domingo, 15 de dezembro de 2013

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 55 - Por Luiz Domingues



Após essa frustrada tentativa de tornar o TNA, uma banda autoral, dispersamos de vez. 

Mas em meados de fevereiro de 1982, o Paulo Eugênio recrutou a banda novamente, um a um, considerando que todos estavam sem dinheiro, e sem grandes perspectivas naquele início de ano.

Dessa maneira, mediante poucos ensaios, tiramos a ferrugem e colocamos de novo a banda no circuito, com a perspectiva de tocar num circuito de bares novamente, mas sobretudo pela promessa do Paulo Eugênio em abrir uma nova frente de trabalho, investindo no setor de espetáculos fechados em escolas.

Essa era uma ideia que ele mantinha desde a época em que fizemos com grande êxito uma apresentação na Escola de Idiomas Cultura Inglesa em 1980, com um desdobramento posterior numa unidade dessa mesma escola em Campinas, no interior do estado. 

E segundo ele, estava com um projeto semelhante já preparado para vender em colégios particulares, oriundos da clientela de seu tio, que tinha uma agência de turismo, especializada em excursões escolares para a Disneylândia em Orlando, Florida. 

Cido Trindade estava agora dividido entre estudar alucinadamente para obter nível técnico de seus ídolos virtuoses da bateria, e ensaiar com a cantora Lily Alcalay (onde ele acabou me encaixando também, e esse assunto já foi contado no capítulo : trabalhos avulsos); Wilson estudava guitarra no Clam, e dividia-se entre o seu emprego público, e as atividades de pai recente, com o nascimento da filhinha. 

O Aru também topou, e o Sérgio Henriques estava com a perspectiva de trabalhar com a Gal Costa, mas estava parado naquele instante, e bastante chateado com a morte da Elis Regina, com quem estava muito envolvido desde 1980. 

Sendo assim, o TNA voltou à ativa na noite de 20 de março de 1982, subindo ao palco do Café Teatro Deixa Falar, com um surpreendente público de 100 pessoas. 

A formação dessa volta contava com o quinteto mais estável da história do TNA (Paulo Eugênio; Aru; Cido Trindade; Wilson, e eu), com o acréscimo do membro nem sempre presente, mas antigo, Sérgio Henriques.

O clima não era o mesmo de outrora. 

Mesmo sendo uma banda cover, e como já salientei diversas vezes neste tópico, banda cover tem relação interna frágil, pois não tem a "argamassa do sonho", o clima na banda era melhor em 1980-1981.

Agora, era nítido que todos estavam ali meramente por absoluta falta de perspectivas melhores para cada um, individualmente. 

Uma nova apresentação ocorreu no mesmo Café Teatro Deixa Falar, em 3 de abril de 1982, com 40 pessoas presentes. 

Paulo Eugênio estava centrando seus esforços nesse plano de fazer apresentações em colégios, com cachet fixo, e estava difícil retomar o embalo de 1981, na melhor fase da banda.

Mais uma vez tivemos a sorte de embalar uma festa fechada. 

No dia 15 de abril de 1982, voltamos ao Café Teatro Deixa Falar, desta feita para uma festa fechada e promovida pelo Centro Acadêmico da Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie. 

Acredito que o Deixa Falar não recebia um público assim desde o tempo de glórias do "Be Bop a Lulla", nos anos setenta. 

Foram 350 pessoas naquela noite. 

Mas, nos dias posteriores, 16 e 17 de abril de 1982, a rotina decadente da casa restabeleceu-se, e tocamos respectivamente para 20 e 30 pessoas.

Porém, o clima melhorou novamente, como numa autêntica gangorra, ao tocarmos novamente numa festa fechada, desta feita realizada num espaço onde nunca havíamos tocado anteriormente, e que era um sonho de consumo para todas as bandas cover da cidade : o bar "Sem Fim", que ficava localizado na Rua Bela Cintra, próximo à av. Paulista. 

Foi um dos mais curiosos casos em que a banda se envolveu. 

Era uma festa fechada por esquerdistas, simpatizantes do Partido Solidariedade da Polônia, que comemorava os feitos do líder sindical Lech Walessa, que lutava por mais democracia ante a ditadura de esquerda ferrenha dos soviéticos.

Mas, por aqui a ditadura era de direita, e a despeito do Partido Solidariedade representar uma luta contra o esquerdismo extremo, ainda assim era uma atividade proscrita prestar essa solidariedade ao "Solidariedade", com o perdão da redundância.

Portanto, tocamos sob clima tenso, com pessoas entrando no bar só com senhas e um clima de medo, pois haviam rumores de que poderia haver uma batida policial da repressão etc e tal.

Fomos instruídos a tocar com um volume aquém do nosso padrão habitual, e embora fosse uma festa e as pessoas dançassem e bebessem, parecendo se divertir, dava para sentir uma tensão.

E a decoração denunciaria qualquer tentativa de ludibriar a polícia caso ela aparecesse, pois haviam bandeiras do partido Solidariedade e várias pessoas usavam bottons com o logotipo do partido, grafado em polonês. 

Não aconteceu nada de mal, e pudemos sair do local dentro de nossa rotina habitual da noite. 

Mas foi bem sui generis essa festa.


Continua...   

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