segunda-feira, 28 de julho de 2014

Camila - Por Tereza Abranches


Momentos que duram eternidades, ou seriam eternidades dentro de um momento, de alguns minutos... não saberia dizer.

O que eu senti não pode ser descrito em palavras, em pensamentos, em nada, só o coração seria capaz de expor tal magnitude de mil corações em um só, naqueles momentos.
Como ser grande o suficiente pra conseguir reduzir tudo ao tamanho de um simples coração?

Naqueles momentos, eu vi uma parte de mim que, feita mulher, seguia seu caminho divino.
Uma parte imensa de mim, que brotou do meu corpo e desde então leva consigo parte da minha alma.

Naqueles momentos, vi um bebê correndo pela vida, tropeçando nas palavras, nos próprios pezinhos e sorrindo como só ela sabia sorrir.

Vivi, naqueles breves momentos, todo um turbilhão de emoções e a Vida se fez presente.
Presente pra mim, presente pra ela.

Ela, que colhia pequenas flores, folhinhas, beijos e abraços e me trazia, colocava no meu colo, aninhava-os no meu peito, e eram presentes que nem a criatura mais rica do mundo poderia comprar, ela me dava.

Naqueles momentos, quando eu achava que todo o Amor e todo o Sentimento já tinham sido vividos e compartilhados, eu a vi.
E ela vinha, linda, e as pequeninas flores que um dia me deu, agora enfeitavam de Luz e Paz os seus cabelos.

Rosas nas mãos, como um dia em minhas mãos estava seu corpinho minúsculo, quente, doce, amado...
E o meu bebê, agora feita mulher em toda a sua plenitude, surgiu à minha frente e mil auroras a acompanhavam, mil Anjos cantavam à sua volta, meus mil corações batiam ao ritmo do coração dela.
Lágrimas... lágrimas de Amor, de Alegria e Paz desceram, e cada uma delas trazia uma fase de sua vida, fases que marcaram a minha vida, a vida dela e que culminavam naqueles momentos, em uma nova fase.

E eu fui feliz.
Eu fui mãe.

Eu fui corpo que floresceu e deu vida à sua vida.

E eu amei naqueles momentos com o Amor de Maria de Nazaré, tão profundo e transcendente como só o Amor de Mãe pode ser.
A cada passo que ela dava pra chegar ao altar, o tempo a acompanhava.
Na porta ela era o meu bebê, mais à frente, minha menininha, um pouco mais, minha menina flor, e quando ela chegou ao altar, uma esplêndida mulher em toda a sua dignidade, honra e caráter... a Mulher-Camila, que eu agradeço infinitamente ao Altíssimo hoje e sempre por ter me permitido ser sua mãe.






Tereza Abranches é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Escritora e artesã, desenvolve também estudos sobre literatura e espiritualidade.


Nesta crônica, nos passa toda a emoção vivida no casamento de sua filha, Camila, com o seu jovem genro, Bruno Matos. Fotos reais do casamento, disponibilizadas pela Tereza.
 


Conheça seus trabalhos de artesanato, através desses links :
 

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quarta-feira, 23 de julho de 2014

A Hospitalidade de Dorinha - Por Marcelino Rodriguez

Dorinha é uma meio basset de uma amiga e tão educada, que se fosse gente, seria uma erudita de delicadezas, moça de ter lido , ao menos,  mais de dez poetas. 
Recebe os convidados sem rosnar, como convém aqueles que ainda tem a hospitalidade entranhada na educação.  Uma dama e como tal, eu, um cavaleiro dos velhos tempos,  se derrete em jardim.   
Foi a primeira a me receber e assim ficamos brincando por minutos que me fizeram esquecer, nesse minutos sem conta,  todas as repúblicas de patetas que existem na galáxia.   
Repúblicas de verdade existiriam se os homens fossem governados por sábios filósofos e hoje em dia não se lê nem Pablo Neruda nas escolas de base.   
Paulo Francis dizia conhecer um leitor de Platão só pela risada.

Dorinha é culta.

Enquanto a amiga vai ver umas coisas no escritório,  até que iniciássemos nossa prosa, a pequena Basset fica aninhada em meu colo confortavelmente, olhando o universo como se eu e ela fôssemos os grandes personagens de toda essa engrenagem entre nuvens e  estrelas. 
Conquistou meu coração para sempre, saber que ela não rejeita um intelectual quase honesto, nesse país de gente esquisita. Gente que não sabe ficar com prazer ao lado de seu próximo. 
Gente que rosna. 
Gente para quem não somos nada, quando não temos  capangas nem marketing. 
Dorinha me provou, naquela tarde, que nos cachorros letrados a sensibilidade de excelência e a sabedoria do Tao ainda existem em algumas poucas criaturas, as que sobrarão quando Jesus voltar.   
E como demora a voltar, não ? 

Nossa. 
Dorinha é o que há.  Para ela, sou um Nobel.  


Enquanto houver cachorros, terei esperanças.

 

Marcelino Rodriguez é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos traz a história de Dorinha, uma cadelinha Basset muito culta.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 153 - Por Luiz Domingues


O palco foi inteiramente renovado e o P.A. do Circo Voador, recebeu reforços significativos de caixas.

Vimos um impressionante equipamento particular do Rádio Táxi sendo instalado muito rapidamente, por um exército de roadies, e ficou claro que o som deles seria muito melhor do que o das bandas anteriores, e em relação ao Metrô, ficava a ressalva que tinham bastante equipamento, ainda que estivessem coadunados com as sonoridades oitentistas medíocres por opção, pois tinham condições de fazer algo muito melhor pelo fato de serem ótimos músicos (exceção à vocalista Virginie, que como cantora, era só uma moça bonita.). 


O Rádio Táxi era outro caso de uma banda de excelentes instrumentistas com a intenção deliberada de fazer uma música pop e 100% coadunada com aquela estética em voga.

Egressos dos anos setenta, não tiveram dúvida em cortar o cabelo bem curtinho, encomendar roupas de dândis, e o pior de tudo, evocar aquelas sonoridades abomináveis. Para tocar aquele som, foram fundo, e tal como o Metrô, usavam instrumentos modernosos e ridículos como o famigerado baixo Steinberger, aquela escrotice "Dark", metida a futurista...

Como resultado, a sonoridade era horrível e só lamentávamos o fato de músicos de enorme capacidade estarem fazendo aquilo somente pelo dinheiro, mas com a maturidade adquirida, hoje eu me pergunto : não teríamos feito a mesma opção se tivéssemos a mesma chance ?

Mas essa constatação ia além do lamento, pois mexia diretamente conosco. 


Tal realidade nos fazia elocubrar a nossa própria expectativa de carreira. 

Sendo muito francos conosco mesmos, quantos por cento, não queríamos estar naquela situação confortável do Rádio Táxi, Metrô e outras bandas que estavam gozando as benesses de uma carreira bem estruturada no mainstream ?

Todavia, na época, não pensávamos dessa forma. Claro que ambicionávamos o mainstream, e era óbvio que o mercado oitentista estava borbulhando para o Rock, mas nesses moldes das estéticas oitentistas que abominávamos. 


E nessa altura dos acontecimentos, não bastava só ir ao barbeiro e cortar o cabelo com um corte esquisitinho, e usar muito reverb e chorus nos instrumentos. Já estávamos na luta, e mesmo que num patamar muito inferior ao que esses artistas privilegiados estavam usufruindo, pelo fato de termos música tocando em rádio; muitas aparições na TV, e portfólio em franco crescimento, não havia meios de retroagir, remodelando a carreira.

Seria digno de filmes de Cheech & Chong, se uma banda com a nossa sonoridade e identidade ideológica, aparecesse da noite para o dia, com visual Pós-Punk, e músicas novas coadunadas com aquela estética...

Deixaríamos de tocar "18 Horas" repentinamente, e seríamos o "Echo and the Bunnymen "do Itaim-Bibi, assim, num piscar de olhos ?

Ha ha ha !! 


Claro, mera especulação, pois não havia meio de nós pensarmos numa estratégia desesperada dessas e convenhamos, nunca cogitamos uma bobagem desse porte, pois tínhamos muitas esperanças em atingir o mainstream, mas por outros meios.

Estávamos muito confiantes na possibilidade do mercado expandir-se, abrindo um outro nicho, fora dessa egrégora do Pós-Punk, ou seja, seguindo a tendência do mercado americano e europeu, onde haviam os dois polos funcionando concomitantemente (referindo-me ao Hard-rock e Heavy-Metal).

Era para esse lado que deveríamos pender, mais próximo de nossa realidade, apesar de também ser terreno inóspito para rockers que comungavam pela velha cartilha 60/70. 


Bem, voltando ao assunto, o som do Rádio Táxi estava todo arrumadinho para ser modernoso e estar coadunado com a estética da época, mas como a intenção era ser pop e leia-se o conceito pop, como algo bem perto do popularesco, ou seja, era como se o The Fevers, ou os Pholhas tivessem tomado um banho de "modernidade", e estivessem fazendo seu som, travestidos de banda Pós-Punk, só para seguir um modismo de ocasião.

Fora o fato de terem excelentes músicos e portanto tocarem com uma segurança incrível, o Rádio Táxi  soltava aqui e ali, pequenos lampejos de Prog Rock, Jazz-Rock, muito sutis, e dava para entender. Parecia que faziam isso como fumantes de escritório, que dão aquelas escapadas para os fumódromos, buscando um alívio rápido...

Não deixava de ser um mérito, claro e os caras já tinham muitos Hits naquela época, com o público respondendo de forma rápida a cada canção de apelo radiofônico e noveleira que executavam, daí as "escapadas" para um som sofisticado no meio do set list.

Foi um show longo, e embora o público demonstrasse estar curtindo, nem de longe havia aquela euforia, que verificamos quando chegamos ao Circo Voador, e o Camisa de Vênus se apresentava.

Fomos para o apartamento da irmã do Zé Luis, conversando sobre todas as observações que fizéramos, e no dia seguinte, por volta das 14:00 h, fomos à rodoviária, onde o Rubens e o Chico Dias chegariam, acompanhados do amigo Claudio "Capetóide", que viria improvisadamente como roadie. 



Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 152 - Por Luiz Domingues


Felizmente, esse final de semana de terror, encerrou-se com a garota do Chico Dias voltando para a casa, e chegando sã e salva à Porto Alegre.

Apesar do abatimento que essa história toda nos causara, não tínhamos tempo para cair na depressão, pois mesmo com a humilhação daquele show malogrado na Danceteria Tífon, e a agravante de nossas economias estarem voando num cheque, em direção à um bolso alheio (nem contando o baixo astral perpetrado pela onda de azar cinematográfica de Chico Dias e sua namorada),  precisávamos levantar o ânimo, pois no sábado subsequente, estávamos escalados para tocar no Festival BR-Rock, no Circo Voador, do Rio de Janeiro. 

A produtora do Língua de Trapo, na época de minha segunda passagem pela banda, Cida Ayres, e que muito auxiliou A Chave do Sol nesse ano de 1984

Lograra êxito a nossa investida em setembro, e graças à um empurrãozinho da produtora Cida Ayres, a produtora do Circo Voador, Maria Juçá), gostou do nosso material, e nos escalou para a noite do terceiro sábado do festival. 

Claro, ficamos eufóricos com essa possibilidade de estar num festival de grande porte, tocando em meio à muitas bandas que estavam na crista da onda do mainstream, e no Circo Voador, lugar muito "cool", no Rio.

Era hora de espantar o baixo astral, e ensaiar com bastante atenção, e foi o que fizemos nessa semana que antecedeu o nosso show no Festival. 


Como o Zé Luis tinha sua irmã mais velha morando no Rio, propôs que eu fosse com ele um dia antes, para fazermos mais contatos e diante dessa possibilidade de ter um lugar para ficar, claro que aceitei.

Eu e Zé Luis fomos para o Rio, na madrugada de quinta para sexta, e chegamos bem cedo. Da rodoviária, fomos direto para Ipanema, onde descansamos um pouco no apartamento da irmã dele, e logo depois do café da manhã, saímos para aproveitar ao máximo o dia.

Iniciamos com uma visita à redação da Revista Roll; fomos à Rádio Fluminense, e visitamos algumas lojas de discos. No meio da tarde, visitamos o Circo Voador para dar uma olhada no equipamento e movimentação do dia, quando a Maria Juçá nos convidou para que assistíssemos os shows programados para aquela sexta-feira.

Claro que tencionávamos voltar ali à noite, mas tínhamos ainda muitas horas pela frente, e resolvemos voltar à nossa hospedagem no apartamento da irmã do Zé Luis, e descansar, tomar banho e jantar. 


Mas tínhamos um plano antes de ir ao Circo Voador. Resolvemos ir ao Parque Laje, onde na mesma noite, ocorreria um show dos Paralamas do Sucesso. Não queríamos ver o show, mesmo porque não daria tempo, mas a nossa intenção era sentir a vibe do lugar, que eu particularmente conhecia apenas pelo cinema, com cenas de filmes como "Macunaíma" e "Terra em Transe", que ali foram produzidas.

De fato, o local era belíssimo, e usado para show de Rock, com a possibilidade do uso de iluminação, ficava fantástico. Tocar ali não seria nada mau, mas pelo que sentimos, não era um espaço que estava sendo utilizado com essa finalidade, com constância. 


Portanto, não adiantava nada procurar saber quem estava produzindo aquele show dos Paralamas, naquele instante, pois era algo inusitado e sazonal, numa primeira impressão. 

Fomos para o Circo Voador e quando lá chegamos, tivemos uma certa dificuldade para entrar, por conta de seguranças truculentos e despreparados. Bem, nenhuma novidade em se tratando de Brasil e convenhamos, 2013 em curso (quando escrevo este trecho), e isso não melhorou muito em shows...

Quando finalmente entramos, a casa estava absurdamente lotada. Não dava para se mexer, literalmente, e o miolo da pista parecia uma guerra campal, pela ação do famigerado "Pogo", aquela prática "escrota" e tipicamente oitentista do público não prestar atenção no artista no palco, mas usar o som do show para debater-se uns aos outros, denotando a iconoclastia punk de 1977, onde o artista era encarado como um mero joguete de rituais truculentos de ordem primitiva, e não como protagonista artístico de um espetáculo cultural.

O Camisa de Vênus tocava, e mesmo eu sabendo que o Marcelo Nova é gente boa, e é Rocker, claro que o Rock'nRoll raulseixista que ele professa, passava ao largo em 1984, e ele e seus amigos se aproveitavam da moda do Pós-Punk, surfando nessa onda. Aquela conversinha fiada de que faziam "Rock'nRoll", era mera retórica distorcida, pois na prática, o som que faziam era um punkinho sem eira, nem beira, e o público adorava aquela tosquice atroz sobre quem matou Joana D'Arc, ou coisa que o valha.

Bem, constatar a realidade oitentista no meio da erupção, parecia inevitável... 


Ficamos assistindo do fundo, pois tentar aproximar-se seria um exercício de masoquismo, que definitivamente não estávamos interessados em nos submeter.

Quando o show do Camisa de Vênus encerrou-se, o público dispersou em direção ao bar, e muita gente saiu do Circo para se recompor e respirar, com aquele calor todo.

Aproveitamos a brecha e fomos para a coxia, onde o Metrô se preparava para entrar em cena, enquanto roadies apressados faziam a troca de set up.

Muito simpático, o baterista Daniel, lembrou-se de mim e veio conversar conosco. Falara com ele quando toquei com o Língua de Trapo no Festival de Águas Claras, em março daquele mesmo ano, e eles ainda se chamavam "Gota Suspensa"(essa história está contada em detalhes no capítulo do Língua de Trapo). 


Ele mesmo rememorou isso, e dizia que a vida tinha mudado da água para o vinho, e estavam "morando" dentro de aviões e quartos de hotéis, há meses. No sábado, iriam fazer um show em Salvador, mas no domingo, voltariam ao Rio, para gravar o programa do Chacrinha.

Um caso raro de pessoa humilde que foi para o mainstream (falarei sobre outro, logo mais), fiquei feliz por vê-lo num momento de ascensão incrível. 

Sabia que aquele New Wave oitentista e robótico que tocavam, o desagradava, pois o negócio dele era o Rock Progressivo setentista, mas como era bonito, por outro lado, ver um conhecido chegando no mainstream !!

Bem, ele se despediu, e nos convidou a ver o show, mesmo sabendo que "não era a nossa praia", e foi para o palco, onde já o chamavam com insistência e certa tensão. 


O show deles começou e realmente era muito decepcionante ver músicos bons a serviço daquele pop raquítico. Aqueles timbres de plástico doíam nos ouvidos. Baixo Steinberger; bateria sintetizada; aqueles teclados de timbres ridículos, e a guitarra plugada num insípido amplificador Roland Jazz Chorus...ninguém merecia, nem mesmo em se considerando que estávamos em 1984...

A performance deles era perfeita para aquela estética. Muito bem vestidos, mas naqueles parâmetros de dândis oitentistas, cortes de cabelo escrotos, e muito gel...

Pareciam os músicos do Kraftwerk, com coreografias robóticas, dignas daquela época, e tudo parecendo um copião de Blade Runner. 


Absolutamente deprimente...

Encerrado o Metrô, era a hora do headliner da noite, os paulistanos do Rádio Táxi...


Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 151 - Por Luiz Domingues


Desta vez, não fui chamado para ser o "bombeiro", mas o Carlos Muniz Ventura me ligou para contar-me que naquela hora (cerca de 13:00 h), estava tudo bem, mas quase acontecera uma tragédia, horas antes.

Segundo Carlos, ele fora acordado por volta das 8:00 h da manhã, com o Chico Dias berrando, desesperado. Aos gritos, ele dizia : -"Minha mina morreu..." 


Transtornado com essa informação chocante, o Carlos foi imediatamente ao hotel, socorrer o casal. Mas nessa altura, alguém do hotel já havia solicitado uma ambulância.

O Carlos chegou quase simultaneamente ao resgate e aliviado, descobriu que a moça estava viva, embora desmaiada.

Levada imediatamente para o Hospital das Clínicas, foi diagnosticado o seu desmaio como reação do organismo por falta de insulina, visto que ele era diabética e naquele stress todo do final de semana tumultuado, esquecera-se de injetar sua insulina diária.

Tremendo de um susto !!!

Ela ficou internada por mais um dia e teve que trocar a passagem de volta para o sul, mas nem de longe, foi o pior problema que enfrentou naquele final de semana dantesco.

O Chico Dias que era carrancudo e pessimista por natureza, depois desse evento todo, piorou...

E a vinda de sua namorada que tinha o objetivo de promover a sua autoestima, mas no "conjunto da obra", acabou tendo efeito inverso !! 


O melhor remédio dali em diante, seria mesmo tentar esquecer tudo, e seguir em frente nos nossos planos.

Pensando em física quântica, teria bastado cancelar o show da Tífon, assim que soubemos que teríamos que alugar um P.A. por nossa conta.

Nossa insistência em fazer um show numa casa que sabíamos ser hostil e pior, correndo alto risco financeiro, foi uma sandice.

Talvez, se tivéssemos de fato cancelado, não houvesse a ideia do Chico Dias, de trazer sua namorada. 


No campo das infinitas variantes que precipitam-se à cada peça que mexemos no tabuleiro de xadrez, é fascinante verificar que tudo poderia ser diferente...

Bem, a vida seguiu, apesar desse final de semana de derrotas múltiplas...



Continua...

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 150 - Por Luiz Domingues


Bem, voltei para a casa aliviado, mas estava ainda muito aborrecido pelo desastre humilhante da noite anterior, também pelo prejuízo financeiro, e estressado com esse sufoco repentino para alojar Chico Dias e sua namorada.

Mais tarde, com todo mundo tendo melhorado o humor consideravelmente, nos encontramos novamente no Metrô e fomos dar uma volta na Av. Paulista. 


A garota (guria !), queria conhecer o MASP (Museu de Arte de São Paulo), mas naquele horário noturno, não estava aberto.

Estava tudo calmo e fomos embora.

O casal estava rindo, enfim, e foram para a sua sossegada noite de amor, que lhes desse paz, ainda bem... 


Mas outra bomba estava reservada para a manhã de domingo...

Novamente fui tirado da minha cama com a notícia de que uma coisa horrível acontecera, gerando stress na casa do Hélio. 


Simplesmente os pais dele anteciparam sua volta à São Paulo, e surpreenderam um casal jovem e completamente estranho, dormindo nus na sua cama !!!

Furiosos, expulsaram-nos aos gritos, mal tendo tempo para se vestirem...

Estressado, Chico Dias não sabia o que fazer e o Hélio entrou num castigo "enclausurante", onde só consegui falar com ele, vários dias depois...

Pensar...pensar...onde alojar esses dois por mais um dia, visto que a namorada só voltaria à Porto Alegre na segunda-feira, por conta da passagem comprada antecipadamente ? 


Outra hipótese maluca ocorreu-me : lembrei-me do Hélcio, aquele fã abnegado que levava faixas às gravações da Fábrica do Som, para incentivar-nos e que intermediara três shows para nós na sua cidade natal, Atibaia, no interior de São Paulo.

Ele estudava em São Paulo e morava num apartamento com seu avô, mas o senhor raramente ficava em São Paulo, portanto, na prática, ele ficava sozinho o tempo todo.

Restava-nos saber se o Hélcio estava em SP e quebraria esse galho por uma noite. Liguei e dei sorte : Ele estava, e indo além, estava sem o avô e aceitaria abrigar o casal, sem problemas. Como fã da banda, sentia-se feliz em ajudar e até curtiria recebê-los para tomarem vinho e ouvir música, sendo isso, melhor que estudar...

OK, fui levar o casal até a av. Paulista, onde nos encontramos com o Hélcio. Seu apartamento ficava nas imediações da rua São Carlos do Pinhal, ali perto. Ao contrário da noite anterior, o casal estava em frangalhos novamente, e confesso, eu também estava cansado dessa situação. 


Bem, entreguei-os ao Hélcio e fui para a minha casa. Tudo o que queria era descansar e chegar segunda-feira no ensaio, um pouco melhor, para tocarmos nosso barco adiante.

Mas minha paz não durou muito...

Outro telefonema e lá estava o Chico Dias desconsolado, ligando-me de um orelhão da av. Paulista. O mesmo raio caíra três vezes na cabeça do azarado Chico Dias...

O avô do Hélcio chegou de surpresa e não gostou da ideia do casal ficar ali naquela noite. Não foi aos berros, mas foi feito um convite para eles retirarem-se... 


O Hélcio ficou muito chateado, mas nada podia fazer, pois o avô era de fato o proprietário do apartamento e daí...

Bem, lá fui eu de volta encontrá-los na av. Paulista. Estavam sentados na escadaria da TV Gazeta, cabisbaixos. E desta vez, eu não sabia o que fazer mais para dar um jeito para o casal.


Eu também estava sem recursos e minha casa era pequena naquela ocasião, e sem chance para um oferecimento, nem que fosse de emergência.

Minha ideia foi ligar para alguém daquele grupo de amigos que orbitavam a banda, desde 1982. Algum deles poderia ter uma ideia. 


Gentis como sempre, se mobilizaram e vieram nos encontrar. Nenhum deles poderia oferecer a própria residência, mas organizaram uma vaquinha e dividindo bem, até eu ajudei, apesar de minha precariedade financeira à época.

Após um jantar animado, onde o casal pôde relaxar um pouco, após tantas emoções, os deixamos num hotel nas Perdizes, bairro da zona oeste de São Paulo. 


Dali, havia uma estação de metrô próxima, e os instruímos a dirigirem-se à rodoviária no dia seguinte, sem problemas.

Deixamos o casal à vontade para relaxar no hotel, e fomos embora.

Fiquei muito feliz pelo apoio dos amigos, onde destaco o Carlos Muniz Ventura, que foi fotógrafo de muitas ocasiões importantes da banda, incluso fotos promocionais de encartes de discos (The Key).

Ele liderou a vaquinha e pesquisou hotéis baratos nas imediações onde estávamos etc.

Fui dormir extenuado pelo acúmulo de problemas iniciados, desde a catastrófica noite de sexta, e o show horrível na Tífon.

Mas ainda aconteceria mais uma desgraça...



Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 149 - Por Luiz Domingues



O telefonema atordoou-me : uma mudança repentina de planos da família do Zé Luis, e agora, haviam resolvido passar o fim do feriado na casa de Itapecerica da Serra. O casal tinha que deixar a residência imediatamente, e arrumar onde ficar nos próximos dois dias.

Alguma sugestão ??

A única ideia que surgiu, era a vaga lembrança de que o Hélio, aquele garoto que era aspirante a roadie da Chave do Sol, havia mencionado que sua casa estaria disponível, pois seus pais e irmãs haviam viajado ao litoral, e ele estava sozinho no sobrado.

Minha ligação com ele era tênue, pois o conhecera há pouco tempo, e pelo fato de eu ter namorado muito rapidamente, uma de suas irmãs, chamada Débora. 


Ele empolgou-se em ser "meu cunhado" e embrenhar-se assim no mundo do Rock, que era o seu sonho. Até aí, tudo bem, dei-lhe essa oportunidade, mas o meu namoro com a irmã dele foi curto, não deu "liga"e portanto, não achava que tinha toda essa liberdade para pedir um favor desses, mesmo sendo um oferecimento dele.

Por outro lado, ele também havia estabelecido amizade com o Chico Dias, e estava solidário ao fato do gaúcho estar sofrendo para adaptar-se à pauliceia etc etc.

Bem, incontinente, liguei para o Hélio e mesmo tirando-o da cama, comuniquei-lhe os fatos e solicitei a casa, lembrando-lhe da sua oferta espontânea anterior. 


Ele aceitou na hora ajudar o casal e mediante novos telefonemas, fizemos toda a logística de tirá-los de Itapecerica da Serra e realojá-los na Vila Industrial, um subdistrito do bairro do Tatuapé, bairro da zona leste de São Paulo.

Para quem não conhece São Paulo, dou um exemplo metafórico : é como estar em Mercúrio, e querer ir à Saturno...

Bem, cerca de três horas depois desses telefonemas todos, finalmente fui receber o casal na plataforma da estação Tatuapé do Metrô. Ali encontrei-me com o Hélio, que os levou para a sua casa, tendo ainda que tomar um ônibus, no terminal acoplado à estação.

Estavam com semblantes de muito cansados e contrariados com tudo isso, e posso imaginar o quanto isso estava sendo desagradável para ambos, embora, por outro lado, nós estávamos fazendo o possível para ajudá-los nessa situação e convenhamos, não tínhamos culpa pela falta de uma estrutura de acomodação melhor...



Continua...