segunda-feira, 31 de março de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 101 - Por Luiz Domingues


E desde que o BR-Rock oitentista começou a penetrar com força na mídia mainstream, ainda no final de 1982, estávamos atentos e assim que tocamos pela primeira vez no programa " A Fábrica do Som", ouvíamos todo o tipo de boatos. 

Isso intensificou-se em 1984, quando começaram os rumores sobre a realização do Festival Rock in Rio, a ser realizado em 1985. 

Vendo o estouro de todas aquelas bandas na mídia, sabíamos que não nos adequávamos àquela estética New Wave, Pós-Punk e que tais. 

A única banda que se aproximava do nosso gosto setentista era o Barão Vermelho, por ter aquela sonoridade Rock'n'Roll, meio "blueseira", mas mesmo assim, se havia um ponto ao menos de similaridade, mesmo assim nossos temas de passagens instrumentais intrincadas, com influência Jazz-Rock, eram muito distantes da turma de Cazuza. 

Aqui em São Paulo, o panorama era ainda mais diametralmente oposto. 

Bandas como Ira e Titãs, e mesmo o Ultraje a Rigor, seguiam a estética do Pós-Punk, fora as bandas Punk propriamente ditas, como Inocentes; Cólera; Ratos de Porão; As Mercenárias, e outras.

Essa turma e mais uma leva de derivados da vertente do Pós-Punk (Cabine C; Smack; Fellini; Voluntários da Pátria; UHF; Akira S. etc) também despontavam, mas eram seguidores da cartilha de Malcolm McLaren em essência, portanto, estávamos isolados e correndo o risco de ficarmos estigmatizados como anacrônicos, dentro de um mundo oitentista hostil ao extremo para artistas como nós, ainda vibrando em moléculas setentistas proibitivas para aquela estética quase fascista, de repúdio ao passado. 

Naturalmente fomos então nos movendo em direção à outra vertente oitentista que era antagônica à tudo o que descrevi acima, mas que demonstrava fôlego para sobreviver em quase pé de igualdade. Refiro-me ao Hard-Rock e Heavy-Metal dos anos oitenta.

Pelo peso, pela estrutura instrumental calcada em riffs de guitarra acima de tudo, e também pela estética visual, éramos quase que atraídos para essa turma, por absoluta falta de opção mais adequada aos nossos propósitos.

Numa análise muito simplista, mas verdadeira, éramos menos hostilizados nesse mundo, embora não ficássemos nada confortáveis nele, do que entre os Pós-Punks; Punks; New Wavers; Darks;, Góticos, entusiastas de Ska; Techno Pop, e demais vertentes derivadas do Punk'77, que dominavam completamente a cena da década de oitenta. 

Diante desse dinâmica de sobrevivência, duas coisas começaram a mudar drasticamente dentro de nossos planos, já no início de 1984 : 

1) Precisávamos de um vocalista de voz potente, que sobretudo fosse um frontman de grande carisma e domínio de palco e; 

2) Começamos a trabalhar em novas músicas com a preocupação de adequar a banda à essa nova estética, incrementando o aspecto Hard-Rock, quiçá Heavy, trazendo mais peso e Riffs ganchudos. 

Queríamos ficar competitivos para estarmos aptos a abraçar oportunidades que certamente apareceriam. 

Na verdade, depois que fizemos a primeira aparição na Fábrica do Som, elas começaram a pipocar. 

Estávamos quase para lançar o primeiro compacto, mas sentíamos que apesar das músicas serem boas, estavam ambas defasadas em relação ao mercado. 

"Luz" era um Rock'n'Roll de estrutura cinquentista. 

Havia entre os oitentistas, um nicho de Rockabilly que pululava entre os apreciadores de vertentes do Pós-Punk. 

Bandas como o Coke Luxe (que aliás era do cast da Baratos Afins, e muito incensada pelo próprio Luiz Calanca), e até o Magazine do Kid Vinil, se encaixavam nesse nicho. 

Mas o nosso Rock, "Luz", soava diferente de tudo isso, com peso e certas atitudes jazzísticas estranhas aos apreciadores do Rockabilly puro.


Continua...

domingo, 30 de março de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 100 - Por Luiz Domingues


De uma certa forma, o fato do disco ter enfrentado entraves burocráticos e extra musicais para ficar pronto, teve um aspecto atenuador para a banda.

Ocorreu que no período entre o fim de janeiro, até a minha saída do Língua de Trapo pela segunda e definitiva vez, no início de julho de 1984, quase não houve brecha possível para agendar shows da Chave do Sol.

Portanto, o risco que corremos em perder o bom embalo construído arduamente desde 1982 (e potencializado pelas aparições na TV), era enorme.

Isso somava-se ao fato de não termos na ocasião um empresário que pudesse capitalizar o "momentum" propiciado pela exposição midiática.

Então, o fato do disco ter demorado para sair, de certa forma foi estratégico, pois quando ficou pronto enfim, coincidiu com a época em que eu estava de saída do Língua de Trapo, portanto, com liberdade para dedicar-me integralmente à Chave do Sol, novamente.

Nesse ínterim, tivemos mais uma participação no programa "A Fábrica do Som", da TV Cultura. 

Nessa participação que foi ao ar no dia 31 de março de 1984, tocamos "Luz"; "Crisis (Maya), e novamente "Átila". 

Somente as duas últimas que citei, foram ao ar, e os respectivos vídeos estão no You Tube. 

Desta vez, a produção do programa fez jogo duro, e o Zé Luiz teve que usar a bateria Gope, acrílica da TV Cultura, como houvera sido na nossa 3ª aparição, em novembro de 1983. 

 http://www.youtube.com/watch?v=oZlb0BzsKhI

O link acima direciona para o vídeo de "Átila", performance da 4ª aparição da banda no programa "A Fábrica do Som", gravado no dia 27 de março de 1984, e que foi ao ar em 31 de março de 1984 

O Rubens aparece nesse vídeo com o cabelo bem mais curto do que o habitual, pois questão de dias antes, foi padrinho de casamento de sua irmã mais velha, Roseli Gióia. 

Apesar de "negociar" insistentemente com sua irmã para ir ao casamento com o cabelo preso, ela foi irredutível, e ele deu um corte meio exagerado para os nossos padrões rockers setentistas... 

O Zé Luis iria usar uma camiseta com o Logotipo novo que acabáramos de adotar, e estaria na capa do compacto. 

Era a famosa ilustração da pomba voando em direção ao sol. Mas ela não ficou pronta a tempo, infelizmente.
Esta camiseta eu nunca usei, mas a preservei como peça de memorabilia da Chave do Sol

Esse logotipo foi usado nessa remessa de camisetas e também em bottons que mandamos fazer. Foi um sujeito chamado Paulo que nos propôs esse merchandising e mediante um pacote, acabamos fechando o negócio.

A arte final era de um rapaz chamado, José Vicente Dias, que já comentei anteriormente.

De todas as nossas seis apresentações na Fábrica (somente cinco foram ao ar, e logo mais eu explicarei essa 6ª aparição que tem uma história sui generis), essa foi a mais comedida de todas para nós, tanto em termos técnicos, quanto na recepção do público.

 http://www.youtube.com/watch?v=oZlb0BzsKhI

O link acima direciona para o vídeo de "Crisis (Maya), executada ao vivo no programa "A Fábrica do Som", gravado em 27 de março de 1984, e que foi ao ar no dia 31 de março de 1984  

Mas de forma alguma poderia dizer que foi ruim. Foi boa, só não teve o calor efusivo das anteriores e da derradeira, posterior.



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sexta-feira, 28 de março de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 99 - Por Luiz Domingues


Com a mixagem encerrada no Mosh, em sua antiga instalação da Vila Pompeia, o próximo passo seria o processo do "corte". 

Por indicação do Luiz Calanca, o corte foi realizado no estúdio da RCA, pelo competente Oswaldo, acostumado a cortar discos há muitos anos, e que depois, na Era digital, abriu estúdio de masterização, e em seu estúdio, o CD Chronophagia da Patrulha do Espaço foi finalizado, em 2000, coincidentemente.

Para quem não sabe o que significava o "corte" no processo dos antigos vinis, explico rapidamente que era a etapa de acabamento final pós estúdio, onde a fita mixada do estúdio recebia a última camada de frequências agudas e graves, no cômputo geral, onde esse "corte final" definia a cópia matriz que seria imprimida no acetato de vinil, e que serviria então de base para a prensagem das cópias na fábrica.

O Rubens foi assistir o processo, e mesmo sem condições de opinar, pois era um processo técnico essencialmente, assim ao menos representou a banda, como apoio moral nessa operação final. 

No tocante à capa, tivemos alguns problemas com o fotolito da gráfica, e também com algumas provas rejeitadas por erro do uso de cores. 

Além disso, tivemos problemas com a revelação das fotos da capa, especificamente com a foto do Rubens. 

A ideia de escurecimento para dar clima sombrio na foto do Rubens , sugerido pelo fotógrafo Fabio Rubinato, parecia muito legal em tese, mas na prática, o laboratório fez muitos esforços para clareá-la.

O certo seria abrir nova sessão e tentar capturar outras fotos boas do Rubens, mas não obstante o fato de termos essa foto comprometida pela ausência de luz, nós gostávamos dela em si, pela expressão facial do Rubens, e enquadramento. 

Dessa forma, fomos muito teimosos, bancando a sua permanência, e mesmo com os esforços do laboratório para clareá-la (numa era pré-digital, sem photoshop e que tais).

Mas esse processo durou um tempo enorme. 

Por vários problemas de agendamento no estúdio RCA; da gráfica com suas idas e vindas, e do laboratório que trabalhava nas fotos, o processo tornou-se lento. 

Por esse motivo, o disco só foi ficar pronto meses depois, lá por maio de 1984.


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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 98 - Por Luiz Domingues


A sessão de Overdubs, marcada no dia seguinte, foi tranquila e um dos técnicos mais experientes do estúdio na ocasião, chamado de "Primo", foi acompanhar um pouco o desenrolar dos trabalhos. 

No mesmo dia, começamos a sessão de voz. 

Na verdade era fácil a tarefa, por ser só uma música cantada ("Luz"). 

E no mesmo dia, fizemos também os backing vocals, nós três da banda, e o reforço de Soraia Orenga e Rosana Gióia.

Quanto ao vocal solo do Rubens, foi bem rápido, pois ele já estava seguro desde quando incorporamos essa canção no repertório, e por termos tocado-a em quase todos os shows que fizemos no ano de 1983, estando mesmo bem preparada para gravá-la. 

E os backings foram tranquilos também. Fizemos uma círculo em volta do microfone Neumann, e gravamos juntos num único canal.

Gravando em apenas oito canais, era inevitável que fizéssemos reduções e dessa forma, alguns timbres ficariam mesmo achatados nesse processo reducionista. Alguns dias depois, fizemos a sessão de mixagem de ambas. 

No dia da mixagem, o ex-vocalista do Made in Brazil, Caio Flávio, apareceu, e ficou assistindo a sessão. Com redução e aliado à nossa inexperiência, a mix ficou a melhor possível dentro desse cenário.

Ouvindo hoje em dia, acho que tem excesso de reverb, e a extrema leveza da base do Rubens em "Luz", incomoda-me um pouco. Se houvesse um dobro de guitarra base, com um pouco mais de drive, creio que a música ficaria mais encorpada. 

Também acho que poderia haver um pouco menos de reverb na bateria, no geral, mas entendo perfeitamente que não dava para fazer milagres numa redução para dois canais de um instrumento complexo como é a bateria. Gosto, contudo, do Flanger nos pratos, durante um trecho do seu solo em "18 Horas", e isso foi proposital evidentemente, com a aprovação da banda inteira. 

No tocante ao baixo, hoje em dia eu tiro um timbre tão espetacular usando amplificador e caixas ampeg, principalmente nos trabalhos do Pedra, que realmente fico chateado por ter gravado em linha, sem nem cogitar usar um amplificador nessa gravação da Chave. 

Não está ruim, mas meu Jazz Bass rende 100 vezes mais nessa circunstância que descrevi acima. O timbre comedido, quase flat desse compacto, poderia ter sido matador, pois o Fender Jazz Bass é o mesmo, com cordas novas etc. Mas admito que há um fator limitador nesse caso, a mais. 

Os baixistas puristas vão me execrar, mas o fato de nessa época eu tocar exclusivamente na técnica "Pizzicato", contribuiu também, decisivamente.

Desde 1992, eu eliminei esse estilo de tocar na minha vida, e com o uso de palheta, não tem comparação a qualidade "timbrística". 

Com os dedos, a tendência é perder o brilho. Com palheta, o baixo ronca de forma violenta, produzindo o máximo que um instrumento vintage tem de bom, ou seja, a sua sonoridade natural. Dessa forma, há anos estou acostumado a explorar o máximo de baixos Fender e Rickembacker. 

Ouça qualquer gravação do Pedra, e sentirá quando é Jazz Bass; Precision; ou Rickembacker, pois isso é nítido. 

Mas estou comentando tecnicamente apenas. Não me queixo e pelo contrário, me orgulho muito desse primeiro trabalho da Chave do Sol, por representar mesmo a concretização de um sonho pessoal que acalentava desde 1976, quando formei minha primeira banda.

Ele é importante para mim por esse aspecto pessoal, e também pelo trabalho em si, representando muito para a carreira da Chave do Sol.

Esse compacto, aliado às aparições na Fábrica do Som, foram os dois principais fatores que nos catapultaram de uma condição de anonimato para uma exposição midiática, dando-nos oportunidades ímpares de impulsionar a nossa trajetória, e foi exatamente o que ocorreu.


Continua...  

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 97 - Por Luiz Domingues



A gravação da base de "Luz", foi relativamente rápida. 

Dado o caráter de gravarmos ao vivo, tivemos que fazer dois ou três takes apenas, motivados por errinhos bobos de um ou de outro. 

Mas realmente foi muito pouco, demonstrando que nossa eficácia era o fruto de uma pré-produção esmerada, com muito ensaio.

Hoje em dia, acho que o andamento da música deveria ser um pouco para trás. Daquele jeito que gravamos, tem um entusiasmo, mas acho que um pouco mais lento traria um balanço maior. 

Penso nisso pela questão da linha melódica em primeira instância, claro, mas também pelo fato de que muitas convenções poderiam (e deveriam na verdade), terem saído com mais "swing".

Na base da otimização máxima do tempo, apenas checamos a afinação, e partimos direto para a gravação da base de "18 Horas". 

Naturalmente, essa seria bem mais difícil, por ser longa, cheia de convenções precisas, e solos dos três instrumentos. 

Começamos a gravar com muito foco, e apesar do grau de dificuldade maior, além de estarmos muito bem ensaiados, nos sentimos muito mais à vontade na hora de gravar "18 Horas", pelo fato de estarmos aquecidos e ambientados ao estúdio.

Fora o fato de termos adquirido confiança no técnico, Robson T.S. , fator fundamental também nesse processo. 

No momento em que chegou o meu solo, senti uma certa insegurança por conta do fone de ouvido. 

Faltou-me a experiência para pedir ao técnico que desse um ganho de volume naquele momento, pilotando o som do baixo na mandada do monitor. 

Com isso, toquei de forma linear como era o plano durante a música normal. 

Por outro lado, o fato da guitarra parar naquele trecho contribuiu para a minha melhor audição. 

Só com a bateria do Zé Luis me acompanhando, ficou mais fácil, evidentemente. 

Na hora do solo do Zé Luis, a nossa preocupação era a de não alterar em demasiado o andamento, arruinando a volta à música na sua parte final.


Como não estávamos usando metrônomo, esse risco era muito grande, pois em se tratando de um solo, em algum momento ele desviaria a atenção da marcação e sem chão, o pulso seria perdido. 

De fato, nós tentamos ensaiar com o "click", mas músicos intuitivos que éramos, a rigidez espartana do metrônomo nos atrapalhava demais, tirando-nos toda a segurança.

Voltando à gravação, digo que sim, naturalmente que o andamento voltou oscilado, mas aos ouvidos do grande público leigo, e sejamos francos, também de quase todos os críticos e muitos músicos, trata-se de um erro imperceptível. 

Só maestros, musicólogos, ou produtores perfeccionistas percebem essa sutileza. 

E passados esses dois momentos críticos da música, apesar do longo solo de guitarra, e algumas convenções difíceis, era mais fácil gravar a base.

Nesse caso, invertemos um fator em relação à gravação de "Luz", pois tocamos realmente como se fosse ao vivo, com o solo do Rubens sendo feito "valendo". 

Dessa forma, ele reforçou algumas coisas apenas num overdub. 

E como sobrou um tempinho dentro de nossas previsões, resolvemos incorporar um luxo extra de última hora. 

Como havia muito equipamento dos Pholhas à disposição no estúdio, resolvemos reforçar o riff principal de "18 Horas" com intervenções de teclados. 

Queríamos usar o vistoso Mini-Moog, mas como não sabíamos que timbre escolher, e o objetivo era só reforçar a convenção e não fazer solos exagerados, acabamos optando pelo uso do Clavinete Hohner D6, outro teclado tipicamente setentista.

O Rubens acabou fazendo a gravação e apesar do timbre marcante do teclado, na soma com baixo e guitarra, ficou como mero reforço, fazendo uma sombra quase invisível. 

Quase não dá para notá-lo, mas eu sei que está lá... 

E assim encerramos o primeiro dia de gravações, satisfeitos com o resultado, e certamente já eliminando 75 % do processo, pois os overdubs, e as vozes seriam bem mais fáceis de serem concluídos. 


Continua...  

quinta-feira, 27 de março de 2014

Artérias - Por Julio Revoredo

 
Artérias já, artérias aqui.

Multicores, por entre multiflores, vácuos, vazios, tubos, triângulos.
Artérias em fogo, fogo-fátuo.

Distorcidos mares que abrem em flor, em 7.
O vento desvidra o lineal utópico do homem solitário e violáceo, que cruza o Azul com Syd Barrett, no mais tudo dissipa-se em artérias, originais, abissais, por hora vírides sereias astrais, as naves do espaço exíguo, não escolhem entre a noite e o dia, apenas segue-se o contrarefluxo em artérias, artérias, artérias, arte.




Julio Revoredo é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Poeta e letrista de diversas músicas que criamos em parceria, em três bandas onde atuei : A Chave do Sol, Sidharta  Patrulha do Espaço.

Neste poema, nos fala sobre o fluxo surreal proposto na psicodelia, correndo como um rio caudaloso e pleno de arte.

sábado, 22 de março de 2014

Tudo o que eu quero é não querer - Por Tereza Abranches

Não quero fatos imperdoáveis.

Não quero o choro baixinho no lugar do que não foi dito.

Não quero que o cheiro de malva se extinga.
Não quero ignorar arrependimentos e sim enfrentar todos eles (e tem gente que fala que não se arrepende do que fez e sim do que não fez). Papo furado. Todo mundo se arrepende de alguma coisa (somos falíveis sim).

Não quero sorrisos afixados nos rostos por puro convencionalismo.
Não quero crianças sem a infância real que precisa ser vivida e com urgência.

Não quero arrastar correntes pela vida, pesos que já se tornaram obsoletos e desnecessários.

Não quero palavras que disfarcem pensamentos ao invés de traduzi-los, desnudos e sem medo.
Não quero abraços onde os corações de um e de outro não possam ser sentidos pelos que se abraçam.

Não quero mil flores de mentira, e sim um soco bem dado no estômago causado pela verdade simples e transparente, não tem problema, eu sobrevivo.
Não quero perder a lembrança do cheiro bom e aconchegante da minha vó.

Não quero impedir que minhas lágrimas desçam ou que eu dance até cansar quando uma música me levar à combustão espontânea (não mergulhar na música que se ouve deveria ser proibido por lei).
Não quero passarinhos em gaiolas.

Não quero deixar de me surpreender com as coisas, tanto as belas como as feias e tristes.

Não quero que a natureza deixe de me cortar o coração de tão bela e quero sentir profundamente o vento que traz consigo sussurros de fadas e duendes e o cheiro da terra, invadindo meus recantos.
Não quero nunca esquecer de pisar na grama molhada e abrir os braços, sentindo a chuva lavar minha alma de forma profunda e acolhedora.

Não quero deixar de rir tão alto e tão forte, que esse riso ecoe nas matas, penhascos e montanhas.
Não quero nunca esquecer que tudo está em seu devido lugar, colocado pela Vida, que é pra lá de sábia muita coisa.

Não quero deixar de ver beleza e poesia mesmo nas situações mais difíceis, porque existe beleza e poesia em tudo, basta olhar e ver.
Não quero que a minha decisão de ser feliz passe despercebida aos que têm talento pra infelicidade.

Não quero gestos estudados, polidos e cheios de etiquetas lamentáveis; quero gente espontânea, densa, de coração na mão, gente apaixonada perdidamente pela simplicidade.
Não quero nunca perder o contato com a criança que mora em mim e que, às cambalhotas, sempre enxergue tudo isso.

... mas todos os meus não quereres esbarram na realidade, por isso canto, danço, voo dentro de mim e pingo um cadinho de luz à minha volta, sempre na expectativa bendita de que a minha luzinha chegue à alma do filhos da Terra !

Tereza Abranches é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. 
Artesã e escritora, desenvolve também estudos nos campos da literatura e da espiritualidade. 

Neste novo texto, nos mostra o que é tomar posição diante da vida, deixando claro seus propósitos.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 96 - Por Luiz Domingues

Eu, Luiz Domingues, fazendo pose de "Brian Jones" no Estúdio Mosh, em janeiro de 1984

E finalmente chegou o dia. 

Estava marcado para as 15:00 h de um dia de janeiro de 1984 (não anotei o dia certo, peço perdão ao leitor/fã da Chave do Sol).

A sala de gravação no antigo Mosh, era um quarto muito amplo, cuja suíte foi retirada, e virou uma casinha isolada para a bateria. Com uma elevação substancial, víamos o Zé Luis como se estivesse num praticável de show ao vivo, com a bateria suspensa. 

Dessa forma, apesar de fechado na casinha, tínhamos a comunicação visual essencial numa gravação, ainda mais em se considerando que gravaríamos toda a base ao vivo.
Ele levou sua bateria Tama, usou três pratos (Crash 18' ; Ride 22' e China 24' ); os pratos de chimbau que ele usava nessa época, eram da Zildjian. Pedal de bumbo, Speed King. Ele usou peles Remo hidráulicas em todos as peças, incluso na caixa.
Eu usei o meu Fender Jazz Bass, com cordas GHS (040), mas plugado diretamente na linha. 

E o Rubens usou sua Fender Stratocaster, plugada num amplificador Music Man, com dois falantes de 12".

O Rubens tinha na pedaleira nessa época, um Phase 90 da MXR; Wah-wah Cry Baby; Compression/Sustainer da Boss, e Chorus da Boss, como principais opções. 

Ele tinha também cinco pedais da Coloursound, que acoplava esporadicamente ao vivo, um ou outro, mas não me lembro de vê-los todos na pedaleira.

O Chorus ele usava pouco, é verdade. Sua preferência era pelo Phase 90, aliás uma marca registrada que marcou o som da Chave do Sol, pois quase todos os solos dele, eram feitos com o pedal ativado. 

Muitos guitarristas comentam que isso era típico da Chave do Sol, e é verdade. 

Gravamos inicialmente a base de "Luz", por ser um Rock mais simples. 

Teoricamente apenas, pois se a estrutura harmônica era de Rock'n Roll básico cinquentista, haviam diversas convenções e verdadeiros momentos de inspiração jazzística, com escalas de baixo andantes, por exemplo. 

O Zé fez viradas difíceis e sendo assim, apesar de parecer fácil para um baterista de seu nível, exigia concentração. 

A guitarra ficou isolada por um biombo de madeira almofadado à moda de estúdios vintage, no fundo da sala. 

Não me lembro sinceramente qual foi o microfone usado para a captação do amplificador. Remotamente recordo-me que era um AKG, mas foge-me o seu modelo específico.

A verba era curta, portanto não tínhamos outra alternativa a não ser gravar a base ao vivo, reservando apenas solo e contrasolos para os overdubs, além da voz e backing vocals, evidentemente.

Faltava-nos experiência em estúdio, pois na ausência de um maior preparo nesse sentido, o Rubens equalizou seu amplificador para uma base limpa, mas exagerou na dose. Ficou quase uma base de country, bem Nashville. 

Sua Fender Stratocaster soa como Telecaster praticamente, nessa base que ficou registrada no disco.

Não posso dizer que seja feia, pelo contrário, são desenhos rítmicos muito bem engendrados por ele e agradáveis naquela base limpíssima, mas faltou um contraponto que seria necessário com uma segunda guitarra base mais suja, abrindo no estéreo.

Era o primeiro disco da minha vida, como banda minha de fato. 

Antes disso eu gravara uma faixa num disco de um cantor de MPB em 1980 (já relatado no tópico "Trabalhos Avulsos"); uma demo-tape com o Língua de Trapo (também já relatado no capítulo dessa banda), e algumas gravações mambembes de demos para inscrever músicas em festivais etc. 

Em suma : era muito pouca a minha experiência.
Zé Luiz de costas; o ex-vocalista do Made in Brazil, Caio Flávio, que acompanhou a gravação como convidado do Mosh, e o técnico Robson T.S., de bigode


Estava seguro e muito calmo, mas faltava-me experiência em lidar com o estúdio, coisa que hoje tenho de sobra. 

Para o Zé Luis também era o primeiro disco. Fora disso, sua experiência resumia-se à fitas demo com sua banda anterior, o Contrabando.

E o Rubens tinha gravado um compacto com a banda Santa Gang em 1981, o que também era muito pouco.

A nossa sorte foi que estávamos excepcionalmente bem ensaiados, e tranquilos, seguros. E também pelo fato do técnico de som designado para nos servir, ter curtido o som, e ser extremamente gente boa. 

Estabelecendo amizade e sintonia musical instantânea conosco, foi um cara que nos auxiliou do início à mixagem, com extrema boa vontade, e espírito cooperativo. 

O nome desse técnico é Robson T.S. 

Ele era jovem, mas bastante competente e interessado em mostrar serviço, dando o melhor de si para o som ficar redondo. 

O dono do estúdio era (é) o Oswaldo Malagutti, ex-baixista dos Pholhas, e muito do equipamento do Mosh naquela época, era dessa banda, e muito usado na década de setenta.
Robson T.S. compenetrado na sessão de overdubs de guitarra do Rubens. Sentado ao seu lado, Caio Flávio, e à esquerda, só no detalhe, o Zé Luis Dinola.





Continua...