sábado, 26 de abril de 2014

Um Sonho na Fonte dos Segredos - Por Tereza Abranches


O céu se tornou cinza, um cinza de uma cor que o homem não consegue pintar.

A água desceu feliz, lavando a terra, o ar, as sementinhas ocultas pelo chão.
Eu voei por entre as gotas da chuva e de mãos abertas recebi a dádiva que escoava da funda abertura no cinza.

O meu peso era peso de pluma e, sem medo, me tornei pluma endoidecida de felicidade na vastidão do espaço.
Voei por sobre prados, deixei que as gotas de chuva se misturassem às das cachoeiras onde eu brincava, toquei de leve a espuma das ondas, fiz parte dos bandos de passarinhos que cantavam bendizendo a chuva, sobrevoei bosques intermináveis e minha alma foi atraída por um deles.

Desci por entre as árvores, senti o limo macio das suas raízes e o cheiro daquele chão coberto de vida me fragmentou em  água e verde.

Foi quando eu a vi.
E era uma Fonte e eu soube então que ela estivera sempre ali, desde tempos imemoriais, me aguardando. 

Seu murmúrio era feito de Segredos tão antigos e imemoriais quanto ela própria, que recebia as gotas de chuva transformadas em pérolas quando tocavam suas águas.

Pousei à beira da Fonte dos Segredos que, prenhe de verdades, me revelou coisas que eu sequer supunha, porém simples e vitais.
Ela me segredou a beleza dos raios e trovões, a importância do trabalho sereno de uma formiguinha, a sublimidade das mãos que amparam, que doam e têm a grandeza de saber receber; minha Fonte chorou pelos que choram sem esperança, pelos que riem ignorando o gemido baixinho e triste ao lado, pelo orgulho que estraçalha gentes e raças. 

Minha Fonte compôs sinfonias delirantes com cada gota que caía do céu, se enfeitou com cada minúscula teiazinha de aranha e teceu delicados raminhos de flores a serem entregues à humanidade, repleta de vazios e desamor.
E eu cantei, e o meu canto era o marulhar doce da água que, repleta de segredo e dança, descia calma por sobre as pedrinhas, transbordante de ternura e placidez.

Minha Fonte me mostrou as pequenas aberturas nas árvores onde moram gnomos, os pequeninos ramos onde fadas brincam, as notas coloridas de cada gota de orvalho que docemente cai sobre as folhinhas tenras, os unicórnios que, tranquilos passeiam e vêm beber das suas águas e por entre flores, galhos, folhas, musgos, fadas, unicórnios, gnomos e terra, me tornei parte do bosque.
Em seu sussurro repleto de mil vozes, minha Fonte se curvou, plena, perante a minha pequenez e paciente como o colo de mãe, me ensinou o cantar mais alto, o amar mais profundo, o abraçar mais denso, o viver mais verdadeiro, o silêncio mais primordial, o perdão mais translúcido, o olhar mais límpido, o rodopiar mais louco na imensidão dos astros e, como no colo de mãe me abandonei, e adormeci.

Quando acordei, ainda me sentia nos braços milenares da Fonte dos Segredos e em meu corpo brilhavam, divinamente, gotas de chuva e orvalho.

Tereza Abranches é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Escritora e artesã, realiza estudos sobre espiritualidade e literatura, também.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Kim Kehl & Os Kurandeiros - Dia 26/4/2014 - Casa Amarela Pub - Osasco / SP


Kim Kehl & Os Kurandeiros

Dia 26 de abril de 2014

Sábado - 21:00 h.

Casa Amarela Pub

Rua Dr. Mariano J. Marcondes, 96

Centro

Osasco  -  SP

Kim Kehl & Os Kurandeiros :

Kim Kehl : Guitarra e Voz
Carlinhos Machado : Bateria e Voz
Luiz Domingues : Baixo

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Autobiografia na Música - Pitbulls On Crack - Capítulo 24 - Por Luiz Domingues



Ainda falando sobre esse probleminha que tive no estúdio, o produtor quis "mostrar serviço", e certamente achou que seria uma boa oportunidade de se mostrar incisivo, contudo...

Mostrou ignorância num fundamento técnico. 


Existem poucos produtores que dominam diversas áreas da música, e tem esse requinte de conhecer instrumentos, e equipamentos a fundo. 

Conclusão : era normal que não soubesse desse detalhe, mas se não tivesse usado de prepotência, poderia ter me escutado em minhas explicações e confiado em mim, pois naquela altura, eu já tinha 16 anos de música, e cinco discos gravados, além de 7 fitas-demo, e algumas gravações avulsas de trabalhos paralelos. 


Portanto, estúdio não era novidade para mim. 

Naturalmente, ele me confundiu com as bandas sofríveis de Punk-Rock que tanto adorava, e com as quais costumava lidar, com quem logicamente deparava com sérios problemas de execução aos instrumentos, nas torturantes sessões de gravação.

Aliás, esses entusiastas de Malcolm McLaren adoram se gabar de sua decantada "atitude", mas quando tem que gravar, e a palavra "recording" envolta em luz vermelha, acende, eles se borram todos, ou convocam músicos de verdade para gravar em seus lugares, ocultando tal informação a posteriori, mas eu sei que esse recurso é bem usado por essa turminha...

Ele era/é muito bem relacionado no mundo fonográfico, mídia e entre empresários. 


Justiça seja feita, era / é um competente lobbysta, e geralmente está envolvido com a produção musical indie, indicando aspirantes à artistas, e produzindo em estúdio. 

E geralmente o que indica faz sucesso, embora seja tecnicamente, sofrível. 

No trato pessoal, o Miranda se mostrava bacana, não era arrogante. 

Só nesse instante, é que cismou comigo. Mas também teria problemas com os demais.

Eu não teria problema algum em seguir sua orientação como produtor, se ele estivesse certo, mas não estava... 

Eu me lembro do Chris Skepis por perto, mas como sempre, ele emendou mil brincadeiras, e trocadilhos, desanuviando o ambiente, com seu bom humor habitual.

E depois de acalmados os ânimos, o "véinho" voltou mais relax do café. 


Além do mais, chegaram duas visitas famosas para acompanhar a minha gravação : Paulo Miklos e Kiko Zambianchi. 

Estavam, digamos, bem "alegrinhos"... 

O Miklos ficou elogiando o meu Rickenbacker, mas nitidamente repetia as frases que proferia a esmo, pois isso fazia parte de sua trip. 

E o Kiko não se lembrou de mim, pois conversamos uma vez ao telefone, em 1988, quando eu estava tentando fechar um show para A Chave ("Sem Sol"), em Ribeirão Preto, sua cidade natal, e sabendo que ele era conhecido de meu tio que mora lá, e da minha prima, eles fizeram a ponte ligando, e me apresentando. 

Mas não deu em nada, pois ele não me passou nenhum contato forte, e limitou-se a dar dicas óbvias. 

Encerrando o caso do "trastejamento", esse stress foi contornado rapidamente. 

Primeiro porque eu sou um cara zen, e raramente me estresso. 


Depois, porque como já falei várias vezes neste capítulo do Pitbulls on Crack, essa foi a banda mais "desencanada" que eu toquei na vida.
Rara foto da gravação dessa coletânea no estúdio Be Bop em 1993. Da esquerda para a direita : Érico (técnico); Carlos Eduardo Miranda (produtor); Deca e Chris Skepis. Acervo de Chris Skepis

Era só brincadeira o tempo todo, pois os três outros componentes tinham /tem essa verve espirituosa. 

Qualquer coisa que era falada por um, virava trocadilhos; ironias, e um festival de sarcasmos imediatamente para os demais, e assim ficavam num eterno desencadear de piadas sobre piadas. 

E tem mais uma coisa : O Miranda adorava o Chris também por esse humor de "Monty Python" 24 h por dia, e principalmente pelo fato do Chris ser antenado em som indie. E assim, ficavam horas falando de bandas insípidas, que só eles conheciam... 

A despeito desse imbróglio, eu concluí a minha parte muito rapidamente. 

Quem toca ou tocou comigo, sabe que costumo gravar muito rápido, pois minha timbragem é simples, e no quesito execução, eu costumo focar na gravação sem dispersões, sendo muito objetivo.

Outra coisa, cada um pensa de uma forma, mas o meu jeito é o seguinte : quando estou gravando, tenho a mesma postura de quando toco ao vivo. 


Deixo me levar como um ator para outra dimensão e ali, naquele momento, deixo os Deuses do Rock se manifestarem. 

Foco o pensamento na emoção, e tento imprimir esse sentimento nas notas que toco. 

Todos os discos que gravei na vida tem isso, com exceção de "A New Revolution", da Chave "sem Sol", onde definitivamente, não tem alma, mas isso eu explico no seu capítulo adequado.

Depois que terminei, vieram as sessões do Chris, alguns dias depois. 


Deveriam ser tranquilas, pois ele toca simples. Faz bases eficientes, mas bem simples, sem grandes voos, mais ou menos como o Marc Bolan tocava, mas o Chris toca melhor que o velho Bolan, na minha avaliação, pois entre outras coisas, este morreu sabendo fazer apenas seis acordes...

Aliás, uma tremenda influência dele, que adora o Glitter Rock setentista (eu também adoro). 

Chris tentando timbrar sua Fender Stratocaster, mas o produtor imbuído de vontade de buscar um timbre condizente com o que estava acostumado a gravar com suas bandas punks sofríveis. Acervo de Chris Skepis

A despeito de toda a descontração do Chris, o tal produtor também o atazanou. Além de mexer nos amplificadores e claro que pouco entendia de timbres, acostumado a produzir bandas com sonoridade de serra elétrica, infernizou o Chris querendo timbres modernosos, e não se atendo à oportunidade que tinha em mãos pelo fato dele, Chris, ter levado seu amplificador Fender 1964.

Continua...

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 23 - Por Luiz Domingues


Na sessão de gravação da bateria, havia estabelecido uma relação legal com o produtor Carlos Eduardo Miranda. 

Apesar dele ser todo aficionado de som indie, tinha algum apreço pelo Rock Vintage, e chegamos a conversar animadamente sobre o Gong, banda que curtíamos em comum.

Mas na hora da gravação, ele num dado momento, cismou em pegar no meu pé, achando que o trastejamento do Rickenbacker era por falha minha de digitação.

Sou um sujeito extremamente calmo, mas começou a irritar-me as suas interrupções para me cobrar uma digitação melhor, pois estaria trastejando...

Eu começava a gravar, e a interrupção vinha em segundos, com aquele sotaque de gaúcho me dizendo no fone de ouvido : -" tu tens que pegar direito na casa, véinho..."

Ele não ouvia, ou fingia que não ouvia, as minhas explicações sobre o fato do Rickenbacker ter trastes baixos de propósito, pois esse suposto trastejamento, contribui na verdade para compor sua tradicional timbragem aguda.

Ele me cobrava como se eu estivesse falhando, ou fosse tecnicamente um baixista ruim, e isso foi enchendo o meu saco. 


Como não sou dado a explosões temperamentais, na última vez que ele me interrompeu para falar isso, eu sugeri que ele fosse tomar um café... 

Apenas o vi se levantando furioso da mesa e saindo da sala técnica . 
Reservadamente, o técnico do Bep Bop que estava operando a mesa de gravação, me falou que sabia que eu estava certo, e a execução estava perfeita, pois ele era baixista, também, e sabia da característica do Rickenbacker.

O Miranda não era exatamente um produtor com conhecimentos técnicos de áudio, engenharia de som etc. 


Era na verdade um cara muito bem enturmado no jornalismo musical, circulava nos bastidores do show business, e entre os ditos formadores de opinião. 

"Descolado", para usar uma gíria da época, tinha trânsito e respaldo, daí ter sido contratado como produtor.

Respeito-o, mas a verdade nua e crua, era que tecnicamente seu preparo era muito pequeno, pelo menos naquela época, e espero que vinte e tantos anos depois, ele tenha crescido nesse quesito, após acumular tantas horas de estúdio com os artistas que produziu dali em diante.

Não estou me gabando, e quem me conhece pessoalmente sabe muito bem que não me considero um grande músico, e mesmo que o fosse, jamais forçaria tal barra pois não é do meu feitio agir dessa forma, mas para efeito de registro histórico, a instrução que o produtor me pedia insistentemente, não era cabível, e desnudava o seu despreparo à época.


Continua...

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 22 - Por Luiz Domingues


Nesse hiato de shows após o show no Garage Rock Festival, entramos no estúdio para gravarmos as duas músicas da coletânea da Eldorado, em julho de 1993.

As gravações ocorreram no estúdio Be Bop, que ficava localizado na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo.
 

A metodologia de gravação seguiria o método tradicional, com bateria gravada primeiro; seguido do baixo; guitarras, e vocal ao final. 

O estúdio Bep Bop era bem badalado na época, e frequentado por artistas renomados. 

Não saberia dizer o valor cobrado, mas certamente a gravadora Eldorado gastou uma "bala" ali, pois cada banda da coletânea gravou bem à vontade, sem atropelos.

O estúdio continha duas salas de gravação, A e B. 


As bandas da coletânea gravaram no B, que era amplo, super equipado, e do qual não tenho queixa alguma, mas o estúdio A era cinematográfico...

No A, tinha por exemplo um órgão Hammond B3 , igual ao do Jon Lord, e com uma caixa Leslie toda pintada com motivações sessentistas psicodélicas, lindíssima. 

Começamos a gravar e na primeira sessão, levantaram o som da bateria. 

Lembro-me do Juan Pastor usando uma bateria Pearl, de cor cherry, do estúdio. 

E como eram só duas músicas, logo após equalizarem as peças, ele pôde gravar no mesmo dia, sem maiores dificuldades, visto que estávamos bem ensaiados, e essas duas musicas faziam parte do set list dos shows, desde o início da banda, em 1992.

No dia seguinte, foi a minha vez, gravando o baixo. 


Usei o Rickembacker nas duas músicas, plugado num amplificador Gallien Krueger, e acoplado à duas caixas Hartke.
Particularmente, acho essas caixas pavorosas, mas era a moda da época, e eu não tinha ainda as minhas caixas Ampeg. 

Eu tinha uma caixa Snake de 4 x 15', e uma outra "Handmade" com um falante de 15', portanto, um equipamento ruim para gravar.

E foi usada também uma linha direto na mesa, para eventualmente somar-se ao som do canal do amplificador.

Apesar de ter construído um clima amistoso com o produtor do disco, no decorrer da minha gravação, houve um momento de tensão...



Continua...

terça-feira, 22 de abril de 2014

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 21 - Por Luiz Domingues

Essa nota publicada no jornal "O Estado de São Paulo", logo no primeiro dia de 1993, dá uma ideia de como havia uma efervescência Rocker em São Paulo, no início dos anos noventa, insinuando levemente que poderia haver uma nova onda de BR-Rock, reeditando a onda oitentista, porém com a estética indie, que ainda que fosse uma espécie de filhote do Pós-Punk oitentista, tinha atenuante por conta da influência que o Grunge de Seattle estava exercendo.
E nesta avaliação de "melhores" de 1992 da Revista Bizz (que era a Bíblia" dos formadores de opinião, infelizmente), o Pitbulls on Crack teve menção espetacular a meu ver. 

Nota-se que o "Skank" ainda era um ilustre desconhecido off-mainstream, e eu me recordo de que seus membros autoclassificavam-na como uma banda de reggae nessa época, mas já despontavam, e questão de dois anos depois, passariam a visitar o hit parade do mainstream.

O mesmo caso de Daniela Mercury, que estouraria como cantora de "axé music", logo a seguir, nos holofotes do mundo mainstream.

Quanto aos demais, eram nomes que despontavam no underground, como "Mickey Junkies"; "Virna Lisi"; "Yo-Ho-Delic", e "Gothic Vox".

Curiosa a presença do "Second Come"em primeiro lugar, pois ao que me consta, e corrijam-me se eu estiver errado, essa banda não aconteceu, simplesmente.

"Justa Causa" é outro exemplo que não deu em nada, e convenhamos, nem no âmbito underground eu sabia de sua existência à época.

"Exhort" era uma banda de Heavy Metal formada ainda nos anos oitenta, cujo baixista, Nando Machado, fora meu aluno, e ele é irmão do Felipe Machado, guitarrista do "Viper", e jornalista.

O "Gangrena Gasosa" era uma banda de metal extremo, mas tinha uma curiosa temática, pois todos os seus membros usavam vestimentas ritualísticas do candomblé, e as músicas giravam em torno da terminologia usada entre os membros de tal religião afro-brasileira. 

Por esse detalhe, era bastante criativa pois investia no surrado espectro do satanismo/ocultismo/demonologia, exaustivamente usado por bandas internacionais desse gênero, mas usando de folclore genuinamente afro-brasileiro para impressionar seus fãs...

Finalmente, o tal de "Xicotinho e Salto Alto" (escrito com X, errado, eu sei...), era uma incógnita para mim. O que era aquilo, uma dupla sertaneja, ou uma banda de rock satírica ?

Para efeito de autobiografia, chama-me a atenção que no virar de 1992 para 1993, nós tenhamos suplantado o "Yo-Ho-Delic", que vinha de uma labuta mais antiga que a nossa, desde 1991, pelo menos. 

Além de ter maior longevidade, tal banda quando começamos a dar nossos primeiros passos, era a mais "hypada" nas conversas de bastidores pelas casas noturnas do circuito indie de São Paulo, e também nas rodinhas de jornalistas, músicos e produtores musicais.

O fato de nós a termos superado na reta final, mesmo entrando na corrida depois, era extraordinário, e explica um pouco o porque deles terem sido preteridos pela gravadora, a constar da coletânea, e nós confirmados.


Continua...

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 20 - Por Luiz Domingues


Os próximos shows foram com multidão. 

No dia 3 de abril de 1993, fomos convidados a participar de um micro festival ao ar livre, com o palco montado na porta da loja de discos "Woodstock".
Essa loja era (é), muito tradicional em São Paulo, e nos anos oitenta, era predominantemente frequentada por admiradores do Heavy-Metal, e durante anos, foi um ponto de encontro aos sábados para tal "tribo", e chegava a reunir centenas de pessoas na calçada próxima à uma das saídas da estação Anhangabaú, do Metrô.

No momento noventista, havia perdido muito de sua força, mas ainda tinha fôlego como loja, e a maior prova disso, é que existe (e muito bem, obrigado), até os dias atuais (2014).

O festival teve algumas bandas da cena indie noventista, e alguns expoentes do Heavy-Metal. 

Sinceramente só me recordo da presença do "Anjo dos Becos" e do "Viper", ao nosso lado.

O equipamento disponibilizado para o evento não era dos melhores, mas para o Pitbulls on Crack, que era uma banda de Rock'n Roll visceral e bem básico, tal falta de maior refinamento no áudio não chegava a atrapalhar decisivamente a performance. Mas claro que era incômodo tocar nessas condições...

Duas lembranças extra show me vem à cabeça :

1) No camarim improvisado, no escritório reservado da loja, uma rodinha de músicos conversava tranquilamente enquanto se aguardava a hora dos shows iniciarem-se, quando surgiu uma conversa falando sobre o comportamento do público de Rock nos anos 60 e 70, muito diferente da postura agressiva e alheia, adotada a partir da "revolução punk" de 1977, com o público quase que odiando o artista no palco, a ponto de cogitar-se até a agressão física, de fato.

Claro que argumentei sobre isso e expus minha visão, denunciando o estrago causado nessa mentalidade anti-musical, e iconoclástica. 

É óbvio que nunca simpatizei com "rodas de pogo" (é show de Rock ou rebelião na penitenciária ??); StageDive/Mosh, e outras práticas que mais parecem denotar que a música não importa para essa gente, e diante de tais fatos, como posso concordar com tal predisposição ?
No entanto, um componente da banda "Anjo dos Becos" exaltou-se com minha opinião, e simpatizante de tal filosofia, passou a falar que minhas ideias eram ultrapassadas, e estavam lá atrás no Festival de Woodstock, coisa de hippies e bicho grilos etc etc. 

Dizia que eu "não entendia", que o público "moderno" de Rock, fazia essas coisas, porque queria "se divertir" ...

Ora, ora...que comprasse uma luva de box e esmurrasse as paredes de sua casa ouvindo discos de suas bandas prediletas, então, pois o efeito seria o mesmo enquanto diversão e dispêndio de energia infantojuvenil, não é mesmo ?

O que ele "não entendia", era que a magia do Rock foi para o ralo quando institui-se que o artista não tinha mais importância, e saber tocar um instrumento era "coisa do passado", pois o bacana era formar bandas com gente que não sabe tocar, e por não saber tocar, ninguém se interessa por sua música mal feita, e esta só serve como pano de fundo para estripulias juvenis truculentas, como as que citei acima.

Esse rapaz na verdade era gente boa, mas sua mentalidade era arraigada num paradigma errôneo, cuja formulação não era culpa dele. Na verdade, era mais uma vítima dessa desgraça perpetrada pelos famigerados "formadores de opinião".

Nesses termos, o melhor era encerrar a conversa, pois essa turma que pensava dessa forma, era adepta da máxima sintetizada numa gíria em forma de palavrão, e que denotava o absoluto nivelamento por baixo nos parâmetros culturais. Para eles, tudo, absolutamente tudo, era definido da seguinte maneira : "É ducaraio, véio". Triste.

2) É fato consumado que muitos rockers brasucas se ligam em futebol, e nos bastidores de shows, é muito comum que sempre haja uma movimentação extra, com muita gente buscando um monitor de TV, ou no mínimo um radinho de pilha para saber dos resultados da rodada, em dias de jogos...

Dessa maneira, havia um zum zum zum por parte de alguns, e claro que me incluo nesse rol, tentando buscar informações sobre o jogo que acontecia naquele momento, válido pelo campeonato paulista de 1993 : Palmeiras x Santos , no Morumbi.

Muitos palmeirenses comemoraram a virada do time e o resultado final de 2 x 1, quando já começava a anoitecer e se aproximava a hora do Pitbulls subir ao palco. 

Foi quando um ônibus lotado de torcedores do Santos passou, e claro que um palco com bandas de Rock tocando ao ar livre e uma multidão de cabeludos, virou um prato cheio para o bullying inevitável dos sujeitos, gritando impropérios das janelas do veículo.

Foi quando numa reação imediata, vários que ali estavam presentes e sabiam do resultado da partida, retrucaram ironizando os santistas e fizeram menção ao resultado do jogo. 

Os santistas enlouqueceram e ameaçaram precipitar a parada do ônibus para descer e procurar as vias de fato, e nesse caso, não seria nada surpreendente vindo deles, que eram membros de uma das mais tradicionais torcidas uniformizadas daquele clube, e com longo histórico de truculência no curriculum.

Não pararam, mas se viessem, não teriam moleza, pois havia também um bom contingente de adeptos do Heavy-Metal, os tais headbangers, e esses sujeitos também não gostavam de levar desaforo para a casa...  

A seguir, no dia 10 de abril de 1993, tocamos no "Garage Rock", uma casa de shows que localizava-se em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. 

Tocamos junto com bandas como "Anjos dos Becos"; "Jazzumbi", e "X-Rated". 

O público foi muito bom, com cerca de 1000 pagantes, e como o local era enorme (literalmente uma garagem imensa), organizamos um futebol entre bandas para espantar o tédio da demora entre o soundcheck, e a hora do show.

Começou com uma tampinha de garrafa, mas logo improvisaram a clássica bola de meia, conferindo mais "qualidade" à disputa...

Como salientei acima, acho que desde os Novos Baianos, o futebol tem papel importante entre rockers brasucas.

Outra curiosidade engraçada foi que um membro de uma das bandas foi surpreendido pelos seguranças da casa, à vontade com uma groupie, embrenhados na parte abaixo do palco, entre as estruturas metálicas de sustentação. 

Não vou revelar quem era, mas digo que não fui eu.

E o próximo compromisso, foi participar do tradicional programa ao vivo da Rádio Brasil 2000 FM, que era muito cobiçado pelas bandas, não só de São Paulo, devido à sua boa audiência e sobretudo pelo formato. 

Isso porque era um programa que permitia às bandas, tocar por uma hora, com entrevista intercalada.

E assim, nos apresentamos no dia 3 de junho de 1993, com a presença de cerca de dez pessoas convidadas apenas, pela dimensão diminuta do estúdio, e entrevistados pelo jornalista/locutor Osmar Santos Jr., idealizador do programa.


Eis abaixo uma versão de "The Shadow of the Light", dessa apresentação na Brasil 2000 FM, num promo criado em 2015, com a ajuda dos produtores Fernando Ceah e Jani Santana Morales, especialmente para o You Tube :

Eis o Link para assistir no You Tube :  
https://www.youtube.com/watch?v=R1RQ7CGKEOg&feature=youtu.be

Abaixo, a versão de Cracked Actor, do David Bowie, e que adorávamos fazer, principalmente eu e Chris, porque curtíamos muito o mestre camaleão; Spiders From Mars e toda acena do Glitter Rock britânico e setentista.
Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=nA1oAjzFB6Y

Foi uma apresentação muito divertida com muitas piadas no ar, é claro, sendo proferidas pelos humoristas natos do POC.
Tocamos oito músicas nessa apresentação no programa "Clip Independente" : "Under the Light of the Moon"; "The Shadow of the Light"; "Cracked Actor"; "Answer Machine"; "Back in the Junkyard"; "Killers"; "Never Mind"; "Candle Light"e "Ticket to Ride".

"Cracked Actor" e "Ticket to Ride" eram releituras, do David Bowie e Beatles, respectivamente.
Dali em diante, começariam as gravações da nossa participação na coletânea "A Vez do Brasil", nome do programa da 89 FM, que ironizava a famigerada "Voz do Brasil", e só tocava bandas nacionais (uma atitude nobre, sem dúvida).

Continua...

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 19 - Por Luiz Domingues


O caso do Gastão, que mencionei no capítulo anterior, foi que no show que fizemos na casa Broadway, em 1992 na festa da Rádio 89 FM, o Rip Monsters, sua banda, também tocou. 

No camarim, ele só conhecia o Juan Pastor, e ao ser apresentado aos demais membros, me cumprimentou dizendo ser meu fã do tempo da Chave do Sol, e que assistira shows da Chave, no Teatro Lira Paulistana. 

Falou com grande entusiasmo de tais lembranças, e claro que fiquei surpreendido e honrado, naturalmente.

Na questão da escolha das músicas, visando a gravação do disco/coletânea, tudo foi decidido num consenso entre os quatro. 

Não houve interferência da gravadora, ou do produtor de estúdio. 

Aliás, só fomos ter contato com ele, no estúdio.
 

Sim, o Gastão já era uma estrela da MTV em 1992, pois fazia parte do primeiro time de VJ's, desde a inauguração da emissora, em 1990. 

Sua atitude foi de humildade ao me contar essa passagem no camarim da Broadway. 

E dali em diante nos tornamos amigos, e num futuro bem próximo, dividimos muitos camarins por conta de shows e compromisso de mídia que tivemos em conjunto, por conta da coletânea da Eldorado em que participamos com nossas respectivas bandas.

A votação para a escolha das duas músicas que iríamos gravar, foi tranquila mesmo. No final, chegamos à conclusão, sem maiores conflitos.


 A documentação era a praxe de qualquer gravadora. 

Documentos pessoais; carteira da ordem dos músicos; papelada do GRA para o ECAD etc etc. 

E dados bancários, claro...



Eu sou membro da Ordem dos Músicos do Brasil, desde 1982 . Os demais precisaram correr atrás dessa burocracia.






Aproveitando, vou contar um caso engraçado que me esqueci de relatar na cronologia :

Na primeira vez que fomos à MTV, fizemos uma boa entrevista. 

Nos bastidores, haviam outras bandas, esperando a vez de gravarem suas entrevistas, também.

Uma delas era o Viper. 

Eu os conhecia desde 1984, e muitas vezes dividimos o palco em shows coletivos, quando eu estava na Chave do Sol.
 

Me lembro de estar com o Pit Passarel, e o Felipe Machado na sala de maquiagem. 

Da minha banda naquele instante, estavam o Deca, e o Juan Pastor comigo, e também o meu amigo José Reis, roadie do Pitbulls na época. 

Foi quando subitamente, entrou uma VJ famosa da casa, que era considerada bonita pela audiência da emissora, para se maquiar. 

Sentou-se na cadeira, e a maquiadora começou a trabalhar etc. 

Depois que passou por nós, alguém do Viper (não revelarei quem, mas recordo-me certamente...), disse : -"essa é que a fulana ? Parece bonita na TV, mas não é nada disso..."
 

Não foi exatamente com essas palavras e diante da pilhéria, ainda que maldosa, caímos na risada...

E no mesmo dia, aguardávamos numa rodinha no corredor, quando entediados pela demora sepulcral e típica de programas de TV, cansamos e sentamos nos degraus. 


Estávamos também com os membros do Viper juntos, e eu conversava com o César Cardoso, que agora trabalhava na MTV, e houvera sido meu aluno em 1988-1989.

Aí apareceu subitamente a VJ Astrid Fontenelle descendo a escada, e vestida com uma saia curtíssima. 

A conversa parou, ela se constrangeu por um segundo, mas aí descontraiu dizendo : "Vocês já viram, mesmo" e todo mundo caiu na risada, incluso ela mesma, que desceu brincando, quebrando o constrangimento. 

O programa que fomos entrevistados, foi o "Fúria Metal". 

Claro que o Pitbulls on Crack não tinha nada a ver com Heavy Metal, mas fomos, sem preconceito algum. O astral com o Gastão era ótimo, e a entrevista foi com a banda inteira. 

Em relação aos funcionários, a recepção era fria, blasé. 

Se fôssemos famosos, certamente seria diferente, mas no caso do Pitbulls, éramos só mais uma banda a andar por aqueles corredores.

A questão não era ser uma banda iniciante. Pois todos tínhamos semblantes maduros. 

A questão era não sermos "hypados". 

Principalmente no meio onde a MTV se inseria também, isso é causa preponderante na relação entre artistas e pessoal de mídia, determinando o tipo de tratamento despendido.


Continua...

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 18 - Por Luiz Domingues


Iniciamos o ano de 1993 com um show no Black Jack Bar. 

Era uma casa pequena, com equipamento de P.A. precário, mas assim mesmo, muito tradicional no circuito Rocker de São Paulo, desde os anos oitenta, com tradição no Hard-Rock e Heavy-Metal, principalmente. 

Nos anos noventa, abriu mais o seu leque, atraindo também o punk-Rock, o grunge e o indie-rock.

Considerando que era janeiro, um mês tradicionalmente fraco por causa das férias escolares, levamos um bom público nesse show, com 100 pagantes aproximadamente (em 8 de janeiro de 1993).


Foi um show legal, apesar do áudio prejudicado pela má qualidade do P.A. precário da casa.

Lembro-me que tive a infeliz ideia de usar nesse dia uma camisa bastante estampada, e fui ironizado pelos meus colegas a noite inteira por esse deslize na escolha do figurino, onde me compararam ao falecido apresentador "Bolinha", que ficara famoso pelo mau gosto no uso de camisas espalhafatosas...mas, claro, era o Pitbulls on Crack, e tudo virava piada imediata !!  

O próximo show, demorou para acontecer. 

Só conseguimos marcar uma nova data em 18 de março de 1993, numa exótica casa noturna chamada "Circular Paulista", no bairro do Bom Retiro, e na verdade, tratava-se de um galpão rústico, onde a atração era um ônibus estilizado, estacionado dentro da casa.

Nesse show, dividimos a noite com a banda "Maldades de Pandhora", do meu aluno, Marcos Martines. O Marcos, que era meu aluno e amigo, ficou constrangido pelo fato da filipeta dar destaque à sua banda, e nos colocar como "abertura".

O fato, é que obviamente eu sabia que isso não era ideia dele, e para nós do Pitbulls, não importava tal referência em tom de inferioridade, na menção ao nosso nome.

Tal colocação foi na verdade uma imposição da vocalista da banda, que tinha uma postura altiva e certamente descortês. 

Mesmo que a banda dela tivesse esse status de superioridade, e não tinha, pois o Pitbulls era uma banda emergente e com portfólio de mídia mainstream, coisa que a banda dela não tinha, tal atitude era tresloucada, pois estávamos no mesmo barco do underground.

Falo isso como dado histórico, deixo claro, pois se não me incomodou na época, imagine hoje em dia...

Em seguida, outra casa exótica, chamada "Phoenix Rock Theater", no bairro da Barra Funda. Aconteceu no dia 25 de março de 1993.

Nessa altura, já estávamos quase certos na coletânea da Eldorado e providenciávamos documentação para assinar o contrato de gravação.  


Considerando que todos os discos que eu gravei na Chave do Sol foram independentes, ou parceria com um pequeno selo (Baratos Afins), era a primeira vez na minha carreira, que assinaria com uma gravadora, apesar de já estar com 32 (quase 33 anos de idade, na verdade), e 16 anos de carreira. Coisas da vida...

Começamos a discutir internamente quais seriam as nossas duas músicas escolhidas. "Under the Light of the Moon";, "Answer Machine", e "You've Got Me on The Run", eram as mais cotadas. 


Tínhamos que eliminar uma.

Já tínhamos também aparições na TV. 


Num programa obscuro da TV Gazeta, um pedaço pequeno de nosso show na Broadway em 1992, e uma mini entrevista foram ao ar. 

E em março de 1993, fizemos uma boa entrevista no programa do Gastão Moreira na MTV. 

Aliás, conheci o Gastão pessoalmente no show da Broadway em dezembro de 1992, e ele me contou um fato inusitado, naquela noite no camarim...


Continua...