quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Meu Anjo - Por Tereza Abranches





A um anjo, tudo é permitido conhecer.

Quando é um anjo nosso e de mais ninguém, é permitido que ele conheça e saiba de tudo, mesmo porque, mesmo que a gente não fale nada, a gente sabe que ele sabe, pois que é um anjo.

E como anjo que é, às vezes voa pra longe, me faz procurar por ele até cansar, e eu procuro pelas colinas, através dos mares e suas ondas, atrás das árvores onde gosta de se esconder, e às vezes me faz procurar no tempo, mas por fim... volta.
Eu não ligo, ele estava só conhecendo outras terras, mas nunca deixa ou deixou de ser meu, o meu anjo.

E de travesso que é, às vezes volta cansado de tanto brincar de esconder e, sem uma palavra, porque também sabe que eu sei de tudo (ou quase tudo), plácido, deita em meu colo, se aninha em meu peito... e adormece.
O meu anjo é, de todas as famílias que existem de anjos, o mais risonho e alegre, mas confesso, feliz da vida, que também é o mais zureta e lerdo de todos os anjos e isso é tão belo como a mais bela relva que desce, cascateando pela montanha das terras altas, de mim.

E lá ninguém vai, ninguém tem acesso, só ele.

Quando sou planta e a chuva me escorre ao toque do vento bom e a seiva passeia por meus caules, generosa e sem pudor, só a ele é permitido partilhar o frescor dessa chuva que me escorre, farta e feliz.

Quando criança, brinco às gargalhadas com um mundo de sonho, a ele (de quem nada e nada se pode esconder), de alguma forma... de alguma forma não, de todas as formas, falo com as mãos, sorrisos e gestos o quanto estou e sou feliz, a ele falo, ao meu anjo.
Ao meu anjo, só meu e de mais ninguém, posso contar as maravilhas que se escondem nas canções que me rondam (sim, porque foi ele quem me ensinou a cantá-las), posso falar do limo verde abundante e macio que me habita porque ele é um anjo e a ele, tudo é possível conhecer.

Quando me escondo do mundo e não quero brincar, meu anjo percebe e, menino, me pega no colo e me afaga os cabelos, cantando em saturnês, que é uma linguagem que só a gente entende, porque ele é o meu anjo e de mais ninguém.
Ninguém sabe mas ele sempre foi, é e será só meu, porque juntos aprendemos a rir, a cantar e, acima e além de tudo, aprendemos a amar. Mas isso também ninguém sabe, só ele e eu.

Ah, e ele tem uma coisa que quase nenhum anjo tem (mas isso é segredo): ele toma a si a forma que quiser.
Às vezes, quando é muito, mas muito feliz, é louro como um campo de trigo a perder de vista, mas quando está longe seu cabelo escurece. Os olhos escurecem também mas não na cor e eu me pego a matutar o por quê, pois como não sou anjo, não sei de tudo, como ele.

Ele tem cheiro, cor, som. Cheiro de flor que não foi colhida ou colhida pela metade, cor de dias que não foram vividos e o som de palavras que foram voando, como ele, pelo vento... o som da saudade que eu gritei tantas vezes enquanto ele se escondia de mim e eu, boba, quase acreditei que era verdade o seu esconder.
Meu anjo às vezes pensa que me feriu... bobo que é. Como um anjo pode ferir alguém? 

Os anjos não machucam, eles tão somente são levados pelo vento forte que varre os céus e do qual eles não tem controle porque são só anjos, pequenos, meninos. Anjo não fere e não machuca, mas ele (bobo que é), não acredita quando eu falo.

Teimoso que só ele...

A um anjo, tudo é permitido conhecer.
E o meu anjo me sabe, mesmo quando não está por perto ele sabe, pressente.

E quando toma a si a forma de arco-íris então... aí sim, ele me leva com ele porque é um Arco-Íris bendito, que só um anjo de verdade é capaz de ser: um Arco-Íris que ama como só um anjo sabe amar e que nos leva, irremediavelmente, aos confins do Infinito.





Tereza Abranches é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Artesã, poetisa e escritora, realiza estudos no campo da literatura, esoterismo e espiritualidade.

Nesta sua primeira colaboração, faz um exercício lúdico sobre a relação do ser humano, com a sua conexão extrafísica.

sábado, 23 de novembro de 2013

A Falta - Por Marcelino Rodriguez

Tive uma sensação estranha essa manhã, ao acordar; tive um feeling, se me permitem usar essa palavra inglesa para definir o sentimento que me tomou. 

A sensação de que estava me faltando alguém. Ora, sou solteiro a muitos anos, desde que nasci. E minhas namoradas nunca permaneceram mais que quatro dias na minha cama. De modo que acordar sozinho é o meu cotidiano. A alma já era para estar mais que acostumada.

Essa manhã, porém, foi diferente. Não houve nem conformismo nem consolo pela clara falta que havia, acrescentada da sensação de vazio mais impotência. 

E veio a melancolia da banda que faltava. Eu poderia até chorar um pouco de saudade pela falta real de alguém que eu sentia, claramente. Descobri, perplexo, que eu sou eu mais alguém que falta. Isso é tão comovedoramente romântico quanto trágico.
 

Quem é ela? Quem é a outra que não acordou comigo hoje? A outra que é minha ?  

Existe alguém no meu coração, na minha vida, na minha alma. Mas não dormimos, infelizmente (minha boca enche de água e deve haver uma atmosfera soturna ao meu redor quando lembro disso, uma espécie de sombra pela falta desse pequeno e fatal detalhe amoroso).
 

Seria dela a estranha saudade de hoje? Uma saudade única e comprometedora? De quem dei por falta hoje, ao acordar? De um anjo que não me velou? Um amor de outra vida ?

Não era apenas um sentimento de solidão. Era como se alguma parte de mim, outra pessoa (não alguma compensação psicológica) estivesse me faltando e me enfraquecendo, como se faltasse-me um membro com a falta dela. Era como um absurdo eu estar acordando só.
 

Esse acontecimento soa-me sobre a vida deveras revelador, tanto como sou mais que penso como de perplexidade de saber que outra vida, que não sei por onde vai, vai levando a minha junto. Só resta saber porque deixa-me, a tantos e tantos anos, acordar impiedosamente só. E por que só hoje dei-me conta dessa saudade infinita ?  

Talvez desde o Éden essa parte de mim esteja apartada. Mas só hoje, verdadeiramente, dei-me conta da sua real e tangível existência.
 

Pode ser que aquela que hoje me toma o coração tenha alguma participação nesse mistério, pois fora dela não há nem o sonho de outra Eva, nem a esperança de outro paraíso.

Alguns que se pensam realistas dirão que tive um surto e tentarão até explicar o fato perceptivo com alguma definição psiquiátrica. Outros me acusarão de sonhador, rótulo nem sempre cabível a mim, xerife da selva. Terceiro nem saberão do acontecido, por falta de cultura ou interesse.
 

Mas a realidade que já torna-se prolixa de tão certa é que dei por falta do meu amor, um amor que é mistério e certeza, ainda que temporariamente apartado de mim pelo ilusório tempo e o não menos ilusório espaço, um amor que me faz reconhecer a minha incompletude e faz saber que hora haverá em que as misteriosas leis do universo tra-lo-á de volta a mim, árvore e fruto dessa fatalidade divina.



Essa crônica foi extraída do livro "A Ilha".



Marcelino Rodriguez é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2

Escritor de vasta e consagrada obra, aqui faz uma reflexão sobre o tema da "solidão".


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Kim Kehl & Os Kurandeiros - dia 23/11/2013 - Sábado - 21:00 h. - Santa Sede Rock Bar - São Paulo - SP

Kim Kehl & Os Kurandeiros

Dia 23 de novembro de 2013

Sábado - 21:00 h.

Santa Sede Rock Bar

Avenida Luiz Dumont Villares, 2104

Santana - Estação Parada Inglesa do Metrô

São Paulo - SP

KK & K :

Kim Kehl - Guitarra e Voz
Carlinhos Machado - Bateria e Voz
Luiz Domingues - Baixo

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 47 - Por Luiz Domingues


Seguiu-se mais um show no Bar Casablanca em 24 de abril de 1981, e depois disso (25 de abril de 1981), fomos tocar numa nova casa para nós, chamada "Taverna Boêmia", no coração da Rua 13 de Maio, no tradicional bairro do Bixiga, aqui em São Paulo. 

Esse bar tinha uma característica engraçada. 

O fato, era que o palco estava colocado num mezanino altíssimo, e assim, na parte de baixo, era quase obrigatório ficar com o pescoço muito levantado para ver a banda, e dependendo do ponto onde a pessoa estivesse, simplesmente não conseguia enxergar o baterista da banda. 

E outro fator bizarro : não havia proteção alguma para os músicos, e o perigo era evidente naquele precipício.
A única margem de segurança era um arame esticado na extensão do comprimento do palco, e que segundo o dono, era uma lembrança "psicológica" tão somente, pois num eventual acidente, não conteria uma pessoa de forma alguma. 

Apesar de tocar com cuidado, éramos seis músicos; nossos enormes amplificadores Palmer; bateria, e um piano elétrico Würlitzer ali em cima, há quase três metros de altura do solo... 

Isso ocorreu no dia 25 de abril de 1981, e esse esforço de colocar e tirar todo o equipamento dessa altura, foi compensado com uma bilheteria legal, oriunda de 350 pagantes, nessa noite. 

E no dia seguinte (26 de abril de 1981), mais uma boa apresentação no "Roda D'água", do bairro do Brooklin, apesar do pequeno público de apenas 15 pessoas presentes, num domingo nublado, e já com o friozinho de outono apertando.


Continua...  

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 46 - Por Luiz Domingues


Nessa época, abril de 1981, passamos por uma fase de mais ensaios, acrescentando músicas ao repertório. 

E a oportunidade surgiu quando o baterista Cido Trindade disponibilizou sua casa, no bairro do Tatuapé, zona leste de São Paulo, para ensaiarmos inicialmente às terças e quartas. 

Com tempo para trabalhar, melhoramos e aumentamos o repertório, tornando-o enorme, ao ponto de termos músicas extra para qualquer eventualidade. 

E um fato bizarro ocorreu nessa época durante os ensaios...

Num certo dia, percebemos que um rapaz passava de um lado e outro da calçada, olhando-nos tocar na sala da casa, improvisada como estúdio. 

Como ensaiávamos com as janelas abertas e despreocupados com qualquer tentativa de coibir o ruído, já que os vizinhos suportavam-no sem reclamar, deixávamos tudo aberto para ventilar bem. 

Um dia, após várias vezes nos observando, esse rapaz criou coragem e tocou a campainha. 

Não me recordo de seu nome, mas sei que ele se apresentou dizendo ser compositor e observando-nos por dias, animou-se a nos abordar, e nos pedir que o ajudássemos, gravando duas músicas de sua autoria, visando inscrevê-las num festival de MPB.

Infelizmente, as canções do rapaz eram muito fracas, com harmonia e melodias pobres, letras brega-românticas...

Bem, aceitamos ajudá-lo, e aí o Sérgio Henriques e o Aru Júnior fizeram um arranjo praticamente prog nas músicas do rapaz !! 

Claro que o sujeito não entendeu nada, mas o fato é que gravamos as duas canções, com belo arranjos para ambas, que quase mascarou a sua breguice. E de fato, com duas guitarras, baixo, bateria e teclados, ficaram quase irreconhecíveis . 

E foi além essa história, pois numa apresentação nossa (infelizmente, não me lembro em qual, especificamente), ele apareceu e nós tocamos as suas duas canções ao vivo. 

Nunca mais tive notícias dele, apesar de morar perto da minha casa e do Cido Trindade, na ocasião. 

Nem ao menos sei se as músicas por nós gravadas, foram classificadas no tal festival.


Continua...

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 45 - Por Luiz Domingues


Seguiu-se mais uma apresentação no Casablanca, com a média normal de 200 pessoas presentes. 

E logo a seguir, uma casa nova apareceu, chamada "Roda D'água". 

Foi num domingo essa apresentação, com cachet fechado, pois se tratava de uma festa particular.

A casa tinha decoração rústica, porém muito charmosa, lembrando uma casa de fazenda. O que remetia ao Rock ali, era um poster gigante dos Beatles, do tamanho da parede inteira, com a foto do Fab Four,  com os quatro sentados em cadeiras de cabeleireiros, sendo penteados por quatro garotas. 

A namorada do Aru Júnior à época, nos contou uma história engraçada ocorrida com ela própria, nos bastidores de um show da cantora Zizi Possi, na noite anterior, enquanto arrumávamos o equipamento no palco, ocorrida na mesma noite em que tocáramos no Casablanca. 

Foi uma apresentação legal, com o dono da casa sinalizando que nos contrataria em outras ocasiões. E 150 pessoas estiveram presentes na referida festa, e dançaram e cantaram ao som do TNA. 

Ainda com Sérgio Henriques na banda, tocamos no Casablanca novamente, no dia 24 de abril, mas desta feita, com um reduzido público de apenas 20 pessoas. 

Foi numa quinta feira, talvez seja essa a explicação...


Continua...      

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 44 - Por Luiz Domingues

Fizemos uma apresentação digna, correta, apesar das 7 testemunhas. E acredite, caro leitor, essas 7 pessoas não estavam nem um pouco interessadas na nossa performance...

A seguir, no dia 26 de março de 1981, tocamos novamente no bar Bang-Bang. Desta vez com 20 pessoas na casa. Um público diminuto, todavia mais animado que os desinteressados do Deixa Falar.

E no dia seguinte, outra incursão no Deixa Falar, desta feita com 20 pessoas, o que era até bom em se considerando ser um dia útil. Foi no dia 27 de março de 1981, com boa performance, novamente.

No dia seguinte, uma oportunidade muito melhor : após um longo hiato, fomos convidados a tocar no Casablanca, um bar que era bem concorrido na época, e onde o Terra no Asfalto havia tocado um ano antes, com a formação que contava com o guitarrista Mu.

Aliás, casa onde vivemos uma história bizarra envolvendo policiais e que já relatei, capítulos atrás.

Foi uma apresentação perfeita, com a casa abarrotada ! 


Nas minhas anotações, está marcado público exato de 307 pagantes.

E dali em diante, a banda ganharia uma fase de estabilidade muito boa.

Logo no início de abril, viramos sexteto novamente, com o tecladista Sérgio Henriques voltando ao TNA, no hiato entre a turnê da Rita Lee que terminara, e os ensaios da nova turnê da Elis Regina, que iria se iniciar. 

Com esse reforço, a banda ficou ainda mais rica. Passamos a incorporar novas músicas, explorando a possibilidade do teclado. 

Músicas dos Beatles com teclados;, Stevie Wonder, mais temas progressivos do Yes etc.

E o primeiro show dessa nova fase com a volta de Sérgio Henriques, foi no dia 2 de abril de 1981, no Bang-Bang, mas infelizmente, com um pequeno público presente, de apenas 9 pessoas .

No dia seguinte, nova apresentação no Deixa Falar, com somente 5 testemunhas. Mas à essa altura, encarávamos o Deixa Falar como uma oportunidade de ensaio aberto.

A semana foi salva no entanto com uma apresentação no Casablanca, onde 200 pagantes compareceram.

          Filipeta de um show posterior ao que mencionei acima

Continua...

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 43 - Por Luiz Domingues


Confesso que era um sonho para mim tocar naquele lugar, pois entre 1975 e 1976, passava na sua porta quase diariamente por ser próximo, relativamente, da escola onde estudava, e delirava ao ver os cartazes anunciando as atrações da semana !! 

Som Nosso de Cada Dia, Joelho de Porco, Veludo, Alceu Valença, Sindicato, Made in Brazil, e tantos outros que ali se apresentaram.

Não vou esticar muito a descrição sobre como estava o agora Café Teatro Deixa Falar nesse momento de 1981, pois já fiz tal descrição com bastante detalhamento nos capítulos iniciais da Chave do Sol, pois o berço dessa banda foi essa casa, e graças à sua proprietária, Dona Sabine, virtual sogra do guitarrista Rubens Gióia.

Por ora, digo que fizemos esse teste para um público de apenas 7 pessoas. 


Era um domingo, é bem verdade. Mas o fato é que, muito diferente das glórias do passado do Be Bop A Lula, o Deixa Falar não passava de um arremedo, agora. 

A despeito da decoração muito louca (leia nos capítulos da Chave do Sol), não tinha um público habitue; o aspecto era decadente, pouco asseado e os serviços de comidas e bebidas deixavam a desejar.

O palco ainda era bom, pois mantinha a estrutura de teatro, e haviam ainda vários spots de iluminação funcionando, mas a casa não tinha mais um P.A. Portanto, cada banda tinha que levar absolutamente tudo. Tínhamos sorte de ter um equipamento, mas transportar e montar tudo para tocar para 7 pessoas...



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Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 42 - Por Luiz Domingues

 

A vida continuou...depois desse deslize ético. Se por um lado, falhamos feio, na parte pratica da música, a banda obviamente cresceu com a presença de Cido Trindade, bem mais técnico que o Edson Kiko.

E devo relatar que o TNA entrou aí na sua fase mais firme, com sucesso, remuneração, e só não teve uma continuidade ainda maior, por um fator extraordinário ocorrido no meio do ano, que quebrou o embalo da banda, infelizmente.

Voltando a focar na cronologia, tocamos nos dias 14 (80 pessoas presentes), 20 (50), 26 de fevereiro de 1981(60) e 6 de março de 1981 (40), no 790 Bar.



Na apresentação do dia 26 de fevereiro, o tecladista Sérgio Henriques apareceu e tocou, numa folga da turnê da Rita Lee que fazia. 

Fizemos um teste numa nova casa, chamada Bang-Bang, perante um público de apenas 20 pessoas, no dia 11 de março de 1981.

Usamos o equipamento da banda que tocava naquela noite, chamada "Flashback", formada por "coroas" (ha ha ha...o que eu sou hoje em dia ??), e com um repertório bem de soft e pop Rock 60/70. 

Assistir a apresentação deles era como ligar uma velha jukebox, pelo seu repertório. Tocavam bem, mas pecavam pelo excesso de docilidade. Todavia, a intenção era essa mesma, sem espaço para sons mais pesados.

Tivemos outra volta ao "790", em 13 de março de 1981, desta feita com 200 pessoas, e um público bem animado. Então fomos novamente ao Bang-Bang, desta vez como atração contratada. 63 pagantes nos viram na noite de 19 de março de 1981.

Esse Bang-Bang ficava na Al. Lorena, no bairro de Cerqueira César (perto da avenida Paulista), no quarteirão entre o Barbarô, e o Victoria Pub. Tinha uma decoração de saloon de velho oeste, interessante, mas o palco era minúsculo. Tivemos que fazer uma ginástica para tocar lá.

E no dia 22 de março de 1981, fizemos um teste no Café Teatro Deixa Falar. Esse lugar era emblemático por ter sido na década de setenta, o saudoso "Be Bop A Lula", uma casa de shows concorrida, e que abrigou shows dos maiores nomes do Rock Brasileiro naquela década, e que tinha um glamour muito grande.

   Em tempo : esta filipeta acima é de outra data, posterior, à que mencionei no último parágrafo.

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Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 41 - Por Luiz Domingues



Claro, não estou dizendo isso, mas, digamos que eles pensaram mais friamente no melhor para a banda, sem se deixar levar pelo sentimentalismo daquela situação.

Não me lembro ao certo a data onde tivemos que conversar com o Edson Kiko, mas esse dia chegou, e na reunião fatídica, em sua casa, a bomba estourou nas minhas mãos, lamentavelmente. 


Num clima constrangedor, fui eu o designado a falar, e me senti terrivelmente mal por encará-lo e lhe dizer que chegáramos à conclusão de que o melhor para a banda seria manter o substituto Cido Trindade no posto, a despeito dele, Kiko, ter se recuperado. 


Aquele silêncio constrangedor enquanto eu falava gaguejando, foi horrível. O Kiko ficou bravo. Tinha toda a razão por se sentir traído, humilhado, desprestigiado, etc.

Fora o fato de que mesmo não sendo um simpatizante dos nossos ideais na música, teve toda a força de vontade para adequar-se à banda e ao repertório, emprestara sua casa para ensaios, ajudou financeiramente na aquisição de equipamento, numa compra recente, e acidentara-se, lamentavelmente.

Alguns minutos depois, menos exaltado, ele disse que tudo bem, sobreviveria e nos desejava boa sorte, ponderando que realmente não era Rocker, e que pretendia tocar coisas que gostava, MPB e música instrumental, música étnica etc. 

E o pior, foi quando dirigindo-se especificamente à mim, disse estar muito desapontado comigo. Aquilo cortou-me internamente, pois justamente eu, era o que mais relutava com essa atitude, justamente por considerar uma questão antiética e abominável.

Mas aos olhos dele, fui diretamente culpado pois ele devia achar que pelo fato de ter tomado a palavra, era o mentor da ideia. 


Conclusão : assumo minha parcela de culpa nessa história, pela falta de empenho de ter brigado mais pela causa do Kiko, quando surgiu esse movimento interno na banda. 

Essa foi uma mácula que criei na minha carreira, e humano que sou, estou sujeito a erros como todo mundo. Pedi desculpas à ele na hora, mas era algo praticamente imperdoável, convenhamos.

Três ou quatro anos depois, eu estava já com A Chave do Sol fazendo barulho na mídia, e soube de uma notícia dele. Estava tocando num projeto de música étnica, algo relacionado com música africana. Acho que era mesmo a sua praia, por curtir World Music.

Espero que esteja bem, e se souber deste relato meu, aproveito e registro mais uma vez, meu sincero pedido de desculpa.



Continua...

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 140 - Por Luiz Domingues

Lizoel Costa

Lizoel Costa era o mais engajado na música, quando o conhecemos no segundo semestre de 1979. Enquanto os demais eram estudantes envolvendo-se com a música, ele já colocava-se como músico profissional que estudava jornalismo. Através dele, tive oportunidades de ganhar dinheiro como músico, impulsionando-me por diversos trabalhos avulsos que realizei, através de suas indicações. tais histórias malucas que vivemos juntos nesses trabalhos, estão relatadas nos capítulos dos "Trabalhos Avulsos".

O Lizoel era uma figura muito legal no convívio, e certamente entre todos os membros, o que mais ligava-se em questões estratégicas de construção de carreira. Enquanto os demais "viajavam' sonhando com o sucesso, mas sem planificação objetiva alguma, ele enxergava na frente, sempre pensando na estratégia, aproveitamento de oportunidades, contatos etc.


Nessa época em que o conheci, décadas antes da Internet se tornar aberta e popular, ele carregava na bolsa um caderno com centenas de nomes e números de telefones de músicos. Era um cadastro que organizara, e de onde vivia indicando instrumentistas e cantores para diversos trabalhos. Sempre o procuravam lhe perguntando : -"Lizoel, preciso de um guitarrista para tocar tal estilo de música"...; -"preciso de um saxofonista para tocar Jazz"; "preciso de uma cantora de MPB"...
 

Ele parecia uma agência de empregos ambulante...e assim, ajudou muita gente a se colocar no mercado e garantir o pão nosso de cada dia.

Quando voltei à banda em 1983, sua veia natural para a logística e construção de carreira, estava ainda mais aguçada. Tivemos muitas conversas nesse sentido, e certamente que aprendi muito com ele.

Depois que o Língua de Trapo deu uma parada, por volta de 1988, ele engatilhou um trabalho com o ex-Secos & Molhados, Gerson Conrad, na verdade, formaram uma banda : "Banda Nacional", mas que não teve longa carreira, infelizmente. Na volta do Língua de Trapo, no início dos anos noventa, ele já não fazia parte da nova formação, e estava de volta à sua cidade natal, Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, onde por muitos anos foi radialista de sucesso. Inclusive, falei com ele em 2006, visando divulgar o CD de estreia do Pedra, recém lançado na ocasião.

Com minha entrada na vida virtual em 2010, reativamos o contato através da extinta Rede Social Orkut, de onde soube que havia mudado-se para Brasília e trabalhava na ocasião como assessor de imprensa do Conselho Federal de Odontologia.


Infelizmente, tivemos uma péssima notícia sobre o Lizoel em 2014. Com muito pesar, anuncio que ele faleceu no dia 7 de maio desse ano, em sua cidade natal, campo Grande / MS, aos 58 anos de idade, vítima de uma aneurisma cerebral. 

Fico com as lembranças boas do tempo em que  trabalhamos juntos no Língua de Trapo, além de alguns trabalhos paralelos em que ele mesmo encaixou-me, dentro daquela prerrogativa citada anteriormente, exaltando sua capacidade de abrir portas para diversos músicos poderem trabalhar e ganhar dinheiro. 

Em 9 de maio de 2014, o programa "Rádio Matraca" realizou um programa especial em sua homenagem, que está disponível em arquivo permanente na Internet, através do Link abaixo, no site da emissora USP FM / 93.7 de São Paulo. 

http://www.radio.usp.br/programa.php?id=20

Abaixo, o Link da Folha de São Paulo, falando sobre o seu falecimento :

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/05/1451596-morre-aos-58-anos-o-musico-lizoel-costa-da-banda-lingua-de-trapo.shtml

Abaixo, o Link da Revista Rolling Stone noticiando também o falecimento do Lizoel :

http://rollingstone.uol.com.br/noticia/morre-lizoel-costa-da-banda-lingua-de-trapo/

Vá em paz, velho amigo e muito obrigado por tudo, "Bitcho" !! 

Pituco Freitas

Antonio "Pituco" Freitas, era um rapaz com potencial vocal espetacular quando o conheci em 1979. Mas no início, mostrava-se sério, compenetrado. Assim foi apresentado-nos nos primeiros difíceis da banda, até que um fato inusitado do destino mudou sua perspectiva artística. Graças ao nervosismo em enfrentar cinco mil pessoas num festival universitário de MPB, na cidade de Bauru / SP, em 1980, transformou-se completamente, e dali em diante, explodiu como um frontman de enorme desenvoltura cênica, praticamente um ator.

Como pessoa, um colega excepcional; amigo; prestativo e solidário. Por meio indireto, foi o responsável por eu ter conhecido o baterista José Luiz Dinola (por conta de seu irmão, o guitarrista Pitico Freitas), com o qual fundei e atuei com A Chave do Sol. 

Pituco vive no Japão há muitos anos, onde sedimentou uma carreira como cantor / violonista e compositor, voltando às suas raízes como um intérprete "sério", deixando o humor de lado, mas encantando os nipônicos com sua Bossa Nova muito bem tocada e cantada. 

Laert Sarrumor

Laert "Sarrumor", claro, sempre foi o centro irradiador, o grande dínamo de energia criativa da banda, e assim, tem sido até hoje, e sempre será.

Agradeço-o por ter levado-me ao "Grupo de Poesia e Arte Faculdade Cásper Líbero", inserindo-me num novo núcleo, de onde eu supostamente não fazia parte inicialmente. De certa forma, graças a esse gesto de amizade, garantiu que a semente do Boca do Céu germinasse, dando início à uma nova cria, que só um ano mais tarde, tornaria-se assim o Língua de Trapo. 


Como já disse, fomos nos encontrando posteriormente nesses anos todos, após a minha saída do Língua de Trapo em 1984, em muitas circunstâncias. Divulgando trabalhos meus de outras bandas em que fui componente, no seu programa de Rádio (Rádio Matraca - USP FM); encontros fortuitos em lugares inusitados (encontros de rua, como até numa papelaria certa vez); bastidores de shows; e pelo fato dele ter afeiçoado-se ao Pedra e ter assistido muitos shows dessa banda da qual fui componente, de 2004 a 2011 e 2012 a 2015. Fui à festas de aniversário dele, e mantemos um ótimo contato permanente, pelas Redes Sociais da Internet.

Quando encerrei o texto bruto da minha autobiografia referente ao Boca do Céu, aqui no meu Blog 2, mandei-lhe imediatamente o Link para que ele lesse tudo. Vivo instigando-lhe a escrever a sua autobiografia também. Ele, que já escreveu livros de sucesso (foi best-seller absoluto por várias semanas, inclusive), e tem o traquejo, faria / fará um trabalho magnífico. 

Todavia, em conversa reservada, disse-me que ainda reluta em dar início. De minha parte, tem meu apoio total, e nas partes onde nossas respectivas trajetórias cruzam-se, eu adorarei ter o ponto de vista dele sobre o Boca do Céu e o Língua de Trapo, bandas onde atuamos juntos. E revelo um dado que considero pertinente, e sei que isso não o aborreceria : na época do Boca do Céu, ele mantinha o hábito de manter um diário. Portanto, munido dessas anotações, ele tem tudo para escrever tal história com muito maior riqueza de detalhes do que eu fiz, pois minhas anotações de apoio resumiram-se a datas de shows; locais e respectivo público presente, além de formação da banda e uma ou outra ocorrência especial.

Bem, é isso...

Falei de todos os músicos das duas passagens em que estive na banda, os membros honorários que muito contribuíram para o sucesso dela, e de todos os que estiveram mais diretamente ligados à sua produção. Agradeço a cada um pela oportunidade de ter feito parte dessa história.

Último capítulo dessa importante etapa de minha trajetória musical.

Encerrando, pelo desculpas pelas saídas que tive de efetuar, e pelas mágoas e transtornos decorrentes desses dois atos desagradáveis que cometi contra a instituição Língua de Trapo. Sinto orgulho de ter feito parte dessa história. 


A banda está em atividade até os dias atuais (no ano de 2016, quando encerrei o texto bruto da autobiografia, o Língua estava prestes a participar da premiação do Grammy Latino, nomeado em várias categorias pelo seu último e ótimo álbum, lançado nesse ano, denominado "O Último CD da Terra"), espero que assim prossiga por muitos anos, arrancando as gargalhadas sinceras do público, e também o fazendo pensar, pois o humor do Língua não é o popularesco, mas sim o de poder reflexivo.
Quando o Língua de Trapo provoca risadas nas pessoas, elas riem de si mesmas, refletidas no espelho, vendo que a sociedade e o poder político e econômico, são meramente reflexos da nossa própria mentalidade. Riem, mas pensam a seguir. 


Meu muito obrigado à todos que estiveram comigo nessas duas etapas de minha carreira. 

Meu muito obrigado ao Laert "Sarrumor" Julio Pedro Jesus Falci, um artista genial que conheci num dia em 1976, e que graças ao seu talento e perseverança, deu-me a mão, e puxou-me de um sonho impossível para a realidade da música e da arte.

Vida longa ao Língua de Trapo !!

Daqui em diante, a minha autobiografia na música segue com os capítulos dos Trabalhos Avulsos.