sábado, 26 de abril de 2014

Um Sonho na Fonte dos Segredos - Por Tereza Abranches


O céu se tornou cinza, um cinza de uma cor que o homem não consegue pintar.

A água desceu feliz, lavando a terra, o ar, as sementinhas ocultas pelo chão.
Eu voei por entre as gotas da chuva e de mãos abertas recebi a dádiva que escoava da funda abertura no cinza.

O meu peso era peso de pluma e, sem medo, me tornei pluma endoidecida de felicidade na vastidão do espaço.
Voei por sobre prados, deixei que as gotas de chuva se misturassem às das cachoeiras onde eu brincava, toquei de leve a espuma das ondas, fiz parte dos bandos de passarinhos que cantavam bendizendo a chuva, sobrevoei bosques intermináveis e minha alma foi atraída por um deles.

Desci por entre as árvores, senti o limo macio das suas raízes e o cheiro daquele chão coberto de vida me fragmentou em  água e verde.

Foi quando eu a vi.
E era uma Fonte e eu soube então que ela estivera sempre ali, desde tempos imemoriais, me aguardando. 

Seu murmúrio era feito de Segredos tão antigos e imemoriais quanto ela própria, que recebia as gotas de chuva transformadas em pérolas quando tocavam suas águas.

Pousei à beira da Fonte dos Segredos que, prenhe de verdades, me revelou coisas que eu sequer supunha, porém simples e vitais.
Ela me segredou a beleza dos raios e trovões, a importância do trabalho sereno de uma formiguinha, a sublimidade das mãos que amparam, que doam e têm a grandeza de saber receber; minha Fonte chorou pelos que choram sem esperança, pelos que riem ignorando o gemido baixinho e triste ao lado, pelo orgulho que estraçalha gentes e raças. 

Minha Fonte compôs sinfonias delirantes com cada gota que caía do céu, se enfeitou com cada minúscula teiazinha de aranha e teceu delicados raminhos de flores a serem entregues à humanidade, repleta de vazios e desamor.
E eu cantei, e o meu canto era o marulhar doce da água que, repleta de segredo e dança, descia calma por sobre as pedrinhas, transbordante de ternura e placidez.

Minha Fonte me mostrou as pequenas aberturas nas árvores onde moram gnomos, os pequeninos ramos onde fadas brincam, as notas coloridas de cada gota de orvalho que docemente cai sobre as folhinhas tenras, os unicórnios que, tranquilos passeiam e vêm beber das suas águas e por entre flores, galhos, folhas, musgos, fadas, unicórnios, gnomos e terra, me tornei parte do bosque.
Em seu sussurro repleto de mil vozes, minha Fonte se curvou, plena, perante a minha pequenez e paciente como o colo de mãe, me ensinou o cantar mais alto, o amar mais profundo, o abraçar mais denso, o viver mais verdadeiro, o silêncio mais primordial, o perdão mais translúcido, o olhar mais límpido, o rodopiar mais louco na imensidão dos astros e, como no colo de mãe me abandonei, e adormeci.

Quando acordei, ainda me sentia nos braços milenares da Fonte dos Segredos e em meu corpo brilhavam, divinamente, gotas de chuva e orvalho.

Tereza Abranches é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Escritora e artesã, realiza estudos sobre espiritualidade e literatura, também.

25 comentários:

  1. Maravilhoso! Com certeza, toda pessoa que ler essa poesia será, pelo menos por um instante, banhada, acalentada e protegida por essa fonte!

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    1. Concordo, Rafa! E dá uma paz, né? <3

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    2. Obrigada pelo carinho, Rafa!
      Essa fonte é poderosa e sempre podemos nos aninhar em seu colo!
      Beijo!!

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    3. Excelente colocação, Rafael. A fonte na verdade é o contato com o Eu superior, que é o nosso melhor conselheiro.

      Muito grato por ler, comentar trazer essa observação rica ao Blog !

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  2. Maravilhoso! Belíssima escolha das fotos, Luiz, e claro, mãe, suas palavras sempre me fazem chorar. E eu, que convivo com você 24/7 sei que você vive cada palavrinha que usa nos seus textos. Amo você demais. Obrigada por ser tão especial e me permitir ser sua filha (aposto que pela milésima vez) <3

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    1. O Blog agradece a sua participação sempre entusiasmada e carinhosa, Taís !

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  3. Filha querida, obrigada por tudo e sou eu quem agradeço por você ser minha filha.
    Te amo muito e amo também poder tocar corações, passar a emoção e a paz que você disse que sentiu.
    Beijo!

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  4. Esplêndido. Tanta poesia, doçura e leveza. Deixar nos levar pela Fonte, pela nossa centelha divina, acalmando a mente para ouvir o coração.
    Parabéns, beijos!!!

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    1. Isso, mesmo, Jani ! A Tereza tem essa capacidade extraordinária de usar a poesia para tocar o coração de seus leitores e desperta-lhes a atenção para sua própria centelha.

      Muito grato por ler e comentar !

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  5. Esse é o objetivo, Jani.
    A conexão com a centelha divina que habita em nós a cada dia se faz mais urgente e necessária.
    Obrigada pelas palavras de carinho e incentivo!
    Beijo!

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    1. Obrigada, Algelinha!
      Grande beijo!!

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    2. O Blog agradece a sua participação, lendo, comentando e apoiando, Pérola Mariana !!

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  7. Sempre me alegra e me transmite paz com seus belos textos e toda a sua luz. <3

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    1. É uma alegria muito grande para mim como editor do Blog, ver que uma colunista tão talentosa como a Tereza, cumpre o nosso propósito, ou seja, transmitir coisas positivas para os leitores.

      Muito obrigado por sua participação, Letícia !

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  8. É muito bom conseguir tocar as pessoas, Letícia.
    Obrigada pelo carinho!
    Beijo!

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    1. Fico muito contente por saber que você apreciou a cronica da Tereza.

      Obrigado, Lourdes !

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    2. Obrigada, Lounew, fico feliz que você tenha gostado!
      Paz e Luz!

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    1. Obrigado pelo seu apoio, Bruno !

      O Blog agradece a sua visita e gentileza em postar um comentário elogioso para a crônica da colunista, Tereza Abranches !

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    2. Obrigada, Bruno!

      É bom demais saber que eu consigo tocar as pessoas que leem meus textos!

      Grande abraço!

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  11. Respostas
    1. Christine :

      O Blog agradece a sua visita e fica feliz por constatar que a crônica da colunista Tereza Abranches despertou-lhe bons fluídos !

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    2. É muito gratificante perceber que estou conseguindo atingir meu objetivo, que é alcançar o coração e a alma de todos!

      Obrigada pelo seu comentário, Christine!

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