quinta-feira, 24 de abril de 2014

Autobiografia na Música - Pitbulls On Crack - Capítulo 24 - Por Luiz Domingues



Ainda falando sobre esse probleminha que tive no estúdio, o produtor quis "mostrar serviço", e certamente achou que seria uma boa oportunidade de se mostrar incisivo, contudo...

Mostrou ignorância num fundamento técnico. 


Existem poucos produtores que dominam diversas áreas da música, e tem esse requinte de conhecer instrumentos, e equipamentos a fundo. 

Conclusão : era normal que não soubesse desse detalhe, mas se não tivesse usado de prepotência, poderia ter me escutado em minhas explicações e confiado em mim, pois naquela altura, eu já tinha 16 anos de música, e cinco discos gravados, além de 7 fitas-demo, e algumas gravações avulsas de trabalhos paralelos. 


Portanto, estúdio não era novidade para mim. 

Naturalmente, ele me confundiu com as bandas sofríveis de Punk-Rock que tanto adorava, e com as quais costumava lidar, com quem logicamente deparava com sérios problemas de execução aos instrumentos, nas torturantes sessões de gravação.

Aliás, esses entusiastas de Malcolm McLaren adoram se gabar de sua decantada "atitude", mas quando tem que gravar, e a palavra "recording" envolta em luz vermelha, acende, eles se borram todos, ou convocam músicos de verdade para gravar em seus lugares, ocultando tal informação a posteriori, mas eu sei que esse recurso é bem usado por essa turminha...

Ele era/é muito bem relacionado no mundo fonográfico, mídia e entre empresários. 


Justiça seja feita, era / é um competente lobbysta, e geralmente está envolvido com a produção musical indie, indicando aspirantes à artistas, e produzindo em estúdio. 

E geralmente o que indica faz sucesso, embora seja tecnicamente, sofrível. 

No trato pessoal, o Miranda se mostrava bacana, não era arrogante. 

Só nesse instante, é que cismou comigo. Mas também teria problemas com os demais.

Eu não teria problema algum em seguir sua orientação como produtor, se ele estivesse certo, mas não estava... 

Eu me lembro do Chris Skepis por perto, mas como sempre, ele emendou mil brincadeiras, e trocadilhos, desanuviando o ambiente, com seu bom humor habitual.

E depois de acalmados os ânimos, o "véinho" voltou mais relax do café. 


Além do mais, chegaram duas visitas famosas para acompanhar a minha gravação : Paulo Miklos e Kiko Zambianchi. 

Estavam, digamos, bem "alegrinhos"... 

O Miklos ficou elogiando o meu Rickenbacker, mas nitidamente repetia as frases que proferia a esmo, pois isso fazia parte de sua trip. 

E o Kiko não se lembrou de mim, pois conversamos uma vez ao telefone, em 1988, quando eu estava tentando fechar um show para A Chave ("Sem Sol"), em Ribeirão Preto, sua cidade natal, e sabendo que ele era conhecido de meu tio que mora lá, e da minha prima, eles fizeram a ponte ligando, e me apresentando. 

Mas não deu em nada, pois ele não me passou nenhum contato forte, e limitou-se a dar dicas óbvias. 

Encerrando o caso do "trastejamento", esse stress foi contornado rapidamente. 

Primeiro porque eu sou um cara zen, e raramente me estresso. 


Depois, porque como já falei várias vezes neste capítulo do Pitbulls on Crack, essa foi a banda mais "desencanada" que eu toquei na vida.
Rara foto da gravação dessa coletânea no estúdio Be Bop em 1993. Da esquerda para a direita : Érico (técnico); Carlos Eduardo Miranda (produtor); Deca e Chris Skepis. Acervo de Chris Skepis

Era só brincadeira o tempo todo, pois os três outros componentes tinham /tem essa verve espirituosa. 

Qualquer coisa que era falada por um, virava trocadilhos; ironias, e um festival de sarcasmos imediatamente para os demais, e assim ficavam num eterno desencadear de piadas sobre piadas. 

E tem mais uma coisa : O Miranda adorava o Chris também por esse humor de "Monty Python" 24 h por dia, e principalmente pelo fato do Chris ser antenado em som indie. E assim, ficavam horas falando de bandas insípidas, que só eles conheciam... 

A despeito desse imbróglio, eu concluí a minha parte muito rapidamente. 

Quem toca ou tocou comigo, sabe que costumo gravar muito rápido, pois minha timbragem é simples, e no quesito execução, eu costumo focar na gravação sem dispersões, sendo muito objetivo.

Outra coisa, cada um pensa de uma forma, mas o meu jeito é o seguinte : quando estou gravando, tenho a mesma postura de quando toco ao vivo. 


Deixo me levar como um ator para outra dimensão e ali, naquele momento, deixo os Deuses do Rock se manifestarem. 

Foco o pensamento na emoção, e tento imprimir esse sentimento nas notas que toco. 

Todos os discos que gravei na vida tem isso, com exceção de "A New Revolution", da Chave "sem Sol", onde definitivamente, não tem alma, mas isso eu explico no seu capítulo adequado.

Depois que terminei, vieram as sessões do Chris, alguns dias depois. 


Deveriam ser tranquilas, pois ele toca simples. Faz bases eficientes, mas bem simples, sem grandes voos, mais ou menos como o Marc Bolan tocava, mas o Chris toca melhor que o velho Bolan, na minha avaliação, pois entre outras coisas, este morreu sabendo fazer apenas seis acordes...

Aliás, uma tremenda influência dele, que adora o Glitter Rock setentista (eu também adoro). 

Chris tentando timbrar sua Fender Stratocaster, mas o produtor imbuído de vontade de buscar um timbre condizente com o que estava acostumado a gravar com suas bandas punks sofríveis. Acervo de Chris Skepis

A despeito de toda a descontração do Chris, o tal produtor também o atazanou. Além de mexer nos amplificadores e claro que pouco entendia de timbres, acostumado a produzir bandas com sonoridade de serra elétrica, infernizou o Chris querendo timbres modernosos, e não se atendo à oportunidade que tinha em mãos pelo fato dele, Chris, ter levado seu amplificador Fender 1964.

Continua...

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