quarta-feira, 25 de junho de 2014

Trilhas - Por Tereza Abranches


E que cada luta,
cada tristeza e dança,
reencontro e luz,
que cada flor, charco e estrela,
sombra e aurora 
e cada montanha escalada ao vento...
Que cada batalha vencida,
cada derrota de limites,
que o medo e a coragem
na estrada que se trilha
de ascensão e de queda,
de enigma, claridade e treva
na busca insana pelo infinito...
Que cada ânsia de beleza,
mágoa, força e fraqueza
e cada furacão de desespero e dor,
resultem e resumam
hoje e sempre,
em somente,
e em tão somente
Amor !





Tereza Abranches é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Escritora e artesã, desenvolve também estudos sobre literatura e espiritualidade.

Com "Trilhas", nos aponta através de um belo poema, o caminho interior, como senda segura a ser percorrida.

Conheça seus trabalhos de artesanato, através desses links :

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Elo7: http://www.elo7.com.br/terezaabranches 

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domingo, 22 de junho de 2014

Entrevista para o Blog Disciplina Frustrada !!

Concedi entrevista para o Blog Frustrada Disciplina

Entrevistador : William Kusdra

Apoio : Web Radio Stay Rock Brazil

 http://disciplinafrustrada.blogspot.com.br/2014/06/entrevista-com-o-musico-luiz-domingues.html

Confira !!

sábado, 21 de junho de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 125 - Por Luiz Domingues


No cômputo geral, os dois shows foram muito bons, em todos os sentidos.

Na parte musical, tudo fluiu bem. 


Estávamos muito bem ensaiados e também muito motivados, por ser o lançamento de nosso primeiro disco. 

A ideia de fazermos um show performático, com intervenções teatralizadas e sob a aura do nonsense, deu certo, pois surpreendemos o público.

Muita gente elogiou, pois ninguém de fato, esperava um show com tais elementos, sequer imaginando que não seria um show de Rock tradicional, com a banda tocando pura e simplesmente. 

No máximo um cenário ou algum efeito pirotécnico, mas jamais esperariam tantas coisas "esquisitas"...

Lembro-me de algumas pessoas elogiarem essa iniciativa, tais como : Luiz Carlos Calanca, da Baratos Afins, dono da loja e da gravadora pela qual estávamos lançando o disco; Valdir Montanari, jornalista das Revista Rock Stars e Rock Show, além do programa de Rádio, Sinergia; Antonio Carlos Monteiro, jornalista da Revista Roll, entre outros.

 

Nossos colaboradores também curtiram muito. 

Todos que participaram, se divertiram na produção. Do poeta Julio Revoredo à Edgard Pucinelli Filho; passando por Celso "Esponja"; Daniel "Papel"; Claudio "Capetóide"; Iran; Carlos Muniz Ventura; Seiji Ogawa; Hélio, e Sergio "Borracha".

Também firmamos amizade com o técnico Can Robert, que nos operaria futuramente tanto no Lira em outras ocasiões, como em shows em outros locais, inclusive fora de São Paulo.

O staff do Lira Paulistana também curtiu muito, e as  portas se abriram para mais apresentações futuras. 


Tudo aconteceu nos dias 30 e 31 de julho de 1984.  

O público no dia 30, foi de 85 pessoas, e no dia 31, 120 pessoas (muito bom em se considerando que os shows ocorreram na segunda e terça-feira, "dias mortos" para produzir espetáculos musicais, ainda mais show de Rock autoral).

Cida Ayres, que era produtora do Língua de Trapo, deu uma mão e tanto na produção, auxiliando na divulgação, inclusive.



Continua..

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 124 - Por Luiz Domingues


A terceira participação era a mais produzida, apesar do material usado ser bem simples, improvisado mesmo.

Consistia da entrada do "Homem Abatjour", com uma performance meio fantasmagórica, andando pelo palco e interagindo com a plateia, ainda que sem exageros.

Mais uma vez, a ideia era dar um efeito nonsense, causar estranheza e sutilmente fazer uma analogia com o "Sol" da Chave do Sol.

Durante a execução da música "No Reino do Absurdo", o poeta Julio Revoredo entrou em cena com aquele paramento todo que eu descrevi anteriormente, mas não custa repetir : uma capa preta que lhe cobria até os pés; um abatjour na cabeça, enorme, e por baixo, roupas e sapatos pretos para reforçar. 


O Zé Luis (quem mais ?), preparou toda a engenhoca para acomodar a cabeça do Julio, com a respectiva armação para a lâmpada, e bateria para alimentá-la.

A performance nos dois dias foi muito boa, e causou efeito. 


Foi difícil para o Julio, pois estava quase impossível para ele enxergar alguma coisa, fora o calor que o manto e a luz acesa na sua cabeça, proporcionavam. 

No primeiro show, da segunda-feira, ele assustou uma criança na plateia que saiu correndo, arrancando risos de todos. Era o Victor, sobrinho do Zé Luis, filho da irmã dele, Elizabeth Dinola, e que desenhou a capa do compacto.

Pelo fato de andar às escuras praticamente, o Julio acabou usando isso como performance, caminhando como o Frankenstein clássico do Boris Karloff, o que foi legal para a performance.


  
Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 123 - Por Luiz Domingues

 

O show seguia normal até a quarta ou quinta música, não me recordo ao certo, até que a segunda intervenção cênica ocorresse. E era aquela que descrevi anteriormente, sobre a perseguição e captura de um estranho.

Os "atores" se posicionaram naquele espaço do teatro, entre a entrada da arquibancada e o hall de entrada do mesmo. 


No primeiro dia, foi tranquila a entrada, pois não haviam muitas pessoas em pé naquele instante, posicionadas ali. 

A entrada em cena ocorreu durante o solo de bateria da música "18 Horas", reforçada então pelo fato de que eu e Rubens estávamos quietos e fora dos focos de luz, com toda a ênfase do show no Zé Luis.

O perseguido entrou e escondeu-se atrás do surdo, com o Zé Luis solando, e esforçando-se para não esboçar reações. 


Os três perseguidores vieram a seguir, e fizeram uma simulação tensa, que causou um frisson na plateia. 

Lembro-me de ver várias pessoas se cutucando para chamar a atenção uma das outras e até alguns se levantando da arquibancada do Lira Paulistana, talvez num espasmo de alerta, sem entender o que aquilo significava.

Como já disse antes, uma performance dessas poderia suscitar diversas interpretações na cabeça das pessoas. 


Do ponto de vista do espectador, seria totalmente plausível acreditar que aquilo poderia ser uma briga e perseguição iniciada na rua Teodoro Sampaio, e completamente alheia ao show. 

Nesse caso, essas pessoas estariam ali meramente por acaso, como em cenas de perseguição de filmes de ação, onde brigas acontecem em lugares inusitados em meio à pessoas que não tem nada a ver com isso. 

Não ocorreu nada errado, mas poderia ter acontecido, hoje eu enxergo essa possibilidade. Alguém poderia tentar intervir, por exemplo. E se houvesse um policial na plateia ? O instinto de um profissional desses seria o de agir, por exemplo.

Fora a possibilidade de uma instauração de pânico no ambiente. Bastaria um se assustar e sair correndo, para deflagrar uma ação desse porte e nas condições precárias de escoamento do Lira, poderia tornar-se uma tragédia.

Hoje em dia, eu não faria um sketche assim, num show meu.

Mas nada ocorreu de errado nos dois dias, e cenicamente falando, causou um efeito muito interessante no público.



Continua...

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 122 - Por Luiz Domingues


O som lounge ambiente, era na verdade, o clima pré-show dando o momento de começar a performance... 

Era estratégico e cronometrado, combinado com o técnico do P.A.,  Can Robert, que tornaria-se nosso amigo doravante, e operaria a banda em alguns shows fora do Lira, também, no futuro. 

Já faz anos, o Can Robert é técnico fixo dos Titãs, e naquela época, trabalhava com Os Inocentes, e diversas outras bandas da cena punk e do pós-punk.

Mas, era um cara que curtia sonoridade anos 70 e em off, sem que seus amigos punks soubessem, curtia prog rock, coisa proibida naquele tempo... Tanto que quando estava operando, ele enlouquecia com o som do Pink Floyd, que era o nosso lounge e deixa para começar o nosso show. 


E a contagem, era o tempo certinho de tocar um lado de uma fita K7, com sons escolhidos por nós, Prog e Jazz Rock setentistas, em sua maioria, e quando chegava no auge do grito do Roger Waters, na música "Careful With the Axe, Eugene", do Pink Floyd, as luzes apagavam-se e o show começava. 

Fotos do poeta Julio Revoredo, mostrando eu e Rubens na saída de emergência do Teatro Lira Paulista, em julho de 1984.

Mas o público esperava que nós entrássemos e iniciássemos de forma tradicional, apenas pegando os instrumentos e passando a tocar, mas, o que viram, foi o Celso "Esponja" e o Claudio "Capetóide", nossos atores amadores e voluntários, entrarem no palco, carregando um tapete persa enrolado.

E dessa forma, o jogaram no chão e ao desenrolá-lo, saiu a exótica figura de Edgard Pucinelli Filho, declamando o intrincado poema de Julio Revoredo, "A Formiga". 


As reações foram novamente díspares e interessantíssimas, tal qual a reação inicial causada pelo punhado de açúcar distribuído individualmente.

Pessoas caíram na gargalhada; outras ficaram atônitas; um ou outro grito de "Chave" (certamente querendo que entrássemos e fizéssemos um show de Rock tradicional e poupando-lhes assim de ter que ver um teatro nonsense...), gente mexendo com o Edgard etc etc...

Era o que queríamos em princípio, provocar reação nas pessoas. E nestes termos estávamos conseguindo.

Mas nem tudo foi positivo... 

Rubens clicado pelo poeta Julio Revoredo, na porta do Lira Paulistana, no dia do primeiro show de lançamento de nosso compacto, em 30 de julho de 1984

Pelo fato de serem amadores, os amigos Celso e Claudio, entraram em cena nervosos, com a adrenalina a mil, e não colocaram o tapete no chão com o cuidado com o qual ensaiaram na casa do Rubens.

E sendo assim, quando o tapete tocou o solo, o Edgard soltou um gritinho e ao sair do tapete, com a cara toda amassada e assustado, causou risadas.

Até perceberem se tratar de uma performance, demorou um pouco. 


Eu, Luiz Domingues, na porta do Lira Paulistana no dia do primeiro show de lançamento do compacto, em 30 de julho de 1984. Click do poeta Julio Revoredo

E ele gaguejou também no início, só conseguindo o foco, alguns segundos depois.

Mas, no cômputo geral, foi uma excelente performance pois ele era performático e carismático, sem dúvida.

A seguir, as luzes se apagavam e nós entrávamos e começávamos a tocar.



Continua... 






Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 121 - Por Luiz Domingues


E chegou o grande dia do primeiro show !! 

Era 30 de julho de 1984, e com um público pagante de 85 pessoas, fizemos o show de lançamento do nosso primeiro compacto simples, que se repetiria no dia seguinte, 31 de julho de 1984. 

O início do show, que na verdade começava em seu preâmbulo, causou um efeito sensacional !!

Nunca me esqueço de estar num ponto alto do camarim, que se comunicava com a técnica, onde o técnico de iluminação trabalhava e assistir tais reações sem que o público me visse. 


O poeta Julio Revoredo; Rubens, e Zé Luis, também foram ver, e todos curtimos muito ver as reações das pessoas.

E eram diferentes, umas das outras, naturalmente... 


Como você reagiria, caro leitor, ao entrar num teatro para assistir um show de Rock, e ser convidado a abrir a palma da mão para receber um punhado de açúcar ?

Bem, a maioria o ingeriu, de diversas formas, comendo, lambendo etc. 


Outros caíram na gargalhada; outros faziam cara de estranheza e houve casos de recusas, o que também era esperado, pois muito gente não gosta de interagir em espetáculos.

O açúcar tinha tudo a ver com o texto hermético do poeta Julio Revoredo, que evocava o aspecto desse alimento, fazendo analogia com as formigas, e também com A Chave do Sol, propriamente dita.

Ouvimos também várias pessoas conversando sobre esse estranho procedimento e assim, o nosso intuito inicial estava cumprido, pois fomentamos algo diferente, surpreendendo inteiramente a plateia.

E quem se incumbiu de fazer tal entrega ao público, foi nosso amigo, Celso "Esponja". Aliás, foi interessante pois mesmo não sendo um ator, foi convincente nessa performance.

Mas outras surpresas viriam...

Eu aboli o meu apelido por muitos motivos, mas a confusão que isso gerava nos caracteres de TV e grafia nas publicações, sem dúvida era um deles. 

Aqui nesta nota do "Estadão", o 'agraciado" com a gafe não fui eu, no entanto. Imperdoável em se considerando ser um jornal top do mainstream, o que significa chamar o José Luis de "Jorge" ??

Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 120 - Por Luiz Domingues


E precisávamos divulgar os shows... 

Lembro-me que conseguimos fazer duas ações diferentes nesse sentido, diferentes dos métodos tradicionais da época, que centravam suas forças sempre nos cartazetes e filipetas.

Conseguimos emplacar notas nos jornais de grande circulação e encomendar cartazes Lambe-Lambe. 


Ao contrário do método precário com o qual tentamos fazer um agito desses em 1983, e cuja história pitoresca já contei aqui, desta feita tínhamos verba e fizemos a coisa certa, contratando gráfica & colagem etc e tal. 

Todavia, não tínhamos condições de encomendar uma colagem de largo alcance, portanto, centramos nossas baterias em alguns pontos da zona oeste de São Paulo, estrategicamente mais próximos do Teatro Lira Paulistana.

E uma ação que consideramos estratégica por um motivo específico : queríamos sinalizar o quarteirão onde se localizava o Teatro Lira Paulistana e  sendo assim, decidimos confeccionar uma faixa, para colocá-la no cruzamento da Av. Henrique Schaumann, com a Rua Teodoro Sampaio, ou seja, no quarteirão onde ficava o Lira, na Teodoro.

E de quebra, queríamos ter a exposição de um cruzamento de gigantesco movimento, com milhares de carros e pedestres que ali passavam desde aquela época. 


Mas o insólito dessa ação, foi que a verba acabou e só conseguindo pagar pela confecção da faixa, ficando sem apoio para colocá-la num poste e sendo assim, esta incumbência ficou para nós mesmos.

Adivinhem quem foi o responsável por essa tarefa ? 


Claro, Zé Luis Dinola, o faz-tudo da banda.

O problema, era que não tínhamos uma escada adequada para aquela altura de um poste de iluminação tão alto.

Foi num dia de semana, um pouco antes do dia da estreia que eu , Rubens e Zé Luis protagonizamos uma cena de pastelão, digna de um episódio de "Os Três Patetas" ... 


Primeiro, tivemos o constrangimento de arrumar uma escada emprestada, pedindo em vários lojas do entorno. 

Depois, a cena dantesca de segurarmos a enorme escada, com o Zé Luis pendurado numa altura considerável, e sem nenhuma proteção. Fora a precariedade de não ter ferramentas adequadas etc.

Como se não bastassem esses percalços, fomos insultados pelos zombeteiros que sempre aparecem nessas horas, mas o que mais chateava mesmo, era a perda total do "glamour artístico", ao sermos  flagrados nessa situação.

Não pelo ato em si, pois não há nada de errado em estar fazendo um trabalho dessa natureza, mas por expormos a nossa falta de estrutura, porque estávamos lançando o primeiro disco, tínhamos muitas apresentações na TV, matérias já publicadas e muitos shows já realizados...


Por outro lado, eu me lembrava de uma entrevista que havia lido do Herbert Viana, dos Paralamas do Sucesso, naquela época mais ou menos (acho que na Revista Roll, não tenho certeza), onde ele contava que a vida foi "dura" para os Paralamas, antes de estourarem no mainstream. 

Dizia que lembrava-se do tempo não muito distante, onde faziam shows na casa noturna "Rose Bom Bom", aqui em São Paulo (ficava na Rua Augusta), e que nessas épocas de vacas magras, tinham de tomar táxis na rua Augusta, às 5:00 h da manhã, pois não tinham estrutura para ter transporte próprio...

"Cáspite" !! 


Pensava eu...eles reclamavam do que ?? 

Tinham dinheiro para tomar táxi !! 

Quantas centenas de vezes me vi num ponto de ônibus sozinho, durante a madrugada, esperando um ônibus e com um baixo Fender na mão ??



Continua...

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Autobiografia na Música - Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada - Capítulo 3 - Por Luiz Domingues


Acho incrível como pessoas esclarecidas não enxergam o óbvio ululante. 

Esse manifesto antimúsica criado por Malcolm McLaren, era um mero golpe de marketing para promover sua loja de artigos sadomasoquistas, e para tal intento, usava o Sex Pistols como garotos propaganda de seu golpe.

Esse negócio de "chocar" com atitudes ultrajantes, era para ter durado muito pouco tempo, mas o grande estrago mesmo, foi parte da mídia e os ditos "formadores de opinião", ao comprarem essa ideia, alçando-a à um patamar de superestimação exageradíssima.

Com essa atitude, abriram não uma porta, mas um portal para destruir todo o Rock e instituir uma interminável Era de obscuridade no gênero. 


Com a formatação do conceito de que "não era preciso saber tocar um instrumento, para tocar", causaram um estrago sem precedentes, abrindo espaço para o enaltecimento de pseudo-artistas, uma geração de músicos de péssima condição técnica.

Como enfatiza o próprio Ciro (inclusive já o vi falando isso publicamente, num documentário), era uma geração de bandas "raquíticas".

Pior e mais odioso do que enaltecer essa cambada de músicos péssimos, era a agravante de massacrar, via mídia, a geração anterior.

Nunca concordei com isso, é lógico ! 


Além de não achar razoável exercer o conceito de niilismo dessa forma, não me conformo com o fato de agirem deliberadamente para destruir a imagem do passado, pois é claro que se trata de uma atitude fascista da pior espécie. 

Qualquer semelhança com um famoso romance de Ray Bradbury, não é mera coincidência...

Não me incomodaria em nada que o punk-rock existisse, se não houvesse no seu bojo, toda essa execrável estratégia de marketing agressiva, e de viés nazifascista. 


Se apenas exercessem o seu direito de querer serem toscos e não aprender a tocar, tudo bem, para mim. 

Aceitaria democraticamente a diferença de mentalidade e eticamente, até apoiaria o fato deles terem esse direito ao livre arbítrio. 

Mesmo porque, só acredito em arte como expressão livre e espontânea.

Pelo fato de não gostar da musicalidade ou no caso deles, ausência de, a minha opção respeitosa seria apenas a de não comprar discos ou assistir shows de tais artistas.

Mas infelizmente não foi assim que os fatos de 1977, e sua decorrência, ocorreram. O fato de trabalharem acintosamente nesse sentido de execrar a música bem feita e executada, é o que sempre me incomodou.

Eu gosto de muitos artistas que tem um espectro de atuação, baseado na simplicidade musical. Não tenho nada contra artistas que baseiam seu trabalho num formato musical simples.



Na minha estante de discos, o T.Rex  vive em perfeita harmonia com o Gentle Giant. 

São extremos. 

Um é extremamente simples. O seu líder, Marc Bolan, morreu sabendo fazer apenas 6 acordes na guitarra, e só os básicos, nada sofisticados. 

O outro, é o supra-sumo da sofisticação musical. 

E o que os une ? 

O mesmo produtor, um cara chamado Tony Visconti.

Portanto, nunca acreditei que a sofisticação musical deveria ser extirpada do Rock, como decretaram os seguidores de Malcolm McLaren.

Resumindo : graças à instituição dessa mentalidade, o estrago criado foi enorme, e o tempo decorrido em consequência disso, inacreditável !

Reafirmo, tal mentalidade foi mega, ultra superestimada e o preço que pagamos por isso, é o de amargarmos 37 anos (publicando neste Blog em 2014), de trevas no Rock, com raros e efêmeros lampejos de revitalização.

Diante desse quadro, quando o Kim convidou-me para fazer parte da banda de apoio do Ciro, não que eu tivesse essa apreensão (mesmo porque, minha bronca sempre foi institucional e jamais pessoal contra entusiastas dessa estética), mas por um breve instante, passou pela minha cabeça que eu trabalharia com alguém daquela cena do pós-punk oitentista e poderia esbarrar em controvérsias ideológicas.

Contudo, essa pequena apreensão dissiparia-se, e pelo contrário, eu teria uma grata, muito grata surpresa ao conhecer enfim, o Ciro...



Continua...

Autobiografia na Música - Kim Kehl & Os Kurandeiros - Capítulo 3 - Por Luiz Domingues


Nesse recado, o Kim foi direto, e me deu seus telefones, convidando-me a ligar, e assim conversarmos mais detalhadamente sobre seus planos imediatos.

Um dos trabalhos, era obviamente integrar a sua banda, chamada Kim Kehl & Os Kurandeiros, com dois CD's lançados oficialmente, e uma infinidade de promos pela internet.

Seguindo na linha básica do Rock'n Roll e do Blues, o som dos Kurandeiros também passeava pelo R'n'B; Soul; Pop; Country; Gospel; Folk, e demais derivados da raiz negra, norteamericana.

Na ativa desde 1992, os Kurandeiros de Kim Kehl tinham bastante estrada & histórias.

E a outra proposta, surpreendeu-me : o Kim estava na banda de apoio do cantor/compositor Ciro Pessoa, um ex-Titãs, e Ex- Cabine C, bandas oitentistas, e egressas da cena do Pós-Punk. 


Em princípio, achei exótico lidar com alguém dessa cena que sempre julguei ser antagônica aos meus ideais, mas claro que deixei preconceitos de lado, e topei conhecer o trabalho, e certamente entrar nele.

Logo mais falo sobre a surpresa agradável que eu teria nesse contato com o Ciro, e muito pelo contrário, estabeleceria amizade instantânea com ele, e passaria a curtir muito o seu trabalho solo, contido nos seus discos pós Titãs e Cabine C.

Já estou contando essa história paralela sobre minha a participação na banda do Ciro Pessoa, aqui no Blog 2. 


Voltando a falar do KK & K, meu papo com o Kim foi muito bacana pelo telefone, e logo topei entrar na banda e trabalhar com ele.

O baterista do KK & K era um velho amigo, que conhecia desde o início dos anos noventa, o Carlinhos Machado, um cara sensacional. 


Um dos caras mais bacanas do métier do Rock paulistano, com mil histórias sobre os anos setenta etc etc. 

Eu o conhecera na loja do baixista Sérgio Takara, quando ele também tinha loja na mesma galeria da Rua Teodoro Sampaio. 

O Takara fora baixista dos Kurandeiros por muitos anos e lá também conheci o Kim nos anos noventa, embora o conhecesse de vista desde os anos oitenta.

Portanto, entrar para o KK & K seria (e foi), muito agradável nesse aspecto, pois sabia de antemão que não haveria nenhum problema de adaptação, me sentindo entre amigos, desde o início.

E tinha mais ! 


Naquele momento, o baixista em ação na banda, era o Glauco Teixeira, meu ex-aluno e um grande amigo, que aliás teceu várias considerações, em vários tópicos desta autobiografia, iniciada na plataforma da extinta rede social, Orkut. 
 KK&K na Feira da Pompeia em maio de 2011, três meses antes de eu entrar na banda, e com Glauco Teixeira no baixo

Eu mesmo havia sugerido que ele entrasse nos Kurandeiros tempos antes, fazendo uma ponte, e agora entraria no seu lugar, pois a agenda dele em sua outra atividade profissional, não estava ajustando-se adequadamente à agenda dos Kurandeiros.

Portanto, o KK & K tinha (e tem), um clima de irmandade muito grande para mim, e não só por esses músicos citados, mas por outros que citarei neste relato.


Esse contato telefônico ocorreu mais ou menos na metade de agosto de 2011. 

O Kim mandou-me arquivos via E-Mail, de músicas para eu ir tirando, mas com calma, sem previsão de estreia a curto prazo.

O repertório inicial que recebi era de Rocks e Blues, com pegada rítmica e harmônica tradicionais. 


Aparentemente era simples para executar, mas eu sabia bem que no caso dos Blues, engana-se o músico desinformado, que seja "fácil" tocar, por conta da simplicidade harmônica. 

Na verdade, um Bluesman experiente, sabe bem quando alguém se mete a tocar blues, e não é do ramo...

Por isso, apesar de tirar o grosso das músicas, sabia que na hora "H", haveriam macetes aos quais, eu não tinha familiaridade para lidar com desenvoltura, e todo cuidado era pouco.

Mas tudo ficou mais assustador, quando recebi o telefonema do Kim numa segunda-feira, dia 22 de agosto de 2011 ! 


De "sopetão", disse-me que o Glauco já não poderia estar presente no próximo show, e pediu-me para fazer o "sacrifício" de encarar essa apresentação, já na quarta-feira subsequente, dia 24 de agosto...

-"OK, vamos lá"...lhe respondi. Muito experiente e compreensivo, o Kim agradeceu e tranquilizou-me, dizendo que me ajudaria, e que falhas seriam relevadas, para eu tocar tranquilo.

E assim, sem ensaios, fui para o meu primeiro show com os Kurandeiros de Kim Kehl...



Continua...