quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 169 - Por Luiz Domingues

Um novo convite nos foi feito para participar de dois festivais no mês de dezembro de 1984, ambos em São Paulo.

Um deles, denominado "Rock'n Circo", foi realizado num circo montado próximo ao Campo de Marte, na zona norte de São Paulo. 

Tinha o apoio da 97 FM, uma estação de rádio de Santo André, que seguia os passos de emissoras como a Fluminense FM do Rio, e Ipanema FM, de Porto Alegre, ou seja, com uma programação Rock bem legal, e bastante espaço para as bandas independentes, sem o maldito jabá.

O apresentador do evento, seria um locutor daquela estação, chamado "Beto Peninha", que estava se destacando naquele momento, e ficando famoso no meio rocker.

A programação era de muitas bandas participantes, portanto, a proposta da organização do evento, era a de shows de choque, para todos, como única maneira de comportar tantas bandas numa noite só.

O nosso show foi nesses termos, muito rápido, com quatro músicas apenas. Lembro-me que o equipamento estava muito ruim, e a luz era precária, portanto, tocar um set curtíssimo, veio mesmo a calhar.

Isso ocorreu na noite de 7 de dezembro de 1984, com um público que estimo ter sido de mil pessoas mais ou menos, com o "exorbitante" preço de 3 mil cruzeiros, que brincadeiras à parte, não era grande coisa se comparado aos padrões atuais do câmbio...


O segundo festival ao ar livre, seria realizado em plena Praça da Sé, no centro velho de São Paulo. Seria uma espécie de versão ampliada do evento "Praça do Rock", que ocorria no Parque da Aclimação, mas com mais atrações, caracterizando um festival, em dois dias.

Seria patrocinado pela Paulistur, uma autarquia subordinada à Secretaria de Turismo do Município de São Paulo, com apoio da Secretaria de Cultura e da Administração Regional da Sé, órgão da Prefeitura. 


Portanto, com todo esse apoio de engrenagens da máquina municipal, tinha tudo para ter uma estrutura legal de organização, equipamento, divulgação etc. 
O tratamento despendido pela imprensa mainstream às bandas da estética do Heavy-Metal era jocoso. Mais uma razão para não ser conveniente sermos inseridos nessa tribo, mas estávamos encurralados, e essa parecia ser a melhor saída naquele momento na década de oitenta, mesmo correndo o risco de sermos ironizados por estarmos em meio ao "jardim da infância" do Rock underground...


Mas, faltando poucos dias para o evento, fomos surpreendidos com a notícia de que fora cancelado, sem maiores explicações. 

Foi quando surgiu a informação de que fora cancelado a mando de um figurão da política, que alegou ser uma temeridade um evento de Rock; onde poderiam haver brigas; consumo de álcool & drogas, e abusos sexuais...ou seja, a velha conversa moralista e hipócrita, pois só em shows de Rock, tais barbaridades acontecem, não é mesmo ?

O cancelamento gerou uma revolta entre as bandas que estavam escaladas, e o produtor de shows e apresentador oficial da Praça do Rock, Antonio Celso Barbieri, apoiado por outras pessoas ligadas à produção da "Praça do Rock", organizou uma passeata no dia 15 de dezembro de 1984, pelas ruas do Centro, saindo da Praça Ramos de Azevedo, em direção à Praça da Sé.

Os shows ocorreriam nos dias 15 e 16 de dezembro de 1984.

Se comentei acima sobre a nota jocosa da Folha de São Paulo, falando sobre as bandas que tocariam no Festival da Praça da Sé, esta matéria na Folha da Tarde então escancara a forma com a qual a imprensa lidava com a cena Heavy-Metal do Brasil no ano de 1984, ou seja, como um movimento talvez criado no mini maternal...

O produtor Antonio Celso Barbieri em foto bem mais recente


O protesto era justo e o Celso Barbieri, por ser um produtor muito consciente, claramente organizou a passeata para angariar barulho na mídia, visando futuras produções e além de inteligente, era bastante criativo em suas ações, fora ser extremamente politizado, portanto, claro que fui solidário, e nessa solidariedade, participei de tal passeata, representando A Chave do Sol, porém, me senti bastante constrangido, pois se a reivindicação tinha uma razão de ser, pelo aspecto do cancelamento sumário prejudicando à todos, todavia, estar ali andando com aquele bando de moleques cabeludos, e com as mãos erguidas fazendo o gesto do "malocchio", era de uma infantilidade só...
Quando a passeata dispersou-se na Praça da Sé, fui abordado por um jornalista famoso, que eu conhecia por seus textos, desde a década de setenta. Ele pediu-me uma entrevista, e claro que percebendo a oportunidade, aceitei o convite.

Infelizmente, é claro que ele não estava nem um pouco interessado em saber da minha banda, querendo apenas colher informações para uma matéria que estava escrevendo sobre a cena do Heavy-Metal no Brasil. Por um instante, conjecturei mentalmente que se um jornalista daquele calibre, escrevendo para uma grande revista de circulação semanal, estava preparando matéria, logicamente que a tal cena crescia, e o faro dele indicava isso.

Já cansei de falar, mas realço : eu nunca gostei desse gênero musical, mas enxergava nele, uma oportunidade, talvez a única em que A Chave do Sol se encaixaria naquela árida ambientação oitentista, se ambicionasse o mainstream. 


Bem, precisava ser simpático e solícito com o jornalista, tentar "puxar sardinha" para a minha banda, e não alfinetar o Heavy-Metal, para não ser desagradável. Em suma : uma "saia justa" e tanto.

Fui falando, mas ele sempre recorria ao assunto que lhe interessava, perguntando sobre a cena; usos e costumes de seus participantes; tribos; "headbangers", e todo aquele universo onde eu, definitivamente, jamais fiz parte !!

Percebi que o jornalista estava frustrado com minhas respostas sem paixão alguma pelo assunto, apesar de meus esforços para não ser descortês, e num dado momento, pediu-me dicas de shows para ele sentir a vibe da cena, in loco etc. Convidei-o a comparecer ao Teatro Lira Paulistana, onde faríamos shows no final de dezembro (já comentei sobre), e de fato, ele apareceu, mas deve ter frustrado-se ainda mais, visto que A Chave do Sol parecia muito mais uma banda setentista e anacrônica, para quem esperava um show de Heavy-Metal oitentista. 


O nome desse jornalista era Okky de Souza, famoso critico musical que eu conhecia (não pessoalmente, até esse dia), e admirava desde os anos setenta, lendo suas matérias na revista "Rock, a História e a Glória" , e naquele momento, trabalhava para a revista "Veja".


O último compromisso do ano, foi no Teatro Lira Paulistana.

Topamos fechar a data, supostamente insalubre, por ser um dia após o dia do Natal, mas para nós, qualquer dia, era dia de Rock, com o perdão do terrível clichê... 


Sendo assim, fomos para o teatro Lira Paulistana, no dia 26 de dezembro de 1984, onde tivemos a agradável companhia da banda dos irmãos Giudice, o "Abutre", como abertura do evento.

Cerca de 150 pessoas estiveram presentes, público que consideramos muito bom, pelo inusitado da época do ano, e pelo fato de não termos tido apoio de programas de rádio e TV, desta vez.

Mas o show em si, apesar de ter sido bom, não foi o principal evento do dia, para nós. 

Foto do Ano Luz, banda do vocalista Fran Alves (no destaque), que estava encerrando atividades no final de 1984

No camarim, recebemos a visita do vocalista, Francisco Dias Alves, bem conhecido no meio Rocker de São Paulo. 

Os contatos estavam sendo feitos desde um certo tempo, quando recebemos a informação de que sua banda, chamada "Ano Luz", estava encerrando as suas atividades, e isso estava ocorrendo concomitantemente ao fato de termos perdido o nosso ex-vocalista, no início de novembro. 
O Ano Luz em ação na Praça do Rock, em agosto de 1984, em foto clicada pelo poeta Julio Revoredo

Nessas conversas preliminares, fizemos então o convite formal, e ele pediu para esperar uns dias, antes de avançar nas conversações, pois queria ter certeza de que o "Ano Luz" estava mesmo fechando suas portas.
Essa atitude era ética, nobre, e claro que a respeitamos, e indo além, apreciamos como norma de conduta ilibada, da parte dele.

 Então, no camarim do Teatro Lira Paulistana, ele nos visitou, e comunicou que estava oficialmente disponível, e que sim, aceitava o nosso convite.

Ficamos muito contentes, pois o potencial dele como vocalista e fontman, era imenso, conforme já tínhamos avaliado, e corroborado pelo poeta Julio Revoredo, que fizera algumas observações a nosso favor, como um agente de campo, pró-Chave. 

Outra foto de Julio Revoredo que impressionou-se com o vocal de Fran Alves em agosto de 1984, assistindo o Ano Luz em ação.

Celebramos esse engajamento de um novo membro, ali mesmo no camarim, tendo como testemunhas, os amigos da banda "Abutre", e o próprio poeta Julio Revoredo, que era um admirador confesso de Fran Alves, como vocalista.

Combinamos o início dos ensaios para os primeiros dias de janeiro de 1985, assim que se encerrassem os dias mortos do pré e pós Reveillon.

Assim encerrou-se o ano de 1984, um ano onde tivemos um crescimento muito grande, e dessa forma, nos sentíamos credenciados a acreditar num 1985, ainda melhor. 

Ficha datilografada que estava nas mãos do apresentador Tadeu Jungle, quando de nossa última apresentação na Fábrica do Som, em junho de 1984. Acervo pessoal do poeta Julio Revoredo, que gentilmente o cedeu para ilustrar a minha autobio.

Perdemos tempo com o vocalista anterior, mas agora estávamos fechados com alguém muito mais maduro e experiente, fora o seu nível técnico inquestionável.

Farei ainda um parênteses para comentar alguns fatos de 1984, antes de encerrar essa etapa e começara enfocar o ano de 1985, para A Chave do Sol.

Parafraseando o jingle do Rock in Rio, que àquela altura, martelava com insistência na mídia : "Se a vida começasse agora"...

Era o que queríamos para 1985...



Continua...
 

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