domingo, 20 de julho de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 146 - Por Luiz Domingues


A danceteria "Tífon" ficava localizada bem ao lado do shopping Ibirapuera, em Moema, bairro da zona sul de São Paulo. 

Conforme já comentei, era uma danceteria mais radical, diferente das outras, no sentido de que a maioria tinha aquela aura oitentista por modismo e adequação pura e simplesmente, sem nenhuma preocupação ideológica com o movimento A, B ou C.

Já a "Tífon", era conduzida por entusiastas das estéticas oriundas do Pós-Punk e sabíamos que geralmente só abria as suas portas para artistas coadunados com tal estética, e seu público era formado por seguidores de tais ideais. 


De fato, do dono ao mais humilde funcionário da faxina, todos pareciam fazer parte de um vídeo-clip do Bauhaus, Siouxie and the Banshees e similares...

Da questão da briga, soubemos de alguns fatos, por várias versões. 


Conhecidos nossos do mundo do "Heavy-Metal", vieram nos dizer que realmente uma turma de punks, entrou no recinto com a clara intenção de provocar o Robertinho de Recife, e seu público. Não eram muitos os admiradores do guitarrista pernambucano, agora tentando se impor como "Guitar Hero" de Heavy-Metal, portanto, foram alvo fácil das provocações.

Segundo soubemos, o Robertinho se enervou com isso e bateu boca com os opositores, dando início à um tumulto generalizado, que teria danificado o P.A., e certamente muito mais coisas na casa.

Mesmo jovem e ingênuo, eu não havia engolido aquela versão da "Tífon" de que "News Wavers" teriam brigado ou pior, motivado a briga. De todas as tribos derivadas do Pós-Punk,  essa tribo era uma das poucas não hostis, e sua postura não evocava truculência como um princípio, ao contrário de outras, bem belicosas. Eram até meio efeminados e tinham uma indisfarçável admiração pelo Glitter-Rock setentista.

Todo fã do Duran Duran ou Adam & the Ants, potencialmente gostava de David Bowie e Marc Bolan, portanto não seguiam necessariamente as "ordens" do "manifesto de repúdio ao passado", ditado em 1977. 

Bem, estávamos nos metendo num imbróglio e nesta altura em que escrevo (2013), adoraria poder fazer uma "viagenzinha" básica no tempo e mudar essa história, mas como não posso, resta-me relembrar e lamentar o não cancelamento desse show maledetto... 


Enfim, ensaiamos o nosso show normal, mesmo conscientes de que poderíamos ter problemas como o Robertinho de Recife enfrentou, uma semana antes, embora não achássemos que haveria novo tumulto nesse porte.

Fomos para o show com essa hipótese na cabeça, mas sem temores acentuados, e por um lado, até animados para fazer uma noitada legal para os nossos fãs.

Era uma sexta-feira, dia 13 de outubro de 1984. 


O dia anterior houvera sido feriado nacional, portanto, estávamos num dia útil "emendado" pela maioria, prolongando o final de semana. 

Chegamos à Danceteria Tífon para o soundcheck e o equipamento do Pércio, que havíamos contratado, estava todo montado e ele fazia testes de equalização. Da parte dele, tudo legal, com profissionalismo e camaradagem.

Mas os problemas começaram com os funcionários da casa. 


Bastante mal educados, nos tratavam com rispidez, mal respondendo perguntas básicas e absolutamente necessárias, como por exemplo : "onde fica o camarim, por favor ?" 

Até então, ok, isso não nos arrancaria pedaços, poderíamos suportar a grosseria generalizada.

Fizemos o soundcheck, chegando num resultado confortável e isso era tranquilo com o Pérsio operando, um cara competente e bastante equilibrado no trato humano, com os músicos.

O camarim estava um horror. Com uma bagunça generalizada, como se fosse um sótão cheio de bugigangas guardadas sem sentido algum, que não fosse a preguiça de jogar fora tais quinquilharias. 


Ficamos com a impressão de serem objetos de cena usados por alguma companhia de teatro, mas em mau estado de conservação e assim, sem objetivo de reuso.

Lembro-me até de haver a existência de um caixão de defunto na coxia, onde o nosso amigo Wagner "Sabbath"(que nos acompanhou nesse show como um misto de roadie e segurança), ter brincado de entrar nele e ter tirado fotos. 


O forro do caixão era de um púrpura profundo (não resisti ao trocadilho !!), muito intenso e a performance engraçadinha do Wagner, despertou gargalhadas, raro momento de felicidade nesse dia...

Antes de falar do show em si, preciso contar que paralelamente, esse final de semana nos reservaria um drama pessoal motivado pelo Chico Dias, que estenderia-se até a segunda-feira posterior. Isso só potencializou toda a tragédia oitentista da Tífon...



Continua...

2 comentários:

  1. Pela época, 1984, já tenho ideia de quem arrumava treta...
    Como é bom a juventude, apesar dos reveses, das dificuldades conseguiram se divertir com o caixão e o trocadilho, púrpura profunda veio a calhar, muito bom.

    ResponderExcluir
  2. Pois é, época difícil com tantas tribos agressivas e motivadas pela mentira de 1977 !!

    Enquanto um marketeiro inconsequente como Malcolm McLaren nadava em dinheiro e seu subproduto, Johhny Rotten vivia como Rock Star que ele dizia odiar, os idiotas que acreditaram nessa presepada saiam às ruas para "dar porrada" em quem não concordasse com isso. Depois alguns me chamam de exagerado, mas alto lá : isso não era um baita revival do fascismo ?

    Sim, claro...a época era baixo astral para rockers velha guarda como nós, mas estávamos motivados por outros motivos e tentávamos trabalhar e progredir, apesar das adversidades.

    Púrpura profundo foi divertido mesmo...ha ha ha !!

    ResponderExcluir