segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 47 - Por Luiz Domingues


Então, chegava o momento de executar "Na Minha Boca". 

Era um samba tenso, com um andamento lento e que acompanhava a agonia do cantor em transmitir a mensagem, numa interpretação brilhante do Laert, que simulava um preso político tentando se expressar após uma sessão de tortura.

Ele entrava com uma camisa-de-força, maquiado como se tivesse acabado de sair do eletrochoque e ia cantando e se livrando da camisa. E a entrada era também chocante com ele sendo levado ao palco pelo ator Paulo Elias e pelo Pituco Freitas, vestidos como policiais supostamente à paisana, ou seja, aquele "disfarce" que mais parece uniforme de tão "bandeiroso" que é.

E essa música era do repertório do antigo "Boca do Céu", o que nos enchia de orgulho, pois era um autêntico tesouro de nossos primórdios na música.

"Na Minha Boca" (Laert Sarrumor)

Eu tenho tanta coisa pra dizer
Mas as palavras não brotam na minha boca
Eu acho que tô com medo de falar
Falar é muito difícil, que coisa louca

Eu tenho tanto medo pra falar
Mas as palavras não dizem que coisa louca
Eu acho que eu tô com muita coisa pra brotar
Brotar é muito difícil, na minha boca

Fulano falou e não se deu bem
Sicrano calou e tudo bem
Na sala, todo mundo mudo
Com medo da bala que vem à baila
E ninguém fala...

Nos primeiros versos, ele gaguejava, e ia se soltando da camisa. 

Com semblante de louco, acentuado pela maquiagem. Na metade para o final, cantava desenvolto, e a banda o acompanhava gradualmente. 

Em princípio, tocando com o ritmo fragmentado para acentuar a questão da tortura e entrando no swing normal na parte final.

Mas a verdade é : Acredito que mesmo com uma mensagem praticamente explícita, não era todo mundo que percebia o seu teor e achava ser só uma música que falasse sobre manicômios, talvez uma crítica ao sistema de saúde. 

Eram poucos que se ligavam que era a história de um torturado político da ditadura, tentando denunciar tal abuso.

Essa era pelo teor, uma das prediletas de todos os Línguas, mas não arrancava risadas, destoando um pouco da praxe do show.



Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário