terça-feira, 27 de maio de 2014

Surpresa - Por Tereza Abranches


Eu, lago perdido numa floresta tão distante como o tempo
que não se conta, água doce, morna e fecunda, colhia duendes e nuvens, insetos e luas e refletia a placidez insondável de um abismo onde o sem fim é um sem fim que amedronta...
Eu, cheiro de chuva, da chuva que beija a terra e que, avidamente a seiva consome, afagada pelo silêncio estranho e cantante da noite fechada, brincava em paz entre as ervas miúdas de cores sem nome,
cantava o canto das Mil Vozes da Vida com o sol, com o corpo e com a alma e dançava, na minha floresta oculta, insondável e perdida a dança solitária e intocável de toda a minha imperturbável calma...
Até que, por entre os ninhos de ramos e das minhas flores tecidas
de mágicas teias lancinantes, no mais ignoto e abstrato silêncio,
teus olhos profundos e antigos como de uma era já esquecida,
inexorável e fatalmente me descobriram e, brilhantes de Vida,
rondaram meus recantos ocultos e mais obscuros que o peso mudo
da minha rota sem mapa, recantos onde eu vivia despreocupada
e irremediavelmente escondida.
E esses olhos de pura e límpida luz assistiram à dança que eu dançava comigo no meu compasso absurdo; contemplaram a minha nudez tão só e tão hermeticamente minha; a tua força mais estranha
que o silêncio doido e cantante da noite jorrou dias, meses e anos
sobre a minha dança serena e sozinha...e sobre o esconderijo em meio ao meu plácido Nada supostamente inatingível, dançou nas minhas subterrâneas e até então mansas águas, a tua dança ancestral, doída e desesperadamente imprevisível !
E eu, lago perdido na floresta onde o tempo não se pode contar,
danço no hoje que do louco imponderável surgiu...mas agora,
entrelaçado o corpo na poeira tênue de uma estrela
que em eras distantes fulgiu, o cheiro doce de noites estranhas me afaga de forma até então desconhecida e ausente porque é um afagar divino e secular que teima em me tomar inteira
de forma abismal, infinita e inclemente !

Ainda danço hoje...
Mas danço com uma dança onipresente e bruxuleante soprada pelo Incriado, porque é um dançar absoluto e abandonado ao que quer que seja de soberanamente estonteante !



Tereza Abranches é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Escritora e artesã, também desenvolve estudos sobre literatura e espiritualidade.

Aqui nos traz um poema onírico, evocando o poder energizante que a dança provoca em nosso corpo físico, mas sobretudo na psique e na alma.

sábado, 24 de maio de 2014

O Homem Romântico (Réquiem por Taiguara) - Por Marcelino Rodriguez

O homem romântico, em geral, não é compreendido pelas demais pessoas do mundo. Parece ingênuo, mesmo tolo. Vou basear-me, para tentar caracterizar o Homem Romântico, em Taiguara, incompreendido já na sua época; houve mesmo quem o achasse melodramático pela canção "Hoje", que me parece extremamente atual.

"Hoje, homens da aço esperam da ciência
Eu desespero e abraço a tua ausência.../
Eu não queria a juventude assim perdida
Eu não queria andar morrendo pela vida"

(Hoje)
 
Só que o homem romântico é um tipo superior de homem. Por favor, entendam que não me refiro à um fenômeno literário apenas, que, no nosso caso específico, foi o que sofreram os chamados poetas do "mal do século", que foi um caso datado, sem querer desmerecê-los. Falo do romântico atemporal, o próprio arquétipo do cavaleiro valente, do homem honrado e ético.

"Sorriso bom, só de dentro
Ninguém é bom sendo o que não é
Pra ser feliz com mentira
Melhor que eu chore com fé"

(Piano e Viola)

Além de uma visceral autenticidade, o que mais poderia caracterizar o Homem Romântico? Colin Wilson, em prefácio à um livro de H. P. Lovecraft, conta a seguinte história, para diferenciar o Homem Romântico do homem prático.

Um navio vai em alto mar, em viagem tediosa, carregando toda uma tripulação condenada, apenas, numa viagem sem fim, a descascar batatas. De repente, toda tripulação começa a ouvir um canto misterioso, vindo das profundezas do oceano. Os homens práticos, desconfiados de que aquilo poderia ser um delírio perigoso, voltam as costas aquele canto e seguem, na viagem interminável, descascando suas batatas. Os homens românticos, presumindo que aquele som mavioso poderia ser o canto das sereias, mergulham fundo no oceano, abandonando o navio, partindo em busca do maravilhoso, do desconhecido.
O homem romântico é um aventureiro, mas não um irresponsável. O amor é sua prioridade máxima na vida; não o amor apenas por uma mulher, mas pelas causas artísticas, sociais, políticas; na verdade, ele está empenhado em concretizar uma utopia qualquer. O Homem romântico, ao contrário dos práticos, não é um comerciante, é um comunitário. Preocupa-se, responsabiliza-se, não compete; alegra-se em praticar a solidariedade, não para receber aplausos. Praticar o bem é uma guerra particular dele, tanto como sua alegria. O reconhecimento que espera são as amizades que conquista, o sorriso de uma criança ou a paz profunda, a sensação do dever cumprido. É claro que sofre decepções, tristezas profundas, mas ninguém se lhes iguala em entusiasmo.

"Eu desisto, não existe
Essa manhã que eu perseguia
Um lugar que me dê trégua ou que sorria
E uma gente que não viva só pra si"

(Universo Do Teu Corpo)

'Vai, não espere venha a vida em suas mãos
Faz em fera a flor ferida e vai lutar
Pro amor voltar/
E o mundo inteiro vai ser teu"


(VIAGEM) 
Por apoiar-se em valores reais, a força do romântico é incomensurável. Por ser sincero, faz amigos com facilidade; por ser amoroso, conquista o amor do povo; por ser confiável, conquista a proteção dos poderosos. Como o amor e a generosidade são o seu lema, pois ignora preconceitos, o homem romântico vive em qualquer lugar como se fosse sua casa.

"Hoje a minha pele já
Já não tem cor
Vivo a minha vida
Seja onde for"


(O Sonho Não Acabou)

Fernando Pessoa dizia que é preciso ser prático para ser gerente de uma fábrica de tachinhas, mas é preciso ser romântico para criar um mundo.
Entendam que quando falo "prático", não me refiro ao estereotipo fácil. Eu sei que pensar dá trabalho, mas é preciso. É possível realizar-se utopias. O romântico é um sonhador, não um deslumbrado. Não creio que Taiguara, o romântico da vez, haja tido maiores problemas com suas contas.

Romântico é aquele que aceita suas visões, seus sentimentos. É aquele que age por paixão, não a paixão que escraviza, mas a que liberta. Não teme a loucura, pois sabe que quem quiser fazer-se de sábio neste mundo, tem que fazer-se de louco. O homem romântico sofre de uma curiosidade insaciável; quer saber de tudo, lê de tudo, acumula sabedoria das mais variadas fontes. Uma vez perguntaram a Chopin, ao vê-lo com uma pilha de livros sobre vários assuntos, se ele não tinha medo de enlouquecer. A resposta ?
 
- "Bem, se eu não ficar louco, serei um gênio."  
E a mulher, que papel desempenha para o homem romântico? O fim último desta vida terrena, sua conquista máxima. O refúgio da sua solidão, o seu consolo no desencanto. Alguém que ele ama e protege como a sua Igreja; o amor é a religião do romântico. Cavaleiro, homem algum pode tratar melhor uma mulher; fraterno, ninguém pode ser melhor companhia. O próprio mundo feminino justifica-se pelo homem romântico, que o honra e protege.

'"Nessa rede ela prendeu
Minha dor civil, minha solidão
Nessa rede eu vi nascer
Minha liberdade"

(Maria do Futuro)


"Vem que eu digo
Que estou morto
Pra esse triste mundo antigo
Que meu corpo, meu destino, meu abrigo
São teu corpo amante amigo em minhas mãos"

(Universo Do teu Corpo)
 
E agora, enfim, diante da realidade, que é a de que a humanidade não é exemplo de bondade para fera alguma, que o número de egoístas e insensíveis é infinitamente maior e que, nos tempos que correm, apequenam-se cada vez mais, vítimas da peste emocional a que William Reich já alertara, como pode subsistir o homem romântico? Qual o segredo da sua sobrevivência? Simples: a grandeza de sua própria alma.

O homem romântico vive no seu próprio mundo. Apenas passa por este, deixando algumas flores do seu ideal maior, que seria a realização plena de sua humanidade. Mas ele é muito roubado pelo caminho, em termos de criação. Sofre uma solidão insuspeitada, pois tem olhos de águia. Vê e presente coisas que passam despercebidas ao outros. De modo que ele morre, quando não completamente desiludido, satisfeito por saber que a morte pode ser uma nova utopia, uma nova aventura, ainda que a do descanso eterno.
Certa vez, no programa Sem Censura, a apresentadora perguntou a Taiguara porque ele havia deixado o país. Com um sorriso enigmático, grandeza de menino, ele responde:

- "Não posso viver num país que não compartilha das minhas idéias.


E, ali, pude compreender o quanto um homem pode ser grande e, um país, pequeno.
 



Marcelino Rodriguez é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos apresenta uma crônica que tem o peso de um ensaio, refletindo na obra do compositor Taiguara, a dificuldade de ser romântico, sem correr o risco de ser mal interpretado.  

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 14 - Por Luiz Domingues


Os responsáveis pelo salão não colocavam muita fé na nossa capacidade de levar um público melhor do que eles normalmente levavam só com som mecânico, portanto, a negociação foi lenta, arrastada, e com a nítida incredulidade por parte deles.

Então, fomos diversas vezes lá. 


E a cada rodada de argumentações de nossa parte, a contra-argumentação era engraçada, quase em tom de pilhéria em forma de desculpas.

Vendo que estávamos empenhados em fechar a data, foram se convencendo e aí, coisas folclóricas começaram a acontecer. 


Por exemplo, o dono do estabelecimento dizendo ter um contato no programa do Ratinho, perguntou se nós topávamos participar, mas não garantia que fosse um número musical necessariamente, mas poderia ser em "outra circunstância" (???!!!)...

Como assim ? 

Um de nós teria que simular um teste de paternidade com alguma garota armada pela produção, para gerar um falso barraco ? 


Ha ha ha !!

E outra: aí o patriarca da família que era proprietária do estabelecimento, empolgou-se, e disse que bancaria o show. 


Por um segundo, chegamos a pensar que o homem falava sério, mas logo vimos que era uma empolgação vazia.

E tem mais histórias bizarras sobre tais conversas que ouvíamos por parte daquelas pessoas, mas não vou contar, para não comprometer ninguém... 


Eles pouco dimensionavam o nome ou a história da Patrulha. 

Para a compreensão deles, nós ou uma banda cover não tinha muita diferença. O importante para eles, era a capacidade de angariar público.

Creio que foi no fim de junho de 1999 que o martelo foi batido definitivamente e aí , começou a batalha pela melhor divulgação possível.

Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 13 - por Luiz Domingues


Acompanhei o casal Júnior e Claudia em algumas tentativas de fechar um lugar para a tal festa, mas as negativas eram constantes. 

Em termos de patrocínios, o mesmo fenômeno, infelizmente.

Isso foi minando as esperanças do casal em torno desse projeto, até que o Júnior finalmente o descartou. 


Numa reunião com a banda, comunicou que havia desistido da festa, e que focaria na Patrulha. O objetivo seria agora arrumar um lugar para fazermos a nossa estreia da nova formação.

Então, ensaiávamos firmes, e tentávamos acertar logo essa data. 


Nesse ínterim, o Rodrigo conseguiu de forma gratuita o estúdio e o laboratório fotográfico de sua faculdade. 

Um colega dele se prontificou a fazer fotos promocionais de graça, e assim, só pagaríamos os filmes e o material de revelação. 
Essa foto acima foi do making off da primeira sessão de fotos que estou narrando. Mas realmente, as fotos clicadas não ficaram melhores do que essa, bastante prejudicada na revelação...

Isso ocorreu mais ou menos em junho de 1999. 

Fizemos uma quantidade absurda de fotos, aproveitando bem o caráter gratuito da empreitada, mas nenhuma foto foi aproveitada, pois realmente não ficaram boas. 

O rapaz tinha boa vontade, mas não clicou nada que nos agradasse. 

As fotos ficaram meio caricatas, nos retratando com roupas sessentistas, mas não tirando o ranço do que mais parecia uma festa à fantasia dos anos sessenta.

Imprimir uma imagem autêntica era importante para o projeto, e não uma caricatura patética para depor contra.

Em junho, o Júnior começou a fazer negociações com um salão tradicional de Rock na zona leste de São Paulo, e após diversas reuniões, resolveu-se então por uma data.


Tínhamos enfim, uma data de estreia, o dia 14 de agosto de 1999, um sábado.

Mas essa negociação tem histórias engraçadas. 


Chegou num ponto onde virou quase um acontecimento folclórico negociar com os donos do salão.

O fato, é que os donos do salão não colocavam fé na Patrulha como capaz de levar um público interessante. 


Eram raros os shows ao vivo ali, e para eles, era muito mais cômodo, fazer suas tradicionais noitadas ao som mecânico. 

Mas acabaram convencidos de que poderia dar certo, e assim, fecharam a data.


Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 12 - Por Luiz Domingues


Apesar de toda essa confiança na banda e no projeto, não tínhamos infraestrutura alguma. 

Sem empresário; sem dinheiro, sem produtor para correr atrás das coisas.

Como nos meses de abril e maio, o Júnior ainda focava seus esforços atrás da sua festa de comemoração de seus 30 anos de bateria, os esforços Pró-Patrulha estavam em segundo plano.


Seguíamos ensaiando e nesse sentido foi bom, pois tiramos um repertório enorme da Patrulha, com músicas de todos os discos. 

E paralelamente ensaiávamos as novas que eram do Sidharta, e passariam agora a ser o novo material da Patrulha.

E nesse quesito, o Júnior era o cara certo para essas músicas concebidas para soar tão 60/70 como sonhávamos. 


De fato, logo nos primeiros ensaios, ele imprimiu toda a sua técnica, experiência, e apreço pelas coisas que amávamos. 

Uma música como "Ser", por exemplo, passou a soar exatamente como desejávamos, ou seja, com cara de Grand Funk.

Os ensaios então começaram a acontecer no estúdio Alquimia, na Aclimação, zona sul de São Paulo. 

Estávamos tocando diversas músicas da Patrulha, inclusive as dos dois primeiros discos, coisa que a Patrulha não fazia desde que Arnaldo Baptista saíra da banda, pois nunca mais tiveram formação com os teclados inseridos de forma fixa. 

Se houve teclado depois, foi como mero apoio ocasional, graças à um convidado ou outro, e de forma esporádica. 

Assim que começamos a ensaiar, ainda que o foco fosse para a tal festa, já havíamos incorporado músicas como "Sexy Sua"; "Sunshine"; e "Raio de Sol", do primeiro disco, com o Marcello pilotando o piano com desenvoltura.

É claro que o Júnior curtia esse resgate para a banda. 


Na estratégia dele de não demonstrar emoções, deixava escapar aqui e ali, sua felicidade por ver que não seria uma simples volta, mas sim uma volta em grande estilo, resgatando as sementes primordiais da banda, plantadas pelo Arnaldo.

E as músicas novas estavam se encaixando perfeitamente, também. 

Portanto não se tratava de uma volta nostálgica, e caça-níqueis, mas sim, uma volta para valer, com material fresco, e dois jovens talentos de tirar o fôlego.

À essa altura dos primeiros ensaios, o Júnior trouxe sua nova namorada para trabalhar como produtora da banda. 


Ela não tinha experiência com música, mas tinha experiência como produtora de eventos no ramo das artes plásticas, como exposições e vernissages. 

Portanto, tinha proximidade com a arte. 

Os primeiros ensaios eram animados, cheios de gente assistindo. 

Meu exército de Neo-Hippies apoiou em massa a fusão do Sidharta com a Patrulha, e foi público certo nos primeiros shows.

Lembro-me até de reações engraçadas nos ensaios, como palmas e gritinhos em passagens mais elaboradas. 


Um ex-aluno meu, chegou a provocar risadas quando num breque brusco de uma música, foi flagrado gritando euforicamente, e olhe que era um aluno da primeira safra de 1987, ou seja, nessa altura, em 1999, já havia passado dos trinta...


Continua...

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 11 - Por Luiz Domingues


Eu previa dificuldades, sim, mas estava muito confiante no fato dessa formação ser a redenção da Patrulha, que não tinha regularidade desde a saída do Dudu Chermont, em 1985.

Eu confiava muito no potencial dos garotos, e tinha a certeza de que eles seriam um estouro. 


E também no enfoque que evocava a vibe 60/70, trazendo a Patrulha de volta às suas próprias raízes, pois desde 1985, estava numa onda sombria, quase de Heavy-Metal.

Não via a hora de lançarmos um novo disco, e exorcizar essa aura pesada da banda.
 

Queria dar um fim às camisetas pretas e baixo astral, e trazer incensos, batas coloridas, e o som do Sidharta falando de alto astral, vibe aquariana, e Woodstockiana. 

O Júnior também sonhava com esse direcionamento, mas não tinha meios de promover isso, graças aos rumos que a banda tomou após 1985. 

Tendo que manter a banda como alicerce de sua sobrevivência, foi levando-a na base do som pesado, improvisando formações, e sem pensar em criar nada novo.

O Júnior adorou esse pacote que lhe caiu inesperadamente sobre a cabeça.


Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 10 - Por Luiz Domingues


Na verdade, se algum vidente tivesse me dito isso em 1976, eu não acreditaria. 

Era inimaginável ter a certeza de um dia estar numa banda de porte, descendente direta da árvore genealógica dos Mutantes. 

Evidentemente que os anos passaram, me tornei um homem de meia-idade e mediante a experiência acumulada de anos e anos, e somada à toda a gama de coisas pelas quais passei, positivas e negativas, claro que minha visão era diferente.

Portanto, havia sim essa reflexão de regozijo, mas também a cautela de saber que essa visão edulcorada não cabia mais no frescor do momento.


Nós havíamos abandonado o Sidharta, apenas simbolicamente, pois todo o repertório, e principalmente o conceito do projeto estavam apenas se incorporando à outra vestimenta.

Nesse sentido, o fato do Sidharta ter precipitado a volta da Patrulha poderia ser interpretado como uma fusão que deu a possibilidade do Sidharta subir um degrau, sem ter feito nenhum show na sua história.



E do lado da Patrulha, uma banda há anos no ostracismo, e vivendo de aparições sazonais, e sem criar nada desde a metade dos anos oitenta, a possibilidade de injetar sangue novo, com 21 músicas inéditas na bagagem, dois multi-instrumentistas jovens, e sensacionais, além de toda uma evocação sessenta-setentista que não tinha desde a época de sua fundação em 1977, com Arnaldo Batista no comando da nave.
 

Era portanto, uma fusão muito boa para ambos.

E os meninos, estavam eufóricos. 

Claro, eles já eram ultra-talentosos, mas completamente desconhecidos na cena musical. 

Suas experiências se resumiam à aparições amadorísticas de bandas de garagem em festinhas; festivais colegiais, e bares onde a audiência era predominantemente de amigos, apenas. 

Em poucos meses de Patrulha, seus rostos já começaram a aparecer em jornais e revistas, shows etc. 

Mas aí é assunto dos próximos capítulos.


Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 9 - Por Luiz Domingues

Creio que o Júnior não tinha receio quanto à musicalidade dos meninos. 

A grande questão aqui era o receio em torno da pouca experiência de ambos. 

Temor natural para ele que era experiente, e mal conhecera os dois, mas eu tinha outra visão, pois com quase um ano e meio de convívio com eles no Sidharta, apesar dessa banda não ter feito shows ao vivo, eu sabia que os dois não tremeriam diante de uma responsabilidade maior.

Além do mais, eles eram garotos, mas já haviam tocado ao vivo em bares; festas, festivais colegiais etc.

Por outro lado, fiquei eufórico por ter dado esse destino ao projeto Sidharta, pois tornar essa semente primordial, uma flor colhida com uma história relevante na História do Rock Brasileiro, havia sido um grande passo. 


O que era um sonho incerto em 1997 (e de certa forma representava a retomada do fio da meada de 1976 para mim), estava se revelando um triunfo ao precipitar a volta de uma banda com história, e da árvore genealógica dos Mutantes. 

Portanto, se analisarmos sob o ponto de vista do garoto Luiz Domingues que sonhava ser Rocker em 1976, sem saber tocar uma única nota musical, era significativo demais...

Todas as fotos deste capítulo são do acervo de Rodrigo Hid, e foram gentilmente cedidas para ilustrar essa etapa da minha autobiografia, onde ele também é personagem importante, assim como Rolando Castello Junior, e Marcello Schevano.

Continua...

terça-feira, 20 de maio de 2014

Autobiografia na Música - Sidharta - Capítulo 14 - Por Luiz Domingues


O primeiro ensaio do Marcello na banda foi num terça-feira, de forma acústica na casa do Zé Luis. 

Nesses ensaios acústicos, trabalhávamos arranjos, vocalizações etc. 

Logo no primeiro ensaio, a simpatia entre ambos (Zé Luis e Marcello), foi automática.

O Zé Luis ficou de queixo caído com a técnica do Marcello ao violão e teclados. 


E logo no primeiro ensaio elétrico, ficou muito entusiasmado com a performance dele à guitarra e teclados. 

Esses primeiros ensaios da formação ideal e definitiva do Sidharta aconteceram nos primeiros dias de março de 1998, e por sugestão do Zé Luis, passamos a ensaiar eletricamente num estúdio em Pinheiros, próximo à estação Clínicas do Metrô, e perto da casa dele.

Nossa rotina a partir daí, passou a ser : ensaios acústicos às terças na casa dele, e elétricos às sextas, nesse estúdio.

Novas músicas surgiam, e o Marcello também trazia ideias, mostrando que se tornaria fatalmente um grande compositor.

Nessa altura, já ensaiávamos músicas como : "Alma Mutante"; "Retomada"; "Sistema Solar"; "Sonhos Astrais"; "O Pote de Pokst"; "Abstrato Concreto"; "Sr. Barinsky", e começávamos a criar "Céu Elétrico", com um novo arranjo, pois o Marcello traria um novo instrumento em breve, abrindo uma nova possibilidade.

E foi assim...


Do nada, ele teve um impulso, foi à Rua Teodoro Sampaio (para quem não conhece São Paulo, é a rua com maior concentração de lojas de instrumentos e equipamentos musicais da cidade), e comprou uma flauta transversal... 

Sem fazer nenhuma aula, sem ter noção, apenas descobriu a escala no instrumento, e começou a soprar, sem técnica de embocadura nenhuma.
 


Poucos dias depois, pulando a fase de ficar "tonto"pela oxigenação cerebral, o que demora para qualquer estudante normal, ele já fazia solos muito legais. 

Com essa possibilidade, já incorporamos a flauta à banda, e na música "Céu Elétrico, ele passou a fazer essas belas intervenções, que depois foram imortalizadas no disco "Chronophagia", da Patrulha do Espaço. 

E nos teclados, foi o mesmo. 

Conto logo mais como foi esse início dele no instrumento.


Continua...