segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 40 - Por Luiz Domingues



Percebi que a Verônica tinha parado de cantar, porque eu a acertara violentamente com o headstock do baixo !! 

Ela estava com a mão sobre o rosto, e quando a tirou, seu rosto estava vermelho como um tomate, devido ao hematoma.

Mesmo assim, continuamos, e só depois do show pude pedir desculpas pelo acidente.

Tinha meus dias de Pete Townshend ali no Victoria, e como ele, também causei acidente pelos excessos cênicos...

Fora esse acidente do qual ela foi vítima, o que estava acontecendo com a Verônica ? 


Ela subitamente mudou seu comportamento conosco. 

Se antes era uma moça simples e dócil, passou repentinamente a nos evitar, e ter rompantes de arrogância.

Passou a ser comum não comparecer ou justificar suas faltas nos ensaios, e nos shows, chegava atrasada toda a noite. 

Nos evitava no pós-show ao máximo, sumindo, e se despedindo de forma seca.

Então descobrimos tudo, quando ela nos comunicou que seu cachet seria pago em separado do nosso, doravante, conforme já havia combinado com o diretor do Victoria.

A verdade é que haviam feito a cabeça dela para cumprir aqueles shows contratados, e se livrar de nós, partindo para uma carreira solo, com a efêmera promessa de um contrato com gravadora major, lhe garantindo a gravação de um disco, uma nova banda contratada para acompanhá-la, e ela como estrela absoluta.


Inebriada por esses sonhos, passou a nos hostilizar, dando como certa a sua escalada meteórica rumo ao sucesso no mainstream.

Sendo assim, quando acabou o contrato com o Victoria, ela saiu sumariamente da Chave do Sol, e nós ficamos sem perspectivas imediatas, pois todo o embalo maravilhoso que havíamos pego desde outubro de 1982, foi para o ralo, porque estávamos sem outras datas, e tendo que procurar às pressas um novo vocalista ou voltarmos ao formato de Power Trio, tendo que reestruturar todo o repertório para o Rubens, ou o Zé Luis cantarem.

Isso sem contar o prejuízo em perder uma vocalista do potencial sensacional que ela tinha. Se tivéssemos prosseguido, e com a sorte de arrumarmos um produtor...

Dali em diante, experimentamos a nossa primeira curva descendente na história de altos e baixos da banda. Relatarei a seguir essa fase dura que durou três meses de aspereza.

Essa foto foi tirada durante a realização de um soundcheck no Victoria, sem a presença da Verônica. Tornou-se irônica, pois sua súbita debandada nos obrigou a voltarmos ao formato de Power-Trio, doravante.



Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 39 - Por Luiz Domingues

              
                       











Zé Luis Dinola, num desses shows do Victória Pub em 1983

5) Sobre A Chave do Sol e o Victória:

Na reunião em que fechamos o contrato, o diretor da casa nos advertiu apenas sobre não exagerarmos no visual "Riponga" (palavras e preconceito, dele), além de não falarmos palavrões no microfone (me senti no filme "The Rose"..."hey you, motherfuckers"...), e pediu-nos para tocar músicas conhecidas. 


Não havia restrição para que tocássemos músicas autorais mescladas, mas desde que não houvessem exageros.

O pagamento ficou acordado de ser realizado semanalmente.

O primeiro show, no dia 1° de fevereiro de 1983, foi realizado no palco pequeno, conforme já mencionei anteriormente. 


Mas logo no segundo dia, perceberam que nossa banda jamais poderia tocar num palquinho lounge de piano bar, e sendo assim, nos escalaram para o Palco Principal, a partir do segundo dia.

Tocávamos várias músicas nossas, mas evitávamos as instrumentais muito longas, privilegiando o talento vocal da Verônica. 


Verônica e Rubens na linha de frente, Zé Luiz na retaguarda...A Chave do Sol no Victoria Pub'1983 !!

A nossa performance era frenética. 

Eu; Verônica, e Zé Luis, principalmente, entrávamos a todo vapor. 

Eu exagerava mesmo, pois estava 100% seguro como músico, e me permitia uma mise-en-scené frenética, sem prejuízo ao desempenho musical.

O Rubens sempre foi mais comedido e costumava tocar concentrado, e estático. 

Mas para compensar, tinha seus arroubos frenéticos e "Hendrixianos" ao tocar a guitarra virada atrás da cabeça, ou mesmo tocando com os dentes, e claro que eram momentos plus de euforia, cujo momento aguardávamos como se fôssemos mágicos, que sabem exatamente onde usar o seu melhor truque no clímax de seu show.

A Verônica continuava no entanto na sua toada de beber antes de subir ao palco, e extrapolar nos trejeitos, ou nas bobagens ditas ao microfone. Mas algo pior estava por acontecer...

Antes que comece a contar isso, preciso mencionar que uma vez, eu cometi um acidente que poderia ter tido gravidade. 


Estávamos tocando "O Contrário de Nada é Nada", dos Mutantes, quando na euforia da minha mise-en-scené, fiz um movimento muito brusco com o head stock do baixo (a chamada "cabeça", onde ficam as tarraxas que afinam o instrumento). 

Estava alucinado tocando, e nem senti que dei um tranco em alguma coisa...

Eu vivendo meus dias de "John Paul Jones", com meu Fender Jazz Bass roncando forte, plugado num amplificador "Acoustic", cortesia do amigo Nelson Brito.

Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 38 - Por Luiz Domingues



4) Ainda falando de bastidores, lembro-me de numa noite, termos tido a sorte de tocar numa festa da Rede Globo, comemorando o encerramento de uma mini série, chamada: "Bandidos da Falange", falando sobre o submundo do crime no Rio de Janeiro etc e tal.

Toda a equipe técnica, diretores e muitos atores se esbaldaram ao som da Chave do Sol. Lembro-me da Betty Faria; Roberto Bonfim; Gracindo Júnior, e Júlia Lemmertz, entre outros, dançando enquanto tocávamos.


 
 

 

Informações sobre a mini-série "Bandidos da Falange" :

http://pt.wikipedia.org/wiki/Bandidos_da_Falange


E também eram notórios os shows de artistas famosos faziam ali. 

Naquela época, todo mundo do BR-Rock que estava explodindo, se apresentou ali com multidões assistindo-os, e muita badalação.

Os shows de artistas grandes do mainstream, aconteciam às sextas e sábados. 


Nunca fomos assistir nenhum, mesmo porque não nos interessávamos por aquela turma oitentista, com menção honrosa ao Barão Vermelho, e ao Herva Doce, que não eram frutinhas da árvore punk, e mantinham suas raízes no Rock e no Blues.

E que fique bem claro, nessa primeira leva de artistas, o BR-Rock era predominantemente carioca (com exceção do Paralamas, mas estes estavam radicados no Rio, também). 


Paulistas e brasilienses começaram a ter espaço após, 1984.

Mas tivemos um contato discreto com uma delas, numa sexta onde havíamos passado ali só para apanhar o nosso equipamento, que não fora possível remover na madrugada anterior, quando tocamos. 


Era uma tarde quente de sexta, quando vimos dois carros com placas do Rio de Janeiro, abarrotados de equipamentos e cabeludos chegando. Era o Herva Doce aportando na Alameda Lorena.

Foi engraçado ver os caras numa situação não glamourosa, esbaforidos da viagem, descarregando o carro eles mesmos, sem roadies. 


Lembro de um dos carros ser uma "Belina", anos setenta, abarrotada de coisas.

O guitarrista Marcelo Sussekind perguntou-nos a hora certa. 

Engraçado o destino, pois alguns anos depois, o Rubens na sua fase pós-Chave, e pré Patrulha, chegou a gravar um LP com uma banda que prometia estourar. 

Esse disco foi gravado no Rio, com toda a mordomia de gravadora major, e o Marcelo Sussekind seria o seu produtor...
 

Só complementando, acho (não tenho certeza, corrijam-se se for o caso, por favor), que a tal banda se chamava "Catedral".

Particularmente eu tinha um respeito grande pelos músicos do Herva Doce, pela sua árvore genealógica boa. 


Eram oriundos da Bolha, e do Bubbles, fora ramificações com Os Mutantes, Veludo etc. 

Não eram da turminha do "Do It Yourself", pelo contrário, tinham história e estrada.

Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 37 - Por Luiz Domingues


3) Sobre os bastidores:

Conforme já descrevi, o Victoria era uma casa labiríntica. 


A fachada não dava ideia do quanto era grande, e com tantos emaranhados de ambientes; câmaras secretas; saídas inusitadas para outros ambientes etc. 

A decoração era riquíssima em detalhes, e era um luxo naquele começo de anos oitenta, já ter um serviço de TV interna, com monitores em todos os ambientes, e passando filmes de Sci Fi recém lançados como Tron, e Blade Runner, por exemplo.

O ambiente era burguês, mas apesar de ser dispare, não havia nenhuma hostilidade por parte do público de playboys. 


Pelo contrário, mesmo não sendo rockers, bastava qualquer uma das três bandas fixas começar a tocar, e eles dançavam, gritavam e aplaudiam. 

Na verdade, queriam se divertir; beber; se drogar, e arrumar garotas.

Muita gente do meio musical circulava ali. Lembro-me do Peninha Schimdt, Kid Vinil, e outras figuras. 


Uma vez, um sujeito cujo nome não me recordo, "alugou-nos", eu e Rubens, por uns vinte longos minutos...

Com cabelo cor de laranja e corte de cabelo escroto, bem New Wave, nos abordou dizendo ser produtor musical. 

Queria que o procurássemos no decorrer da semana, para levar nosso material, pois (supostamente), dizia que esteve envolvido na produção dos shows do Van Halen, que viera recentemente ao Brasil, e aventava a possibilidade de nos colocar para "abrir" o Kiss, que segundo ele, viria em junho.

Nos deu várias palhetas customizadas do Van Halen, e seu cartão. 


Não era empresário, devia ser um "aspone", mas ficava circulando por aí botando banca de. 

Só fez uma observação : teríamos que cortar os cabelos à New Wave, e repaginar o figurino. 

Pensando bem, ele não estava errado. 

Éramos anacrônicos em 1983, principalmente eu e o Rubens, com visual de Rockers setentistas. O rapaz falou em cada um ter o cabelo de uma cor diferente, e usar aquele visual de Duran Duran...

Se fosse algo realmente concreto ao menos...mas sair por aí se "modernizando" à toa, seria uma estupidez, principalmente pelo fato do principal quesito, ser incompatível com esse visual escroto : teríamos que mudar o som também...



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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 36 - Por Luiz Domingues


2) Entre o pessoal do Tutti-Frutti, o convívio era muito legal com o Luiz Sérgio Carlini. 

Logo o líder da banda, era o mais receptivo, juntamente com o segundo guitarrista, Ronaldo Paschoa. 

O baixista era Renato Figueiredo, e o baterista era o Marinho, ex-Casa das Máquinas, e já no vocal, outro ex-"Casa", Simbas, que eram mais reservados.

A banda era muito boa ao vivo, com o Simbas cantando muito, e fazendo as vezes de frontman com a desenvoltura dos velhos tempos. 


Infelizmente, mesclavam muitos covers, talvez numa proporção 70/30 %. 

Mas devo reconhecer que algumas interpretações eram brilhantes. 

O solo em duo que Carlini e Paschoa faziam em "Hotel California" dos Eagles, era memorável.
 

Lembro-me de ter conversado com o Carlini pela primeira vez numa dessas tardes, no boteco ao lado do Victoria. 

Fiquei muito contente em poder conversar com ele, e verificar que era extremamente humilde e acessível, sem nenhum estrelismo. 

Recordo-me também de num outro dia, onde ele mostrou ao Rubens o seu novo amplificador , coqueluche do momento, e tipicamente oitentista, aquele cubo Roland, cor de laranja. 

Parecia uma caixa de sapatos. Alguns dias depois, o Rubens comprou um combo da Music Man, e o Carlini curtiu muito o som, que ultrapassava o Roland e muito.

Numa outra ocasião, um outro membro do TT chegou numa tarde ao Victoria Pub, e sem ninguém para ajudá-lo a descarregar uma bateria de seu carro. Eu e o Zé Luis fomos ajudá-lo, mas diferente do Carlini e do Paschoa, esse componente mantinha aquele distanciamento, do gênero : "eu famoso, vocês desconhecidos". O Zé se aborreceu bastante, mas eu relevei, e não me senti incomodado.

Num outro dia o Zé deu o troco, gerando uma situação desagradável que prefiro não contar...



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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 35 - Por Luiz Domingues

E dessa forma, fui apresentado a Nelson Brito e Paulo Zinner, que depois me apresentaram ao Raul "Zica" Müller. 

Instantaneamente estreitamos amizade pela proximidade de ideais, e logo de cara por ser ajudado gentilmente pelo Nelson, conforme já contei. 

Isso porque eu estava sem amplificador, e a casa fornecia equipamento de palco, mas por alguma circunstância excepcional, esse trato foi rompido, e nos vimos na situação de não ter equipamento disponível mais. 

Todavia, o Nelson prontamente ofereceu o seu amplificador e caixa, de marca Acoustic, um equipamento que era um sonho de consumo meu, pois cresci vendo fotos e vídeos de muitos ídolos usando-o. 

John Paul Jones; Gary Thain; Tim Bogert; John Deacon, e tantos outros mestres das quatro cordas, por exemplo. 

E de fato, era um amplificador maravilhoso, pois tinha possibilidades de equalização com muito brilho, e um peso de arrasa-quarteirão. 

Meu Fender Jazz Bass roncou forte nesses 14 shows... 

E o Fickle Pickle, apesar de não tocar músicas autorais, era uma banda impressionante ao vivo. 

Tocavam Stones, Beatles e The Who principalmente, mas com uma volúpia tal, que pareciam estar no Marquee Club de Londres nos anos 60. Eu curtia muito a performance deles.

2) Outra curiosidade, foi que um dos dirigentes do Victoria Pub, tinha muitos contatos no meio fonográfico, e dessa forma, propôs aos instrumentistas do Fickle Pickle, que formassem uma banda paralela, onde ele seria o vocalista.

Dessa forma, aproveitando-se do "Boom" do Br-Rock 80's que estava só nascendo, Paulo; Nelson, e Raul gravaram e lançaram com esse sujeito, um single. 

A banda tinha estética "New Wave", para seguir os ventos do pós-punk, e recebeu o ridículo nome de "Pepino Irritadiço"... 

Os caras não gostavam disso, mas claro que aceitaram e gravaram, pois eram oportunidades... 

A banda tinha ainda duas "vocalistas", e na verdade, era uma espécie de "Trio Los Angeles" do Pseudo-Rock New Wave...

O som era realmente uma merda, perdoem-me pelo palavrão, e pela sinceridade. Em off, o Zé Luis Dinola o apelidou de "Cenoura Raivosa". 


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domingo, 29 de dezembro de 2013

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 34 - Por Luiz Domingues


Como tenho várias coisas a contar sobre esses shows no Victoria Pub, mas sem relacionar ao dia específico, falarei sem essa preocupação. Que fique subentendido que aconteceram durante esses 14 shows que fizemos lá, entre 1°de fevereiro e 6 de abril de 1983.

1) Primeiro foi o convívio com o pessoal do Fickle Pickle. Logo que entramos no Victória, a primeira pessoa que reconheci, foi o Catalau. Eu o conhecera em 1980, por ele ser amigo dos membros do Terra no Asfalto, minha ex-banda cover, e amigo de vários amigos em comum daquela turma de freaks do bairro das Perdizes, na zona oeste de São Paulo.


A famosa pensão São Geraldo, no bairro das Perdizes, onde Gereba e Wilson moravam, e onde muitas reuniões do Terra no Asfalto aconteceram...

Lembro-me de tê-lo conhecido numa tarde no quarto de pensão onde Wilson e Gereba dividiam na Travessa São Geraldo. 

Ele estava lá com uma guitarra Fender Telecaster, e foi naquela fase onde já sabíamos que o Mu sairia da banda. Chegou-se a cogitar a entrada dele na banda, ficando então uma formação com três guitarras. Mas isso não avançou, e ele acabou não entrando.

Alguns meses depois, eu e Paulo Eugênio fomos visitá-lo em seu apartamento da Rua Ministro Godoy, nas Perdizes. 


Era uma fase de reformulação da banda, mas acabou não dando certo novamente, pois o Aru Júnior estava voltando dos Estados Unidos e assumiria a vaga deixada pelo Gereba, que mais uma vez estava viajando para o Nordeste. Mas isso eu conto no capítulo do Terra no Asfalto, detalhadamente e no momento oportuno da cronologia. 

Nessa visita, o Catalau nos recebeu, e ficou fazendo exercícios exóticos vocais e faciais que acabara de aprender, lendo o livro de um guru indiano. 

Era hilário, mas ao mesmo tempo, o meu lado hippie curtiu essa doideira que parecia perdida no tempo, em contraste com a fase dura em que estávamos ingressando.

E era o dia 18 de setembro de 1980... 

Por que gravei essa data ? 

Simplesmente era o aniversário de dez anos da morte do Jimi Hendrix, e era exibido um especial na TV, no instante em que estávamos ali.

Por isso, fiquei contente em encontrar o Catalau ali em fevereiro de 1983, e ver que a banda dele estava bem, tocando fixo num lugar badalado.


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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 33 - Por Luiz Domingues


Foto promocional do Harppia, com Hélcio Aguirra no line-up da banda. Ele é o segundo da esquerda para a direita.

Conheci o Hélcio quando ele tocava no Harppia. Lembro de vê-lo num evento ao ar livre, tocando com essa banda, chamado: "Praça do Rock", realizado na concha acústica do Parque da Aclimação, onde A Chave do Sol tocaria também algumas vezes, futuramente.

Isso só aconteceria em 1984. Mas só nos tornamos amigos de fato, alguns meses depois dessa apresentação, quando nos encontramos num show no Teatro Lira Paulistana (não me lembro ao certo, mas acho que era um show duplo, com apresentações das bandas Korzus e Sabotage), e nessa ocasião, voltamos juntos no mesmo ônibus que servia aos dois. 


Falando do público, a sua reação era boa, no sentido de que dançavam e aplaudiam nos shows do Victória, mas na prática, não era um público Rocker. 

Eram playboys em sua maioria, e não estavam nem aí para ninguém, nem mesmo o Tutti-Frutti. Aliás, o Tutti tocava mais covers que suas músicas autorais naquelas apresentações.

Para nós, era ótimo estar ali pela badalação toda, a oportunidade de conhecer pessoas do mundo empresarial e fonográfico, artistas famosos etc. Logo mais farei um relato de curiosidades sobre esses shows.


Contudo, euforia no sentido de deslumbramento, acredito que não. 

Estávamos felizes e confiantes. Quem deu uma balançada, infelizmente, foi a Verônica, conforme relatarei logo mais, e decorrente dessa instabilidade dela, precipitou-se a sua saída da banda, de forma triste.

Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 32 - Por Luiz Domingues


Nessa época em que conheci o Fickle Pickle, eles haviam abandonado a questão autoral quase completamente. 

Tocavam 99 % de covers, e a base era Stones; Beatles, e The Who. 

Anos depois, a banda voltou paralela ao Golpe, e chegou a lançar disco autoral, com o André Christovam voltando à guitarra. 

O Catalau era o vocalista, mas eu já o conhecia desde 1980, pois ele era amigo do pessoal do Terra no Asfalto, banda cover em que toquei naquela época.

Sim, essa formação do Fickle Pickle, era sem dúvida o "pré-Golpe". 


Representavam 3/4 do Golpe, que só nasceria, contudo, no final de 1985. 

Nessa época eles nem conheciam o Hélcio. Eu conheci o Hélcio antes deles, em 1984, só para vocês terem uma ideia. 

Tocar no palco principal do Victoria, era sensacional, pois a estrutura era muito boa, e o ambiente lembrava o de um cabaret europeu dos anos 1920. 

E havia a questão do status, pois ali era que se chamava a atenção, visto que no palco secundário, o ambiente era mais lounge, para tocar baixinho, e passar despercebido.

Verdade...quase todos os álbuns do Golpe tem agradecimento à minha pessoa.

De fato, eu já ajudei o Golpe em muitas ocasiões, mas eles (mesmo antes de existir como banda, propriamente dita), é que começaram a me ajudar nessa época do Victória. 

O fato é que eu estava sem amplificador nessa época, e usei o amplificador do Nelson nessas apresentações no Victoria.

O Nelson mal havia me conhecido, e disponibilizou seu equipamento, numa gentileza que selou nossa amizade, de forma instantânea.

Fora o prazer de tocar num amplificador que era o meu sonho de consumo, e a última foto deste capítulo, explica o porque disso...


Nunca me esqueci dessa ajuda, e dali em diante, o ajudei sempre que pude, numa retribuição eterna.


Continua...

sábado, 28 de dezembro de 2013

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 4 - Por Luiz Domingues


Eu diria que logo no primeiro instante, tratávamos essa diversidade como o nosso maior trunfo. 

O fato de ser uma banda aberta à várias sonoridades, nos dava muita esperança de alcançar o mainstream, pois nosso espectro artístico estava aberto à um público muito mais abrangente do que nossas bandas pregressas mais recentes (Patrulha do Espaço e Big Balls, só para citar duas), essas sim, fechadas num nicho restrito do Rock underground.

No início, almejávamos agregar os fãs menos radicais de nossas bandas de Rock mais recentes, mas poder atingir também fãs dos Jota Quest; Skank; Nando Reis, e parcelas de público jovem adulto, curtidores de MPB moderna (Lenine; Zeca Baleiro, Marisa Monte etc), até Black Music. 


Com o passar do tempo, essa extrema abertura nos estrangulou num outro sentido, não artístico, nem midiático, mas no setor empresarial, pois sem conseguir alavancar voos mais altos, os espaços no underground se mostraram mínimos para a nossa sonoridade. 

Esse fator foi decisivo para sufocar a banda e a matar por inanição num momento futuro, mas uma volta seguiria-se mais para a frente (muito longe para falar disso ainda...).

Mas acredito que no decorrer da narrativa, isso ficará ainda mais claro.


Nesses primeiros ensaios o clima era de muita camaradagem e descontração. Era um bálsamo estar num ambiente de trabalho leve. 

Convencionou-se que os ensaios dessa nova banda seriam às segundas, porque três de seus cinco membros, atuavam em trabalhos musicais paralelos ou como side-man de artistas da MPB, caso do guitarrista Tadeu Dias, com Simoninha, ou bandas cover na noite, caso de Alex Soares e Marcelo "Mancha". 

Eu já era bem experiente na época, e sabia que isso era um problema e uma verdadeira bomba relógio ativada para explodir na frente, mas levantar essa questão ali seria causar um tumulto desnecessário, visto que todos os que tinham esses impedimentos se sentiriam incomodados, e negariam que essa vida dupla poderia refletir negativamente no destino da banda autoral que estávamos criando.

Além do mais, eu era o último a chegar e indo além, não tenho essa característica de fazer cobranças, quem me conhece, sabe que sou flexível e paciente.

As primeiras músicas que praticamente já estavam prontas, se fecharam com a minha entrada, e a definição de linhas de baixo. 


Os arranjos foram definidos e logo a seguir, mostrei uma ideia de balada que eu tinha, e deveria ter sido aproveitada pela Patrulha, mas não aconteceu. 

O Xando desenvolveu-a, criou letra e nasceu assim: "Amanhã de Sonho".
O baterista Alex Soares em foto de Grace Lagôa, no final de 2004

Puxa...era uma balada pop, com condições de tocar no rádio, ser trilha de novela, mas ao mesmo tempo de um nível acima de qualquer suspeita, provando a nós mesmos, que poderíamos trilhar um caminho interessante, almejando voos maiores sem ter que apelar.

No entanto, o clima ameno dos primeiros ensaios ficou um pouco tenso quando o Xando me ligou após um ensaio para expor uma situação que estava incomodando-o, em relação ao vocalista Marcelo "Mancha".
 

Essa situação não era pessoal, tampouco técnica, mas de ordem artística, no tocante à identidade dele com o trabalho.
 

Após expor os seus motivos, entendi e concordei com a argumentação.


Continua...