quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 114 - Por Luiz Domingues


Os próximos shows seriam no interior de São Paulo, num clima de micro tour, de três datas seguidas.

O primeiro, na cidade de Votuporanga, distante mais de 500 KM de São Paulo. 


Lembro-me que viajamos na véspera, durante a madrugada, e várias vezes o Jerome teve que chamar a nossa atenção dentro do ônibus, pois era uma linha comercial, e incomodávamos os demais passageiros com nossa, digamos, "expansão desmesurada", durante a viagem, e convenhamos, era em plena madrugada.

Chegando à Voturopanga ainda antes do amanhecer, fomos direto ao hotel, e dormimos, enfim. 


A programação nesse dia era bastante flexível e só havia mesmo o compromisso de fazer o soundcheck no período da tarde, e apenas alguns Línguas iriam participar de uma entrevista na estação de Rádio, local.

Seria um festival realizado num estádio de futebol, com vários artistas locais e da região, e o Língua de Trapo como Headliner da noite.

Sinceramente, não me lembro de ninguém que tenha ficado famoso posteriormente e infelizmente não anotei o nome de tais artistas. 


Lembro-me que teve um público de aproximadamente 1000 pessoas, ou seja, foi muito fraco para um estádio de futebol. Muito melhor seria ter sido realizado num teatro ou salão fechado, e de porte bem menor.

Daí, 1000 pessoas cairiam muito bem, mas num estádio, parecia um amontoado tímido em frente do palco e gatos pingados pelas arquibancadas.

Independente disso, fomos bem tratados e o público, em sua maioria bem jovem e universitário, curtiu a proposta satírica da banda, embora alguns incautos de plantão talvez achassem ser o Língua de Trapo uma banda de Rock oriunda do movimento BR-Rock 80's, em voga na ocasião.

Isso ocorreu em 11 de maio de 1984. 


Nossos próximos compromissos seriam dois shows na cidade de São José do Rio Preto, distante cerca de 80 KM. dali, voltando em direção à capital de São Paulo. 

Na viagem de Votuporanga à São José do Rio Preto, tive uma surpresa inesperada e foi bastante inusitado o papo que tive com o passageiro que sentou-se no banco ao lado, fazendo com que eu me sentisse no banco da "Praça da Alegria", onde sempre poderia ser possível uma figura estranha se sentar e puxar um papo...

Foi assim : Como era um ônibus comercial, nem sempre dava para ficarmos agrupados e dessa forma, nesse em específico, se tratava de uma linha que vinha parando em outras cidades e portanto , quando chegou em Votuporanga, já tinha vários assentos tomados. E sendo assim, ficamos misturados aos passageiros comuns, de forma aleatória.

Então, procurei pelo meu assento numerado e sentei-me ao lado de um rapaz, que logo que me viu, com aquele cabelão de Rock Star, perguntou-me se éramos artistas etc e tal. Mesmo porque, havia visto toda a movimentação para embarcarmos instrumentos na rodoviária de Votuporanga, naturalmente.

Aí o cara falou que curtia música e era jogador de futebol profissional. Bem, claro que estabelecemos um papo agradável, pois como todos sabem, eu acompanho o futebol com bastante interesse e tenho conhecimento dessa matéria.


Ele disse que estava jogando no Santa Fé do Sul, time homônimo de uma cidade daquela região, que estava na terceira ou quarta divisão estadual naquela ocasião (isso eu não me lembro mesmo, e quem quiser saber, consulte o Google ou o Paulo Vinicius Coelho da ESPN Brasil...). 

E foi falando como era dura a vida de um jogador num time de tal divisão, longe dos holofotes da mídia e do glamour da primeira divisão etc etc. Falou sobre como os estádios e gramados sobretudo, eram ruins nessa divisão, que o pau comia, as arbitragens eram ruins e o salário, insignificante.
 



Então, inflamando-se, contou que estava em fim de carreira e já tinha jogado em times de primeira divisão, e também jogara em times europeus.  Disse ter jogado na Portuguesa de Desportos, e em times como o Murcia e Celta de Vigo, da Espanha, além do Montpellier da França.

Mas apesar de eu ter uma cultura futebolística grande, não o estava reconhecendo, e de fato, pairava , enquanto ele falava, uma dúvida se essa conversa não seria uma "cascata", e ele só seria um jogador de terceira ou quarta divisão, com essa história de times europeus, usando essa mera mentira para impressionar-me.


Contou-me também que graças à esse status adquirido por essas passagens, estava perambulando por times interioranos de divisões inferiores, nos seus momentos finais de carreira, pois já tinha 34 anos e não tinha mais mercado para atuar em equipes maiores.

E dessa forma, sem alternativa, submetia-se à isso.


Mas, malandragem de boleiro, "enganava" deliberadamente e sempre dava um "jeitinho" de forçar um cartão amarelo, para ser suspenso em jogos onde teria que jogar no campo adversário e demandaria cansativas viagens, ou mesmo simular contusões, para ficar no departamento médico, evitando assim ter que jogar nesses campinhos e apanhar de zagueiros brucutus...

Morri de rir ao ouvir essas afirmações absurdas da parte dele, mas claro que essa malandragem existe até na elite do futebol e muitos atletas fazem o mesmo nas grandes equipes, quando são apelidados de "chinelinhos" pelos torcedores que percebem a vagabundagem nesse tipo de expediente anti-profissional. 

No fim da conversa, ele parece ter ficado meio frustrado, mas eu realmente não me lembrava dele espontaneamente, mas aí ele descreveu a época onde jogou na Portuguesa, nos anos setenta e se chamava Edu. Não fora famoso como seus contemporâneos Enéias; Marinho Peres; Basílio; Badeco; Tata, e Wilsinho, mas realmente esteve naquela equipe da Lusa do meio dos anos setenta.
Foi essa a minha companhia de viagem de Votuporanga para Rio Preto, no dia 12 de maio de 1984.



Continua...

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 113 - Por Luiz Domingues

Antes de seguirmos para o interior, tivemos uma data no ABC, especificamente na cidade de Diadema. Foi um show marcado para o teatro Clara Nunes, no centro daquela cidade do ABC paulista.

Tinha tudo para ser um ótimo show, pois se tratava de um teatro novo em folha, equipamento cultural da prefeitura de Diadema, com pouco tempo de vida. 


A estrutura física era muito boa, assim como a iluminação, mas o P.A. fora alugado pelo produtor local. Até aí, tudo bem, pois era uma praxe para nós.

Contudo, infelizmente, o P.A. que o rapaz alugou era de qualidade inferior ao que estávamos acostumados. Logo que chegamos ao teatro, e vimos o equipamento, já percebemos que teríamos problemas.

No soundcheck, chegamos à conclusão que o show seria um desastre, com tantas coisas erradas e que na somatória de tudo, tornaria o show, uma tortura para nós, e pior ainda, para o público.

E no caso do Língua do Trapo, onde a equalização precisa garantir a inteligibilidade das letras, para fazer sentido o teor das piadas, apresentar-se nessas condições insatisfatórias, seria uma irresponsabilidade para com a plateia pagante. 


Então, nos reunimos com o empresário Jerome Vonk, e lhe comunicamos que preferíamos cancelar o show.

Lógico, tal decisão causou um rebuliço. 


O próprio Jerome quis ter a nossa absoluta certeza de que tecnicamente era inviável realizar o espetáculo. 

Ele precisava desse elemento para comunicar ao promotor do show e dar uma satisfação ao público que já começava a aglomerar-se na porta do teatro. 

Claro que o rapaz apavorou-se com essa perspectiva e não foi fácil convencê-lo de que realmente o equipamento que ele contratara era de qualidade inferior, e inviabilizava o show.

Nesse ínterim, sua preocupação era dar satisfação ao público e ao dono do equipamento que ofendeu-se com a nossa recusa numa primeira instância e em seguida, exigia o pagamento acordado, independente do show realizar-se ou não.


O tempo foi passando e as discussões acaloraram-se. O promotor era um cara sensato e não se indispôs conosco, mas o pau quebrou com o dono do equipamento, enquanto a aglomeração na porta do teatro aumentava a cada minuto.

Com a demora para abrir as portas e sem saber o que ocorria, o público começou a revoltar-se, também. Então, quando estava insustentável o clima, o promotor foi à porta e tentou explicar o problema, anunciando o cancelamento do show. 


O povo revoltou-se ainda mais e na base da força, quis invadir o teatro. Nessa hora, basta uma pessoa incitar e a massa obedece sem racionalizar, é fato.

Portanto, com muito custo e alguns safanões, fora os xingamentos e ameaças, o rapaz conseguiu entrar e fechar as portas, preservando sua integridade física. Contudo, o público começou a forçar a porta e aos gritos, ameaçar também a banda. 


Nessa altura, o Jerome viu que a situação ficou muito assustadora e correu até nós, pedindo-nos que nos trancássemos no camarim e estivéssemos preparados para nos defender em caso de invasão e ameaça de agressão.

Chamaram a polícia, até que enfim,  mas do camarim, ouvíamos os gritos e confesso, foi bastante tensa a situação.

Por incrível que pareça, acalmados os ânimos, o promotor desse show selou acordo de adiamento do espetáculo, para dali há dois meses, e uma comunicação foi dada às pessoas, para guardarem seus ingressos para essa ocasião futura.

Incrível como os ânimos acirrados e sobretudo o fato de alguém insuflar a massa, faz com que pessoas pacatas percam a cabeça. 


Eram as mesmas pessoas de bem que só queriam se divertir e assistiriam prazerosamente o show. E cerca de 50 dias depois, foram as mesmas que assistiram o show adiado, riram, aplaudiram e admiraram o trabalho da banda...


Continua...  

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 112 - Por Luiz Domingues



E os dias posteriores marcariam o fim dessa fase minha com o Língua de Trapo, no teatro Lira Paulistana.

Eram os últimos shows da temporada, e a seguir partiríamos para uma série de shows avulsos ou mini temporadas em outros lugares, fora shows pelo interior de São Paulo, cidades do ABC, e uma volta ao Rio de Janeiro.

Eu voltaria ao Lira Paulistana muitas vezes, mas com A Chave do Sol, doravante. 


Os últimos shows no Lira ocorreram nos dias 27, 28 e 29 de abril de 1984, sendo que no dia 29, com as tradicionais duas sessões.

Como resultado de público, no dia 27, 80 pessoas estiveram presentes. Já no sábado, dia 28, 280 pessoas . E finalmente no domingo, dia 29, na 1ª sessão,  110 pessoas e na 2ª, 240 pessoas nos assistiram.

Terminada a temporada, tivemos alguns dias de folga e alguns compromissos com rádio e TV.

A próxima parada seria uma mini tour pelo interior de São Paulo, com shows em Votuporanga e São José do Rio Preto.



Continua...

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 111 - Por Luiz Domingues


E seguiu a temporada no Lira Paulistana. 

Naturalmente que o assunto no dia seguinte à noite do Blackout, era o desdobramento político desse evento, e numa banda como o Língua de Trapo, isso era um prato cheio para a criação de piadas imediatas, que poderiam ser usadas imediatamente nos shows.

Claro que o Laert e o Pituco ironizaram o evento, com o apoio de todos, principalmente do João Lucas, sempre politizado e antenado nos acontecimentos. 

O show da quinta-feira, dia 26 de abril de 1984 teve apenas 40 pessoas, e só conseguimos atribuir um movimento fraco desses ao evento do dia anterior, e possíveis boatos que afugentaram as pessoas.

Sempre lembro aos mais jovens, que estávamos ainda vivendo sob um regime ditatorial e que a despeito da frouxidão que era nítida nesse final de processo, ainda havia o temor pelo endurecimento, como reação ao clamor popular pela redemocratização do país e naqueles dias, especificamente, a pressão popular pela volta das eleições diretas para presidente da República.

Então, a boataria tomou conta de todos, e isso pode ter despertado o temor por problemas nas ruas, com manifestações e a devida reação da polícia e outros órgãos repressores.

Só pode ter sido esse o motivo...



Continua...

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 110 - Por Luiz Domingues

Mais ou menos nessa época (abril de 1984), é que surgiu um convite da TV Cultura de São Paulo, para fazermos um especial de uma hora de duração. Aceitamos de pronto, logicamente.

Não me lembro a data exata, mas lembro que foi numa terça-feira o dia dessa filmagem, e o objetivo era fazer uma performance ao vivo, mas sem público. 


Para tanto, nos deslocamos ao teatro da TV Cultura, chamado Teatro Franco Zampari, localizado no bairro do Bom Retiro, próximo ao centro antigo de São Paulo. Esse teatro era (é), acoplado à estação Tiradentes da linha do metrô.

Apesar de pertencer à TV Cultura, fica bem longe dos estúdios da referida emissora, mas tem vida própria, e muitos programas foram e ainda são gravados ali.

Interessante, embora tétrico, é o fato de que antes de se tornar um teatro, portanto um equipamento cultural de nobres propósitos, ali houvera pertencido à órgãos que davam apoio à ditadura, portanto, ali muita gente foi encarcerada nos porões, e torturada, lamentavelmente. 


Voltando ao que interessa, a filmagem foi muito tranquila; e o fato de estarmos bem ensaiados e habituados a fazer o show em temporadas, facilitou o trabalho dos técnicos.

Não fizemos a sequência do show normal, mas preparamos um set list mesclado com algumas canções que não estavam no show, também.

O especial foi ar rapidamente e deu boa visibilidade, reforçando a divulgação da temporada.

Tivemos um problema com o Samba-Enredo, pois como já relatei anteriormente, uma determinada organização de cunho político-religioso, sentiu-se ofendida e tirou satisfações formais etc.

Com algumas adaptações estratégicas na letra e o cuidado de não usar um adereço que poderia criar problemas, gravamos assim mesmo.

Lamento muito não ter esse especial na íntegra e só conheço um vídeo isolado no You Tube, exatamente da música "Concheta".

 http://www.youtube.com/watch?v=f6EsLWc6S_g

Sinto muito, mas não consegui carregar o video diretamente aqui, mas esse é o link para assistir no You Tube.

O Laert tem esse VHS, e tem planos de digitalizá-lo e disponibilizá-lo no You Tube. 

Naturalmente eu postarei imediatamente por aqui, assim que ele surgir.


Continua...

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 109 - Por Luiz Domingues


E a temporada no Teatro Lira Paulistana prosseguia.

No dia 19 de abril de 1984, 150 pessoas assistiram o show; no dia 20, 250 pessoas. 320 entraram no teatro, dia 21 de abril.

E encerrando essa semana, tivemos dois shows no dia 22 de abril de 1984, um domingo. 50 pessoas na primeira sessão e 80 pessoas na segunda.

Foi inexplicável esse resultado fraco para os nossos padrões de público. Um domingo atípico, sem que houvesse uma explicação plausível para o fraco movimento nas duas sessões.

Mas nada que nos abalasse, pois na semana subsequente, as coisas melhorariam, a não ser pelo show da quarta-feira, dia 25 de abril de 1984... 


Para quem viveu a época, há de se lembrar que estávamos nos últimos estertores da ditadura militar, e embora nesses momentos finais havia uma perceptível frouxidão do sistema, ainda existia a sensação de insegurança.

E naquele momento específico, os movimentos populares pró-eleições diretas para presidente da república, estavam borbulhando. 


Como já contei aqui, o Língua de Trapo estava no Rio durante a histórica manifestação popular na Candelária, e em São Paulo, semelhante manifestação ocorrera na Praça da Sé.

Dessa forma, o clima era de apreensão, onde deduzia-se que os radicais de direita reagiriam a qualquer instante.

Pois no dia 25 de abril de 1984, por volta das 18:00 h., um Blackout deixou São Paulo às escuras. 


Eu estava saindo do ensaio da Chave do Sol, na casa do Rubens Gióia, e me dirigindo ao Lira Paulistana para a apresentação daquela noite. 

Minha intenção era usar um ônibus que me levaria direto ao Lira, sem problemas, mas o trânsito ficou caótico sem os semáforos e temendo atrasar-me, resolvi chamar um táxi, mesmo porque, estava com o meu baixo em mãos e às escuras, era muito perigoso ficar na rua nessas circunstâncias.

Numa primeira análise, achei que era um Blackout localizado, apenas ali no bairro do Itaim Bibi, zona sul de São Paulo, mas no táxi, ouvindo o rádio, eu e o taxista tomamos ciência que não só a cidade inteira estava sem energia, mas também o estado e pior ainda, a região sudeste inteira. 


Uma retaliação dos direitistas à pressão popular pela redemocratização do país ? Era a explicação mais plausível e certamente a desconfiança tomou conta de todos, pressentindo uma nova etapa de endurecimento, e mais atraso para o país.

Chegando ao teatro, com muita dificuldade, pois o trânsito ficou caótico, a preocupação de todos era visível por esse evento, com evidente sabor de pressão política.

Independente disso, tínhamos o show para fazer e na perspectiva de não ser restabelecida a energia, o Laert propôs algo inusitado, para não cair na mesmice de um cancelamento pura e simplesmente.

Então, em comum acordo com a direção do Lira Paulistana, cancelou-se a venda de ingressos e convidaram as pessoas que compareceram, a ver um show intimista de violão e voz, deixando as pessoas à vontade para doar um dinheiro, se quisessem, mediante o recolhimento com um chapéu, de forma romântica, como menestréis... 


E o show aconteceu, mediante auxílio de velas. Eu acabei não participando, pois sem energia elétrica, não dava para tocar baixo, e minha participação num show acústico e improvisado, seria mínima.

Lembro de ter feito uma discretíssima percussão e nada mais, sendo figura inútil naquela engrenagem de improviso.

E o repertório seguiu esse padrão, mais com o Serginho Gama tocando e Laert e Pituco cantando, incluso músicas fora do Set List naquele tempo.

E claro, nada do show tradicional pôde ser encenado, ficando a expectativa para que a situação se normalizasse na quinta-feira. 

 A energia voltou muitas horas depois, a votação do projeto de Lei restituindo a prática das eleições diretas para presidente da república fracassou e ainda teríamos alguns anos para alcançar esse direito...

Quanto ao Blackout, o governo deu uma explicação técnica mequetrefe e ficou por isso...

Por incrível que pareça, 80 pessoas compareceram ao teatro, com Blackout e tudo, nessa quarta-feira, dia 25 de abril de 1984.



Continua...

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 108 - Por Luiz Domingues


Nos camarins, que eram enormes e labirínticos, demos de cara com o quarteto "Genghis Khan". 

Foi hilário conviver algum tempo com eles maquiados e paramentados com aquelas roupas exageradas, de seu figurino de musical da Broadway. 

A impressão que eu tinha, era de que a qualquer momento o Yul Brynner apareceria no ambiente, pronto para entrar em cena em "Ana e o Rei do Sião"... 

O Pituco estabeleceu amizade imediata com eles, principalmente o enorme líder, o argentino Jorge, que no sotaque castellaño era "Ror-re"... 

Foram cenas hilárias, com os dois cantando e se divertindo em coreografias improvisadas, que deixavam os técnicos da TV atônitos. 
Outra figura inesperada ali presente, era a Martinha, cantora/compositora da Jovem Guarda. Tímida, porém simpática, foi gentil conosco na sala de maquiagem. 

Outra, ainda mais incrível, era Germano Mathias, o grande príncipe da malandragem do samba paulista, da velha guarda. Figura incrível, contou piadas e interagiu com a Laert o tempo todo. Como eu queria ter a facilidade da tecnologia de hoje em dia em mãos e ter filmado esses momentos hilários.

Sempre gostei de bastidores de programas de TV.  Em todos onde estive presente, sempre me diverti muito e confesso, tenho saudade. 


Já faz anos que, com a maldita instituição do jabá, ficou difícil participar deles, estando no underground da música. A TV só abre caminho para os tubarões do mainstream, e o jabá é o grande culpado dessa injustiça. 

Ainda havia a presença do jogador Biro-Biro do Corinthians. Não posso deixar de considerá-lo também uma figura folclórica. Na verdade, era um "quase" personagem do Chico Anísio, só que de carne e osso...

E outra atração musical presente, era a do Ultraje a Rigor. O Maurício e o Leospa eram os caras mais receptivos da banda e chegamos a bater um papo rápido. Eles se lembraram de mim como baixista da Chave do Sol e indo além, lembravam-se de que nós nos encontramos algumas vezes em algumas casas noturnas onde costumávamos nos apresentar entre 1982 e 1983 e antes deles ficarem famosos (já contei essa passagem, no capítulo da Chave do Sol). 


Diante dessa diversão toda, poderíamos ficar a noite toda naquele camarim, que teria sido super divertido com essas figuras todas, mas o programa começou a ser gravado e o Ultraje a Rigor foi chamado ao palco.

Da coxia, vi quando entraram, e o Fausto Silva os entrevistou com a irreverência que lhe caracterizava, e naquele tempo Pré-Global, ele era muito mais doido, e não tinha o freio que lhe puseram depois. Na TV Gazeta, tinha liberdade para comandar uma esbórnia total...

Quando o papo encerrou-se, os caras se prepararam para a dublagem, e o sonoplasta Johnny Boy sinalizou da cabine de som, que não estava achando o disco. Então, algo inusitado aconteceu, pois descobriram que eles não tinham o disco disponível, tampouco um divulgador da gravadora Warner havia passado no teatro. Nem o empresário da banda tinha, e os músicos, também não haviam se preocupado com isso.


Mas, tudo foi levado na brincadeira e a participação do Ultraje ficou sem a dublagem, aproveitando a falha como uma gag humorística.

Depois chamaram o Biro-Biro que arrancou gritos pró e contra, como é típico de plateias misturadas e suas paixões clubísticas díspares.

A seguir, fomos chamados e após uma hilária entrevista, dublamos "Concheta", e promovemos os shows do Lira Paulistana.

Foi uma noite que curti muito, sem dúvida e repito, tenho saudade de bastidores de TV.


Continua...

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 107 - Por Luiz Domingues



Mais uma vez peço desculpas ao leitor, mas não anotei a data, como todas as outras datas em que participamos de programas de rádio e TV,  mas foi mais ou menos nessa época, entre o final de abril e o início de maio, que fomos convocados a participar de um programa novo na TV Gazeta, que se chamaria "Perdidos na Noite".

Era uma extensão natural do programa de rádio "Balancê" (Rádio Excelsior/Globo de São Paulo), que tantas vezes fizéramos.

Aquela anarquia que existia no formato radiofônico, chegara à TV e seguindo aquele padrão, tinha tudo para ser muito divertido. E foi... 


Bem, em se tratando de TV Gazeta, a audiência não seria avassaladora e considerando que seria o primeiro programa, praticamente um piloto, menos ainda.

Mas tínhamos um bom relacionamento com a produção sempre simpática do "Balancê", e dessa maneira, seria um prazer participar desse programa inaugural.

A gravação era num dia de semana à noite, segunda ou terça, não me recordo ao certo, nas dependências do Teatro Jardel Filho, na Av. Brigadeiro Luiz Antonio, no Bexiga, bairro central de São Paulo. 


Era um teatro grande e muito espaçoso, tratando-se de uma  ex- sala de cinema. Hoje em dia, está modernizado e abriga super musicais da Broadway americana, com estrutura portentosa.

Mas o "Perdidos na Noite" tinha uma outra realidade e nesse dia, não havia espectadores para assistir a gravação. Vimos portanto, estagiários da TV Gazeta caçando pessoas na calçada, literalmente, para ter um quórum mínimo de gente sentada na plateia.

A abordagem chegava a ser engraçada, parecendo conversa de vendedor de loja popular...os funcionários da Gazeta abordavam os pedestres na avenida, e diziam que haveriam artistas e jogadores de futebol presentes no palco, seria grátis etc etc. 

 Ao lado do Teatro Jardel Filho, ficava (fica), a Faculdade Iberoamericana e de lá veio a maior parte do contingente, claro, pois a perspectiva de cabular a aula e divertir-se gratuitamente os animou.

Mesmo assim, a quantidade de pessoas que se dignou a entrar no teatro, foi mínima, obrigando os cameramen a usar close up, para não mostrar imagens do teatro semi vazio.


Na sonoplastia, estava o Johnny Black, atuando como no "Balancê", e a sua figura era divertidíssima.

Mas foi nos bastidores que a diversão foi total. Figuras improváveis estavam dividindo o camarim conosco, tornando a noitada, um delírio onírico felliniano...



Continua...