segunda-feira, 31 de março de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 101 - Por Luiz Domingues


E desde que o BR-Rock oitentista começou a penetrar com força na mídia mainstream, ainda no final de 1982, estávamos atentos e assim que tocamos pela primeira vez no programa " A Fábrica do Som", ouvíamos todo o tipo de boatos. 

Isso intensificou-se em 1984, quando começaram os rumores sobre a realização do Festival Rock in Rio, a ser realizado em 1985. 

Vendo o estouro de todas aquelas bandas na mídia, sabíamos que não nos adequávamos àquela estética New Wave, Pós-Punk e que tais. 

A única banda que se aproximava do nosso gosto setentista era o Barão Vermelho, por ter aquela sonoridade Rock'n'Roll, meio "blueseira", mas mesmo assim, se havia um ponto ao menos de similaridade, mesmo assim nossos temas de passagens instrumentais intrincadas, com influência Jazz-Rock, eram muito distantes da turma de Cazuza. 

Aqui em São Paulo, o panorama era ainda mais diametralmente oposto. 

Bandas como Ira e Titãs, e mesmo o Ultraje a Rigor, seguiam a estética do Pós-Punk, fora as bandas Punk propriamente ditas, como Inocentes; Cólera; Ratos de Porão; As Mercenárias, e outras.

Essa turma e mais uma leva de derivados da vertente do Pós-Punk (Cabine C; Smack; Fellini; Voluntários da Pátria; UHF; Akira S. etc) também despontavam, mas eram seguidores da cartilha de Malcolm McLaren em essência, portanto, estávamos isolados e correndo o risco de ficarmos estigmatizados como anacrônicos, dentro de um mundo oitentista hostil ao extremo para artistas como nós, ainda vibrando em moléculas setentistas proibitivas para aquela estética quase fascista, de repúdio ao passado. 

Naturalmente fomos então nos movendo em direção à outra vertente oitentista que era antagônica à tudo o que descrevi acima, mas que demonstrava fôlego para sobreviver em quase pé de igualdade. Refiro-me ao Hard-Rock e Heavy-Metal dos anos oitenta.

Pelo peso, pela estrutura instrumental calcada em riffs de guitarra acima de tudo, e também pela estética visual, éramos quase que atraídos para essa turma, por absoluta falta de opção mais adequada aos nossos propósitos.

Numa análise muito simplista, mas verdadeira, éramos menos hostilizados nesse mundo, embora não ficássemos nada confortáveis nele, do que entre os Pós-Punks; Punks; New Wavers; Darks;, Góticos, entusiastas de Ska; Techno Pop, e demais vertentes derivadas do Punk'77, que dominavam completamente a cena da década de oitenta. 

Diante desse dinâmica de sobrevivência, duas coisas começaram a mudar drasticamente dentro de nossos planos, já no início de 1984 : 

1) Precisávamos de um vocalista de voz potente, que sobretudo fosse um frontman de grande carisma e domínio de palco e; 

2) Começamos a trabalhar em novas músicas com a preocupação de adequar a banda à essa nova estética, incrementando o aspecto Hard-Rock, quiçá Heavy, trazendo mais peso e Riffs ganchudos. 

Queríamos ficar competitivos para estarmos aptos a abraçar oportunidades que certamente apareceriam. 

Na verdade, depois que fizemos a primeira aparição na Fábrica do Som, elas começaram a pipocar. 

Estávamos quase para lançar o primeiro compacto, mas sentíamos que apesar das músicas serem boas, estavam ambas defasadas em relação ao mercado. 

"Luz" era um Rock'n'Roll de estrutura cinquentista. 

Havia entre os oitentistas, um nicho de Rockabilly que pululava entre os apreciadores de vertentes do Pós-Punk. 

Bandas como o Coke Luxe (que aliás era do cast da Baratos Afins, e muito incensada pelo próprio Luiz Calanca), e até o Magazine do Kid Vinil, se encaixavam nesse nicho. 

Mas o nosso Rock, "Luz", soava diferente de tudo isso, com peso e certas atitudes jazzísticas estranhas aos apreciadores do Rockabilly puro.


Continua...

2 comentários:

  1. É Mestre Luiz Domingues , eu como um fã do bom e velho Rockrolllll ( tenho 59 anos hoje ,old schollll), do outro lado da vertente , estavam voces os Musicos que viviam do Rockrolll em si mesmo./como disse e parece que entendi , como fã , para mim essa '''epoca de ouro'''' do ?Rock Brasuka, ficava muito a desejar.Foi um periodo muito ruim para mim como fã do Rock .Era eu e meus amigos em casa deles ,eu estava casado desde 82 ( ja tinha sentido antes uma vontade de mudar minha vida ).....enfim conseguimos passar pr esses anos e tantas bandas ruim de verdade .Ainda bem que a gente sabia que la fora , bandas como Iron Maiden,e tantas do Heavy Ingles estavam a vapor nos 80 e 90 ....acho que foi nossa salvação .......Mas enquanto isso ........................aqui no Brasil ........Se não tivevesse Pessoas com Visão de Futuro como o grande Mestre Calanca das Baratos Afims, nao sei o que seria de nós fãs do Rock e mais o que seria de voces.Ainda Bem que pelo Brazil ( com Z mesmo , igual o Made in Brazil um exemplo tipico que ate hoje faz o bom e velho Rcokrll......Palmas para voce e seus Amigos Musicos que conseguiram e hoje continua com a veia solta de Rock , e o coração Feliz por ter vencido.Chega de lamentar, como diz o Outro Mestre Mutante , estes dias no face, ao dizer a famosa frase>se o lesite esta derramado .....então cha o gato que lambe lambe.....rssss..Abraços de Coração de seu fã Oscar Gomes

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  2. Mas que bacana o seu depoimento, amigo Oscar. De fato, fazer Rock no Brasil nunca foi fácil. Somente naquele período dos anos oitenta, quando o tal "BR-Rock" teve apoio de mídia e gravadoras, mas mesmo assim, foi bom para quem estava dentro da panelinha formada por admiradores da estética do Pós-Punk, e ninguém mais.

    Pessoas como o Calanca e outros abnegados, tem seu valor por terem dado a sua contribuição para que artistas outsiders como era o caso da Chave do Sol, poderem ter um espaço até surpreendente, em se considerando a total falta de recursos com que lidávamos à época.

    Também acho, basta de reclamações, vamos para frente, sempre !!

    Estou muito feliz por verificar que está acompanhando os capítulos da minha autobio. Vem muita história bacana por aí, ainda...

    Abraço !!

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