apesar do ranço Heavy-Metal...

Apenas 50 pessoas desceram a famosa escadaria do Lira Paulistana nessa noite.

Agora, tínhamos os três dias do lançamento do EP, e muitos compromissos de mídia, para divulgar o novo álbum, e também os shows.

O cartaz ficou (mau)dividido, pelo tamanho mínimo da minha impressora...e foi xerocado de um exemplar do acervo do poeta Julio Revoredo, que gentilmente me foi emprestado.

Continua...