terça-feira, 30 de setembro de 2014

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 68 - Por Luiz Domingues


E assim, mesmo com um certo clima pesado internamente na banda, eu acabei indo só com o Júnior ao compromisso, nesse programa de TV. 

Como não tocaríamos ao vivo e se tratava apenas de um Talk-Show, fomos em dupla para o bate-papo.

Mas não era um programa comum, e sim, o "Dr. Rock", um Talk-Show muito louco, apresentado por um rapaz extremamente gente boa, chamado Marcos Spitzer, que encarnava o personagem "Dr. Rock". 

Qual era a ideia ?

O "Dr. Rock" apresentava-se vestido todo de branco; usando jaleco; luvinhas cirúrgicas; estetoscópio pendurado no pescoço, e acompanhado de uma bela garota vestida de enfermeira. Suas intervenções eram engraçadas, pois usava jargões da medicina para falar de Rock etc etc.

Algo do tipo : -"Dor de ouvido ? Prescrevo Grand Funk Railroad para você, meu filho"...

E não ficava só nisso. 

Por ser veiculado numa estação de TV comunitária (de São Caetano do Sul, região do ABC paulista), e ter baixíssimo orçamento, tinha uma característica sui generis : era um Talk Show com cenário de Chroma Key, e entre um papo e outro, ele anunciava uma música da banda, e os convidados ficavam o tempo todo no cenário estático, com imagens de fotos de sua banda perpassando-os, enquanto o áudio rolava solto, como numa execução radiofônica. 

O "Dr. Rock" foi uma das figuras mais bacanas que a Patrulha do Espaço teve como incentivador nessa fase, sem dúvida, e não foram poucas as vezes onde ele nos ajudou, fazendo divulgação de nossos shows e lançamentos de discos.

Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 67 - Por Luiz Domingues


O próximo show foi também no interior de São Paulo. 

Desta vez o destino foi Campinas, que pelo porte de metrópole, com mais de um milhão de habitantes, nada tem de pacata como se supõe serem as cidades interioranas.

A casa em que nos apresentaríamos seria o "Delta Blues", uma tradicional casa em Campinas, e muito famosa no circuito de artistas do Blues, inclusive internacionais, que vem ao Brasil.

Não era exatamente a nossa praia, mas a casa também passava por modificações, e há tempos deixara de ter essa característica fixa de "Templo do Blues", e vinha abrindo as portas regularmente para bandas de Rock, e até bandas cover naqueles tempos.
              O grande artista plástico e web designer, Johnny Adriani


Sua decoração era impecável, lembrando casas de blues do sul dos Estados Unidos, e pelas paredes, a decoração era fantástica com pinturas assinadas pelo artista plástico Johnny Adriani, com motivos sulistas americanos, passeando entre as tradições dos Blues e também indígenas norte-americanas.

Cabe explicar que o Johnny foi o fundador da casa e responsável direto por toda a sua decoração e ambientação. Infelizmente, ele já não era mais o dono da casa nessa época, e se por um lado ainda era admirável a estrutura, era também visível a sua decadência, sob nova direção, não tão, digamos, preocupada em fazer manutenção.

Isso se refletia também na parte sonora. O P.A. da casa era adequado às suas dimensões, mas estava bem machucado pela ação do tempo, e deixava muito a desejar nesse sentido.

Mesmo assim, na base da boa vontade e do improviso, deixamos tudo arrumado o melhor possível, e sabedores de que o volume do palco tinha de ser controlado para adequar-se à realidade do "baleado" P.A. da casa.

Fomos jantar, e quando voltamos, a casa já estava aberta. Por ser uma quinta-feira, estávamos um pouco céticos quanto à presença de um público numeroso. Contudo, na medida que os ponteiros do relógio avançavam, víamos que a casa estava lotando e por uma questão promocional : a quantidade de mulheres era muito maior do a que de homens, devido ao preço reduzido para o sexo feminino.

Era óbvio que se a casa estava enchendo de gatinhas, naturalmente os rapazes seriam atraídos como ursos atrás do mel e sendo assim, quando fomos convocados a subir no palco, a casa estava bem cheia.

Mesmo sabendo que faríamos um show autoral, o gerente da casa pediu para o dividirmos em duas partes, nos moldando no padrão das exibições de bandas cover. Isso não era a melhor medida, mas também não nos ofenderia, portanto assim procedemos.

A primeira parte do show foi excelente. O grosso do público respondeu bem, aplaudindo e berrando ao final das músicas, embora fosse nítido se tratar de uma mera empolgação de balada. 

Claro, haviam vários fãs da banda também. Gente de Campinas e cidades próximas que apareceram com discos antigos da Patrulha em mãos para caçar autógrafos no pós-show, certamente.

Só no final da primeira parte do show aconteceu um anti-clímax para quebrar o bom astral que estávamos tendo. Enquanto tocávamos, uma briga estourou, e um tumulto generalizado se instaurou.

Não tinha nada a ver com a banda, mas sim uma briga entre dois moleques e os seguranças da casa por causa da entrada forçada de ambos, recusando-se a pagar a entrada. Teve socos para todos os lados; copos e garrafas estilhaçando-se pelo chão; meninas gritando, em suma...se aquilo era um bar americano ao estilo sulista de blues, realmente honrou as suas tradições...

Os seguranças foram ágeis e expulsaram os brigões, mas o clima estava quebrado, naturalmente. Quando voltamos para a segunda entrada, a reação estava muito mais fria, infelizmente.

Tudo isso aconteceu no dia 30 de novembro de 2000, e o público no Delta Blues foi de 200 pessoas, muito bom para o tamanho da casa.

Para piorar, tivemos um problema de ordem interna durante a parte final do show, e a volta para São Paulo foi tensa na van.

Por conta disso, tínhamos como próximo compromisso uma aparição num programa de TV, dois dias depois, mas o clima pesado deixou um ar de incerteza quanto à esse compromisso.

Falo sobre ele logo a seguir, e como foi uma experiência hilária.


Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 66 - Por Luiz Domingues


No dia seguinte fomos à Sorocaba, para mais um show na casa Stratocaster. 

Como já conhecíamos a casa, foi tudo rápido no tocante à montagem. 

Por uma incrível coincidência, a banda de abertura chamava-se "Godzilla", também, mas ainda bem, não era aquela de moleques de Mogi-Guaçu. 

Nesse dia, estiveram presentes desde a montagem do equipamento, os integrantes da banda "Wry". Eles eram de Sorocaba, e estavam se preparando para deixar o país rumo à Inglaterra, buscar seu sonho.
                      Os rapazes do Wry, numa foto já em sua fase europeia

Para quem acompanha o universo do Indie Rock, o Wry alcançou uma projeção interessante na Europa, e se mantém lá até hoje. 

O show foi OK, mas sem grandes novidades a serem relatadas. O público foi de 150 pessoas aproximadamente, e aconteceu na noite de um sábado, dia 11 de novembro de 2000.


Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 65 - Por Luiz Domingues


Além do Heavy-Metal ser antagônico à vibe que estávamos propondo nessa fase da Patrulha, naturalmente trazia um público que não nos interessava. 

Mas esse tipo de disposição ocorreria mais vezes no futuro, infelizmente. No caso dos garotos do "Godzilla", não os conhecíamos e quando fomos embora para o hotel, ficamos seguros de que agiriam de maneira correta. Usariam parte do nosso equipamento, inclusive. 

Quando voltamos para o show, o "Godzilla" estava nos últimos momentos de seu show. Fomos para o camarim, esperamos que saíssem, e nossos instrumentos estavam prontos, afinados desde que saímos para o hotel. 

Subimos ao palco e quando iniciamos os primeiros acordes de "Não Tenha Medo", a tradicional primeira música do show, as duas guitarras e o baixo estavam completamente desafinados !! 

Erramos em confiar, e não fazer uma nova checagem, certamente, mas jamais esperaríamos ser sabotados por uma banda de abertura que havíamos tratado com cordialidade e até apoio. Quando olhamos no mezanino, vimos os fanfarrões metálicos se esborrachando de rir.

Duas raras fotos do show em Mogi Guaçu, do acervo de Alexandre Quadros

Evidentemente que ficamos embaraçados, mas rapidamente o Rodrigo falou no microfone que um acidente havia acontecido, e fomos afinar para retomar o show em poucos segundos. 

O show foi bom, com um público de mais ou menos 100 pessoas. 

Foi considerado excelente pelos organizadores do evento, visto que Mogi-Guaçu não tinha muita tradição Rocker.
No café da manhã, no hotel de Mogi-Guaçu, com o amigo Alexandre Quadros no meio, de camiseta preta, entre nós. Foto de seu acervo pessoal.

Conhecemos nesse dia um amigo que se tornaria um grande colaborador, e assim tem sido até hoje, o Alexandre Quadros, que também era (é) radialista; fanzineiro, e hoje em dia, blogueiro. Ele era vocalista de uma banda local chamada : "Wild Shark". 


Antes o "Wild Shark" tivesse tocado e não aqueles babacas do Godzilla, com seu Heavy-metal insípido, e atitude de moleques...

Tudo isso ocorreu na noite de 10 de novembro de 2000.
Com o amigo do programa Projeto Coda, no saguão do Hotel. Acervo de Alexandre Quadros


Voltando ao hotel, um fato inusitado ocorreu. Um de nossos roadies (não revelarei o nome), foi tomar uma ducha e dormiu no banheiro. 

Talvez pensando que o chuveiro fosse uma cachoeira, relaxou e apagou. No dia seguinte, o dono do hotel estava desesperado porque a caixa d'água estava vazia, e os chuveiros só eram alimentados por essa fonte e não pelo fornecimento direto da rua...

Almoçamos e fomos à parte 2 dessa micro-tour, rumo à Sorocaba, onde tocaríamos novamente na casa chamada "Stratocaster".

Mas um fato engraçado aconteceria na nossa saída da cidade... 

Parando num mercadinho daqueles típicos interioranos, que parecem ter parado no tempo, fizemos um rápido "pitstop", e na dispersão gerada, entramos no ônibus sem checar se todos estavam a bordo...

Já estávamos na saída da cidade, nos aproximando da estrada, quando notamos a ausência do Rodrigo !!

Voltamos ao pequeno estabelecimento citado, e lá estava ele sentado na porta, consumindo um doce, tranquilamente.

Sua calma justificou-se quando nos disse de forma desconcertante : -"Eu sabia que notariam a minha ausência e voltariam, portanto, mantive-me tranquilo aqui"...

Ha ha ha...definitivamente, precisávamos de um road manager !!   
  

Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 64 - Por Luiz Domingues


Os próximos passos seriam menos frustrantes, todavia. Seriam mais três shows no interior de São Paulo, no mês de novembro. 

O primeiro, dia 10 de novembro de 2000, foi na cidade de Mogi-Guaçu, na região de Campinas. 

Para quem não conhece direito o estado de São Paulo, digo que fica 70 Km adiante de Campinas, na direção da divisa com Minas Gerais, e a primeira cidade mineira naquela rota, é Poços de Caldas.
Mogi-Guaçu é grudada praticamente em outra cidade, também chamada Mogi, só que Mogi-Mirim. Mogi-Guaçu é maior, mas Mogi-Mirim ficou mais falada por ter um time que já esteve várias vezes na primeira divisão estadual e na segunda nacional, tendo revelado grandes jogadores para o futebol brasileiro, e sem dúvida, o mais famoso deles, Rivaldo. 

Esse show foi promovido por um programa de rádio (Projeto Coda), que havia nos entrevistado em Sorocaba no mês de julho, e essa história eu já contei anteriormente.

Foi realizado num clube local, chamado " Tempo Clube", que ficava localizado numa aprazível pracinha bem interiorana, e lembro-me de ser perto do Fórum Judicial da cidade. 

Fomos muito bem recebidos pelo pessoal da Rádio, que estavam muito eufóricos com a presença da Patrulha, contrastando com o ar desconfiado dos dirigentes do clube, não acostumados a shows de Rock. 

Uma repórter do jornal local, Gazeta Guaçana (Mariana Martini), veio nos entrevistar no Soundcheck. Com direito a fotografia e um certo clima de euforia por parte dos Rockers da Rádio, mas infelizmente, teve uma condução constrangedora, pois a moça, apesar de ser muito simpática, demonstrava nitidamente estar despreparada para nos entrevistar, dado o caráter vazio de suas perguntas.

Mariana Martini, muito simpática e solícita, mas sem saber exatamente o que nos perguntar. Louvo sua boa vontade e o apoio que deve ter tido para a redação final na edição, que pode ser lida acima. Foto do acervo de Alexandre Quadros.


Ela tinha uma vaga noção de que a banda tinha história, mas não fez a lição de casa, pesquisando sobre nós, para fazer perguntas mais embasadas. Dessa forma, o Junior percebendo o clima embaraçoso, tratou dar algumas respostas mais desconcertantes, meio brincando, meio em forma de protesto pela situação.

Mas no final, deu tudo certo e o soundcheck foi satisfatório, deixando-nos seguros de que o show transcorreria de forma tranquila.

Fomos para o hotel descansar e jantar. Haveria uma banda de abertura local, chamada "Godzilla". Segundo apuramos, era uma banda de Heavy-Metal, infelizmente... 


Continua...

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 63 - Por Luiz Domingues


O próximo show foi uma aventura e tanto. 

A data foi em outubro de 2000, mas esse processo já havia se iniciado meses antes, através de um contato que o Junior havia feito na cidade de Limeira, cerca de 150 Km. de São Paulo.

Mediante esse contato, muitos telefonemas foram disparados e pelo menos duas viagens à Limeira para acertos pessoais com esse contratante. 

Tratava-se de uma casa noturna relativamente nova na cidade, com uma estrutura muito acima do padrão de bares, mais se enquadrando mesmo no patamar de uma casa de shows. 

Sabíamos que o proprietário já vinha realizando eventos na casa, ainda que mais focados no universo do Heavy-Metal. Contudo, bandas como o Made in Brazil e outras do gênero, já haviam se apresentado lá. 

Numa dessas visitas, eu e o Júnior fomos ver a casa num dia sem evento marcado, acompanhados do proprietário, e ficamos animados com as instalações.

Era um palco grande, com comprimento e largura muito além do que estávamos tocando habitualmente nos shows realizados em 2000, e com estrutura de camarim muito digna. 

O sujeito tinha ainda um equipamento de P.A. de boa qualidade, além de uma iluminação surpreendente.

A casa chamava-se "Mirage", e ficava num bairro da periferia da cidade, um pouco distante do centro. 
Matéria na Revista Cover Guitarra, de agosto de 2000, enfocando-me, pessoalmente


Para quem não conhece Limeira, digo que se trata de uma cidade de quase 300 mil habitantes, portanto, com ares de cidade grande. 

A Patrulha tinha uma história muito rica nessa cidade, pois tocara lá diversas vezes no final dos anos setenta, e início dos oitenta. 

Eu mesmo fui personagem de um show desses em 1983, por conta do fato da minha banda naquela ocasião, A Chave do Sol, ter feito o show de abertura. 

Já contei com detalhes essa experiência no capítulo daquela banda. 

Apenas realço que essa tradição de um bom público seguidor da Patrulha nessa cidade, eu pude constatar in loco em 1983, pois haviam 3500 pessoas no ginásio de esportes do clube Gran São João, naquela noite de 9 de julho.

Resenha do CD Chronophagia na Revista Cover Guitarra, de agosto de 2000

Enfim, voltando à 2000, com uma casa bem estruturada e a tradição da Patrulha na cidade, tinha tudo para dar certo, mas então começaram os problemas...

Os problemas começaram quando os dias foram passando, e o sujeito passou a não retornar os telefonemas. 

Todas as ações de divulgação combinadas estavam no limite de prazo para serem empreendidas e o cara não dava sinal de vida. Foi quando finalmente o rapaz se manifestou, dando mil desculpas esfarrapadas e dizendo-nos que nos enviaria um mailing que possuía, para que nós disparássemos uma divulgação via correio.  

E o Junior cobrou empenho dele na colocação de cartazes na cidade, sua tarefa acordada e afinal de contas, os cartazes tinham sido confeccionados por nós mesmos e já estavam nas mãos dele. 

Chegando o dia do show, fomos com o micro-ônibus da empresa Magic Bus, que pertencia aos meus primos, e chegando na porta do "Mirage", constatamos que haviam cartazes de um show já passado, e nenhum cartaz nosso sequer, um sinal inequívoco de que o sujeito não havia feito nada. 
O horário foi passando e muito além do combinado, apareceu um funcionário para abrir a casa. Quando fomos montar o nosso equipamento de palco, constatamos que o P.A. da casa havia sido retirado.

Atônitos, continuamos a montar o equipamento, e por telefone, conseguimos localizar o sujeito que alegava estar sonorizando uma festa em outra cidade, acho que em Jundiaí, não me lembro direito. 

O clima ficou tenso quando o rapaz começou a insinuar que não daria para chegar e seria melhor cancelar o show. 

Enfim, ele veio, chegando quase no horário do show e mesmo sendo um P.A. de médio porte e todos entrando no mutirão para arrumar tudo, na base da boa vontade, claro que o clima estava tenso.

Mesmo na correria, conseguimos levantar o som e com substancial atraso, as portas da casa se abriram e entrou meia-duzia de gatos pingados. Eram fãs ardorosos, com discos de vinil na mão para caçar autógrafos a posteriori etc etc, mas era uma quórum que não renderia nem um lanche para a banda. 

Antes de entrar no palco, nosso roadie, Samuel Wagner veio nos contar que o pai do proprietário, um senhor de idade, estava brigando na rua com um ambulante que estava vendendo Hot Dog, na porta da casa. 

A alegação era que o preço do cachorro-quente praticado pelo sujeito do carrinho, estava mais barato que o hot-dog da lanchonete da casa...

O pau quebrou pela concorrência desleal... 

O show aconteceu assim mesmo e foi digno. Havia tensão, porque todo o combinado estava sendo sistematicamente descumprido desde muitos dias antes, mas quando subimos no palco, fizemos um grande show para aquelas 25 pessoas presentes.

Daquelas 25, pelo menos 15 estavam ali gratuitamente, porque eram fãs desabonados que ficaram na porta tentando convencer o senhor idoso a liberar a entrada gratuitamente, e nos instantes finais acabaram ingressando no local. 

Eram 25 que valeram por 2500, pois vibraram intensamente. E nos disseram que souberam do show através de um boato, e foram sem certeza de que fosse verdade, pois não haviam cartazes, filipetas ou qualquer outro indício de que fosse real. 

Um dos sujeitos era sósia do cantor Serguei, e esse era mesmo o seu apelido, segundo apurou-se entre eles. 

Ao final, atendemos a todos para autógrafos e de-repente o senhor idoso entrou na rodinha, onde inclusive era eu que estava cedendo autógrafos, e exigiu a caneta que eu estava usando de volta, pois era de sua propriedade. 

Algum dos garotos a pegou emprestada, e como o senhor estava nervoso com a situação toda, entrou na rodinha rasgando o verbo.

Em meio à jovens rockers, claro que virou alvo imediato de pilhérias, com sua manifestação gerando uma epidêmica reação de deboche, e isso o deixou ainda mais furioso. Foi hilário... 

No final, exigimos que o trato inicial fosse honrado e o proprietário da casa ainda nos deu uma canseira com evasivas, em meio à madrugada avançando etc etc... 

Ao final, conseguimos equilibrar o prejuízo, ao menos pagando as despesas operacionais básicas, e saindo com a certeza de que fizemos a nossa parte e o show fora digno para aqueles fãs. 

Alguns dias depois, a caixa postal estava lotada de cartas devolvidas daquele mailing que o rapaz nos cedera, 

Era uma lista defasada e isso explicava o porque de um show numa cidade de tradição rocker como Limeira, ter sido tão ruim de público, além de reforçar a imagem ridícula de não haver nem um cartaz na porta do estabelecimento, denotando que ele não colara nenhum sequer, pela cidade... 

E assim foi a nossa aventura num lugar chamado "Mirage", um autêntica miragem no quesito profissionalismo... Isso ocorreu no dia 28 de outubro de 2000. 


Continua...        

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 62 - Por Luiz Domingues


E lá fomos nós tocar no "Volkana", uma obscura chopperia de um bairro longínquo de São Bernardo do Campo, no dia 29 de setembro de 2000.

Sem o "mutirão de filipetadores", contando só com a nossa divulgação muito simples, conseguimos levar 120 pessoas ao estabelecimento, o que foi considerado excepcional para os padrões da casa. 

O palco era bem alto, o que causava um certo incômodo às pessoas que assistiam nas primeiras mesas, por não conseguirem ver o palco inteiro. Fora o impacto do som direto do palco misturado ao pequeno P.A., causando um desconforto auditivo razoável. 

Em frente ao palco, contudo, havia um mezanino, onde a visão era privilegiada e não havia cobrança  mais cara por seu uso, bastando chegar antes e ocupá-lo pelo mesmo valor do ingresso.

Apesar de ser longe e não ter nenhuma tradição em realizar shows de artistas autorais, esses 120 presentes eram na verdade um fator inédito para os donos do estabelecimento que animaram-se a produzir mais shows nesse sentido, e a própria Patrulha voltaria em apresentações posteriores que relatarei no momento oportuno.


Entrevista com Rodrigo e Marcello na Revista Cover Guitarra. Fantástico reconhecimento do talento de ambos que começava a aparecer na imprensa especializada. A se lamentar apenas o erro crasso ao grafar o nome de ambos : Marcello com um "L" apenas , dava para aguentar, mas quem é Rodrigo "Hill" ? Eu conheço o Rodrigo Hid...


Tecnicamente foi um bom show, com o público interagindo bem.


Fizemos a loucura de levar todo o nosso equipamento de palco, incluso o órgão Hammond, portanto, quem esteve presente, viu um show de Rock com produção de teatro. 

De fato, os donos ficaram surpreendidos com o público presente e a animação do show, considerando ser um artista autoral. E eufóricos diziam que queriam transformar a casa num espaço de shows autorais doravante, diminuindo as baladas de bandas cover gradativamente. 

Isso abriu perspectiva para tocarmos lá novamente, conforme já disse anteriormente, e no devido tempo será comentado. 

O outro sócio, aquele que falava pelos cotovelos, e era sósia de Vernon Presley ou Lloyd Bridges, começou sua viagem ao planeta da divagação e falava em reformas na casa, digamos mirabolantes.

"Brainstorm" é uma ferramenta útil no processo da criação, mas no caso dele, era "viagem na maionese", mesmo. 

A casa até poderia melhorar, mas para tanto, precisaria de muito dinheiro e mesmo assim, a localização na periferia de São Bernardo do Campo, não favorecia. 

O próximo passo da banda foi, aí sim, uma "roubada", como se diz por aí. Apertem os cintos; coloquem o capacete; tomem suas pílulas de proteínas; pois nessa, nem o Major Tom viajaria tanto...
  
Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 61 - Por Luiz Domingues


Com as vendas do CD's, e as resenhas pipocando na mídia, precisávamos engatar uma sequência de shows. 

Não estava fácil  arrumar espaços para tocar naquela fase.Vivia-se uma época diferente no show business brasileiro, onde as casas de médio porte que existiam em razoável profusão nas décadas de oitenta e noventa, haviam desaparecido, ou mudado seu perfil.

Sendo assim, era rara a oportunidade de ocupar um palco onde a banda poderia se apresentar com condições ideais de som e luz para mostrar seu trabalho, na plenitude de sua criação artística. 

Então, abraçamos a ideia de nos adaptar à essa realidade, e assim fomos tocando onde fosse possível. Já relatei algumas circunstâncias inusitadas nesse sentido, e a próxima etapa a ser relatada é outra dessas histórias.

Finalmente havíamos marcado uma apresentação numa casa noturna de São Bernardo do Campo, cidade do ABC paulista, e digo finalmente, porque foram diversas reuniões para poder marcar essa data. 

Era uma casa nada glamourosa e nem bem localizada era. O lado bom, era que seus donos não eram arrogantes (ao contrário de outros lugares onde fomos tocar anteriormente), pelo contrário, eram gente boa. 

O que acontecia, era uma desconfiança deles em torno de um show de música autoral, viciados que eram em atrações de bandas cover. 

Finalmente resolveram arriscar, e assim marcamos a data para o final de setembro de 2000. O engraçado nessa história, foi o tom prosaico de um dos sócios da casa. 

Completamente desacostumado a lidar com uma produção de show de um artista autoral, queria usar métodos estapafúrdios de divulgação, provocando até risos em suas colocações.

Numa dessas reuniões, chegou a dizer que convocaria todos os músicos das bandas cover que conhecia, para que cada um filipetasse num ponto de São Bernardo do Campo.

A grosso modo, parecia estratégia de militância política. Mesmo que conseguisse esse apoio sincero e gratuito, de onde tiraria dinheiro para pagar a gráfica que confeccionaria esse material ? 

E segundo, qual a garantia de eficácia dessa estratégia na prática, na bilheteria ? 

O sujeito falava empolgadamente e tinha lábia de palestrante da Amway...mas daí a dar certo...
                                        Vernon Presley
                                       Lloyd Bridges

E para piorar as coisas, era sósia do Vernon Presley, pai do Elvis Presley, e quando falava, não conseguíamos parar de pensar na semelhança, e como aquela situação era engraçada. Eu também o achava parecido com o veterano ator Lloyd Bridges, conhecido no Brasil como "O Homem Submarino", graças ao seriado de TV, "Sea Hunt", que protagonizou nos anos cinquenta e sessenta. 

O Rodrigo que herdou de seu pai o dom da imitação, imediatamente compôs o personagem, e em off, isso rendeu muita risada.

É claro que deu tudo errado e as ações de divulgação ficaram por nossa conta. O mutirão de filipetadores não saiu da imaginação do sujeito, claro. Logo mais falo do show.


Continua...