quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 60 - Por Luiz Domingues


Nessa altura dos acontecimentos, com um mês tão intenso, o show estava ajeitado e decorado. Foi a prova cabal de que na base da prática, realmente consegue-se fazer qualquer coisa que sob uma primeira leitura parecia muito complexa. Então, confiante e perfeitamente adaptado, comecei a ter condições para criar, improvisar, à medida em que sentia -me mais seguro.
O Laert e o Pituco perceberam a minha impetuosidade a expandir-se, no entanto, gostaram, pois enfim, eu demonstrara estar adaptado, ou readaptado à banda. Fizemos muitos programas de rádio e TV, mas como tive o despropósito em não anotar nada em relação à isso, vou comentar logo mais sobre alguns apenas, e de forma imprecisa, sem datas corretas. E a seguir a cronologia, o próximo passo foi uma micro-temporada no Teatro Lira Paulistana.
Foi a primeira experiência minha nesse teatro, que era muito famoso em São Paulo, por abrir espaço para artistas independentes. 
Naturalmente, o Língua de Trapo era tratado como uma prata da casa pelos donos do Lira Paulistana, pois o primeiro LP do grupo, fora gravado pelo selo pertencente ao teatro, e o espaço em si, foi um dos agentes responsáveis pelo catapultar da banda à uma condição de sucesso.
O Língua de Trapo foi membro do seleto grupo de artistas que dentro do Teatro Lira Paulistana, criou uma cena artística que a imprensa batizou de "Vanguarda Paulista". Além do Língua de Trapo, faziam parte dessa turma, artistas tais como : Arrigo Barnabé; Itamar Assumpção; Grupo Rumo; Tiago Araripe; Premeditando o Breque; Grupo Paranga; Tetê Spíndola e outros.
Portanto, o Língua de Trapo tinha uma história dentro daquele espaço minúsculo, porém importantíssimo para a cultura paulista / paulistana e brasileira, naquele período entre 1979 e 1986, enquanto existiu.
O Lira Paulistana ficava localizado na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Tratava-se de uma porta tímida, localizada no quarteirão em frente à Praça Benedito Calixto. Perto de uma agência bancária; uma padaria; um hotelzinho "pulgueiro" de terceira categoria, e vários estabelecimentos comerciais que às 18:00 horas, fechavam as suas portas. 
Mas a sua fama fora tanta, que conferia vida noturna ao quarteirão. As filas costumavam dobrar a esquina da Rua Teodoro Sampaio com a Av. Henrique Schaumann. E o teatro possuía shows praticamente de segunda a segunda. Logo no primeiro dia, o guitarrista, Lizoel Costa, falou-me de uma forma até poética : -"Agora você vai conhecer as paredes que suam"...

Nota na Folha de SP, com direito à foto clicada no próprio Teatro Lira Paulistana, na mesma temporada, em dezembro de 1983. Estou indicado por uma seta, feita com caneta esferográfica, a tocar entre o Naminha e Lizoel Costa, e a ter o vocalista, Pituco Freitas à minha frente. Acervo de Julio Revoredo

Ele tinha razão, e não exagerou, pois o vapor gerado pela respiração coletiva, fazia as paredes pingarem, literalmente. Nessa primeira micro temporada, tocamos quatro dias. Os shows aconteceram nos dias 27, 28, 29 e 30 de dezembro de 1983. O público foi excepcional, por considerar-se que o Lira Paulistana era um teatro pocket, com capacidade mínima. Portanto, respectivamente, atraímos trezentas pessoas no dia 27. trezentas e vinte em 28; trezentas e quarenta no dia 29 e trezentas e oitenta no dia 30.
O Lira Paulistana ficava instalado em um porão, literalmente. A pequena porta que dava-lhe o acesso, localizada na Rua Teodoro Sampaio não demonstrava para quem não sabia, que ali a cultura borbulhava todas as noites. O espaço para o público era constituído por três arquibancadas de madeira, e o palco ficava muito próximo das pessoas. Ali não havia como disfarçar nada, pois o público via tudo.

Nota da Folha de São Paulo, desta feita a usar uma foto promocional. Não tenho o serviço escrito. Sou o primeiro, da esquerda para a direita. Acervo de Julio Revoredo

Artistas que sofriam de "stage fright", não suportariam apresentar-se ali. Foi uma experiência muito intensa ter esse primeiro contato com o mítico teatro, e alguns meses depois, tornar-se-ia quase um espaço permanente, de fato, pela quantidade de vezes em que tocamos lá, e no futuro, seria também muito importante para a minha outra banda, A Chave do Sol.
Continua... 

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