sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O Último Sol de Ipanema - Por Marcelino Rodriguez


Era fim dos anos oitenta e fiquei amigo do velho Braga, fazendo-lhe uma meia dúzia de visitas. Na última, de sua cobertura em Ipanema, víamos o sol nostálgico como que entrando dentro do mar. Eu era um dos novatos privilegiados pela amizade do escritor e pescador, que fora peça importante da minha formação, de modo que ainda hoje, se procurar bem, acaba se achando na genética da minha escrita, a sombra do homem de Cachoeiro. Os olhos dele eram profundos,de tanto ver e criar milagres.

-- Depois que você sofrer bastante, esse povo dos jornais contrata você. A gente que vive de escrita, tem que estar atento a ingratidão.
Você sabe, garoto, só de olhar na cara de um homem, sei se ele é ou não um patife, ou se leu Graciliano Ramos ou não, o que vai dar no mesmo. 

 -- Gosto muito quando você fala das moças, Braga. 

-- Ah, as moças (Braga põe duas pedras de gelo no copo de uísque)

-- Sim, suas crônicas sobre as mulheres são muito delicadas, como rosas que se vão abrindo aos poucos, de botão em botão.

-- Você quer que eu te fale de uma moça milagrosa e linda, mesmo depois da morte?

-- Sim.

-- Já ouviu falar da camponesa Elizabeth Soubirois?

-- Não, mas pelo nome é francesa né?

-- Sim, Francesa.

Braga nunca desperdiçava uma palavra; um mestre de exatidão delicada.

-- Que tem ela?

-- Foi ela quem viu Nossa Senhora em Lourdes, que ela chamava de "Senhora". 


-- Sim, mestre, mas o que tem ela a ver com os escritores.

-- Você sabia que ela morreu e seu corpo continua intacto, desafiando a ciência humana? O corpo dela, pois, continua incorruptível. Está lá para quem quiser ver, exposto. Um milagre, vivo e morto. O ápice da poesia.

-- Nossa, não sabia dessa história. É verdade, mesmo ? 

 -- Sim, verdade.

Braga foi na estante e pegou um volume da enciclopédia, que já trouxe aberta.

-- Veja, jovem.

Havia ,de fato, a foto do cadáver sereno da santa de Lourdes.

-- Sabe o que estou querendo mostrar-lhe, meu futuro imortal?

-- Não. 


-- Nossa vida de escrever é como a da santa francesa. Damos frutos em vida e depois de mortos, e ainda tem gente disposta a duvidar que milagres e milagreiros existem aqui e no mundo absoluto, que está lá além da janela. Se continuarmos vivos depois de mortos, sinal que cumprimos nosso destino.

Olhei para aquele homem, e pensei que ele era habitado por toda uma mitologia grega de deuses.

O sol ia caindo no mar, ao sabor de nossa conversa.

-- Aceita, por que o escritor que não bebe também é um patife - disse, estendendo-me um copo de uísque com duas pedras de gelo.

-- Obrigado. 


Bebíamos em silêncio, até que depois de um tempo, cerca de meia hora, pedi-lhe para dar uma última olhada da janela, antes de ir embora. O sol entrara completamente no mar. Braga já estava mais silencioso, reticente. Levou-me até porta.

-- Me liga, quando quiser. Boa sorte com os poemas. Pense: tem que valer para a eternidade.

-- Até breve, mestre.

Lá fora, já era escuridão.

Vi, pela última vez, o sol de Ipanema.






Marcelino Rodriguez é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. 

Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos traz uma deliciosa crônica, evocando o caráter imortal do legado literário ao mundo tão carente de cultura, e por que não (?), vergonha na cara...






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