quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Aila - Por Marcelino Rodriguez


Chegou a hora de falar de Aila, minha cadela marrom de olhos de papaleguas, aquele mesmo do desenho animado. 

De vez em quando eu e ela trocamos olhares desafiadores.

Ela, como algumas personagens femininas de Machado de Assis, tem olhos oblíquos e dissimulados. Dá mole que eu te fodo, parece que os olhos dela me dizem, ou então não tente me decifrar que sou mulher, portanto, sou selvagem e é melhor que você me espanque de vez em quando para a coisa não sair dos trilhos. 

Quando ela rosna no prato os machos saem acanhados e esbaforidos. Os olhos dela, se você a encarar, vão para a direita e para a esquerda, buscando esquemas mentais indecifráveis e diabólicos e quando param no centro para te fitar você já sabe que com ela nunca vai entender coisa alguma. Ela está perto de você e longe léguas dentro dela mesma, além. 

No fundo, tímida. Não gosta muito de mostrar seus reais sentimentos, mas você tem vontade de mata-la as vezes, devido a seus exageros femininos. Por que toda vez que saio de casa a vizinhança toda tem que saber, por que ela grita desesperada como uma mulher quando finge um orgasmo, levando meus nervos ao desespero e me deixando corado de vergonha. 

O exagero é tão grande que jovens viúvas perdem no enterro. Quando vou sair, sou transformado em celebridade pela minha cadela. Adeus, discrição da minha vida. Um dia um rapaz parou o carro enquanto ela continuava o escândalo no portão. “olha, meu amigo. Aquela cachorra é sua? Acho que ela tá esganada no portão”. Não, amigo, é humor negro dela, sacanagem mesmo. Ele ri e vai embora.

Para que se entenda como ela me leva ao céu e ao inferno em instantes, um dia eu limpei a casa com capricho e ia dar-me um justo relaxamento com uma cervejinha e uma linguiça mista frita no capricho. Com uma ingenuidade de anjo pus um instante a linguiça na varanda. A cena foi cinematográfica e poderia ser feita em câmera lenta. Menos de um minuto e com a destreza de papaleguas Aila bateu com arte a minha linguiça, no talento. Em segundos, sequer eu podia recuperar pois parece que ela triturou e engoliu na velocidade da luz. Fiquei possesso e nesse dia fiz valer meus direitos de homem e espanquei-lhe um tanto. 

Desisti da linguiça e fui deitar, deprimido como um suicida. Depois que parei para pensar no pitoresco da situação, desatei a rir como um demônio na noite. Essa é Aila dos olhos de papaleguas, “dá mole que eu te fodo”.




Marcelino Rodrigues é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos traz uma crônica falando sobre Aila, uma cadela faceira, mas muito amiga dele.

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