segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 162 - Por Luiz Domingues


Conformados em fazer a apresentação em trio, sem a presença do vocalista Chico Dias, fomos à Danceteria Raio Laser, participar do evento.

Apesar de ser uma quinta-feira, havia um bom público presente na casa. Cerca de 400 pessoas circulavam pelo ambiente. 


Algumas bandas tocaram e de fato, como o Mister Sam nos dissera, (com exceção do Anthro, e do Lixo de Luxo que eram bandas formadas por bons músicos, e eram até anacrônicos nos anos oitenta, pois traziam nítidas influências setentistas em seus respectivos trabalhos), o restante dos participantes eram bandas de moleques, completamente desconhecidas, e em sua maioria, de Heavy-Metal, barulhentas e infantiloides, como era de se esperar. 

Havia também o "Nota Fiscal", como uma banda que buscava a sorte no nicho New Wave, tentando pegar o vácuo do humor de bandas como Magazine, Ultraje a Rigor etc.

Tocamos como trio, com a garra habitual, e sem nenhuma falsa modéstia, tampouco soberba, por favor não me interpretem mal, é claro que nos destacamos em meio àqueles molequinhos (referindo-me aos metaleirinhos desconhecidos). 

Essa matéria saiu na edição de outubro de 1984, na revista Rock Stars, nº 11

Nos "classificamos" para uma nova etapa, mas nunca foi marcada essa outra oportunidade, e pior ainda, jamais ocorreu o tal show com cachet que nos fora prometido. Paciência...

Na saída, peguei carona com um amigo. Já passava das 2:00 h. da manhã, e não tinha alternativa para sair dali, a não ser com essa carona caridosa.

Mas, infelizmente, não sabia o risco que estava correndo, ao aceitar tal oferecimento... 

Essa matéria acima saiu na Folha de São Paulo, e fala sobre a cena do Heavy Metal em 1984, pegando o gancho de um show ao ar livre que estava sendo anunciado para ocorrer na Praça da Sé, no centro de São Paulo. E ainda como o Teatro Lira Paulistana tornara-se um "point" para shows do gênero. A Chave do Sol é citada en passant como membro desse rol. Duas curiosidades na foto : a banda se apresentando é o "Santuário", que era da cidade de Santos, e na plateia, a segunda pessoa da esquerda para a direita, no primeiro degrau da arquibancada, é o hoje saudoso Hélcio Aguirra, na ocasião, guitarrista do Harppia, e posteriormente, do Golpe do Estado. Esse recorte de jornal pertence ao acervo do poeta Julio Revoredo, que gentilmente emprestou-me para ilustrar este capítulo.

O rapaz em questão, estava acompanhado de sua namorada, e o clima entre eles parecia não estar muito bom. Bem, claro que eu não tinha nada com isso, e também não poderia supor que correria risco de vida em poucos minutos, por conta desse clima entre o casal.

Sentei-me no banco de trás, naturalmente, e mantive-me calado, reservando-me num momento de tensão alheia. Então, quando o carro pôs-se em movimento, percebi que eles resmungavam com animosidade entre si. 


À medida que o carro avançava em direção à avenida Santo Amaro, os resmungos aumentavam, e o clima foi azedando. Quando já estávamos na avenida, percebi que o rapaz pisava mais firme no acelerador, conforme a discussão se acalorava.

Na rampa de acesso em direção à avenida Brigadeiro Luiz Antonio, a discussão explodiu. Já não resmungavam mais, entrando nos gritos, ofensas e choro compulsivo, ambos.

E o "pézinho" no acelerador, respondeu ao impulso da cólera, indo até o fundo... 


Tudo bem que passava das 2:00 h. da manhã, mas o rapaz perdeu a noção completamente, e ultrapassou todos os semáforos vermelhos, numa velocidade absurda, deixando-me apavorado no banco traseiro.

Só me restou torcer para não haver uma colisão, que seria gravíssima naquelas circunstâncias. 


Passar voando no farol vermelho da avenida Brasil, entre outros cruzamentos perigosos da avenida Brigadeiro Luiz Antonio, foi de uma imprudência ímpar.

Quando o carro perdeu velocidade, enfim, quase na altura da rua Tutóia, o motorista resolveu parar, e numa rápida conversa com a moça, pareceram selar a paz.

Um pedido de desculpas lacônico foi feito para mim, com o rapaz olhando-me pelo retrovisor, e claro, o que me importava naquele instante, era o fato de nada ter acontecido, e estarmos vivos, sãos e salvos. 


O bizarro dessa história, foi que eu não senti em nenhum momento, no durante e no posterior, que o casal mensurou o perigo que corremos. Fiquei com a nítida impressão de que relevaram o perigo real que corremos, em detrimento de sua estúpida briguinha, que deve ter sido motivada por ciúmes, dentro daquela danceteria.

Bem, meu anjo da guarda é forte, ou foram os Deuses do Rock, pois sobrevivi, passei por um monte de outras coisas, e estou aqui escrevendo essa história, quase 29 anos depois (quando escrevi o original no Orkut, em 2013)...

Mas o final de semana seria bem cheio. Tínhamos importantes compromissos, e uma surpresa desagradabilíssima nos próximos três dias...



Continua...

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